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“Quando chegamos à internet, era tudo mato”: Jangada Brasil abriu caminhos para o folclore na rede

10 de ago.
8 min de leitura

Homenageada pela Folkcom 2025, a historiadora Gláucia Garcia relembra a criação de uma das iniciativas pioneiras na divulgação digital das culturas populares brasileiras e reflete sobre memória, tecnologia e convivência

Entrevista: Ana Clara Alves Edição: Andriolli Costa



Em 1998, navegar pela internet exigia paciência. A conexão era feita pela linha telefônica, as imagens precisavam ser pequenas e os usuários esperavam a chegada da meia-noite para pagar apenas um pulso pela ligação. Foi nesse cenário, quando a web ainda começava a se popularizar no Brasil, que a historiadora Gláucia Garcia se uniu a um pequeno grupo de colaboradores para criar o Jangada Brasil.

A publicação entrou no ar em 22 de agosto daquele ano, Dia do Folclore, com a proposta de apresentar a diversidade das culturas populares brasileiras de maneira atraente e acessível. Em vez de repetir descrições genéricas sobre comidas típicas e festas regionais, pretendia reunir histórias, músicas, receitas, brincadeiras, crenças, saberes tradicionais e pesquisas capazes de mostrar um Brasil múltiplo.


Durante 15 anos, o Jangada Brasil formou um extenso acervo digital, conquistou leitores dentro e fora do país e colocou em contato pesquisadores, artistas, músicos e pessoas interessadas no tema. Em 2025, a Folkcom reconheceu esse pioneirismo ao homenagear Gláucia Garcia na 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação.


Ao conversar com a estudante Ana Clara Alves, Gláucia percorreu a história da revista e refletiu sobre o que mudou desde os primeiros anos da web. Se antes o desafio era fazer a informação chegar, hoje é ajudar as pessoas a procurá-la, avaliá-la e transformá-la em conhecimento.


Um encontro nas salas de conversa

A ideia do Jangada Brasil começou nas antigas salas de bate-papo. Interessada por cinema e música brasileira, Gláucia frequentava espaços temáticos nos quais pessoas de diferentes cidades se reuniam para conversar. Em uma dessas noites, conheceu Cláudio Ribeiro. A afinidade logo ultrapassou os filmes e alcançou as culturas populares.


Ao procurar informações sobre folclore brasileiro na internet, o grupo encontrava pouco conteúdo. Predominavam páginas de turismo que organizavam o país por regiões e repetiam listas de festas, pratos e manifestações, além de representações estereotipadas do carnaval. Faltava uma publicação capaz de apresentar a riqueza do tema sem assumir a linguagem de um trabalho estritamente acadêmico.


Historiadora e pesquisadora de história da arte brasileira, Gláucia já possuía experiência com levantamento documental. Cláudio, que vivia em Jundiaí, no interior de São Paulo, trabalhava com grandes eventos, como festas de peão. A própria internet permitiu que pessoas geograficamente distantes transformassem interesses comuns em um projeto editorial.


“A gente começou a pensar no que poderia falar: comida, lenda, parlenda, trava-língua, festa”, recorda Gláucia. Registrar um domínio e contratar um provedor exigia investimento, mas ainda parecia possível para o pequeno grupo. Começava, assim, uma revista inteiramente digital em uma época na qual boa parte do público brasileiro sequer possuía acesso à rede.


Uma revista organizada como um almanaque

O Jangada Brasil não foi concebido apenas como um repositório de verbetes. Sua estrutura procurava reproduzir a diversidade e o caráter convidativo dos antigos almanaques. Por isso, seus criadores costumavam se referir à publicação no feminino: era “a Jangada”, uma revista com números e seções próprias.


Em Festança, o leitor encontrava celebrações e folguedos. Cancioneiro reunia canções, poemas e literatura de cordel. Imaginário abrigava lendas, mitos, histórias e personagens, enquanto Catavento se voltava às brincadeiras e ao universo infantil. A cultura alimentar ocupava Colher de Pau, e os conhecimentos sobre plantas e medicina popular apareciam em Panaceia.


Havia ainda o Almanaque, espaço destinado a provérbios, biografias e assuntos que atravessavam as demais categorias. Mais tarde, a revista ganhou Realejo, seção que contou com a colaboração do músico Alessandro Valente na transcrição de partituras e registros sonoros.


A equipe inicial, formada por Gláucia, Cláudio Ribeiro e Marcos Jardim, foi ampliada com Alessandro Valente e Marília Garcia, além de colaboradores eventuais. O trabalho era voluntário e sustentado com recursos dos próprios integrantes.


Essa organização editorial permitia que o visitante navegasse por práticas aparentemente distintas e percebesse as relações entre elas. Receitas, festas, músicas e narrativas não eram apresentadas como curiosidades isoladas, mas como formas de conhecimento construídas e transmitidas socialmente.


Quando o sucesso ameaçou tirar o site do ar

O público começou a crescer logo nos primeiros meses. O Jangada Brasil chegou a ficar entre os três primeiros colocados em uma edição do Prêmio iBest, então uma das principais premiações da internet brasileira. Em agosto, quando escolas e professores procuravam conteúdos para o Dia do Folclore, a visitação aumentava ainda mais.


Segundo Gláucia, a revista chegou a registrar 300 mil visitantes únicos em um único mês. O número representava uma conquista extraordinária para um projeto independente, mas trazia um problema: os planos de hospedagem estabeleciam limites rígidos para a transferência de dados. Quanto mais pessoas acessavam textos, imagens e arquivos sonoros, maior se tornava a conta.


Em agosto de 2003, quando a revista completou cinco anos, a equipe precisou retirar temporariamente parte do conteúdo do ar. Naquele momento, o acervo já ultrapassava 3 mil textos, além de reunir partituras, sons e materiais para download. O projeto, que começara com cerca de 25 visitantes diários, havia superado a marca de 100 mil leitores mensais.


“Foi um sucesso, mas quase levou a gente à falência”, brinca Gláucia. A equipe negociou com o provedor para manter a publicação acessível até que a expansão da banda larga e as mudanças nos serviços de hospedagem reduzissem o problema.


O episódio mostra como a preservação digital depende também de infraestrutura e recursos materiais. Criar conteúdo não era suficiente: era preciso pagar pelo tráfego, adaptar os arquivos e lidar com limitações técnicas que hoje parecem distantes.


Digitar, reduzir e guardar

Produzir uma revista digital no final da década de 1990 envolvia tarefas trabalhosas. Livros e documentos ainda não estavam disponíveis em grandes acervos digitalizados. Muitas vezes, os textos precisavam ser digitados, enquanto imagens eram reduzidas para que pudessem ser carregadas por conexões lentas. Vídeos eram praticamente inviáveis.


Gláucia trazia para a revista os hábitos adquiridos na pesquisa histórica. Antes da internet, consultava fichários em bibliotecas, solicitava os materiais localizados e fazia resumos à mão porque nem sempre era possível reproduzi-los. No Jangada Brasil, procurou construir índices e manter as edições anteriores disponíveis para consulta.


Essa preocupação transformou a publicação em fonte para estudantes, professores e pesquisadores. Quem procurava um texto lançado no primeiro número podia retornar ao acervo sem depender apenas da edição mais recente. Em um ambiente digital ainda marcado por páginas efêmeras, a organização documental era parte do próprio projeto editorial.


Ainda assim, Gláucia reconhece limites. A equipe conciliava a revista com seus trabalhos profissionais e não possuía recursos para viajar pelo país e realizar a documentação de campo que desejava. O acervo cresceu principalmente a partir de pesquisas, materiais enviados e colaborações construídas pela rede.


A cultura mora na colher de pau

Ao falar sobre o conteúdo da revista, Gláucia mostra que cultura popular não se resume às grandes celebrações. Ela está também nos objetos, nas técnicas e nos gestos cotidianos que passam de uma geração a outra.


Uma colher de pau gasta pelo uso, a panela escolhida para fazer arroz, a ordem de dourar a cebola e acrescentar o alho ou a planta medicinal cultivada no quintal carregam conhecimentos. Mesmo quando ninguém os registra em livros, esses saberes são observados, praticados e transmitidos dentro das famílias e comunidades.


A conversa passa pelas memórias ligadas ao café. Preparar a bebida no coador de pano, reunir a família no fim da tarde e oferecer uma xícara a quem chega são gestos de hospitalidade e convivência. Cada casa desenvolve medidas, utensílios e formas próprias de fazer. O resultado não é apenas uma bebida, mas um ritual capaz de despertar lembranças e reunir pessoas.


Gláucia cita também um projeto de quintais produtivos no Morro do Sossego, em Duque de Caxias. Durante o levantamento das plantas existentes nas casas, foi encontrado um grande pé de ora-pro-nóbis levado anos antes por uma moradora mineira. Depois que ela morreu, a família deixou de reconhecer a planta e de utilizar suas folhas. A identificação permitiu produzir novas mudas e reativar um conhecimento que corria o risco de desaparecer.


O episódio sintetiza uma das preocupações que orientavam o Jangada Brasil: preservar não significa congelar práticas, mas garantir que as pessoas possam reconhecê-las, compreendê-las e decidir como continuar a transmiti-las.


Um projeto voluntário e editorialmente independente

O Jangada Brasil nunca foi tratado por seus criadores como fonte de renda. Gláucia recorda que algumas pessoas não compreendiam por que a equipe trabalhava gratuitamente e defendiam a cobrança pelo acesso ou a exploração comercial do conteúdo.


Para ela, o objetivo era outro: organizar materiais de qualidade e deixá-los disponíveis para quem os procurasse. A decisão não eliminava as dificuldades financeiras, mas protegia o princípio de acesso que motivara o projeto desde o início.


Em determinado momento, a revista aceitou uma parceria com um grande portal que ofereceu hospedagem em servidores mais potentes. A experiência terminou rapidamente quando a publicidade inserida nas páginas entrou em conflito com o contexto e com a identidade editorial da publicação. A equipe preferiu abrir mão da estrutura a perder o controle sobre a maneira como o conteúdo era apresentado.


Mais do que números, o principal retorno veio das relações construídas. O projeto aproximou pessoas que dificilmente se conheceriam sem a internet. Leitores escreviam de diferentes estados e países; pesquisadores e artistas enviavam colaborações; amizades surgidas em torno da revista permaneceram mesmo depois do encerramento das edições regulares, em 2013.


“O melhor foram as pessoas que vieram com a Jangada”, resume Gláucia. Para ela, o trabalho possibilitou tanto divulgar conhecimentos quanto aprender continuamente com quem se aproximava.


Da escassez ao excesso de informação

Passadas quase três décadas, a internet enfrenta um problema inverso ao encontrado pelos criadores da revista. Em 1998, havia pouco conteúdo sobre folclore brasileiro. Hoje, a quantidade de informações cresceu, mas localizar fontes confiáveis e compreender o que se encontra se tornou mais difícil.


Gláucia acredita que muitas pessoas perderam o hábito de procurar ativamente. Em vez de formular perguntas e comparar materiais, esperam que as plataformas entreguem o conteúdo. Com isso, ficam mais expostas à desinformação e aos interesses de quem controla a circulação das mensagens.


As redes sociais também podem concentrar a atenção na exposição individual e ocupar horas com conteúdos pouco relevantes. Ao mesmo tempo, a historiadora não assume uma posição contrária à tecnologia. Reconhece que práticas como o passinho e outras expressões periféricas ganharam visibilidade e atravessaram fronteiras graças às plataformas digitais.


O desafio está no uso. A internet pode ampliar o conhecimento, facilitar pesquisas e aproximar comunidades, mas não substitui a curiosidade nem a convivência. “A tradição não precisa ser mantida tal e qual, mas precisa ser conhecida”, afirma. Sem conhecer a própria história, as pessoas se tornam mais vulneráveis a discursos prontos e interpretações impostas.


Para além dos muros acadêmicos

Gláucia considera importante que a Folkcom 2025 tenha levado as culturas populares para o debate universitário. Congressos permitem compartilhar pesquisas, reconhecer iniciativas e mostrar que essas práticas constituem formas legítimas de comunicação e conhecimento.


Ela lamenta, porém, quando as discussões permanecem restritas ao ambiente acadêmico. Encontros, festas, saraus e rodas de conversa em espaços públicos podem aproximar outros públicos e devolver o debate às comunidades que produzem as manifestações estudadas.


Essa preocupação se conecta ao próprio legado do Jangada Brasil. A publicação nasceu para tornar pesquisas e registros acessíveis, usando uma linguagem capaz de circular para além dos especialistas. Sua força estava justamente em criar pontes entre conhecimento sistematizado, memória familiar e experiência cotidiana.


A homenagem recebida por Gláucia na Folkcom 2025 reconhece, portanto, mais do que o pioneirismo técnico de colocar uma revista sobre culturas populares na internet discada. Celebra uma concepção de comunicação fundada no acesso, na pesquisa e na formação de vínculos.


Levantar os olhos e conversar

No fim da entrevista, Gláucia deixa uma orientação simples: “Sejam curiosos, perguntem, convivam”. Para ela, ninguém vive sozinho e todas as pessoas têm histórias capazes de revelar algo sobre a sociedade e sobre o tempo em que vivem.


Essa escuta não deve ser reservada apenas aos mais velhos. Crianças, jovens e adultos acumulam experiências diferentes, e o diálogo entre elas mantém a cultura em movimento. Em um cotidiano mediado por telas e discursos cada vez mais fechados, olhar para o outro se torna também um exercício contra a intolerância.


“Tem que levantar um pouco a cara do celular e conversar”, aconselha. A frase condensa o percurso do Jangada Brasil. A revista usou a tecnologia não para substituir os encontros, mas para provocá-los: abriu espaço para histórias, reuniu desconhecidos e mostrou que, mesmo quando a internet ainda “era tudo mato”, já era possível construir caminhos coletivos sobre ela.


A entrevista foi realizada em setembro de 2025 e integrou as ações preparatórias da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2025. A pesquisadora Gláucia Garcia foi uma das homenageadas do evento pelo trabalho desenvolvido à frente do Jangada Brasil. Na época, Ana Clara Alves era estudante de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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