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“Tradição é que dá identidade”: Cáscia Frade discute as transformações do folclore

há 23 horas
4 min de leitura

Em entrevista ao podcast Poranduba, pesquisadora aborda os conhecimentos construídos nas comunidades, as relações com a cultura de massa e os desafios de acompanhar tradições em movimento



“Eles vendem máscara de palhaço por WhatsApp, eles acertam tudo via computador, via celular, entendeu?” A observação de Cáscia Frade sobre os grupos de Folia de Reis que acompanhava oferece um exemplo de como as tradições incorporam novas tecnologias ao cotidiano. Para a pesquisadora, essas mudanças exigem atenção de quem estuda o folclore: “Se a gente não acompanhar, a gente fica pra trás, cara”.


Professora aposentada do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Cáscia discutiu essas questões com o jornalista e pesquisador Andriolli Costa no Poranduba, podcast dedicado ao folclore e à cultura popular. Gravada em 2021, quando a primeira Carta do Folclore Brasileiro completava 70 anos, a entrevista percorreu sua trajetória, os aprendizados com os mestres populares e as mudanças nos conceitos utilizados para compreender as tradições.


Tradição em movimento

A Carta do Folclore Brasileiro de 1951, aprovada no I Congresso Brasileiro de Folclore, no Rio de Janeiro, estabeleceu princípios para a pesquisa, a documentação e a valorização das manifestações populares. Em 1995, durante o VIII Congresso, em Salvador, o documento passou por uma releitura que considerou as transformações da sociedade, os avanços das ciências humanas e sociais e as recomendações da UNESCO de 1989.


Participante desse movimento de revisão, Cáscia destacou a compreensão da tradicionalidade como uma continuidade que comporta mudanças. O documento de 1995 apresenta aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade e funcionalidade como fatores de identificação das manifestações folclóricas. A tradição, explicou a pesquisadora, “não é refém” do passado: “Ela vai se construir sobre esse passado”.


A oralidade e o anonimato também apareceram na conversa como critérios que precisam ser discutidos à luz das práticas culturais. A própria carta de 1951 já reconhecia manifestações com autoria identificada. Cáscia recorreu à literatura de cordel e à xilogravura para questionar a aplicação indiscriminada dessas características: “Como é que fica a oralidade numa impressão de xilogravura que tem também o nome do autor?”.


Naquele momento, em 2021, a pesquisadora defendia uma nova discussão da carta. Sua expectativa era que o texto acompanhasse as mudanças culturais, econômicas e tecnológicas do país, tornando-se “mais afinado com a situação atual da cultura”. “Acho que ela vai botar uma cara do agora, entendeu? Essa é minha esperança, meu desejo”, afirmou.


As fronteiras entre o popular e a cultura de massa

Outro ponto da revisão de 1995 foi a equivalência entre folclore e cultura popular. Para Cáscia, essa formulação exige enfrentar uma questão anterior: o significado de “popular”. O termo pode ser usado tanto para práticas construídas nas comunidades quanto para produções que alcançam grandes públicos por meio da indústria cultural.


“O grande nó é: o que é popular? O que é povo?”, perguntou. A pesquisadora chamou atenção para as apropriações e reinterpretações que acontecem no contato entre esses universos. “Quando você tá falando de produção simbólica, você colocar fronteira rígida tá muito difícil.”


O uso da internet pelos brincantes integra essa discussão. Ao ouvir de Andriolli que ele havia comprado mamulengos pelo WhatsApp, Cáscia associou a experiência à redução das distâncias entre produtores e interessados nas manifestações populares: “É o encolhimento do mundo, né? Os espaços ficaram reduzidos. É uma beleza. Eu acho isso uma maravilha”.


“A vida é uma grande universidade”

O interesse pelos conhecimentos produzidos no cotidiano também orientou o percurso acadêmico de Cáscia. Nascida em Carangola, na Zona da Mata mineira, ela se formou em música e pretendia ser pianista. O trabalho como professora e o contato com o folclorista Rossini Tavares de Lima aproximaram-na da pesquisa nas comunidades.


Ao acompanhar as danças de pescadores de Tarituba, em Paraty, percebeu que os versos cantados comunicavam experiências de trabalho, convivência e relação com o mar que exigiam outras ferramentas de análise. “Aí eu percebi que a música não ia responder minhas questões”, contou.


A busca levou ao mestrado em antropologia social no Museu Nacional e, posteriormente, ao doutorado na PUC-Rio. Na tese O saber do viver, investigou a construção e a transmissão de conhecimentos entre participantes de Folias de Reis. Seu interesse estava nas formas de aprender e ensinar desenvolvidas nas próprias relações comunitárias. “A vida é uma grande universidade”, afirmou.


O reconhecimento desses saberes, segundo Cáscia, enfrenta hierarquias que atribuem maior legitimidade à formação acadêmica. Ela apontou o contraste entre a aceitação da culinária popular e as reservas diante de músicos sem estudos formais ou de uma poesia produzida fora das academias. “A culinária é rainha absoluta de aceitação”, observou. Para outras expressões, o reconhecimento encontra mais resistência: “Eu acho que a gente tem uma dificuldade de assumir a cara que tem”.


A conversa também abordou a redução do folclore às lendas e narrativas. Já em 1951, a carta recomendava estudar a vida popular em seus aspectos materiais e espirituais. Instrumentos musicais, objetos rituais, esculturas e modos de preparar alimentos integram esse campo, assim como as histórias e crenças às quais estão associados.


Perguntada se o folclore poderia desaparecer, Cáscia respondeu: “Não, nunca. Pode mudar o nome”. E explicou: “Tradição é que dá identidade, é quem diz quem eu sou, quem é você, quem é o outro”.


Reconhecimento na Folkcom 2025

Em 2025, Cáscia recebeu o Diploma José Marques de Melo de Folkcomunicação, durante a 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada na UERJ. A homenagem reconheceu sua trajetória na universidade, na Secretaria de Estado de Cultura e na formação de diferentes gerações de pesquisadores.


Ao receber o diploma, a professora recordou ter ouvido a palavra “folkcomunicação” pela primeira vez nos anos 1980, em conversas e encontros com Roberto Benjamin e Osvaldo Trigueiro. Dividiu o reconhecimento com os mestres populares que lhe ensinaram sobre dança, música e outras áreas do conhecimento, além de colegas, estudantes e familiares que participaram de seu percurso.

 
 
 

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