“Pesquisar é um compromisso afetivo”: Flávio Santana discute etnografia e pesquisa-ação na folkcomunicação
No terceiro módulo do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, pesquisador defendeu proximidade, sensibilidade e participação como princípios para compreender os sistemas comunicacionais produzidos por grupos marginalizados
Uma pesquisa em folkcomunicação começa antes da escolha de entrevistas, questionários ou técnicas de observação. Começa na relação que a pessoa pesquisadora estabelece com o fenômeno, com as comunidades e consigo mesma. Na terceira aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, o professor Flávio Santana defendeu que proximidade, respeito e compromisso social são condições fundamentais para investigar as formas de comunicação construídas por grupos marginalizados.
Ao apresentar a etnografia, a pesquisa-ação e outros caminhos adotados pelo campo, Santana evitou oferecer uma receita universal. A folkcomunicação não é um método nem possui uma metodologia fechada. É uma teoria capaz de orientar perguntas e de oferecer critérios para reconhecer determinados fenômenos comunicacionais. O percurso metodológico precisa nascer da relação entre o objeto, o suporte teórico e a realidade em que o processo de comunicação acontece.
A aula relacionou as escolhas metodológicas às origens da teoria de Luiz Beltrão e às suas expansões posteriores. Também trouxe experiências de pesquisa realizadas por Santana entre marisqueiras e catadores de caranguejo na região metropolitana de Aracaju e com crianças de uma escola pública no bairro Morada do Sol, em Picos, no Piauí.
O fenômeno comunicacional não está separado de quem pesquisa
Flávio Santana iniciou a exposição lembrando que as transformações sociais e tecnológicas ocorridas depois da pandemia exigem novos olhares da pesquisa em Comunicação. Plataformas digitais passaram a participar de maneira ainda mais intensa do cotidiano, modificando relações, linguagens e formas de circulação. A folkcomunicação também precisa acompanhar essas mudanças sem perder de vista os fundamentos que definem seu campo.
O primeiro desses fundamentos é a aproximação com o fenômeno. Mesmo quando não pertence ao grupo estudado, a pessoa pesquisadora precisa construir conhecimento, afinidade e respeito pela realidade com a qual trabalha. Os temas de uma investigação não são necessariamente externos a quem os observa: podem atravessar sua formação, sua identidade, suas experiências e seu projeto de vida.
Essa constatação não significa abandonar o rigor. Significa questionar uma ideia de objetividade que transforma pessoas em objetos distantes e reduz a complexidade da experiência social. Métodos e técnicas devem favorecer a compreensão, e não funcionar como barreiras que limitam o campo de visão.
Santana recuperou uma formulação de Ecléa Bosi segundo a qual “uma pesquisa é um compromisso afetivo”, um trabalho realizado ombro a ombro com os sujeitos. A convivência e o trabalho comum produzem uma compreensão mais profunda do que visitas ocasionais movidas apenas por simpatia. Participar da vida de uma comunidade exige tempo, responsabilidade e abertura para revisar as próprias certezas.
Beltrão encontrou comunicação onde os grandes meios não chegavam
A própria folkcomunicação nasceu dessa postura de observação. A experiência jornalística levou Luiz Beltrão a perguntar como pessoas analfabetas ou sem acesso ao cinema, ao rádio e à televisão se informavam, expressavam opiniões e intercambiavam conhecimentos.
Na década de 1960, apenas uma parcela da população brasileira tinha acesso regular aos veículos que ocupavam o centro das teorias da comunicação de massa. Aplicar ao país explicações formuladas a partir de sociedades amplamente midiatizadas deixava de fora milhões de pessoas. Beltrão percebeu que a ausência dos grandes meios não produzia silêncio: populações rurais e urbanas desenvolviam sistemas próprios de comunicação.
Esses sistemas apareciam no folclore, nas práticas religiosas, nas mensagens inscritas em caminhões, nas cruzes colocadas à beira das estradas, nas pichações e em outras formas artesanais de expressão. A realidade comunicacional não estava materializada somente nos veículos considerados ortodoxos.
A investigação de Beltrão também se transformou ao longo do tempo. Em Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, publicado em 1980, o autor aprofundou a discussão sobre marginalização e distinguiu grupos rurais, urbanos e culturalmente marginalizados. O campo deixou ainda mais claro que não se restringia a observar o processo comunicacional interno de manifestações reconhecidas como folclóricas.
Para Santana, esse percurso é indispensável à coerência das pesquisas atuais. A folkcomunicação investiga fenômenos que integram sistemas populares de comunicação, historicamente desconsiderados por projetos políticos, econômicos e midiáticos dominantes. Seu objeto pode estar em uma festa tradicional, mas também em uma periferia na qual mensagens, códigos e estratégias populares circulam sem assumir a forma de uma celebração folclórica.
Um olhar sensível também questiona a linguagem da ciência
Investigar grupos marginalizados requer cuidado para não reproduzir os estereótipos que a própria pesquisa pretende denunciar. Um olhar excessivamente distante pode observar comunidades “de cima”, subordinando suas práticas a categorias determinadas previamente e impedindo que o fenômeno fale.
Santana chamou atenção para a linguagem acadêmica, para os nomes atribuídos aos sujeitos e para a escolha dos referenciais. A invisibilização não ocorre apenas na mídia: pode ser reproduzida em textos científicos, universidades e procedimentos aparentemente neutros.
Em uma sociedade marcada pela colonização, conceitos importados nem sempre explicam experiências específicas do Brasil e da América Latina. Isso não significa rejeitar autores estrangeiros, mas verificar se as teorias escolhidas são capazes de dialogar com os problemas, os modos de vida e as relações de poder presentes no território pesquisado.
A abertura interdisciplinar da folkcomunicação também não equivale à incorporação indiscriminada de qualquer método ou abordagem. O diálogo precisa conservar um direcionamento comunicacional. A pergunta central continua sendo como grupos populares produzem, negociam, recebem e fazem circular informações, opiniões, conhecimentos, valores e memórias.
As expansões da teoria ajudam a enxergar novos fenômenos
Para compreender os caminhos metodológicos contemporâneos, Santana recomendou a leitura da tese de Luiz Beltrão, do livro Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados e das ampliações propostas por Roberto Benjamin. Essas obras permitem acompanhar a passagem das formulações iniciais para fenômenos cada vez mais atravessados pelos meios massivos e pelas plataformas digitais.
Benjamin examinou diferentes relações entre cultura folk e comunicação de massa. Entre elas estão a comunicação face a face e grupal; a mediação realizada pelos canais populares; o uso de tecnologias massivas pelos portadores das culturas folk; a incorporação de elementos midiáticos às manifestações; a apropriação comercial de símbolos populares; e a recepção, pelas comunidades, de elementos de sua cultura depois de reprocessados pela indústria.
Um dos exemplos apresentados foi a novela Coração Alado, ambientada em Tracunhaém, Pernambuco. A produção televisiva criou uma peça de cerâmica inspirada no universo local. Depois da exibição, visitantes passaram a procurar na cidade um objeto que não integrava originalmente seu artesanato. Diante da demanda, artistas locais começaram a produzi-lo e comercializá-lo.
O caso demonstra que os fluxos não são unilaterais. A indústria cultural apropria-se de elementos populares, mas as comunidades também respondem, negociam e incorporam essas representações às suas práticas. Fenômenos semelhantes podem ser observados no Festival de Parintins, no turismo religioso relacionado a Padre Cícero, no carnaval e no uso de referências populares pelo cinema, pela publicidade e pelo marketing.
As expansões teóricas também modificaram a compreensão das lideranças. Osvaldo Trigueiro denominou ativista midiático o sujeito que atua como narrador do cotidiano, guardião de memórias, porta-voz comunitário e articulador de tecnologias. Seu trabalho envolve negociar mudanças, defender interesses coletivos e decidir, junto a outros integrantes, quais elementos podem ser incorporados a uma manifestação.
Santana reconheceu essa função em sua pesquisa de graduação sobre os Parafusos de Lagarto, grupo folclórico de Sergipe. O mestre do grupo exercia papel central nas negociações entre continuidade, interferência midiática e transformação das práticas.
Folkcomunicação não é método
Ao chegar diretamente à questão metodológica, Santana fez uma ressalva: a folkcomunicação não constitui um método de pesquisa. A obra de Beltrão não apresenta um protocolo fechado, embora revele etapas reconhecíveis — formulação do problema, trabalho empírico, coleta e interpretação de dados com base em um referencial teórico.
A observação foi fundamentada nos estudos de Samantha Castelo Branco sobre teoria e prática da investigação folkcomunicacional. O elemento diferenciador não é a adoção de uma técnica exclusiva, mas a combinação entre o objeto de estudo e o suporte teórico.
Por isso, pesquisas do campo podem recorrer a etnografia, estudo de caso, pesquisa de campo, revisão sistemática de literatura, pesquisa-ação, análise bibliográfica e documental, entrevistas, questionários e observação participante. A seleção precisa responder às características do fenômeno e às perguntas formuladas.
Também é necessário observar o contexto em sua totalidade. A relação não envolve somente investigador e objeto, mas instituições, organizações, comunidades, localidades, regiões e estruturas nacionais. Elementos tradicionais e modernos, rurais e urbanos, populares e massivos podem atuar simultaneamente sobre o mesmo processo.
Etnografia é aprender a perceber até o menor gesto
Entre os métodos apresentados, a etnografia recebeu atenção especial. A partir de Clifford Geertz, Santana explicou a ideia de “descrição densa”: interpretar as estruturas de significado presentes até mesmo em um pequeno gesto. Uma piscadela, por exemplo, pode parecer movimento involuntário ou comunicar ironia, cumplicidade e provocação, conforme o contexto.
Para perceber essas diferenças, não basta registrar o que ocorre diante dos olhos. É preciso conhecer o universo pesquisado, acompanhar relações, identificar códigos e compreender como os participantes atribuem sentidos às próprias ações.
Com base em Isabel Travancas e Roberto DaMatta, Santana apresentou dois movimentos importantes. O primeiro consiste em transformar o exótico em familiar: aproximar-se de um universo diferente, conhecer suas lógicas e abandonar interpretações apressadas. O segundo é tornar o familiar exótico: estranhar a própria cultura para enxergar aspectos naturalizados pela convivência.
Esse segundo desafio aparece quando a pessoa estuda uma comunidade da qual participa. Santana recordou a orientação de um trabalho sobre estratégias comunicacionais da Assembleia de Deus. A estudante pertencia à igreja e conhecia profundamente aquele ambiente, mas precisava construir distanciamento suficiente para observar práticas que lhe pareciam naturais.
Proximidade e estranhamento, portanto, não são opostos absolutos. A etnografia exige circular entre os dois, aproximando-se sem perder a capacidade de perguntar e distanciando-se sem romper o vínculo humano com os participantes.
Entre marisqueiras e catadores de caranguejo
Santana relacionou essa discussão à pesquisa desenvolvida no mestrado em uma comunidade pesqueira da região metropolitana de Aracaju. O trabalho, posteriormente transformado em livro, investigou o lugar do caranguejo em uma perspectiva folkcomunicacional e acompanhou experiências de marisqueiras e catadores.
Embora não tivesse sido definido formalmente como uma etnografia, o estudo reuniu traços etnográficos. O pesquisador não pertencia à comunidade, mas buscou estabelecer relações entre a realidade observada e suas próprias experiências em um espaço social marginalizado.
Essa aproximação não autorizava a substituir a voz dos participantes nem a utilizar a comunidade somente para cumprir objetivos acadêmicos. Ao contrário, exigia atenção aos atravessamentos vividos pelas pessoas, aos seus conhecimentos e às condições concretas do trabalho.
Para Santana, a investigação deve perguntar também o que produz para além de artigos, dissertações e livros. O respeito ao campo implica reconhecer responsabilidades, possibilidades de retorno e contribuições para processos de transformação social.
Pesquisa-ação se faz com o grupo
Se a etnografia busca interpretar densamente uma realidade, a pesquisa-ação envolve os participantes na compreensão dos problemas e na construção das respostas. Com base em Cicilia Peruzzo, Santana apresentou o método como possibilidade de contribuir para a melhoria dos modos de comunicação de grupos populares.
A pessoa pesquisadora precisa estar engajada no ambiente, mas o grupo também deve conhecer os objetivos, participar das decisões e interagir durante o processo. A pesquisa não é realizada sobre a comunidade e entregue posteriormente como resultado pronto. É construída com ela.
O método dialógico de Paulo Freire oferece uma referência importante porque recusa a transmissão unilateral do conhecimento. Pesquisadores e participantes aprendem, formulam questões e constroem práticas em conjunto.
Como exemplo, Santana apresentou o projeto Comunica Morada, desenvolvido com estudantes no bairro Morada do Sol, em Picos. A equipe realizou atividades com crianças da única escola do bairro para conversar sobre folclore e culturas populares. Depois da discussão, elas representaram por meio de desenhos os conhecimentos e manifestações que reconheciam.
A experiência permitiu observar como as crianças se relacionavam com referências locais e com expressões mais amplas da cultura popular. Mais do que recolher respostas, o projeto criou um espaço de troca e produção, no qual participantes e pesquisadores construíram conhecimento conjuntamente.
O método precisa servir ao fenômeno — e às pessoas
Ao finalizar a aula, Flávio Santana retomou o princípio que atravessou toda a exposição: a escolha metodológica deve respeitar a natureza do fenômeno. A teoria ajuda a delimitar o olhar; os métodos e as técnicas oferecem condições de aproximação; mas nenhum protocolo substitui a escuta, a convivência e a responsabilidade ética.
Uma pesquisa coerente com a folkcomunicação precisa reconhecer os sistemas populares de comunicação sem reduzi-los a versões incompletas dos grandes meios. Deve perceber os grupos marginalizados como produtores de conhecimento, e não apenas como fontes de dados. Também precisa observar como relações coloniais, desigualdades e estigmas podem reaparecer na linguagem acadêmica.
Etnografia e pesquisa-ação são caminhos diferentes, mas compartilham a exigência de participação responsável. Em ambos, compreender não é falar pelo outro: é criar condições para que experiências, memórias, gestos, mensagens e estratégias se tornem visíveis sem perder a complexidade que possuem em seus territórios.





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