“Onde tem gente, tem cultura”: Eleonora Gabriel transforma pesquisa em dança na Cia. Folclórica do Rio
Homenageada pela Folkcom 2025, artista e professora relembra a criação do grupo na UFRJ e defende uma universidade que dance, cante e produza conhecimento junto aos mestres e às comunidades
Entrevista: Andriolli Costa

Quando Eleonora Gabriel fala sobre cultura popular, os verbos quase sempre indicam movimento: dançar, cantar, brincar, pesquisar, conversar, trocar histórias e abraçar. Para ela, não basta observar uma manifestação à distância ou descrevê-la em um texto. É preciso compreender o que acontece quando a música atravessa o corpo, quando uma comunidade reconhece sua memória em uma dança e quando a universidade se dispõe a aprender com conhecimentos que não nasceram dentro dela.
Essa concepção orienta a Companhia Folclórica do Rio-UFRJ, criada em 1987 na Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sob a coordenação e a direção artística de Eleonora, conhecida pelos amigos como Lola, o grupo transformou pesquisas de campo em espetáculos, oficinas, disciplinas, festivais e encontros com mestres das culturas populares.
Formada por professores, técnicos e estudantes de diferentes cursos, a Companhia atravessou quase quatro décadas sem se limitar ao papel de grupo artístico representativo da universidade. Cada dança levada ao palco resulta de investigação, convivência e reconhecimento das pessoas e comunidades que a mantêm viva. O repertório retorna às salas de aula, participa de projetos de extensão e amplia a formação de estudantes que seguirão caminhos tão distintos quanto a dança, a educação física, a medicina, a arquitetura e a terapia ocupacional.
Em entrevista ao professor Andriolli Costa, Eleonora reconstruiu a trajetória que começou com as aulas de dança de sua mãe, passou pelo encontro com a mestra Sonia Chemale e alcançou a fundação da Companhia. Falou também sobre a parceria com a comunidade caiçara de Tarituba, o Festival Folclorando, a presença dos mestres populares na UFRJ e as dificuldades enfrentadas para manter o projeto.
A história é marcada por poucos recursos, espaços precários e momentos nos quais interromper as atividades pareceu inevitável. Mas também reúne gerações de estudantes, espetáculos dentro e fora do país, encontros entre comunidades e crianças que descobriram no próprio corpo conhecimentos pouco valorizados pela educação formal.
“Onde tem gente, tem cultura; onde tem gente, tem saber”, resume Eleonora. A frase explica tanto o trabalho da Companhia quanto a homenagem recebida na Folkcom 2025.
Antes de tudo, artista e professora
Eleonora nasceu em 1º de abril de 1958, no Rio Comprido, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ao se apresentar, define-se primeiro como artista e professora. As duas identidades apareceram cedo e permaneceram inseparáveis.
Sua mãe integrou o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar a carreira artística quando decidiu se casar. Na década de 1950, recorda Eleonora, a dança ainda era tratada como uma atividade incompatível com a imagem socialmente esperada de uma “mulher de família”. Mesmo afastada dos palcos, a mãe continuou a dar aulas e fez da filha uma de suas primeiras alunas.
Eleonora cresceu dançando. A mãe criava coreografias de baiana e frevo, preparava fantasias para os carnavais infantis e estimulava o contato com diferentes músicas. Em casa, a menina passava horas diante da vitrola, ouvindo discos e regendo imaginariamente as canções.
Ao mesmo tempo, desejava ser professora de crianças. Trabalhar com o universo infantil continuaria a lhe dar alegria ao longo da vida. Mais tarde, perceberia que as brincadeiras populares também alcançam a criança existente nos adultos e podem reabrir neles o desejo de cantar, dançar e participar.
Na adolescência, estudou balé clássico, dança russa e dança flamenca. Embora se saísse bem no clássico, não se reconhecia inteiramente nos padrões corporais que predominavam nesse meio. As danças populares lhe apresentaram outras histórias, movimentos e possibilidades de presença no palco.
A vontade inicial de cursar Medicina deu lugar à Educação Física, escolhida sobretudo por causa da dança. Eleonora ingressou na UFRJ na década de 1970 e concluiu a graduação em 1978. No curso, encontrou disciplinas dedicadas às danças populares brasileiras e estrangeiras. Foi quando conheceu a professora que mudaria sua trajetória.
A herança recebida de Sonia Chemale
Sonia Chemale havia criado, no início da década de 1970, um grupo de danças gaúchas na Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ. Gaúcha e ligada às pesquisas de Paixão Côrtes, levou para o Rio de Janeiro conhecimentos sobre danças, músicas e tradições de seu estado.
Eleonora se encantou pelas aulas e foi convidada a integrar o grupo. Entre professora e estudante nasceu uma relação de confiança que ultrapassaria a formação acadêmica. Pouco depois, Sonia incentivou a ex-aluna a ingressar no corpo docente da UFRJ.
Eleonora trabalhava então em cinco escolas e imaginava uma carreira dedicada principalmente às crianças. O convite para lecionar na universidade não estava em seus planos, mas ela decidiu aceitar. Passou por um processo rigoroso de seleção e começou a trabalhar na instituição em 1980, inicialmente como professora auxiliar.
Quando Sonia se aposentou, entregou-lhe a responsabilidade pelo grupo e pelo material acumulado durante anos de pesquisa. “Toma aqui, que isso tudo é teu”, teria dito. O gesto transferia mais do que documentos ou coreografias. Confiava à discípula a continuidade de um projeto que relacionava dança, formação profissional e cultura popular.
O grupo de danças gaúchas ainda funcionou durante algum tempo com antigos colegas de Eleonora, muitos deles também capoeiristas. Sem bolsas, patrocínio ou apoio regular, porém, perdeu integrantes à medida que os estudantes se formavam e acabou interrompido.
Eleonora decidiu que precisava ampliar o próprio repertório. Começou a pesquisar manifestações em diferentes estados e, em 1984, cursou uma especialização em Folclore Brasileiro na Escola de Música da UFRJ, com professoras como Dulce Lamas e Rosa Zamith. Ali aprofundou os métodos de pesquisa e se aproximou de nomes como Cáscia Frade, que se tornaria uma de suas grandes referências.
A possibilidade de retomar o grupo surgiu em 1987, durante a gestão do reitor Horácio Macedo, quando projetos artísticos e culturais da UFRJ passaram a receber maior atenção. O antigo grupo foi reorganizado, inicialmente como Grupo de Danças Folclóricas e depois como Companhia Folclórica do Rio.
Rosa Zamith participou da fundação, fortalecendo a dimensão musical do projeto. Cerca de 50 pessoas se inscreveram na primeira seleção, entre músicos e dançarinos. Algumas permaneceriam vinculadas ao trabalho por décadas. Nascia uma companhia interessada não apenas em apresentar danças, mas em pesquisar, cantar, tocar e compreender os universos culturais dos quais elas faziam parte.
Tarituba e a pesquisa feita pelo encontro
Uma das experiências mais importantes para definir o modo de atuação da Companhia começou antes de sua fundação. Durante a especialização, em 1984, Eleonora visitou Tarituba, comunidade caiçara localizada em Paraty, no litoral sul fluminense. O objetivo era pesquisar um baile de cirandas e outras danças sapateadas, acompanhado por viola e pandeiro.
O material foi registrado, estudado e apresentado na Escola de Música. Anos depois, quando a Companhia começou a formar seu repertório, as cirandas de Tarituba foram retomadas. A dança conquistou estudantes e ocupou atividades públicas da universidade, chegando a colocar grandes rodas em movimento na Cinelândia.
Ao retornar à comunidade para contar o que havia acontecido, Eleonora recebeu uma notícia inesperada: os moradores já não estavam dançando. Os instrumentos haviam desaparecido e os jovens demonstravam pouco interesse por uma prática que consideravam coisa dos mais velhos.
Em vez de aceitar o desaparecimento como um acontecimento a ser observado de fora, a Companhia propôs uma nova visita. Músicos e dançarinos chegaram a Tarituba levando violas, pandeiros e aquilo que haviam aprendido durante a pesquisa. Diante dos moradores, começaram a dançar e pediram que eles corrigissem movimentos, ritmos e modos de tocar.
A lembrança foi retornando aos corpos. Pessoas que assistiam passaram a explicar a batida específica do pandeiro, a posição de um passo e o andamento da música. No último dia, idosos, jovens e crianças reuniram roupas, tamancos e instrumentos e dançaram para os visitantes.
O encontro se tornou uma festa e deu origem a uma relação mantida por mais de três décadas. Eleonora transformou a experiência em tema de seu mestrado em Ciência da Arte na Universidade Federal Fluminense. Para ela, o episódio mostrou que a pesquisa não precisa escolher entre observar e intervir. Pode estabelecer um diálogo no qual pesquisadores e comunidades se transformam mutuamente.
“Não vejo outra forma de isso acontecer: é dançar junto, cantar junto, conversar, trocar histórias, abraçar, viver”, afirma. A Companhia continuou a participar das festas de Tarituba e levou à comunidade manifestações pesquisadas em outras regiões do estado, como Folias de Reis, Boi Pintadinho e Mineiro-Pau. Não se tratava apenas de mostrar um repertório. O intercâmbio permitia reconhecer que comunidades próximas também criavam práticas capazes de expressar identidade, ancestralidade e modos próprios de organizar a vida.
A experiência trouxe ainda um aprendizado ético. Era indispensável dizer de onde vinha cada dança, quem eram seus mestres e em que território havia sido aprendida. Pesquisa e espetáculo não poderiam apagar autorias nem transformar conhecimentos comunitários em material anônimo disponível para apropriação.
Ensino, pesquisa e extensão no mesmo corpo
Eleonora rejeita a separação rígida entre ensino, pesquisa e extensão. Quando um mestre entra na universidade para realizar uma oficina, compartilhar sua trajetória e dialogar com estudantes, as três dimensões acontecem ao mesmo tempo.
Essa convicção orientou o projeto Dos Mestres Populares à Universidade: um diálogo de saberes. A partir de 2005, a UFRJ recebeu grupos e lideranças de diferentes estados para oficinas, apresentações e debates. Participaram representantes de bandas de congo do Espírito Santo, Moçambiques mineiros, Folias de Reis, Boi Pintadinho, cirandeiros de Tarituba e outras manifestações.
Os encontros criavam algo que nem sempre era possível nos territórios de origem: mestres de tradições diferentes podiam se conhecer, conversar e comparar experiências. Também permitiam discutir um problema que ganhava força naquele momento — a prática de pesquisadores que recolhiam informações em uma comunidade e depois desapareciam, sem devolver registros, resultados ou benefícios às pessoas envolvidas.
Para Eleonora, aproximar mestres e estudantes não significa utilizar a universidade como palco para uma exibição ocasional. É reconhecer os detentores dos saberes como formadores. Por isso, ela defende que sejam remunerados por suas atividades e participa da luta pelo reconhecimento do notório saber dos mestres populares na UFRJ.
A Companhia também integra o Laboratório de Linguagens das Culturas Populares e se relaciona com o Encontro de Saberes. Essas iniciativas procuram abrir a formação universitária a conhecimentos ancestrais, comunitários e corporais que dificilmente cabem nos modelos acadêmicos tradicionais.
Durante a pandemia de covid-19, quando os encontros presenciais foram interrompidos, o grupo reuniu mestres de diferentes regiões em conversas transmitidas pela internet. Foliões, brincantes e responsáveis por tradições como maracatus do Ceará e de Pernambuco puderam se conhecer e trocar experiências. As gravações formaram um acervo que inclui também oficinas e conteúdos sobre danças, quadrilhas, hip-hop, funk e outras expressões urbanas.
Pesquisar a própria história para encontrar o outro
Nas disciplinas associadas à Companhia, a aproximação com as culturas populares começa por uma investigação pessoal. Antes de pesquisar uma comunidade distante, os estudantes são convidados a olhar para a própria família e para o território no qual vivem.
A proposta, chamada por Eleonora de “pesquisa sobre si”, estimula cada participante a reconstruir sua árvore genealógica e descobrir o que pais, avós e outros parentes cantavam, dançavam, cozinhavam e brincavam. Objetos, histórias, celebrações e gestos cotidianos antes considerados banais começam a ser reconhecidos como práticas culturais.
O método produz repertórios valiosos para futuros professores. Estudantes de Educação Física, por exemplo, recolhem brincadeiras que não aparecem nos manuais nem costumam ser trabalhadas nas escolas. Ao ouvir familiares e vizinhos, percebem que também são contadores de histórias, criadores, transmissores e recriadores de cultura.
Esse movimento prepara o encontro com o outro. Quem reconhece a complexidade da própria formação pode se aproximar de outra comunidade com mais curiosidade e menos disposição para tratá-la como objeto exótico.
Eleonora lembra o caso de uma criança que dominava as múltiplas habilidades de um palhaço de Folia de Reis: dançava, improvisava versos, interpretava e conhecia os fundamentos da brincadeira. Questionado sobre o que a escola sabia a respeito daquela experiência, respondeu que ninguém havia perguntado.
A cena revela um dos limites da educação formal. Crianças chegam às salas de aula carregando conhecimentos musicais, religiosos, corporais e comunitários, mas a escola nem sempre sabe reconhecê-los. “Onde tem gente, tem cultura”, insiste Eleonora. Valorizar o que o estudante já sabe pode mudar tanto sua relação com a aprendizagem quanto a maneira como a instituição entende o conhecimento.
O Festival Folclorando e as crianças na roda
O desejo de trabalhar com crianças, presente desde a infância de Eleonora, encontrou uma de suas principais realizações no Festival Folclorando. O projeto nasceu do encontro entre as aulas na UFRJ e uma experiência desenvolvida por ela em uma Vila Olímpica da Maré.
Eleonora trabalhava com uma turma de crianças quando percebeu que a divisão habitual — dança para as meninas, outras atividades para os meninos — não correspondia aos interesses do grupo. Aos poucos, todos começaram a dançar e formaram um conjunto dedicado às culturas populares. A experiência permaneceu durante anos e integrou suas pesquisas sobre o mar, a memória da Maré e as práticas de comunidades litorâneas.
Quando levou aquelas crianças para uma atividade universitária, surgiu a ideia de reunir trabalhos realizados por professores em escolas e projetos sociais. O encontro cresceu e se transformou no Festival Folclorando, que recebe centenas de crianças e adolescentes de escolas públicas, instituições particulares e iniciativas comunitárias.
A cada edição, o festival escolhe um tema e prepara um ambiente de acolhimento e descoberta. Já foram abordados a literatura de cordel, o jongo e os bonecos populares, entre outros assuntos. No palco, crianças assistem a outros grupos da mesma faixa etária e percebem que a cultura popular não pertence apenas a um passado distante nem a especialistas adultos.
Para a Companhia, o festival é também um exercício coletivo de produção. Conseguir ônibus, alimentação, espaço e estrutura exige articulação constante, principalmente porque o projeto raramente dispõe dos recursos necessários. Professores, técnicos, estudantes e parceiros dividem responsabilidades para que as escolas possam participar.
Eleonora chama o Folclorando de “xodó” da Companhia. Mais do que uma mostra, ele permite que crianças reconheçam outras formas de dançar, cantar e estar juntas. Também devolve à universidade uma de suas responsabilidades: criar condições para que conhecimentos circulem entre diferentes territórios.
Tradição também se transforma
O compromisso com a pesquisa não leva a Companhia a reproduzir uma manifestação como se ela fosse imutável. Eleonora define as montagens como reinterpretações construídas com cuidado, estudo e reconhecimento das referências.
As transformações do presente exigem decisões artísticas. Em espetáculos inspirados nos pastoris, por exemplo, determinadas piadas e comportamentos do personagem Mateus passaram a ser revistos para que a encenação não naturalizasse atitudes hoje reconhecidas como misóginas. A Companhia preserva o diálogo com a tradição, mas também assume responsabilidade sobre aquilo que apresenta a novos públicos.
Outro exemplo é o Cangaço do Amor. Depois de uma oficina de xaxado, o grupo quis incorporar a dança a uma montagem, mas Eleonora não desejava repetir imagens centradas em armas e confrontos. Na cena criada, os cangaceiros encontram as pastoras e oferecem flores no lugar de tiros.
A liberdade poética não dispensa a pesquisa. Os passos, ritmos e personagens foram estudados a partir de pastoris pernambucanos, reisados sergipanos e experiências vividas em encontros como o de Laranjeiras. O objetivo é criar sem fingir que a criação corresponde exatamente ao modo como determinada comunidade dança.
Para Eleonora, a tradição permanece viva justamente porque pode ser recriada. O cuidado está em não inventar algo sem relação com as referências, não apagar os grupos que ensinaram e não apresentar uma interpretação universitária como versão definitiva de uma prática popular.
Dos palcos internacionais à abertura do Pan
A trajetória da Companhia levou a cultura popular brasileira a teatros, praças, escolas, festivais e grandes eventos. Um dos momentos de maior visibilidade ocorreu na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007.
Eleonora foi responsável por coreografar o segmento dedicado às danças populares brasileiras. Mais de 700 voluntários, com idades variadas, apresentaram manifestações como maracatus, caboclinhos, danças gaúchas, reisados, mestre-sala e porta-bandeira. Integrantes da Companhia participaram da pesquisa e da preparação de uma apresentação de poucos minutos que condensava a diversidade de movimentos e ritmos do país.
Mais tarde, Eleonora também colaborou com a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016, coreografando Asa Branca. Para ela, trabalhar com a canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, convertida em espécie de hino do Nordeste, foi uma experiência especialmente emocionante.
O grupo participou ainda de festivais na Itália, na Síria, na Polônia e no México. Como os organizadores estrangeiros normalmente custeavam a permanência, mas não as passagens, as viagens dependeram de editais, apresentações e estratégias coletivas de financiamento.
Nos intercâmbios internacionais, a Companhia não apenas mostrava seu repertório. Visitava pequenas cidades, áreas rurais e comunidades tradicionais, assistia a grupos de outros países e retornava com novas perguntas. Eleonora considera essa troca uma das experiências mais transformadoras proporcionadas pelo projeto.
Sua atuação também alcançou o Alto Solimões, onde colaborou durante três anos com a formação de professores bilíngues do povo Ticuna. Trabalhar na construção curricular junto aos educadores indígenas reforçou a convicção de que a universidade precisa dialogar com diferentes sistemas de conhecimento, em vez de simplesmente transferir um modelo pronto.
Um projeto que se recusa a parar
O reconhecimento público não eliminou as dificuldades estruturais. Ao longo de sua história, a Companhia enfrentou períodos sem bolsas, orçamento, equipamentos de som ou espaço adequado para ensaios e preservação do acervo.
Na entrevista, Eleonora relata que parte das instalações da Escola de Educação Física e Desportos sofreu problemas estruturais, restringindo o acesso às salas nas quais estão guardadas fitas, fotografias, figurinos e outros registros. O grupo acumulou um acervo importante durante décadas de pesquisas, mas ainda luta por condições adequadas de conservação.
Em apresentações recentes, a ausência de equipamentos levou músicos e dançarinos a atuar “no gogó”, como artistas de rua, acompanhados por bonecos e instrumentos acústicos. A precariedade exige adaptações, mas não reduz o envolvimento do público. Depois de uma atividade em uma creche, ao ver crianças, pais e avós reunidos em festa, o grupo voltou a se fazer a mesma pergunta: como parar um trabalho que produz tamanha alegria e sensibilização?
Eleonora reconhece que a continuidade não depende apenas dela. A Companhia existe graças a um núcleo formado por professores, técnicos, músicos, estudantes e antigos integrantes. São pessoas que sustentaram o projeto nos momentos em que montar um novo espetáculo não era possível e transformaram as dificuldades em períodos de pesquisa e reorganização.
Há também uma nova geração. Filhos de integrantes cresceram entre ensaios, apresentações e festas. Alguns se tornaram artistas e incorporaram essas experiências aos próprios trabalhos. Eleonora espera que os discípulos assumam progressivamente a condução da Companhia, assim como Sonia Chemale confiou o antigo grupo a ela.
“Vai modificar, mas não vai acabar”, acredita. A continuidade não significa repetir a mesma estrutura nem preservar intacto cada repertório. Significa permitir que outras pessoas recriem o projeto a partir de seu próprio tempo.
Uma homenagem às relações construídas
Ao receber a homenagem da Folkcom 2025, Eleonora se emocionou por dividir o reconhecimento com pessoas e instituições que atravessaram sua vida profissional e pessoal. Entre os homenageados estavam mestres, pesquisadores e agentes culturais com os quais aprendeu e colaborou ao longo de décadas.
Para ela, realizar esse reconhecimento dentro de uma universidade pública amplia a circulação das trajetórias homenageadas. Pessoas que talvez não conhecessem seu trabalho passam a descobrir a Companhia, ao mesmo tempo que entram em contato com a rede de mestres e comunidades que tornou o projeto possível.
A entrevista também trouxe uma reflexão sobre a palavra “folclore”. Eleonora reconhece os debates e as críticas em torno do termo e admite que talvez hoje escolhesse outro nome para a Companhia. Isso, porém, não diminui a importância histórica de projetos, disciplinas e eventos que o mantiveram como uma demarcação de compromisso com os saberes populares.
No diálogo, Andriolli Costa sintetizou uma posição compartilhada pelos dois: mais importante do que defender uma palavra é defender o povo. Os nomes ajudam a identificar campos e tradições de pesquisa, mas não podem ocupar o lugar das relações, dos afetos e do reconhecimento de diferentes conhecimentos.
É justamente essa rede de relações que a homenagem celebra. A Cia. Folclórica do Rio não foi construída apenas por uma professora nem pertence exclusivamente à universidade. Ela reúne o legado de Sonia Chemale, a confiança dos mestres, o aprendizado recebido em comunidades como Tarituba, o trabalho de técnicos e docentes e a curiosidade de gerações de estudantes.
Ao colocar tudo isso em movimento, Eleonora Gabriel ajudou a mostrar que a cultura popular não entra na universidade como objeto silencioso. Ela chega cantando, dançando, fazendo perguntas e convidando todos a participar da roda.





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