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Oficina da Folkcom 2025 apresenta a etnomídia como ferramenta de autonomia e resistência indígena

10 de ago.
5 min de leitura

Ministrada por Gisele Veríssimo, atividade discutiu como a comunicação produzida pelos próprios povos originários confronta estereótipos, fortalece identidades e amplia a presença indígena nos meios digitais.


Quem tem o direito de narrar os povos indígenas? A pergunta atravessou a oficina “Introdução à Etnomídia”, ministrada pela historiadora, mestra em Ensino de Educação Básica e graduanda em Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Gisele Veríssimo. A atividade integrou a programação da Folkcom 2025 e propôs uma reflexão sobre a comunicação indígena no contexto contemporâneo.

Ao longo da oficina, Gisele apresentou conceitos, experiências pioneiras e produções atuais que mostram como os povos originários vêm se apropriando de diferentes meios para contar suas histórias a partir de perspectivas próprias. Mais do que aumentar a presença indígena na mídia, a etnomídia busca transformar quem concebe, produz e faz circular essas narrativas.

O indígena aprisionado pelo estereótipo

A atividade começou com uma provocação aos participantes: quais são as primeiras imagens que surgem quando se pensa nos povos indígenas? As respostas evidenciaram a persistência de representações que associam essas populações a um passado distante, à ausência de tecnologias, à ideia de “selvagem” e a uma suposta falta de integração à sociedade.

Esses estereótipos também aparecem quando pessoas indígenas utilizam celulares, vestem roupas consideradas urbanas, frequentam universidades ou exercem diferentes profissões. Comentários como “índio de iPhone” revelam a expectativa de que os povos originários permaneçam presos a uma imagem construída pela sociedade não indígena.

Para Gisele, tanto a mídia quanto a escola contribuíram historicamente para consolidar esse imaginário. Nas instituições de ensino, por exemplo, ainda são comuns atividades que reduzem a diversidade indígena a cocares de papel, pinturas padronizadas e desenhos caricaturais. Em vez de apresentar povos contemporâneos, plurais e politicamente organizados, essas práticas reproduzem uma figura genérica e congelada no passado.

A generalização ignora a ampla diversidade existente no país. Os resultados mais recentes do Censo Demográfico 2022 identificaram 391 etnias e 295 línguas indígenas. Cada povo possui formas próprias de organização, espiritualidade, memória, linguagem e relação com o território.

O que é etnomídia?

A oficina apresentou as contribuições dos comunicadores Anápuáka Tupinambá e Renata Tupinambá para a compreensão da etnomídia indígena. Nessa perspectiva, trata-se de uma prática político-comunicacional que coloca as tecnologias e os meios de produção nas mãos dos próprios povos originários.

A ancestralidade, a memória, a espiritualidade e a resistência tornam-se pontos de partida para diferentes maneiras de ver, escutar, produzir e difundir a comunicação. A etnomídia pode utilizar rádio, televisão, cinema, podcasts, blogs e redes sociais, combinando formatos e linguagens de acordo com os objetivos de cada comunidade.

Ao retomar a definição apresentada por Anápuáka, Gisele sintetizou um dos fundamentos do conceito: a etnomídia pressupõe “a produção de conteúdo e a mídia nas mãos dos povos indígenas”. Já a perspectiva de Renata Tupinambá enfatiza a convergência de diferentes meios como instrumento de fortalecimento cultural e de descolonização da comunicação.

Esse protagonismo permite confrontar enquadramentos recorrentes na imprensa, especialmente aqueles que apresentam povos indígenas como invasores de seus próprios territórios ou transformam garimpeiros e outros agentes de violência em vítimas. Quando assumem a produção das notícias, os comunicadores indígenas podem reorganizar essas narrativas, denunciar violações e reivindicar direitos, como a proteção territorial e a demarcação das terras indígenas.

Das ondas do rádio às plataformas digitais

Para mostrar que a comunicação indígena possui uma trajetória anterior às redes sociais, Gisele recuperou algumas experiências fundamentais. Uma delas foi o Programa de Índio, transmitido pela Rádio USP entre 1985 e 1991 e apresentado por Ailton Krenak e Álvaro Tukano.

Pioneiro na radiodifusão brasileira, o programa abriu os microfones para lideranças indígenas, notícias, músicas, culturas e debates políticos. Durante a oficina, os participantes ouviram um trecho de uma edição de 1986 dedicada à situação das terras indígenas. A atualidade da gravação demonstrou que muitas das reivindicações daquele período, especialmente as relacionadas à demarcação e à sobrevivência nos territórios, continuam urgentes. Parte desse percurso foi recuperada pelo Jornal da USP.

Outra iniciativa apresentada foi o Vídeo nas Aldeias, criado em 1986. Em vez de apenas filmar as comunidades, o projeto investiu na formação de realizadores indígenas, oferecendo conhecimentos técnicos para que os próprios povos registrassem suas histórias, culturas e lutas. A mudança de posição — de objeto filmado para sujeito da produção audiovisual — tornou-se uma referência para o cinema indígena no Brasil.

A terceira experiência destacada foi a Rádio Yandê, criada em 2013 por Anápuáka Tupinambá, Renata Tupinambá e Denilson Baniwa. Reconhecida como a primeira web rádio indígena do país, a iniciativa reúne músicas, entrevistas, notícias e debates sobre cultura, educação, meio ambiente, combate ao racismo, direitos humanos, política e território.

Influenciadores também produzem etnomídia?

A presença indígena no TikTok, no Instagram, no YouTube e nos podcasts ampliou o debate sobre os limites do conceito. Para Gisele, influenciadores que apresentam seu cotidiano, compartilham conhecimentos, discutem política ou respondem de maneira crítica e bem-humorada aos estereótipos também podem ser compreendidos como produtores de etnomídia.

A oficina apresentou o trabalho de criadores como Wïna Tikuna, que combina moda, alimentação, conhecimentos sobre plantas e aspectos do cotidiano de seu povo, e Cristian Wariu, comunicador Xavante conhecido por vídeos de caráter pedagógico sobre culturas e direitos indígenas.

Esses conteúdos mostram que uma pessoa indígena não precisa estar confinada a determinados assuntos para afirmar sua identidade. Ela pode falar sobre música, arte, saúde, moda, cinema, literatura ou situações cotidianas. Da mesma maneira, escritores indígenas têm o direito de produzir ficção sem que suas obras sejam automaticamente tratadas como registros antropológicos ou manifestações coletivas de todo um povo.

Também existem diferenças de público. Algumas produções são voltadas prioritariamente às próprias comunidades, contribuindo para a circulação de informações e o fortalecimento de redes internas. Outras procuram alcançar a sociedade não indígena, explicar reivindicações, combater preconceitos e disputar as interpretações sobre acontecimentos políticos e culturais.

Durante o debate, Gisele estabeleceu ainda uma distinção importante: a simples presença de uma pessoa indígena em um programa concebido e dirigido por não indígenas não transforma necessariamente aquela produção em etnomídia. Embora a participação possa ser relevante, o conceito pressupõe autonomia também nas etapas de idealização, produção e circulação.

A disputa também passa pelos algoritmos

A existência dessas produções não significa que elas chegarão espontaneamente ao público. A oficina chamou atenção para o papel dos algoritmos, que selecionam aquilo que aparece nas páginas e linhas do tempo de cada usuário.

Quem já acompanha comunicadores indígenas tende a receber mais conteúdos relacionados ao tema. Para outros públicos, essas produções podem permanecer invisíveis. O problema demonstra que a presença nas plataformas digitais não elimina as disputas por circulação, alcance e reconhecimento.

O perfil da Associação Indígena Aldeia Maracanã foi lembrado como exemplo dessa dificuldade. Apesar da importância histórica e política do território localizado nas proximidades do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, suas mobilizações nem sempre alcançam quem circula diariamente pela região. A comunicação própria torna-se, portanto, uma ferramenta para preservar a memória do território, divulgar ações e mobilizar apoio.

Comunicação como território de resistência

Ao aproximar comunicação, educação e culturas populares, a oficina evidenciou as conexões entre a etnomídia e a folkcomunicação. Ambas permitem observar como grupos historicamente marginalizados criam circuitos próprios, desenvolvem linguagens e disputam os sentidos produzidos pelos meios hegemônicos.

No caso dos povos originários, essa disputa envolve o direito de existir no presente, utilizar tecnologias, ocupar cidades, produzir arte, desenvolver pesquisas e falar sobre qualquer tema sem ter a identidade questionada. Também envolve o direito de decidir como suas histórias serão contadas.

Realizada como parte das atividades da Folkcom 2025, a oficina terminou com um convite para que pesquisadores, professores e estudantes ampliem seus repertórios, acompanhem comunicadores indígenas e utilizem essas produções em espaços educativos. Mais do que fontes complementares, as etnomídias constituem territórios de conhecimento, memória e resistência — espaços nos quais os povos originários deixam de ser apenas representados e assumem o protagonismo sobre suas próprias narrativas.

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