“O pó do livro com a poeira da estrada”: Comissão Fluminense de Folclore defende diálogo entre pesquisa e cultura popular
Homenageada pela Folkcom 2025, entidade criada há 75 anos busca se reestruturar sem perder o vínculo com mestres e brincantes; presidente Verônica Inaciola também fala sobre Folias de Reis, juventude, tecnologia e intolerância religiosa
Entrevista: Matheus Rogers Edição: Andriolli Costa

Criada em Niterói em 1950, a Comissão Fluminense de Folclore atravessou diferentes fases da história cultural do Estado do Rio de Janeiro. Reuniu intelectuais, pesquisadores e agentes das culturas populares, passou por períodos de intensa atividade e de desmobilização e, em 2000, foi formalmente reestruturada como associação. Ao completar 75 anos, foi uma das homenageadas da Folkcom 2025, realizada com o tema “Raízes do presente, futuros ancestrais”.
Para a pedagoga e pesquisadora Verônica Inaciola, presidente da Comissão, projetar o futuro da entidade exige reconhecer esse legado sem transformar o passado em um modelo imóvel. A instituição precisa dialogar com as novas gerações, enfrentar a desinformação e, sobretudo, aproximar o conhecimento acadêmico da experiência de mestres, foliões e brincantes.
Verônica resume essa aproximação com uma imagem: é preciso juntar “o pó do livro com a poeira da estrada”. A pesquisa, em sua visão, não pode observar as culturas populares de cima para baixo nem retirar conhecimentos das comunidades sem oferecer retorno. “Você não pode só ler; precisa vivenciar”, afirma
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Na entrevista concedida ao aluno Matheus Rogers, ela reconstruiu sua trajetória como pesquisadora, explicou a importância religiosa e comunitária das Folias de Reis e apontou os desafios enfrentados pela Comissão em um cenário marcado pelas transformações tecnológicas e pela intolerância religiosa.
Uma trajetória iniciada nas escolas de São Gonçalo
A aproximação profissional de Verônica com o folclore começou em 1997, quando assumiu a Coordenação de Artes e Tradições Populares da então Secretaria Municipal de Educação e Cultura de São Gonçalo. Diante da diversidade de um município que reunia áreas urbanas e rurais, ela decidiu começar pelas escolas.
Questionários foram enviados às unidades de ensino para identificar festas, costumes e manifestações presentes nos diferentes territórios. O levantamento alimentava a Feira de Artes e Tradições Populares, realizada anualmente com a participação dos estudantes. As apresentações, porém, precisavam resultar de pesquisa e de contato responsável com as práticas representadas, e não de reproduções improvisadas ou estereotipadas.
O trabalho revelou a existência de aproximadamente 12 grupos de Folia de Reis no município. Ao conversar com os mestres, Verônica percebeu que a permanência dos reisados estava ligada também aos deslocamentos populacionais. Muitos integrantes haviam deixado áreas rurais do interior do estado em busca de trabalho na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Tornaram-se operários e moradores das periferias urbanas, mas continuaram a guardar e reinventar as práticas aprendidas no campo.
Paralelamente ao contato com os grupos, Verônica buscou compreender como a universidade discutia o tema. Frequentou atividades na UERJ e se aproximou de pesquisadoras como Maria José e Cássia Frade. Mais tarde, concluiu o mestrado em Ciência da Arte, com uma pesquisa sobre o artista popular Adalto Lopes, e o doutorado em Ciências da Religião, dedicado às Folias de Reis da Região Metropolitana.
Uma infância atravessada por festas e memórias

O interesse pelas culturas populares, no entanto, não começou apenas na vida profissional. Verônica cresceu em uma área então rural de São Gonçalo, cercada por sítios e laranjais. Recorda uma infância marcada pela solidariedade entre vizinhos, pelas festas juninas, pelos carnavais e pelas histórias contadas pelo pai à noite, quando a televisão ainda não ocupava o centro da vida doméstica.
Sua família transitava com naturalidade por diferentes expressões religiosas. A mãe frequentava a Umbanda, enquanto as crianças participavam também de celebrações católicas. “A gente ia à missa de manhã e ao terreiro à noite”, recorda. Para Verônica, essa convivência contribuiu para que crescesse sem perceber aquelas práticas como incompatíveis e sem reproduzir preconceitos que, mais tarde, encontraria em torno da palavra “folclore”.
Ao escrever seu primeiro livro sobre as Folias de Reis de São Gonçalo, outra lembrança retornou. Durante alguns anos, no dia de Ano-Novo, seu pai abriu a porta de casa para receber um grupo que passava pela rua. Ainda criança, ela observava o cortejo sem compreender plenamente o ritual. Décadas depois, percebeu que aquela cena permanecera guardada e ajudava a explicar sua escolha como pesquisadora.
“A gente pensa que as coisas surgiram do nada”, comenta. Para ela, a cultura participa da construção das formas de viver, sentir, brincar e compreender o mundo. As memórias da infância, portanto, não são apenas recordações pessoais: formam raízes que continuam atuando na vida adulta.
Da fundação à retomada da Comissão
A Comissão Fluminense de Folclore foi instalada em 12 de janeiro de 1950, em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. Ligada ao movimento que criou comissões semelhantes em diferentes estados, a entidade participou de pesquisas, articulações e ações de valorização das culturas populares fluminenses.
Entre os nomes lembrados por Verônica está o médico e intelectual Luiz Palmier, radicado em São Gonçalo. Segundo ela, o segundo presidente da Comissão ajudou a ampliar e dinamizar o grupo, que chegou a reunir cerca de 30 integrantes durante sua gestão. A trajetória da entidade, contudo, perdeu força nas décadas seguintes e passou por um período de desmobilização parcial.
Verônica se incorporou à história da Comissão em 2000. Naquele ano, participou de uma reunião no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), no centro do Rio, convocada para reestruturar a instituição de acordo com a legislação então vigente. Com Ivan Cavalcanti Proença na presidência, o grupo retomou suas atividades sob a forma de associação cultural. Verônica passou a integrar a entidade como representante de São Gonçalo.
Desde então, a Comissão contribuiu para pesquisas e para a articulação entre mestres e instituições. Também ofereceu apoio a grupos de Folia de Reis e a outros detentores de saberes populares. Depois de novo período de redução das atividades, a entidade entrou em outro processo de reorganização, agora sob a presidência de Verônica.
O desafio, ela avalia, é preservar a memória institucional sem se limitar a ela. “O passado é muito importante, mas já não dá conta” de todas as perguntas do presente. A Comissão precisa incorporar novas pessoas, linguagens e formas de atuação, mantendo o compromisso com quem produz cotidianamente as culturas populares.
A bandeira que conduz a jornada
As Folias de Reis ocupam o centro da trajetória acadêmica de Verônica. A pesquisadora explica que reisado, Terno de Reis, Reis do Congo e outras denominações se referem a práticas diversas ligadas ao ciclo natalino. Apesar das diferenças regionais, elas compartilham como fundamento a narrativa do nascimento de Jesus e a jornada dos Reis Magos.
No calendário católico, o percurso se estende do Natal, em 25 de dezembro, ao Dia de Reis, em 6 de janeiro. Durante esse período, os grupos cantam, dançam e visitam as casas de devotos. No Rio de Janeiro, algumas jornadas prosseguem até 20 de janeiro, dia de São Sebastião, associado a Oxóssi nas religiões de matriz africana. As folias visitam também terreiros de Umbanda e Candomblé, expressando um sincretismo que não representa contradição para seus participantes. “Tudo é fé, e a fé é que importa”, sintetiza.
À frente do cortejo segue a bandeira, confeccionada com madeira, tecido e fitas. Mais do que identificar o grupo, ela é compreendida pelos devotos como um objeto sagrado no qual a presença dos Santos Reis se manifesta. Diante dela são feitas promessas, pedidos e agradecimentos. Narrativas de curas e outros milagres atribuídos às bandeiras levaram Verônica a transformar anos de convivência com os mestres em tema de doutorado.
Defendida em 2023 na Universidade Católica de Pernambuco, a tese Milagres na contemporaneidade: enfrentamentos necessários para a permanência das Folias de Reis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro investigou grupos do Rio de Janeiro, de São Gonçalo e de Itaboraí. O estudo originou também o livro Folias de Reis e o milagre das suas bandeiras, publicado em 2024 na série Reisados Brasileiros.
Tecnologia como aliada da tradição
Se a Comissão precisa se atualizar, isso não significa abandonar as tradições nem tratá-las como sobrevivências de um passado distante. Verônica observa que as próprias Folias de Reis vêm encontrando nas redes sociais um caminho para fortalecer a transmissão entre gerações.
Em muitas famílias, os filhos dos antigos foliões não deram continuidade à prática, mas os netos passaram a retomá-la. Vídeos de jornadas e festas circulam pela internet, aproximam grupos de diferentes territórios e ajudam os jovens a reconhecer valor em uma tradição que anteriormente poderia ser motivo de vergonha.
“A gente não precisa brigar com a tecnologia”, defende Verônica. Para ela, as ferramentas digitais podem ajudar a combater o apagamento das manifestações e a levar informações às novas gerações. O cuidado necessário está em evitar a desinformação e a distorção dos sentidos construídos pelas próprias comunidades.
A retomada não acontece pela repetição mecânica. Os jovens mantêm as profecias, as toadas e os fundamentos rituais, mas acrescentam referências de seu próprio tempo. Em algumas caixas, por exemplo, aparecem batidas próximas às do funk. A incorporação não representa perda automática da tradição: mostra que ela continua viva porque consegue dialogar com o presente.
Entre a academia e o terreiro
Para Verônica, o maior desafio atual da Comissão não está propriamente na tecnologia. Está na construção de uma relação equilibrada entre pesquisadores e detentores das práticas culturais. A entidade reúne intelectuais, mestres e fazedores de cultura, mas essa diversidade só produz resultados quando há escuta e reconhecimento mútuo.
Durante muito tempo, observa, parte da academia rejeitou tanto o folclore como campo de estudo quanto os próprios folcloristas. Esse distanciamento vem diminuindo à medida que pesquisadores deixam os gabinetes, acompanham festas, visitam terreiros e compreendem os sentidos atribuídos às manifestações por quem as pratica.
Cássia Frade é uma referência dessa postura. Professora da UERJ e antiga dirigente da área de folclore do Inepac, ela manteve uma relação próxima com os grupos populares. Verônica recorda que, durante a ditadura militar, Cássia chegou a procurar delegacias e mobilizar advogados para ajudar mestres de Folia de Reis detidos porque circulavam pelas ruas durante a madrugada, cantando e tocando seus instrumentos.
"Às vezes ela estava em casa no natal, no réveillon com a família, e eles ligavam para ela ir lá na delegacia ajudar. Ela era aquele tipo de pessoa que abraçava mesmo". A acusação era sempre a mesma: desordem, baderna... pura intolerância religiosa.
Essa atuação ajuda a explicar o que Verônica espera dos pesquisadores. O conhecimento produzido não deve permanecer restrito a artigos, livros e congressos. Precisa retornar às comunidades. Ela própria auxilia mestres a se inscreverem em editais públicos capazes de financiar transporte, indumentárias e o conserto de instrumentos necessários às jornadas.
“Eu não posso ir lá só pesquisar e não dar nada de volta”, afirma. Sempre que possível, leva mestres para dividir com ela o espaço de palestras, pois considera insuficiente falar sobre suas práticas sem abrir espaço para que apresentem os próprios conhecimentos.
Intolerância ameaça a permanência das folias
A defesa das Folias de Reis envolve também o enfrentamento de obstáculos concretos. A tese de Verônica discute a falta de apoio do Estado, a violência nos territórios periféricos e a expansão da intolerância religiosa. O avanço de grupos neopentecostais em algumas comunidades, segundo a pesquisadora, pode pressionar foliões convertidos a romper com práticas anteriores e a negar vínculos culturais construídos ao longo da vida.
O caráter sincrético das folias amplia a vulnerabilidade. Grupos que se apresentam como católicos podem manter relações com terreiros, cantar para São Sebastião e Oxóssi e reunir integrantes vinculados à Umbanda ou ao Candomblé. Em contextos de intolerância, palhaços e outros personagens dos cortejos são demonizados, portas se fecham durante as jornadas e a circulação pelas comunidades se torna mais difícil.
Para Verônica, o processo provoca um “desmoronamento” de práticas construídas durante séculos. Enfrentá-lo exige políticas públicas, apoio material e informação, mas também a presença de instituições capazes de ouvir os grupos e defender seu direito à expressão cultural e religiosa.
Uma homenagem de muitas gerações
Ao comentar a homenagem recebida na Folkcom 2025, Verônica evita personalizá-la. O reconhecimento, afirma, pertence às diferentes gerações que construíram a Comissão desde 1950 e trabalharam em defesa do folclore e das culturas populares.
Ela cita Luiz Palmier, Cássia Frade e Eleonora Gabriel, ex-presidente da entidade, entre as pessoas que formaram o legado institucional. “Essa foi a minha escola”, diz ao recordar os encontros, congressos e experiências compartilhados com quem aproximou pesquisa, ação pública e compromisso com os mestres.
A homenagem à Comissão Fluminense de Folclore, assim, não celebra apenas uma trajetória iniciada há 75 anos. Reafirma uma tarefa para o presente: garantir que o conhecimento produzido sobre as culturas populares seja construído com seus protagonistas e colocado a serviço de sua continuidade.
É nesse encontro entre memória e transformação, livro e estrada, que Verônica enxerga o futuro da instituição. Um futuro no qual a tradição não permanece porque foi isolada das mudanças, mas porque continua capaz de criar vínculos, incorporar novas vozes e responder ao mundo ao seu redor.
A entrevista foi realizada em setembro de 2025, no Laboratório de Podcasts Narrativos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Lunar/UERJ). Na época, Matheus Rogers era estudante de Jornalismo da UERJ. A gravação integrou as ações preparatórias da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2025, que homenageou a Comissão Fluminense de Folclore.





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