top of page

“O jornal é a festa, o ex-voto, o cordel”: Cristina Schmidt percorre o caminho da folkcomunicação à folkmídia

10 de ago.
9 min de leitura

Na segunda aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, pesquisadora recuperou as matrizes de Luiz Beltrão, explicou as expansões da teoria e apresentou a trajetória de institucionalização da Rede Folkcom



Uma festa pode funcionar como jornal. Um ex-voto pode tornar pública uma experiência, registrar uma graça alcançada e informar sobre as condições de vida de uma comunidade. Um folheto de cordel pode interpretar acontecimentos, traduzir notícias e alcançar públicos aos quais os meios hegemônicos não chegam. Foi essa mudança de perspectiva, inaugurada por Luiz Beltrão, que orientou a aula da pesquisadora Cristina Schmidt no curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”.


Fundadora e primeira presidente da Rede Folkcom, Cristina acompanhou de perto o processo de institucionalização do campo. Em sua exposição, combinou memória e teoria para mostrar como uma hipótese formulada na década de 1960 se transformou em uma área articulada nacional e internacionalmente, com congressos, grupos de pesquisa, revistas, disciplinas e sucessivas gerações de pesquisadores.


A aula foi organizada em dois movimentos. No primeiro, a professora retomou os “territórios folkcomunicacionais”: os conceitos de marginalização, mediação, liderança e fluxo comunicacional presentes na obra de Beltrão. No segundo, examinou as ampliações posteriores, com destaque para a folkmídia, e apresentou livros, pesquisas e pesquisadores responsáveis pela atualização dos objetos, das metodologias e das fronteiras teóricas.


Dois Brasis e muitos sistemas de comunicação

Cristina começou pela problemática da exclusão. Antes mesmo de consolidar a categoria dos marginalizados, Beltrão falava na existência de dois Brasis. Um deles concentrava infraestrutura, serviços, meios de comunicação e oportunidades nos centros urbanos. O outro, formado em grande parte pelas populações rurais e periféricas, permanecia afastado desses recursos.


Essa distância não significava ausência de comunicação. Grupos excluídos dos grandes veículos possuíam seus próprios canais, produziam informações, preservavam saberes e articulavam processos sociais. Seus líderes de opinião atuavam como mediadores, interpretando mensagens externas e relacionando-as às experiências, às linguagens e às necessidades das comunidades.


O argumento central de Beltrão, segundo Cristina, era tão simples quanto inovador: manifestações populares articuladas por agentes próprios possuem informação de fatos e expressão de ideias. Sua importância comunicacional pode ser tão decisiva para determinado grupo quanto aquela atribuída ao rádio, à televisão ou à imprensa.


Ao formular essa perspectiva, o pesquisador não se limitou a dizer que as populações marginalizadas também se comunicavam. Ele procurou compreender de que informações necessitavam, por quais meios expressavam opiniões e que formas de jornalismo respondiam às suas condições de vida. A folkcomunicação nasceu da atenção a esse sistema que funcionava paralelamente aos meios massivos e que, durante muito tempo, permaneceu invisível à pesquisa em Comunicação.


Quando a manifestação popular se torna veículo jornalístico

Beltrão sistematizou suas observações ao aproximar teorias da comunicação de massa dos estudos de folclore. Diferentemente dos folcloristas interessados prioritariamente nos elementos constitutivos de uma manifestação, ele adotava um olhar de jornalista: identificava agentes, meios, mensagens, públicos e processos de circulação.


Essa diferença aparece de maneira exemplar no artigo “O ex-voto como veículo jornalístico”, publicado em 1965 na revista Comunicação & Problemas. O objeto já era estudado pela antropologia, pela sociologia e pelo folclore, mas Beltrão demonstrou que também poderia ser investigado como mídia. O ex-voto informa sobre um acontecimento, torna visível uma crença, comunica uma interpretação do mundo e circula entre pessoas que reconhecem seus códigos.


O mesmo princípio pode ser aplicado às festas, aos cordéis, às danças, aos grafites e a numerosas expressões populares. “O jornal é a festa, o jornal é o ex-voto, o jornal é o cordel”, sintetizou Cristina. A palavra “jornal” deixa de designar apenas um produto impresso e passa a indicar a função informativa e interpretativa exercida por outros suportes e linguagens.


Ao comentar a pesquisa de Beltrão, Câmara Cascudo o incentivou a valorizar o cotidiano e o que estava ao alcance dos olhos. Também recomendou que conhecesse diretamente os fenômenos antes de comparar suas observações com as conclusões de outros pesquisadores: “Veja com seus olhos, ande com seus pés”. Para Cristina, esse conselho permanece atual porque associa liberdade intelectual, observação empírica e abertura ao diálogo teórico.


Os líderes que traduzem e ressignificam mensagens

Parte da formulação de Beltrão dialoga com a teoria do fluxo comunicacional em duas etapas, desenvolvida por Paul Lazarsfeld, Elihu Katz e outros pesquisadores. Em lugar de imaginar uma mensagem partindo diretamente dos meios para uma audiência passiva, esse modelo reconhece a mediação dos líderes de opinião.


Beltrão ampliou essa dinâmica ao observar os agentes populares. Inseridos nas comunidades, eles recebem conteúdos dos meios massivos, interpretam-nos e os retransmitem por canais folkcomunicacionais. A circulação não é simplesmente linear: os grupos respondem, reelaboram as mensagens e produzem sentidos a partir de suas próprias referências.


Um cordelista pode transformar uma notícia em versos, selecionar os elementos mais relevantes para seus leitores e dar ao acontecimento uma nova credibilidade. Líderes religiosos, educadores, artistas e representantes comunitários também podem atuar como tradutores culturais quando possuem vínculo orgânico com as manifestações e reconhecimento entre seus pares.


Para Cristina, a reflexão de Beltrão antecipou debates latino-americanos posteriores sobre mediações culturais. Ela observou que o autor já reconhecia, em 1967, a atuação de sujeitos capazes de articular meios, mensagens e experiências coletivas — tema que ganharia centralidade décadas depois.


As gerações seguintes ampliaram essa figura. Osvaldo Trigueiro propôs o conceito de ativista midiático, destacando que o mediador não apenas traduz, mas atua ativamente em defesa de causas e interesses comunitários. No debate da aula, Alberto Perdigão mencionou ainda o “enunciador panfletário”, categoria empregada por Simone Mendes para analisar a atuação do poeta-repórter na literatura de cordel.


Folkcomunicação não é apenas estudo do folclore

Uma distinção atravessou toda a exposição: folkcomunicação não é sinônimo de folclore nem corresponde simplesmente ao estudo das culturas populares. Seu objeto são os procedimentos comunicacionais pelos quais essas manifestações circulam, entram em contato com outros canais, sofrem transformações e participam de disputas de sentido.


Cristina retomou uma formulação de Antonio Hohlfeldt segundo a qual o campo investiga como expressões populares se expandem, se socializam, convivem com a comunicação massificada e são modificadas quando apropriadas pela indústria cultural. A abordagem pode recorrer à antropologia, à sociologia, à história ou à semiótica, mas precisa manter a pergunta comunicacional no centro.


Essa característica explica a interdisciplinaridade do campo. Objetos complexos podem exigir teorias que, à primeira vista, parecem contraditórias. A contribuição de Beltrão não foi construir uma teoria isolada ou “pura”, mas partir das matrizes disponíveis e reorganizá-las para compreender um fenômeno que elas não explicavam integralmente.


Por isso, Cristina contestou leituras que classificam o pesquisador de maneira simplificadora como funcionalista apenas por seu diálogo com Lazarsfeld e Katz. A professora recomendou a tese de Iury Parente Aragão para compreender os fundamentos epistemológicos e políticos da obra beltraniana e evitar interpretações reduzidas a rótulos.


Das matrizes de Beltrão às novas gerações

A aula apresentou as obras que sustentaram a formação do campo. A tese defendida por Beltrão em 1967 deu origem a publicações como Comunicação e folclore, de 1971, e Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, de 1980. A íntegra do trabalho seria publicada posteriormente, permitindo o acesso mais amplo às bases teóricas, metodológicas e empíricas da pesquisa.


Cristina defendeu que esses textos sejam lidos página por página, e não apenas por meio das definições mais repetidas em artigos. A leitura direta permite observar as palavras escolhidas pelo autor, as categorias propostas, o desenho dos fluxos comunicacionais e a extensa pesquisa de campo que fundamentou a teoria.


Ao redor dessas matrizes formou-se uma produção diversa. Roberto Benjamin, Osvaldo Trigueiro, Joseph Luyten, Severino Lucena Filho, Antonio Hohlfeldt, Betania Maciel, Karina Janz Woitowicz e José Marques de Melo estão entre os pesquisadores citados na aula por suas contribuições à historicização, à ampliação ou à aplicação da teoria. Novas pesquisas incorporaram temas como hip-hop, festas juninas, ex-votos, políticas públicas, desenvolvimento local, territórios quilombolas, mídias digitais, cordel e folkmarketing.


Mais do que montar uma lista bibliográfica, Cristina quis demonstrar que uma teoria permanece viva quando é colocada à prova por outros objetos e contextos. Há refinamento conceitual, expansão metodológica e crescente esforço epistemológico, embora a pesquisadora ainda perceba forte dependência de referências estrangeiras e trabalhos que se aproximam mais da descrição antropológica ou sociológica do que da análise comunicacional.


Da folkcomunicação à folkmídia

O conceito de folkmídia apareceu como uma das principais expansões do campo. Beltrão já compreendia manifestações populares como veículos, mas não utilizou o termo. Sua formulação foi desenvolvida posteriormente, sobretudo a partir dos trabalhos de Roberto Benjamin e Joseph Luyten.


Cristina mostrou que o conceito recebeu usos diferentes. Em uma vertente, a folkmídia descreve a apropriação de elementos das culturas populares pelos meios massivos, como ocorre quando festas, símbolos, estéticas ou narrativas são transformados em produtos televisivos, publicitários ou comerciais. Em outra, designa a própria mídia folk: o suporte cultural utilizado por uma comunidade para informar, expressar opiniões e transmitir saberes.


Essa diferença tornou-se tema do debate com Júnia Martins. Em um ambiente no qual culturas populares, meios massivos e redes digitais se retroalimentam continuamente, ainda faz sentido separar folkcomunicação e folkmídia?


Cristina respondeu que a distinção permanece útil, desde que compreendida com cuidado. A folkcomunicação abrange o processo comunicacional: a maneira pela qual os grupos se organizam, decodificam conteúdos, ressignificam mensagens e produzem seus próprios circuitos. A folkmídia pode indicar um meio específico ou determinada dinâmica de apropriação. “Na dúvida, usa folkcomunicação”, resumiu, ressaltando que ela constitui o processo mais amplo, dentro do qual uma mídia folk pode atuar.


Folclore como cultura viva e dinâmica

Questionada sobre o significado de folclore, Cristina recusou uma definição restrita ao antigo ou ao que teria permanecido inalterado. Para ela, o termo se refere aos saberes, fazeres, valores e expressões culturais construídos pelas comunidades. Há permanências, mas elas se recompõem e adquirem novos sentidos em cada contexto.


Benzedeiras, grafites, hip-hop e o Festival de Parintins foram mobilizados como exemplos dessa amplitude. Em Parintins, narrativas, referências ancestrais, tecnologias e linguagens espetaculares se encontram em uma manifestação contemporânea. A tradição não desaparece porque se transforma: continua viva justamente porque é apropriada e recriada por seus participantes.


Júnia Martins lembrou que a Carta do Folclore Brasileiro estabelece uma equivalência entre folclore e cultura popular. Essa aproximação ajuda a enfrentar o preconceito que reduz o tema a personagens infantis, objetos antigos ou costumes congelados. Para os estudos de folkcomunicação, importa reconhecer as culturas populares como sistemas de conhecimento e comunicação em permanente movimento.


Uma rede construída para enfrentar resistências

A trajetória da teoria se confunde com a história da Rede Folkcom. Cristina recordou que José Marques de Melo teve papel decisivo na reunião dos pesquisadores e na criação de espaços de circulação. A Cátedra UNESCO/Metodista de Comunicação para o Desenvolvimento Regional apoiou pesquisas coletivas, seminários, publicações, centros de documentação e as primeiras conferências nacionais.


A articulação começou em 1998 e foi formalizada institucionalmente em 2004. Cristina participou desse processo como primeira presidente e permaneceu na função durante o período inicial de organização. A Rede nasceu para enfrentar a dispersão das pesquisas, dar visibilidade à teoria e criar uma comunidade capaz de sustentar o campo diante das resistências acadêmicas.


Ao longo dos anos, seus integrantes promoveram congressos, seminários regionais, oficinas, cursos e palestras; criaram a Revista Internacional de Folkcomunicação; conquistaram espaços em entidades científicas; e incorporaram o tema a disciplinas de graduação e pós-graduação. A presença em grupos da Intercom, da Alaic, do Ibercom e de outras articulações ampliou o diálogo com pesquisadores de diferentes países e áreas.


Cristina destacou que essas conquistas não ocorreram de forma automática. Foram resultado de trabalho voluntário, alianças institucionais e insistência coletiva. A expansão também dependeu da postura de Marques de Melo, que registrava em seus textos os nomes das pessoas que faziam avançar o campo, reconhecendo tanto os pioneiros quanto as novas gerações.


Conhecer com os próprios olhos e caminhar com os próprios pés

No debate final, Matheus Schwab perguntou se a folkcomunicação produz também um modo particular de pesquisar. Cristina respondeu que a demarcação do campo é necessária para que o diálogo interdisciplinar aconteça com clareza. Saber de onde se fala permite recorrer à antropologia, à fenomenologia, à semiótica, ao estruturalismo ou a outras perspectivas sem perder a pergunta comunicacional.


Esse modo de pesquisar valoriza especialmente o trabalho empírico. O pesquisador não observa uma festa apenas de fora: acompanha a procissão, experimenta os alimentos, conversa com os participantes, identifica mensagens, práticas, relações e formas de resistência. A observação participante permite compreender como a comunicação atravessa os corpos, os afetos e as experiências compartilhadas.


“A gente não tem medo de pesquisa empírica e não tem medo de construir diálogos”, afirmou Cristina. A frase recupera o conselho de Câmara Cascudo a Beltrão: olhar com os próprios olhos, caminhar com os próprios pés e somente depois confrontar a experiência com outras interpretações.


Não se trata de rejeitar a teoria, mas de evitar que ela funcione como uma gaiola. A solidez conceitual deve oferecer condições para novas perguntas, e não impedir que manifestações inesperadas entrem no campo de visão.


A história é feita por pessoas

Ao concluir a aula, Cristina voltou à memória da Rede e às relações formadas em torno da folkcomunicação. Livros, eventos e conceitos não surgem sozinhos: são resultados do trabalho de pesquisadores, professores, estudantes, artistas, ativistas e comunidades que preservam, produzem e transformam conhecimentos.


Para ela, uma das tarefas das gerações atuais é continuar registrando quem participa dessa história, incluindo novos nomes e reconhecendo as divergências como parte do crescimento do campo. “A história não se fez; as pessoas fizeram a história”, afirmou.


A passagem da folkcomunicação à folkmídia, portanto, não corresponde à substituição de uma teoria por outra. É o registro de uma expansão: dos primeiros estudos de Beltrão às novas mídias, das manifestações observadas nas ruas e nos espaços religiosos às plataformas digitais, das pesquisas pioneiras a uma rede internacional de interlocutores. A teoria permanece porque conserva a abertura para enxergar novos fenômenos sem abandonar os sujeitos que deram origem às suas perguntas.

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page