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O corpo rebola, pesquisa e resiste: Taísa Machado e Tamiris Coutinho debatem o funk na Folkcom 2025

10 de ago.
10 min de leitura

Em mesa mediada por Maria Paula Maciel, pesquisadoras mostraram como dança, prazer, ancestralidade e protagonismo feminino transformam o corpo funkeiro em linguagem política e forma de produçã


O corpo que dança funk não é apenas observado, julgado ou representado. Ele cria movimentos, produz conhecimento, registra memórias, reorganiza relações de gênero e transforma a pista em espaço de disputa política. Essa compreensão atravessou a mesa “O corpo é folk”, realizada durante a Folkcom 2025 com Taísa Machado e Tamiris Coutinho.


Partindo de trajetórias diferentes, as duas convidadas mostraram como o funk é construído por mulheres que pesquisam, dançam, cantam, produzem, empreendem e elaboram intelectualmente suas próprias experiências. Tamiris analisou o empoderamento feminino e o protagonismo histórico das funkeiras. Taísa investigou o rebolado e o tamborzão como expressões de uma corporalidade afrocarioca vinculada às religiões brasileiras de matriz africana.


O baile apareceu como a principal encruzilhada entre as duas perspectivas. É nele que música e corpo se respondem, que movimentos inspiram letras e que repertórios ancestrais encontram experiências contemporâneas de prazer, violência, festa e resistência. Ao mediar a conversa, Maria Paula Maciel aproximou essas práticas dos estudos culturais e da folkcomunicação, ressaltando a capacidade dos grupos populares de pesquisar, interpretar e comunicar seus próprios mundos.


Empoderamento não é apenas liberdade individual

Tamiris Coutinho abriu a mesa recuperando a pesquisa que deu origem ao livro Cai de boca no meu bucetão: o funk como potência do empoderamento feminino. Desenvolvido inicialmente como trabalho de conclusão do curso de Relações Públicas da UERJ, o estudo ganhou repercussão fora da universidade, levou a pesquisadora a diferentes espaços de debate e ajudou a definir sua trajetória acadêmica e profissional.


O próprio título, retirado de uma música composta e interpretada por uma mulher, provocou desconforto. Para Tamiris, a reação evidenciou a permanência de valores patriarcais e machistas que determinam quais palavras, corpos e experiências podem ser reconhecidos como objetos legítimos de pesquisa. Em vez de recuar diante da controvérsia, ela decidiu aprofundar a investigação.


Uma das bases do trabalho foi a compreensão do empoderamento como processo coletivo. A partir das contribuições de Joyce Berth, Tamiris diferenciou o conceito da ideia de liberdade puramente individual. Fazer o que se deseja pode ser importante, mas não basta para enfrentar opressões estruturais.


Empoderar-se envolve desenvolver consciência crítica sobre relações de poder, construir autonomia e criar condições para que outras pessoas do mesmo grupo também possam agir. Ninguém simplesmente “empodera” outra pessoa. Projetos, referências e atitudes podem estimular processos de fortalecimento, mas eles precisam se espalhar e produzir transformações coletivas.


Tamiris comparou o empoderamento a uma roda: uma mulher assume protagonismo, torna-se referência e ajuda outras a reconhecerem suas próprias possibilidades. O movimento parte de experiências individuais, mas só alcança sua dimensão política quando questiona estruturas e amplia direitos.


Ouvir o que as funkeiras dizem sobre si mesmas

Discussões sobre mulheres no funk costumam ser reduzidas à oposição entre objetificação e liberdade. Tamiris não negou a presença do machismo ou da sexualização imposta pela indústria e pela sociedade. Sua escolha, porém, foi colocar uma lupa sobre outro aspecto: a capacidade das funkeiras de assumirem o papel de personagens principais de suas histórias e da própria história do movimento.

Essa mudança de perspectiva exige escutar o que as mulheres dizem sobre as próprias performances, desejos e projetos. Uma análise que define antecipadamente seus corpos como objetos passivos pode reproduzir a mesma desautorização que pretende denunciar.


Tamiris relatou que as vozes das MCs marcaram sua formação desde a pré-adolescência. Mesmo sem conviver diretamente com artistas, ela encontrou nas músicas e performances referências que ajudaram a formar sua identidade como mulher funkeira. A experiência, segundo a pesquisadora, é compartilhada por muitas mulheres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.


O funk se torna, assim, um canal para discutir prazer, autonomia, estética, trabalho, dinheiro e liderança. As letras não eliminam contradições, mas oferecem linguagens por meio das quais mulheres podem afirmar desejos e enfrentar expectativas sobre como deveriam falar, vestir-se ou movimentar o corpo.


Mulheres construíram o movimento desde o início

Para demonstrar que as funkeiras não são uma presença secundária, Tamiris propôs em sua pesquisa uma organização por gerações. O percurso inclui nomes como MC Cacau, MC Dandara, MC Verônica e Verônica Costa, passa por Tati Quebra Barraco, MC Sabrina e Valesca Popozuda e chega a artistas como Anitta, Ludmilla, MC Carol e outras representantes de uma geração mais recente.


Cada período possui contextos políticos, econômicos e sociais próprios. As maneiras de cantar, dançar e construir uma carreira também mudam. O que permanece é a atuação das mulheres na manutenção, na renovação e na expansão do funk.

Tati Quebra Barraco ocupa uma posição decisiva nesse processo. Sua projeção nacional fez com que muitas pessoas passassem a associar a ela o início da presença feminina no gênero. Tamiris ressaltou, contudo, que Tati não foi a primeira. Mulheres já participavam dos movimentos de música negra do Rio e da história do funk muito antes daquele momento de maior visibilidade.


Reconhecer essa genealogia evita transformar a produção feminina em simples resposta ao trabalho dos homens. As funkeiras sempre foram propositivas: introduziram personagens, repertórios, danças e formas explícitas de falar sobre prazer. Mesmo numericamente minoritárias em setores da indústria, produziram mudanças de comportamento que ultrapassaram a cena musical.


Quatro dimensões para analisar o empoderamento

Tamiris organizou sua análise de músicas a partir de diferentes dimensões do empoderamento. Com base em autoras como Nelly Stromquist e Cecília Sardenberg, relacionou letras e performances a quatro grandes esferas.


A primeira, cultural e social, envolve reconhecimento, consciência crítica e pertencimento. A segunda reúne sexualidade e estética, incluindo o direito ao prazer, a relação com o próprio corpo e a contestação de padrões de beleza. A terceira abrange liderança e sororidade, observando como mulheres assumem posições de decisão e fortalecem outras mulheres. A quarta trata de independência financeira e mercado de trabalho.


Essas dimensões mostram que o empoderamento não acontece em um único campo. A possibilidade de cantar sobre sexo pode coexistir com a necessidade de controlar a própria carreira, receber de maneira justa, ocupar funções de liderança e interferir nas estruturas do mercado musical.


Ao analisar as músicas por esse conjunto de critérios, a pesquisadora procurou demonstrar como as funkeiras acionam diferentes formas de autonomia. A abordagem também evita reduzir o gênero a uma celebração abstrata da liberdade: as conquistas precisam ser relacionadas às condições materiais e às desigualdades enfrentadas por mulheres negras e periféricas.


Pesquisa também nasce fora da universidade

Na segunda exposição, Taísa Machado iniciou sua fala reivindicando outros espaços de formação. Atriz, dançarina, roteirista e curadora, ela se formou artisticamente no grupo teatral Tá na Rua, dirigido por Amir Haddad. O trabalho em um teatro sem arquitetura fixa, construído nas ruas por meio da música e do calendário da cidade, ampliou sua compreensão das linguagens artísticas.


Taísa cresceu na Pavuna, na Zona Norte do Rio, acompanhando os bailes organizados pelo pai. Em 2014, criou o Afrofunk Rio, inicialmente pensado como grupo de dança. A iniciativa se transformou em uma plataforma de experiências voltada ao movimento funk, com atenção às relações entre raça, gênero e território.


O projeto desenvolve treinos e oficinas de dança, eventos, circuitos de conversa, bailes e parcerias com outras organizações culturais. Taísa prefere falar em “treino” e “oficina”, em vez de aula, porque a proposta não é transmitir um repertório fechado. Os encontros funcionam como espaços de manutenção do corpo e troca de vivências por uma perspectiva afrocentrada e afrocarioca.


A pesquisa acontece coletivamente e se materializa em movimentos, textos, curadorias, roteiros e encontros. Parte dela é financiada diretamente pelas pessoas que compram ingressos e participam dos treinos. A experiência questiona a ideia de que só existe pesquisa quando há vínculo formal com um mestrado, um doutorado ou um laboratório universitário.


Como observou Andriolli Costa durante a mesa, a intelectualidade orgânica estuda continuamente aquilo que movimenta sua comunidade e devolve a ela o conhecimento produzido. Maria Paula acrescentou que Luiz Beltrão já reconhecia práticas semelhantes ao tratar trovadores e agentes populares como observadores e comunicadores de suas realidades.


O funk produz um mundo, não apenas músicas

Para Taísa, o funk carioca deve ser compreendido como um grande movimento artístico. Ele não se limita à música: produz léxico, moda, dança, comportamentos e maneiras próprias de pensar sexo, relacionamentos e vida social. Também se transforma ao encontrar outros gêneros e ao se desenvolver em diferentes estados brasileiros.

Essa amplitude levou Taísa a concentrar sua pesquisa no que denomina “ancestralidade do tamborzão”. O objetivo é reconhecer, no corpo e na sonoridade do funk carioca, heranças ligadas à afrorreligiosidade brasileira.


O tamborzão, consolidado entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, apresenta células rítmicas que podem ser aproximadas do maculelê e de outras expressões afro-brasileiras. As conexões, entretanto, vão além da batida. Aparecem na organização da festa, no humor, na sensualidade, na relação com o território e na maneira como o corpo ocupa o centro da experiência.


Taísa prefere falar em afrorreligiosidade brasileira, e não genericamente em “heranças africanas”, porque sua investigação parte de experiências concretas com religiões brasileiras de matriz africana. Essas tradições dialogam com diferentes filosofias e liturgias do continente africano, mas foram reelaboradas no Brasil e possuem histórias próprias.


O corpo como passagem entre tempos e mundos

Na cosmopercepção iorubá apresentada por Taísa, Aiê e Orum correspondem a dimensões diferentes da existência. O Aiê é o espaço material em que as pessoas vivem; o Orum reúne ancestrais, encantados e orixás. Música e dança possibilitam trânsitos entre esses mundos durante os rituais.


O corpo é o lugar em que som e movimento se encontram. Ele recebe cuidados, banhos, gestos e proteções e se relaciona com as forças da natureza. Também é capaz de alegria, prazer e manifestação do sagrado.


Essa forma de compreender a corporalidade ajuda a interpretar o protagonismo do corpo em manifestações da diáspora africana. Uma música pode narrar a violência da escravidão enquanto as pessoas dançam, sorriem e rebolam. A alegria não apaga a dor contada; ela oferece outro modo de atravessá-la e compartilhá-la.


No funk, essa inteligência corporal aparece especialmente nas danças criadas por mulheres. Taísa levantou uma pergunta fundamental: o que vem primeiro, a letra que ordena um movimento ou a mulher que inventa o passo na pista e inspira a composição? Para ela, frequentemente é a dançarina quem propõe o gesto. A música vem depois, registra e amplia aquilo que o corpo já criou.


O rebolado deixa, portanto, de ser mero acompanhamento. Ele produz linguagem, interfere na criação musical e comunica maneiras de viver a sexualidade e ocupar o espaço público.


Arquétipos femininos além da contenção do desejo

Taísa também relacionou a liberdade corporal das funkeiras às referências femininas presentes nas religiões de matriz africana. Diferentemente de modelos que associam a virtude feminina à negação da experiência sexual, os arquétipos cultuados nos terreiros apresentam mulheres que podem desejar, guerrear, cuidar, exercer poder e viver a maternidade.


Essas possibilidades permanecem ativas no “DNA preto” do funk, ainda que nem sempre sejam reconhecidas. O gênero reúne influências diversas e também convive com a presença expressiva de artistas e públicos neopentecostais. Em vez de uma identidade pura, forma-se um caldeirão cultural atravessado por tensões e combinações.

O trabalho do Afrofunk busca trazer à luz essas arquiteturas invisibilizadas. O riso, a sensualidade, o prazer, a roda, a festa e a centralidade do corpo aparecem em diferentes manifestações negras e encontram no baile um espaço privilegiado de atualização.


O baile como encruzilhada

Convidadas por Maria Paula a refletir sobre os encontros entre suas pesquisas, Taísa e Tamiris chegaram à mesma imagem: “A gente se encontra no baile”. A pista é a encruzilhada em que trajetórias acadêmicas, artísticas, religiosas e profissionais se cruzam.


Tamiris aproximou o funk carioca do trap produzido em Atlanta. Embora possuam sonoridades e estéticas próprias, os dois gêneros narram experiências de comunidades negras e pobres submetidas à violência, à desigualdade e à criminalização. O que o trap realizou em Atlanta encontra paralelos no que o proibidão já fazia no Rio de Janeiro.

Para compreender esses trânsitos, a pesquisadora recorreu à noção de amefricanidade de Lélia Gonzalez. O conceito permite observar a circulação de repertórios negros pelo continente sem apagar as particularidades de cada território. Funk e trap não são cópias um do outro: são linguagens locais que conversam dentro de uma experiência diaspórica mais ampla.


Taísa, por sua vez, encontrou no baile sensações que reconhecia de sua vivência no terreiro. Os espaços têm funções distintas, mas compartilham presença sonora, força coletiva e formas de comportamento que se tornam perceptíveis para quem atravessa ambos.


Um “jeito preto de falar” com a cidade

O funk não é produzido ou consumido exclusivamente por pessoas negras. Ainda assim, Taísa defendeu que sua arquitetura nasce de experiências negras, periféricas e afrorreligiosas. Qualquer pessoa pode fazer funk, mas a linguagem preserva características associadas ao território e à maneira como populações negras construíram formas de falar com a cidade.


Essa relação territorial transforma o funk em cronista. Vacinação, Copa do Mundo, conflitos políticos, violência policial, religião, trabalho e disputas sobre o espaço urbano podem rapidamente se tornar música. O gênero acompanha o cotidiano e comenta acontecimentos por uma perspectiva que frequentemente não encontra lugar nos meios tradicionais.


O proibidão intensifica essa função ao colocar no centro personagens e experiências rejeitados pela representação oficial. A explicitude das letras provoca desconforto, mas também registra conflitos vividos nas favelas e periferias. Taísa aproximou essas narrativas de cantos presentes na Umbanda e de outras expressões negras que relatam perseguições, confrontos com a polícia e experiências das ruas.


Essa leitura não elimina as contradições do gênero. Ela procura compreender por que determinadas músicas, bailes e corpos são mais perseguidos do que outros. Nem todo funk recebe a mesma rejeição do mercado ou da sociedade; a criminalização incide de maneira especialmente intensa sobre manifestações ligadas ao território favelado e ao proibidão.


Performance como enfrentamento político e epistemológico

Uma pergunta enviada pelo público propôs pensar a performance musical como forma de enfrentamento da colonialidade do saber e do som. Tamiris respondeu que o conhecimento reiterado pelo corpo pode transformar shows, danças, videoclipes e aparições públicas em intervenções políticas.


Artistas utilizam recursos cênicos e imagens para tornar visíveis experiências de racismo, repressão e criminalização. A performance permite traduzir simbolicamente violências que não caberiam em uma exposição puramente discursiva. O corpo não apenas ilustra uma mensagem: ele próprio argumenta.


No caso das funkeiras, dançar e cantar sobre prazer também confronta hierarquias epistemológicas. A experiência corporal passa a produzir conhecimento sobre gênero, desejo e território, contestando a ideia de que apenas a linguagem acadêmica seria capaz de interpretar essas questões.


Entre o baile e as plataformas

No encerramento, Tamiris foi questionada sobre uma possível gentrificação do funk no circuito dominante. Ela observou que as plataformas digitais reconfiguraram as fronteiras entre mainstream e underground. Músicas explícitas podem ocupar as primeiras posições dos serviços de streaming, enquanto artistas com forte presença nos bailes não aparecem necessariamente nas grandes playlists.


Esses circuitos não se excluem. Conectam-se, coexistem e às vezes entram em conflito. A visibilidade digital pode ampliar a circulação de determinadas vertentes, mas o baile continua comandando parte importante da criação, da legitimação e da economia do gênero.


Por isso, entender o funk apenas a partir das plataformas produz uma imagem incompleta. A música que chega às listas nacionais convive com uma rede de DJs, MCs, dançarinos, produtores e públicos que sustenta o movimento nos territórios.


Carnavalizar para colocar ordem no mundo

Ao concluir a mediação, Maria Paula Maciel retomou a aproximação entre funk e carnaval proposta por Taísa. As funkeiras oferecem uma licença semelhante à da festa carnavalesca: permitem experimentar personagens, sensualidades e liberdades que a ordem cotidiana procura controlar.


Na teoria da carnavalização, o mundo é colocado de cabeça para baixo e as hierarquias são temporariamente invertidas. Diante da violência que marcava o Rio naquele dia, Maria Paula sugeriu outra leitura. Ao discutir corpos negros, femininos, periféricos e funkeiros como produtores de saber, a mesa não estava desorganizando o mundo. Estava ajudando a recolocá-lo em ordem.


O encontro demonstrou que o corpo é folk porque guarda memória, cria linguagem e comunica experiências coletivas. No rebolado, na letra explícita, no tamborzão e na ocupação da pista, mulheres funkeiras transformam prazer em presença política — e a própria vida em conhecimento compartilhado.

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