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“Não se faz justiça climática sem justiça social”: Cicilia Peruzzo relaciona comunicação popular, ancestralidade e resistência na Folkcom 2025

10 de ago.
8 min de leitura

Em conferência, pesquisadora analisou as heranças coloniais presentes nas desigualdades brasileiras e destacou o papel das culturas populares na construção de alternativas ao modelo de desenvolvimento baseado na exploração das pessoas e da natureza



A justiça climática não pode ser pensada separadamente da justiça social. A afirmação sintetizou a palestra da professora e pesquisadora Cicilia M. Krohling Peruzzo durante a Folkcom 2025. Ao longo de sua exposição, ela relacionou as formas de comunicação produzidas por movimentos e comunidades às lutas contra desigualdades históricas, à defesa dos territórios e à busca por modelos de convivência que reconheçam os seres humanos como parte da natureza.


Uma das principais referências brasileiras nos estudos da comunicação popular, comunitária e alternativa, Peruzzo construiu sua reflexão a partir de um percurso que começou no próprio significado da palavra “popular”. Em seguida, examinou a permanência do patrimonialismo, do patriarcalismo e do racismo na sociedade brasileira, criticou o modelo desenvolvimentista e apresentou o bem viver e os valores ancestrais como horizontes para a construção de outras formas de existência.


Ao aproximar esses temas da comunicação, a pesquisadora mostrou como jornais comunitários, rádios, manifestações públicas, músicas, cordéis, estandartes, documentos, peças de teatro, reuniões e canais digitais participam dos processos de organização social. Mais do que divulgar informações, esses meios permitem que grupos historicamente subalternizados interpretem suas próprias experiências, denunciem violações e formulem respostas coletivas.


O popular como campo de disputa

Peruzzo iniciou a palestra lembrando que nem “povo” nem “popular” possuem um significado único. Povo pode designar o conjunto da população, as classes subalternizadas ou os grupos que preservam identidades e tradições históricas. No senso comum, por sua vez, popular costuma ser associado ao que é simples, barato, amplamente aceito ou consumido pelas camadas de menor renda.


No pensamento comunicacional latino-americano, porém, o termo também adquiriu um sentido emancipatório. Nessa perspectiva, a comunicação popular é vinculada às classes populares, aos setores minorizados e às suas formas de organização e luta.


A pesquisadora distinguiu três grandes dimensões do popular no campo da comunicação. O popular massivo aparece em produtos destinados a grandes audiências, como telenovelas, programas de auditório, atrações humorísticas e noticiários policialescos. O popular folclórico está relacionado às tradições, às identidades culturais e às manifestações transmitidas por diferentes gerações. Já o popular alternativo corresponde às práticas comunicacionais desenvolvidas por comunidades, movimentos sociais, coletivos, pastorais e outras organizações envolvidas em lutas por direitos.


Foi nessa terceira dimensão que Peruzzo concentrou sua apresentação. Ela empregou a expressão “comunicação popular, comunitária e alternativa” como uma categoria ampla, ligada aos processos de mobilização, organização e ação de setores da sociedade civil. Trata-se, segundo a pesquisadora, de uma comunicação de resistência, criada quando os meios convencionais não atendem às necessidades de expressão desses grupos.


Uma comunicação que educa pelo fazer

Embora práticas populares de comunicação existam há muito tempo, Peruzzo situou a conformação contemporânea desse campo nas mobilizações ocorridas durante a ditadura militar e no processo de redemocratização, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980. A educação popular de Paulo Freire, as comunidades eclesiais de base, a Teologia da Libertação e pastorais como a da Terra e a Operária contribuíram para formar esse ambiente.


Naquele período, jornais de pequena circulação, alto-falantes, panfletos e rádios estavam entre os principais recursos utilizados. Hoje, essas experiências atravessam sites, web TVs, redes sociais, aplicativos e outros espaços digitais. A mudança tecnológica, entretanto, não elimina uma característica fundamental: os canais e as linguagens são construídos de acordo com as necessidades e as condições de cada realidade.


Para Peruzzo, a comunicação popular não educa somente por aquilo que transmite. Ela também educa por meio da participação no próprio fazer comunicacional. Produzir uma notícia, participar de uma reunião, registrar uma denúncia ou ajudar a organizar uma manifestação são experiências que ampliam o conhecimento sobre direitos e sobre o funcionamento da sociedade.


Essa formação acontece no interior das lutas sociais, e não como uma ação isolada. Associações de bairros periféricos, coletivos de mulheres e jovens, movimentos negros, pequenos agricultores e populações atingidas por barragens ou desastres ambientais foram alguns dos exemplos apresentados. Nesses espaços, comunicar faz parte de um processo mais amplo de educação para a cidadania.


Heranças coloniais ainda organizam desigualdades

Ao discutir as raízes históricas dos problemas contemporâneos, Peruzzo destacou quatro heranças presentes na formação brasileira: patrimonialismo, patriarcalismo, racismo e ancestralidade. As três primeiras ajudam a explicar estruturas de concentração, violência e exclusão. A última preserva valores comunitários e formas de relação com a natureza que resistiram às tentativas de apagamento.


O patrimonialismo se manifesta na concentração da terra e do poder econômico, assim como na confusão entre interesses privados e públicos. Na política, aparece em práticas como coronelismo, nepotismo, apadrinhamento e acordos voltados ao favorecimento de grupos com maior capacidade de influência. Em contraposição, movimentos por reforma agrária e organizações quilombolas reivindicam o direito à terra e ao território.


O patriarcalismo sustenta hierarquias baseadas na pretensa superioridade masculina, com consequências na divisão do trabalho, nos salários, na ocupação de cargos de poder e na distribuição das tarefas domésticas. Também alimenta diferentes formas de violência contra mulheres e de discriminação contra pessoas LGBTQIA+. As lutas feministas e os movimentos pela diversidade sexual confrontam essas estruturas e produzem novos repertórios de organização e comunicação.


O racismo, por sua vez, prolonga a ideia colonial de superioridade europeia e branca. Mesmo diante das conquistas legais resultantes de décadas de mobilização do movimento negro, ele continua presente nas instituições, nas relações de trabalho, no acesso à educação, na violência de Estado e nas experiências cotidianas. Peruzzo ressaltou que raça, gênero e classe não atuam de forma separada: essas dimensões se combinam e aprofundam desigualdades.


Os limites de um desenvolvimento baseado no crescimento

Essas heranças se articulam a um modelo de desenvolvimento que identifica progresso com crescimento econômico e avanço tecnológico. Inspirada na experiência dos países industrializados, essa concepção levou nações periféricas a perseguirem um padrão assentado no extrativismo, no produtivismo, no consumo e na apropriação dos recursos naturais.


Com base na crítica de Celso Furtado, Peruzzo lembrou que esse modelo não superou o subdesenvolvimento. Ao contrário, contribuiu para a dependência econômica e política dos países periféricos e concentrou os benefícios do crescimento. Os meios de comunicação também participaram da difusão de valores favoráveis a essa ideia de progresso.


As consequências aparecem no aumento das desigualdades, na destruição dos ecossistemas, nas crises sanitárias e nas mudanças climáticas. A visão antropocêntrica, segundo a qual os seres humanos estariam separados da natureza e acima dela, transforma seus recursos em matéria disponível para uma exploração sem limites.


Propostas como ecodesenvolvimento, desenvolvimento humano, desenvolvimento participativo e desenvolvimento sustentável procuraram responder a essas contradições. Embora tenham inspirado políticas, leis e práticas importantes, Peruzzo observou que elas pouco alteram a estrutura do problema quando preservam o crescimento econômico como princípio inquestionável. A sucessão de conferências climáticas e compromissos internacionais evidencia, para a pesquisadora, tanto a importância do debate quanto a dificuldade de produzir mudanças profundas.


Ancestralidade e bem viver apontam outros futuros

Se patrimonialismo, patriarcalismo e racismo representam marcas destrutivas da colonização, a ancestralidade guarda formas de conhecimento baseadas no sentido do comum, no respeito à natureza e na complementaridade entre os seres. Para Peruzzo, esses valores sobreviveram a séculos de apagamento e hoje alimentam propostas capazes de questionar o modelo civilizatório dominante.


Entre as alternativas debatidas estão o decrescimento, o pós-desenvolvimento e o bem viver. Em vez de colocar a humanidade no centro e as demais formas de vida a seu serviço, o bem viver parte de uma perspectiva biocêntrica: todos os seres importam, porque a existência depende das relações entre pessoas, comunidades, territórios e ecossistemas.


O conceito recupera princípios presentes em diferentes culturas indígenas e africanas. Expressões como sumak kawsay, associada aos povos andinos, e ubuntu, de origem africana, enfatizam convivência, reciprocidade e pertencimento coletivo. Não se trata de copiar experiências do passado, mas de ressignificar conhecimentos ancestrais diante das crises atuais.


Peruzzo definiu esse movimento como a recuperação do “nós” e da Terra como bem comum. Pensar o futuro, nesse sentido, exige mudanças que ultrapassem a adaptação aos danos ambientais. É necessário transformar as condições econômicas, políticas, culturais e ideológicas que produzem continuamente esses danos.


Cultura e comunicação nas lutas por justiça climática

Na parte final da palestra, Peruzzo retomou o papel das culturas populares diante das emergências climáticas. Jornais, rádios comunitárias, cordéis, estandartes, músicas, místicas, documentos, teatro popular e marchas podem funcionar simultaneamente como meios de comunicação interna e como instrumentos para sensibilizar a sociedade e pressionar autoridades.


“A cultura é a raiz”, afirmou. Por isso, as fronteiras entre popular alternativo e popular folclórico frequentemente se cruzam: uma linguagem tradicional pode ser mobilizada para denunciar injustiças, enquanto uma ação política pode reafirmar identidades, memórias e valores culturais. A comunicação acompanha todo o processo, da formação nas comunidades à ocupação das ruas e das plataformas digitais.


A Marcha das Margaridas foi apresentada como exemplo dessa articulação. Criada em 2000 e inspirada na trajetória da trabalhadora rural e sindicalista Margarida Alves, a mobilização reúne mulheres do campo, da floresta, das águas e das cidades. A marcha nacional é o momento mais visível, mas resulta de um processo educativo e organizativo iniciado muitos meses antes nos municípios e nas comunidades.


Ao combinar o enfrentamento à violência contra as mulheres com a defesa da agroecologia, da soberania alimentar e dos territórios, a Marcha das Margaridas mostra como pautas históricas e emergentes se encontram. A questão climática amplia as lutas feministas sem substituir o combate ao racismo e ao patriarcado.


Peruzzo também citou a mobilização de mulheres na Chapada Diamantina contra impactos da mineração e de empreendimentos de energia eólica e solar. Embora as fontes renováveis sejam indispensáveis à transição energética, sua implantação pode reproduzir desigualdades quando ignora as populações locais, provoca desmatamento, afeta a biodiversidade, gera poluição sonora ou concentra os benefícios econômicos fora dos territórios.


Nesse contexto, ganhou força o lema “renovável, sim, mas não assim”. O Movimento dos Atingidos pelas Renováveis reivindica um modelo energético justo e popular, com participação das comunidades nas decisões. Entre as denúncias está o descumprimento do direito à consulta livre, prévia e informada, assegurado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho aos povos e comunidades tradicionais.


Para a pesquisadora, esses casos demonstram que a justiça climática precisa considerar quem sofre com as enchentes, as ondas de calor, a degradação ambiental e a implantação de grandes empreendimentos. As populações mais empobrecidas são frequentemente as mais atingidas, embora tenham contribuído menos para produzir a crise. “Não se faz justiça climática sem justiça social”, resumiu.


Comunicação popular e folkcomunicação se entrecruzam

No debate realizado após a palestra, Peruzzo foi questionada sobre a relação entre comunicação popular e folkcomunicação. Ela reconheceu a proximidade entre as duas perspectivas, especialmente quando manifestações culturais são acionadas por grupos subalternizados para denunciar problemas, reivindicar direitos e produzir sentidos próprios.


O cordel empregado em lutas sindicais é um exemplo desse encontro. Da mesma forma, expressões compreendidas como folkcomunicacionais podem conter dimensões de resistência, contestação e mobilização. A pesquisadora ponderou, entretanto, que os campos não devem ser tratados como equivalentes: “Não podemos dizer que é a mesma coisa, mas elas se cruzam em vários momentos”. Cada manifestação precisa ser compreendida em seu contexto.


A discussão também alcançou o uso do termo “marginalizados”, recorrente nos estudos de folkcomunicação. Peruzzo explicou que a palavra pode descrever grupos submetidos a condições desfavoráveis, mas não deve sugerir que eles estejam fora da sociedade. Favelas, periferias e populações subalternizadas integram plenamente as relações econômicas e culturais, ainda que ocupem posições desiguais.


Essa observação evita ainda uma visão idealizada das culturas populares. Esses espaços não são necessariamente progressistas nem permanentemente orientados à emancipação. Neles convivem resistência, acomodação, contradição e reprodução de valores dominantes. Por isso, a comunicação popular, comunitária e alternativa à qual Peruzzo se refere é aquela desenvolvida por setores organizados da sociedade civil em suas lutas por cidadania, e não toda comunicação produzida pelas classes populares.


Consciência, organização e ação

Outra questão do debate tratou dos processos de conscientização. Peruzzo rejeitou a ideia de que uma pessoa consciente simplesmente transmite sua visão a outra. A consciência se desenvolve na prática: ao participar de reuniões, organizações e mobilizações, os sujeitos interpretam as opressões que vivenciam, reconhecem direitos e constroem modos de agir.


Inspirada em Paulo Freire, a pesquisadora articulou consciência, organização e ação. A reflexão sobre a prática — a práxis — permite compreender a realidade com a intenção de transformá-la. Nesse percurso, a comunicação não é apenas ferramenta auxiliar, mas parte constitutiva da produção coletiva de conhecimento.


Ao encerrar a conferência, Peruzzo reconheceu a dimensão utópica das transformações apresentadas, sem tomar a utopia como sinônimo de impossibilidade. “A utopia abre caminhos para o novo pensar e atuar”, afirmou. Em um cenário marcado pela emergência climática e pela permanência de desigualdades coloniais, imaginar outros futuros torna-se também uma forma de começar a construí-los.

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