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“Nossas histórias culturais não são tão diferentes”: Cristian Yáñez situa a folkcomunicação na América Latina

10 de ago.
9 min de leitura

Na quarta aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, professor chileno aproximou as trajetórias da Comunicação e dos estudos do folclore no continente e defendeu ensino, traduções e pesquisas colaborativas para ampliar o diálogo latino-americano



O desenvolvimento dos estudos de Comunicação e das pesquisas sobre folclore na América Latina ocorreu durante muito tempo em caminhos paralelos. Enquanto o primeiro campo se concentrou nos grandes meios, em seus efeitos e em suas estruturas de poder, o segundo se dedicou às tradições populares sem necessariamente reconhecê-las como processos comunicacionais. A folkcomunicação surgiu justamente no espaço de encontro entre essas duas trajetórias.


Essa foi a perspectiva apresentada pelo professor da Universidad Austral de Chile e pesquisador da Rede Folkcom Cristian Yáñez Aguilar na quarta aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”. Ao percorrer experiências do Chile, do Brasil, do México e da Argentina, ele mostrou que as histórias culturais dos países latino-americanos possuem diferenças, mas também problemas e movimentos convergentes.


A leitura proposta por Yáñez ajuda a compreender a originalidade de Luiz Beltrão. Na década de 1960, quando grande parte da pesquisa em Comunicação atribuía aos meios de massa o papel principal no processo comunicacional, o pesquisador brasileiro encontrou nas manifestações populares formas próprias de produzir, interpretar e fazer circular informações. Décadas depois, a chamada virada cultural da Comunicação latino-americana aproximaria o campo de questões que já estavam presentes na folkcomunicação.


Mais do que reivindicar uma precedência cronológica, a aula convidou a reconstruir genealogias intelectuais e a colocar autores em diálogo. O objetivo é formar um repertório capaz de compreender a agência dos grupos populares, as relações de poder e as transformações das práticas culturais no continente.


Comunicação e folclore nasceram institucionalmente separados

Yáñez iniciou a exposição reconstruindo a formação dos dois campos. Os estudos de folclore começaram a se organizar no Chile e em outros países latino-americanos entre o fim do século XIX e o início do século XX, sob forte influência de instituições europeias. A Sociedade de Folclore Chileno, criada em 1909, foi uma das expressões desse processo.


Naquele período, a coleta de manifestações populares esteve muitas vezes associada ao nacionalismo, ao evolucionismo e a formas de colonialismo interno. Pesquisadores procuravam registrar costumes considerados destinados ao desaparecimento, mas podiam retirar objetos, narrativas e até pessoas de seus contextos comunitários para submetê-los à lógica de museus e arquivos. A cultura popular era tratada como vestígio do passado, e não necessariamente como experiência viva, capaz de produzir sentidos no presente.


Entre as décadas de 1940 e 1950, o folclore avançou em sua institucionalização dentro de organismos públicos. Paradoxalmente, esse reconhecimento foi acompanhado por uma redução de sua presença nas universidades. Parte do interesse pelas culturas populares permaneceu nos ambientes artísticos e educacionais, frequentemente abrigado sob expressões como cultura tradicional ou folclore.


O campo da Comunicação começou a conquistar maior autonomia na América Latina durante os anos 1960, em meio a políticas de modernização e desenvolvimento. A pesquisa voltou-se principalmente para a imprensa, o rádio, a televisão e outros meios de massa. As manifestações populares, embora continuassem produzindo comunicação no cotidiano, não ocupavam o centro dessas teorias.


Para Yáñez, essa separação institucional ajuda a explicar por que a aproximação proposta pela folkcomunicação demorou a ganhar maior circulação continental. A teoria de Beltrão nasceu no Brasil, mas enfrentou barreiras linguísticas, acadêmicas e políticas para participar dos debates de outros países latino-americanos.


Quando os meios pareciam ser os únicos agentes

As principais correntes da pesquisa em Comunicação daquele período eram diferentes entre si, mas compartilhavam uma limitação. De um lado, abordagens funcionalistas e quantitativas mediam audiências e buscavam identificar os efeitos dos meios sobre o público. De outro, perspectivas críticas examinavam a propriedade das empresas, a ideologia e as formas de dominação presentes nos conteúdos.


Em ambas, segundo a leitura apresentada na aula, a capacidade de ação era atribuída principalmente aos meios. As pessoas apareciam como destinatárias dos estímulos ou como grupos submetidos ao poder ideológico. Suas práticas culturais, suas interpretações e suas formas cotidianas de apropriação tinham pouco espaço.


No Chile, uma importante vertente crítica reuniu referências da Escola de Frankfurt, do estruturalismo e da semiologia. Um de seus trabalhos emblemáticos foi Para ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, que investigou as mensagens ideológicas presentes nos quadrinhos da Disney. O golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 interrompeu violentamente essa experiência intelectual. Pesquisadores foram perseguidos, partiram para o exílio ou passaram a atuar em organizações não governamentais.


Mesmo com contribuições decisivas para a crítica da mídia, a Comunicação ainda permanecia dependente de outras disciplinas e concentrada nos veículos. A vida cultural dos grupos populares continuava, em grande medida, fora de enquadramento.


Beltrão reconheceu a agência dos grupos populares

Foi nesse cenário que Luiz Beltrão buscou nos estudos do folclore instrumentos para formular uma teoria da Comunicação. Em trabalhos como “O ex-voto como veículo jornalístico”, publicado em 1965, o pesquisador identificou processos de informação e expressão em práticas que não eram reconhecidas pelos modelos centrados na mídia.

O passo foi decisivo porque não se limitava a acrescentar novos objetos a um catálogo.


A folkcomunicação reconhecia que grupos populares e marginalizados possuíam agência: produziam mensagens, construíam redes, reinterpretavam conteúdos e faziam circular opiniões por meio de linguagens enraizadas em suas experiências.

Yáñez observou que Beltrão formulou essa perspectiva enquanto a pesquisa comunicacional do continente ainda oscilava entre os efeitos da mídia e a denúncia ideológica. Em Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, publicado em 1980, a capacidade comunicativa dos sujeitos populares apareceu como fundamento de um campo teórico próprio.


O professor chileno não propôs transformar essa constatação em uma disputa para determinar quem chegou primeiro a cada conceito. A circulação das ideias depende do reconhecimento construído pelas comunidades acadêmicas, e uma formulação pioneira pode permanecer restrita durante décadas. Recuperar Beltrão significa compreender a potência de sua contribuição e inseri-la em uma história latino-americana mais ampla.


A década de 1980 recolocou a cultura no centro

Durante os anos 1980, a pesquisa em Comunicação passou a questionar mais diretamente o modelo que reduzia o processo aos emissores, às mensagens e aos efeitos. A cultura deixou de ser apenas pano de fundo e se tornou dimensão indispensável para entender a produção de sentidos.


Yáñez destacou Dos meios às mediações, publicado por Jesús Martín-Barbero em 1987. A obra deslocou o olhar dos conteúdos veiculados para as práticas culturais e as mediações que atravessam a recepção. O público já não poderia ser compreendido como massa homogênea: pessoas e grupos interpretam mensagens a partir de memórias, identidades, temporalidades, espaços de convivência e matrizes culturais.


Esse movimento também legitimou pesquisas qualitativas e etnográficas sobre recepção. Em vez de perguntar somente o que a mídia faz com as pessoas, tornou-se necessário investigar o que as pessoas fazem com aquilo que recebem e como integram esses conteúdos à vida cotidiana.


Outro marco foi Culturas híbridas, de Néstor García Canclini, que expandiu o debate para além da Comunicação e alcançou diferentes áreas das Ciências Humanas. Ao analisar encontros entre o tradicional, o moderno, o popular e o massivo, Canclini ofereceu ferramentas para escapar de divisões rígidas.


Para Yáñez, a leitura dessas obras ao lado da folkcomunicação revela convergências importantes. Beltrão já havia deslocado a atenção dos grandes meios para processos comunicacionais construídos por sujeitos populares. A chamada virada cultural não diminui seu pioneirismo; ao contrário, permite enxergar por que sua obra pode conversar com questões que ganhariam projeção continental posteriormente.


Outras genealogias também precisam ser recuperadas

A história do pensamento latino-americano não se resume aos livros que alcançaram maior circulação internacional. Yáñez chamou atenção para contribuições anteriores ou paralelas às obras que se tornaram canônicas, entre elas as pesquisas do mexicano Jorge González.


Influenciado pelo pensamento de Antonio Gramsci, González estudou feiras, ex-votos, festas populares, telenovelas e emissoras comunitárias. Nessa abordagem, o popular não é definido exclusivamente pela origem de uma manifestação nem por uma essência imutável. Seu sentido depende dos usos realizados pelas classes subalternas e das relações estabelecidas com os grupos dominantes.


Essa perspectiva evita dois extremos. O primeiro é tratar a cultura popular como um universo puro e isolado; o segundo é pressupor que toda prática popular constitui resistência. As relações culturais são contraditórias, atravessadas por apropriações, negociações, consensos e disputas.


Em Sociologia das culturas subalternas, González combinou entrevistas, etnografia, pesquisa-ação, reconstrução histórica e análise dos sistemas simbólicos. Embora sua produção seja conhecida no México e tenha encontrado leitores no Brasil, ela não circulou com a mesma intensidade em países como o Chile. Para Yáñez, recuperar esses trabalhos é uma maneira de ampliar as genealogias da Comunicação no continente.


É preciso compreender as condições culturais da escuta

Um exemplo apresentado na aula sintetizou a importância de entrar em campo sem impor categorias prévias. Em uma experiência com rádio comunitária na região da Sierra Madre, no México, um projeto educativo esperava trabalhar narrativas infantis e canções politicamente engajadas. Os moradores, no entanto, demonstraram preferência pela cumbia popular de Chico Che.


A diferença não deveria ser interpretada como falta de consciência ou como desvio de um repertório cultural considerado correto. Ela revelava um limite do próprio projeto, que não havia compreendido as práticas, os desejos e as condições culturais de escuta daquela comunidade.


Com esse tipo de pesquisa, González formulou a noção de “frentes culturais”: zonas de contato entre culturas, classes e grupos diferentes, nas quais os sentidos são disputados. Uma festa, uma narrativa ou um produto midiático pode funcionar simultaneamente como espaço de identificação coletiva, negociação e conflito simbólico.


Para analisar essas frentes, não basta isolar o conteúdo de uma mensagem. É preciso realizar descrição densa, reconstruir processos históricos e observar as relações sociais que permitem a determinada prática adquirir sentido. A contribuição aproxima-se da folkcomunicação porque devolve aos grupos sua capacidade de escolher, interpretar e transformar aquilo que circula.


Performance cria uma ponte com os estudos contemporâneos do folclore

Yáñez também apresentou um movimento de renovação ocorrido dentro dos estudos folclóricos. A partir dos anos 1980, pesquisadoras e pesquisadores argentinos aproximaram antropologia, semiótica e teorias da performance desenvolvidas nos Estados Unidos. Entre os nomes destacados estiveram Marta Blache e Fernando Fischman, em diálogo com autores como Américo Paredes, Richard Bauman e Charles Briggs.


Nessa perspectiva, manifestações expressivas são compreendidas como acontecimentos comunicacionais. A performance não corresponde apenas a uma apresentação artística formal: é um modo marcado de comunicação diante de uma audiência, no qual participantes acionam repertórios, constroem relações e atribuem valor ao que fazem.


Conceitos como entextualização e recontextualização ajudam a perceber como um discurso, uma música, uma narrativa ou um gesto pode ser retirado de uma situação e inserido em outra, adquirindo novos sentidos. Em vez de procurar somente a preservação de uma forma original, a pesquisa acompanha circulação, mudança e uso social.


Essa renovação abre um caminho de diálogo entre a folkcomunicação, os estudos de Comunicação e Cultura e os estudos contemporâneos do folclore. Yáñez citou como exemplo o livro Comunicação e Folclore, que reuniu trabalhos sobre performance e textos de pesquisadores brasileiros ligados à folkcomunicação. Os objetos e perguntas dos dois campos são altamente convergentes porque, em ambos, a dimensão comunicacional é indispensável.


Inteligência artificial não elimina a capacidade de criar sentidos

Durante o debate posterior à aula, a presença crescente da inteligência artificial provocou uma pergunta sobre o futuro do folclore. Yáñez relacionou a questão a um temor recorrente na história dos estudos folclóricos: desde os primeiros registros, pesquisadores anunciam o desaparecimento iminente de manifestações populares. Mais tarde, a globalização também foi apresentada como uma força que as apagaria.

Para o professor, as transformações tecnológicas exigem pesquisa séria, tanto nas universidades quanto na vida social, mas não significam o fim da agência cultural. Novas formas de sociabilidade e novas relações de poder surgirão, e será necessário acompanhá-las criticamente. A capacidade humana de significar, cantar, dançar, narrar e expressar-se não desaparece com a chegada de uma tecnologia.


O desafio está em compreender como os recursos são apropriados e convertidos em práticas locais. Yáñez mencionou uma pesquisa própria sobre um instrumento musical originário dos Estados Unidos que foi incorporado por um povo indígena, recebeu outro nome e passou a desempenhar funções específicas naquele contexto. O estudo exigiu aproximar Comunicação, semiótica e etnomusicologia para acompanhar o instrumento desde o rito até o festival folclórico.


O exemplo reforça que circulação não equivale a reprodução passiva. Comunidades selecionam, nomeiam, adaptam e recriam elementos externos. A Comunicação pode contribuir justamente ao estudar os vínculos, as situações e as disputas que tornam essas apropriações possíveis.


Uma agenda latino-americana para a folkcomunicação

Ao ser perguntado sobre o que seria necessário para consolidar a folkcomunicação no Chile e em outros países de língua espanhola, Yáñez indicou quatro frentes: formação, circulação de textos, encontros e pesquisas conjuntas.


O ensino é uma porta de entrada porque obriga a teoria a conversar com manifestações de cada território. Ao levar a folkcomunicação para cursos de graduação e pós-graduação, docentes e estudantes podem testá-la diante de práticas chilenas, argentinas, mexicanas e de outros contextos latino-americanos.


A tradução de obras fundamentais para o espanhol também é necessária, desde que os textos sejam apresentados em seus contextos. Uma leitura hermenêutica permite tratá-los não apenas como documentos históricos, mas como trabalhos capazes de responder a perguntas do presente.


Encontros internacionais ajudam a formar redes, mas precisam ser acompanhados por investigações colaborativas. Ao ler pesquisas publicadas no campo, Yáñez identifica fenômenos semelhantes em diferentes países. Compará-los pode produzir conhecimento que nenhum estudo nacional alcançaria isoladamente.


A aula terminou, assim, com um convite para atravessar fronteiras disciplinares, linguísticas e nacionais. Folkcomunicação, estudos de performance, Comunicação e Cultura, antropologia e folclore não precisam perder suas especificidades para dialogar. Juntos, esses repertórios permitem compreender práticas socioculturais comuns e reconhecer a criatividade comunicacional de grupos historicamente colocados à margem.


Nesse mapa, a folkcomunicação ocupa um lugar estratégico. Nascida da experiência brasileira, ela oferece ao continente uma teoria capaz de reunir mídia, cultura popular, relações de poder e agência. Sua expansão depende agora de um trabalho igualmente latino-americano: traduzir, ensinar, pesquisar e produzir em cooperação.

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