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“Futuro ancestral é aquele em que podemos continuar sonhando”, afirma Renato Noguera na Folkcom 2025

10 de ago.
9 min de leitura

Em palestra magna na UFF, filósofo relacionou cosmofilia, ancestralidade, florestania e partilha dos sonhos à construção de comunidades capazes de enfrentar a violência e disputar outros modos de viver



Um futuro ancestral não é simplesmente a repetição do passado. É um futuro no qual as pessoas ainda conseguem sonhar, compartilhar seus sonhos e construir coletivamente condições para que a vida continue. Essa foi a ideia central apresentada pelo filósofo Renato Noguera na palestra magna que encerrou o ciclo de conferências da Folkcom 2025.


Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e coordenador do Grupo de Pesquisa Afroperspectivas, Saberes e Infâncias, Noguera aproximou filosofia, estudos contracoloniais, culturas africanas e indígenas, psicologia e neurociência para responder à provocação que orientou o evento: quais raízes do presente podem ajudar a criar futuros ancestrais?


Ao longo da exposição, o pesquisador contrapôs cosmofobia e cosmofilia, questionou a hegemonia da visão em uma sociedade tomada por telas e propôs recuperar experiências presenciais em que seja possível escutar, saborear, tocar, descansar e narrar sonhos. No debate com o público, ampliou a reflexão para temas como esperança, disputa do imaginário, comunicação, ciência contracolonial e florestania.


Cosmofobia: quando o medo organiza a sociedade

Noguera iniciou sua reflexão com três questões filosóficas: como nos relacionamos com o mundo, conosco e com as outras pessoas? Para respondê-las, retomou duas noções trabalhadas por Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo: cosmofobia e cosmofilia.


A cosmofobia descreve formas de organização cultural em que o medo se torna o afeto predominante. São sociedades que constroem muralhas, mantêm exércitos permanentes e organizam a convivência a partir da ameaça. Na leitura apresentada pelo filósofo, esse imaginário também se apoia na crença de que existem poucos recursos para muitas pessoas.


Se não há o suficiente para todos, grupos mais fortes passam a considerar legítimo controlar territórios e administrar recursos de maneira hegemônica. A guerra deixa de ser uma exceção e se instala como princípio de organização. Para Noguera, essa lógica está presente tanto no colonialismo quanto em sistemas de opressão como racismo, patriarcado, heteronormatividade e exploração da classe trabalhadora.


Dialogando com a teoria polivagal, o pesquisador afirmou que ambientes organizados pelo medo tendem a produzir respostas de paralisia, luta ou fuga. Os conflitos inevitáveis da convivência passam a ser resolvidos pelo emprego excessivo da força, enquanto a raiva e a insegurança são mobilizadas politicamente para justificar novas formas de controle.


Noguera também chamou atenção para o que denominou “ideologia da tribo eleita”: a crença de que apenas determinados grupos seriam merecedores de salvação, proteção ou acesso a uma vida plena. Quando transportada para a política e para as relações sociais, essa imagem divide o mundo entre escolhidos e condenados e alimenta disputas permanentes.

Cosmofilia e outras maneiras de perceber o mundo

Em contraposição, a cosmofilia não significa ausência de medo, conflito ou fronteiras. Significa que o medo deixa de ser o princípio que organiza todas as relações. Em vez de eliminar diferenças pela força, uma cultura cosmofílica busca compartilhar territórios, reconhecer limites e criar meios de resolver conflitos sem destruir o outro.

Para desenvolver essa ideia, Noguera recorreu à noção de cosmopercepção, associada ao trabalho da pesquisadora nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí. O conceito ajuda a questionar a centralidade da expressão “visão de mundo”, tão comum no pensamento ocidental. A realidade não é acessada apenas pelos olhos: há também audição, tato, paladar, olfato, movimento e diferentes combinações entre os sentidos.

Noguera observou que culturas iorubás atribuem grande importância ao sabor como forma de conhecer. Essa herança permanece em expressões correntes no Brasil: alguém pode ser “doce”, “amargo” ou “azedo”. Mais do que figuras de linguagem, essas palavras revelam um modo de interpretar pessoas e relações por meio do paladar.


Falar em futuros ancestrais, portanto, exige romper com a ideia de que só existe uma maneira legítima de perceber e explicar o mundo. A diversidade epistemológica começa também no corpo e nos sentidos que foram desvalorizados pela tradição moderna.


A epidemia de telas e a crise do sonho

A hegemonia da visão ganha uma dimensão particular em uma sociedade cercada por telas. Noguera descreveu o presente como um período de “epidemia de telas”, marcado pela hiperestimulação, pela redução do tempo livre e pela crise do sono. O ritmo da produtividade afasta as pessoas dos ciclos do corpo e da natureza.


O diagnóstico dialoga com estudos sobre o sono e com a crítica à sociedade do cansaço. Quando o ser humano é tratado como máquina produtiva, descansar parece perda de tempo. Dormir, brincar, contemplar e conversar deixam de ser experiências fundamentais e passam a ser vistos como obstáculos ao desempenho.


Nesse cenário, Noguera apresentou sua principal hipótese: é necessário recriar espaços presenciais para contar sonhos. A proposta não se resume à interpretação individual do conteúdo sonhado. Trata-se de restaurar uma prática comunitária por meio da qual medos, desejos, conflitos e possibilidades possam ser acolhidos e elaborados coletivamente.


Ancestralidade, nessa perspectiva, não é uma palavra decorativa nem uma identidade congelada. Retomando uma reflexão de Sobonfu Somé, Noguera associou o ancestral àquele a quem se pede ajuda quando os recursos materiais parecem insuficientes. A ancestralidade oferece apoio espiritual, memória e orientação para enfrentar problemas que não podem ser resolvidos apenas pela técnica.


Escutar rios, árvores e pedras

Outro conceito mobilizado na palestra foi o polidiálogo: a capacidade de estabelecer diálogo não apenas com seres humanos presentes, mas também com ancestrais e viventes de outras espécies. Povos tradicionais que pedem licença antes de entrar em uma mata, tocar uma árvore ou mergulhar em um rio não estão realizando um gesto vazio. Reconhecem que aquele território possui existência, ritmo e agência próprios.

Noguera lembrou que diferentes culturas tratam rios como pessoas e lhes atribuem nomes próprios. Para o povo Krenak, o Watu — o rio Doce — é um avô. Alterar violentamente o curso de um rio, nessa cosmopercepção, equivale a ferir um integrante da comunidade.


O filósofo recuperou ainda uma história narrada por Ailton Krenak sobre um antropólogo que aguardava para falar com uma mulher indígena. Incomodado com a demora, ele foi informado de que ela estava conversando com uma pedra. A cena desloca a compreensão moderna de comunicação: a pedra não é um objeto inerte situado fora da comunidade, mas uma presença que também pode ser escutada.


Essa ampliação do diálogo está no centro de uma cosmopolítica que inclui a natureza. Decisões sobre território, clima e formas de ocupação precisam considerar os seres presentes, aqueles que vieram antes e os que ainda nascerão.


Ancestralidade, presença e futuridade

Noguera propôs pensar três dimensões temporais da comunidade. A ancestralidade reúne aqueles que já tiveram existência material. A presença corresponde aos seres que habitam o mundo agora. A futuridade diz respeito àqueles que ainda não possuem corpo, mas poderão existir e receberão as consequências das decisões tomadas no presente.


Construir uma política comprometida com a continuidade da vida exige conversar simbolicamente com essas três temporalidades. É necessário escutar os conhecimentos de quem veio antes, considerar os seres humanos e não humanos que compartilham o território atual e assumir responsabilidade por quem ainda chegará.


O futuro ancestral surge justamente desse encontro. Não é um retorno idealizado a tempos anteriores, mas a criação de condições para que saberes, relações e formas de vida atravessem gerações. “É necessário ouvir quem virá”, afirmou o pesquisador.


Ubuntu e a responsabilidade de compartilhar o território

O princípio africano do ubuntu foi apresentado como uma tecnologia cultural capaz de ajudar nessa construção. Uma de suas traduções mais conhecidas afirma: “Eu sou porque nós somos”. Noguera prefere uma formulação mais extensa: “Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.


Isso não obriga ninguém a amar todas as pessoas da mesma maneira, nem elimina divergências. O ubuntu reconhece que a existência individual depende de relações e que compartilhar um território exige negociar limites, enfrentar conflitos e estabelecer respeito.


A cosmofilia, portanto, não deve ser confundida com uma convivência sem tensões. Seu desafio é criar comunidades em que as vulnerabilidades possam aparecer sem se converterem em motivo de violência ou humilhação. Segurança psicológica, intimidade e mediação simbólica tornam-se condições para organizar faltas, desejos e desacordos.

Em vez de buscar um único espaço capaz de reunir tudo, Noguera defendeu a multiplicação de territórios habitáveis, conectados entre si e conscientes das realidades às quais pertencem. A diversidade precisa existir não apenas como discurso, mas na organização concreta do tempo, do trabalho, da cultura e das relações.


Compartilhar sonhos como prática comunitária

Na conversa com o público, a proposta de partilhar sonhos foi relacionada a tradições indígenas, à psicologia e às experiências de diferentes comunidades. Entre povos Yanomami, por exemplo, os sonhos podem orientar deslocamentos, caçadas e decisões coletivas. Aquilo que se sonha não fica necessariamente restrito à intimidade individual.

Noguera sugeriu que famílias, escolas e comunidades experimentem cadernos de sonhos e encontros periódicos para narrá-los. A prática exigiria cuidado: sonhos e pesadelos podem revelar conflitos, angústias e situações que precisam de mediação.


Por isso, o compartilhamento deve acontecer em territórios de intimidade e respeito.

As redes sociais, observou, frequentemente transformam a intimidade em cena pública. Casais exibem refeições, viagens e rotinas até que quase não reste tempo fora da gravação. A exposição permanente enfraquece a fronteira entre vida privada e performance, justamente quando se tornam mais necessários espaços protegidos de escuta.


Para o filósofo, uma sociedade que esquece seus sonhos torna-se mais propensa a resolver problemas pela violência. Sonhar e contar o sonho funcionam, assim, como exercícios de imaginação, elaboração emocional e construção de comunidade.


Esperança depende de territórios habitáveis

Questionado pela professora Júnia Martins sobre onde buscar esperança diante da violência e do racismo, Noguera respondeu que ela não pode depender apenas de uma disposição individual. É preciso criar mais territórios habitáveis: espaços onde outras formas de desejar, conviver e interpretar a vida consigam existir.


A comunicação ocupa uma posição estratégica nessa disputa. Grupos extremistas contam com algoritmos, corporações e poder econômico para difundir mensagens baseadas no medo, na raiva e na fantasia de que somente os mais fortes merecem sobreviver. Ainda assim, existem fissuras nas quais podem circular outras imagens e outros projetos de mundo.


Comunicar, para Noguera, também significa ampliar o imaginário. As plataformas costumam apresentar riqueza, juventude, beleza padronizada e sucesso individual como destinos universais. Corpos e rostos tornam-se cada vez mais parecidos, enquanto muitas pessoas passam a perceber a si mesmas pela falta.


Disputar o desejo é afirmar que existem outras maneiras de realizar a vida. Não se trata de negar a autonomia de quem deseja modificar o próprio corpo, mas de questionar as pressões que determinam quais corpos podem ser considerados belos, desejáveis ou bem-sucedidos.


Nesse ponto, Noguera recordou um diálogo com Nêgo Bispo. Ao ser perguntado se era um influenciador, o pensador quilombola respondeu que era uma “confluência”. A diferença é significativa: influenciar sugere indicar ao outro o caminho que deve seguir; confluir pressupõe encontrar correntes distintas, produzir aproximações e preservar diferenças.


Florestania contra a monocultura do imaginário

Ao discutir como superar o imaginário moderno da eficiência, Noguera apresentou a noção de florestania. Em contraste com uma cidadania organizada prioritariamente a partir da cidade e centrada nos seres humanos, a florestania propõe uma política que inclua florestas, rios, animais, plantas e diferentes formas de conhecimento.


A floresta oferece uma imagem oposta à monocultura. Nela, espécies diversas podem crescer próximas, estabelecer relações e sustentar umas às outras. Transferida para a política, essa imagem reivindica diversidade radical de corpos, saberes, modos de vida e ocupações do território.


Em uma formulação deliberadamente provocadora, Noguera associou a escala de trabalho 6×1 ao imaginário de uma humanidade que deseja imitar um deus onipotente: trabalhar durante seis dias e descansar apenas um. A florestania exigiria diminuir a colonização do tempo e reconhecer descanso, brincadeira, cultura e convivência como dimensões indispensáveis da vida.


O filósofo chegou a propor a radicalização do debate: em lugar de apenas encerrar a escala 6×1, imaginar três dias de trabalho e quatro de descanso. A proposta funciona também como exercício de alargamento do possível. Se projetos autoritários anunciam transformações antes consideradas impensáveis, forças democráticas também precisam formular futuros ousados.


Noguera ressignificou ainda “preguiça” e “malandragem” como tecnologias culturais de resistência à exploração do trabalho. Aquilo que o colonizador nomeou como preguiça podia expressar a escuta dos limites do corpo. A malandragem, em contextos de exploração, podia representar a tentativa de impedir que todo o tempo fosse apropriado pelo trabalho.


Uma ciência contracolonial precisa perguntar quem enuncia

O debate também abordou as dificuldades de produzir conhecimento contracolonial dentro da universidade. Noguera afirmou que não basta acrescentar novos autores a um sistema científico que continua organizado pelas mesmas relações de poder. É necessário discutir capital e trabalho, racismo, patriarcado e os critérios que definem quais vozes recebem legitimidade.


Para ilustrar, relatou uma experiência em que apresentações com conteúdos semelhantes receberam avaliações diferentes conforme quem ocupava o lugar de autoridade. O enunciado não circula separado do enunciador: raça, gênero, origem e prestígio interferem na recepção, ainda que o ideal científico costume ocultar essas marcas.


Uma ciência contracolonial precisa reconhecer saberes produzidos pela experiência, pelos sentidos e pelos territórios. Conversar com uma pedra ou compreender um rio como parente pode parecer inútil segundo critérios acadêmicos convencionais. No entanto, essas práticas oferecem modos de relação capazes de questionar a transformação da natureza em simples recurso.


A mudança epistemológica exige também enfrentar a fantasia narcísica de reconhecer valor apenas no que se parece conosco. Em oposição à monocultura, a florestania propõe aprender a conviver com aquilo que não devolve o mesmo reflexo.

Reflorestar o imaginário para continuar sonhando


Ao encerrar a palestra, Noguera retomou a relação entre sofrimento, violência e cuidado. A partir do filme Kirikou e a Feiticeira, lembrou que a personagem Karabá oprime porque também carrega uma dor. A constatação não elimina a necessidade de conter quem ameaça outras vidas, mas mostra que comunidades precisam produzir formas coletivas de cuidado e enfrentar culturas organizadas pelo adoecimento.


Viver com o outro não exige pensar da mesma forma nem criar uma sociedade composta por pessoas semelhantes. Exige reconhecer vulnerabilidades, estabelecer limites e recusar a banalização da vida. Uma comunidade cosmofílica não apaga conflitos: desenvolve meios para atravessá-los sem transformar diferença em extermínio.


Na avaliação de Andriolli Costa, coordenador da Folkcom 2025, a palestra “reflorestou imaginários” ao encerrar uma conferência dedicada às raízes do presente e aos futuros ancestrais. A expressão resume o movimento proposto por Noguera: substituir a monocultura do medo e da produtividade por uma floresta de sentidos, tempos, corpos e sonhos.


“Futuro ancestral é aquele futuro em que a gente pode continuar sonhando e compartilhando o sonho”, afirmou o filósofo. Preservar essa possibilidade talvez seja uma das tarefas mais urgentes da comunicação, da política e da vida em comum.

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