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Folkcomunicação para exportação: Jack Draper III aproxima Brasil e Estados Unidos

10 de ago.
10 min de leitura

Na quinta e última aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, pesquisador relacionou a teoria brasileira aos estudos culturais latino-americanos e apresentou diálogos com o forró, o cinema, o futebol e a diáspora africana


A folkcomunicação pode ser uma “teoria de exportação” brasileira. A formulação foi apresentada pelo professor Jack A. Draper III, da University of Missouri, na quinta e última aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”. Inspirada na ideia modernista de uma poesia de exportação, a expressão sintetiza a possibilidade de uma teoria criada no Brasil explicar fenômenos culturais e comunicacionais em outras partes do mundo.


Draper é professor de Português e Estudos Culturais Brasileiros nos Estados Unidos e pesquisa cultura popular, música, cinema, esporte, emoções e identidades regionais. Sua formação não incluiu originalmente a folkcomunicação. Quando conheceu o campo, há cerca de oito anos, percebeu que muitas de suas investigações já tratavam de questões próximas às propostas de Luiz Beltrão e de pesquisadores que ampliaram a teoria.


O encontro levou-o a reler trabalhos sobre o forró e a migração nordestina, a presença das mulheres no cinema, a saudade, o cangaço, o racismo no futebol e as culturas do Norte do país. Em todos esses objetos, havia agentes populares disputando representação, inserindo linguagens regionais nos meios de massa e construindo formas de pertencimento.


A aula propôs um diálogo de mão dupla. A folkcomunicação pode ganhar maior circulação internacional ao aproximar-se dos estudos culturais latino-americanos, já consolidados como área de pesquisa nas universidades estadunidenses. Ao mesmo tempo, pode incorporar desses estudos ferramentas para refletir sobre hegemonia, subalternidade, diáspora e a posição ocupada pelo próprio pesquisador.


O Brasil ainda disputa espaço nos estudos latino-americanos

Draper iniciou a exposição reconstruindo sua trajetória acadêmica. Na graduação em Literatura Comparada, na University of California, Berkeley, aproximou-se das literaturas da América Latina, incluindo o Brasil. Posteriormente, realizou o doutorado na Duke University, na Carolina do Norte, em um programa interdisciplinar de estudos culturais latino-americanos.


Os chamados estudos de área ganharam força nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, quando universidades passaram a investir no conhecimento sistemático de outras regiões do planeta. A América Latina tornou-se uma dessas áreas, reunindo pesquisas de História, Sociologia, Antropologia, Literatura, Política e Cultura.

Nas décadas de 1980 e 1990, os estudos culturais latino-americanos consolidaram-se como um subcampo interdisciplinar. Sua produção passou a articular teorias elaboradas na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa para analisar relações entre cultura, identidade, poder e representação.


Apesar dessa abertura, o Brasil ocupa uma posição desigual. A maior presença da língua espanhola e das populações hispânicas nos Estados Unidos faz com que muitos programas se concentrem nos países hispanofalantes. Departamentos dedicados exclusivamente ao português ou aos estudos brasileiros são raros, e o país costuma aparecer como um complemento dentro de estruturas voltadas prioritariamente à América Hispânica.


Draper assumiu como parte de seu trabalho acadêmico ampliar a visibilidade da história e da cultura brasileiras. Essa inserção precisa considerar o Brasil não apenas dentro da América Latina, mas também em relação à diáspora africana e ao mundo de língua portuguesa.


Um pesquisador da folkcomunicação antes de conhecer o campo

A aproximação formal de Draper com a folkcomunicação começou a partir de um convite da professora Maria Érica de Oliveira Lima para participar de um evento acadêmico. Ao conhecer a teoria e estabelecer contato com pesquisadores brasileiros, ele percebeu que seu primeiro livro já poderia ser lido sob uma perspectiva folkcomunicacional.


Publicado originalmente em inglês e depois no Brasil, Forró e o regionalismo redentor do Nordeste brasileiro: música popular em uma cultura de migração examina a história do gênero e sua participação na construção de uma imagem do Nordeste.

O estudo dialogava com Literatura, História, Sociologia, Etnomusicologia, estudos migratórios e teorias da cultura. Ainda que não utilizasse inicialmente o vocabulário da folkcomunicação, investigava como artistas populares representavam grupos marginalizados, atravessavam fronteiras regionais e disputavam espaço no sistema midiático nacional.


Depois desse primeiro contato, Draper passou a participar de encontros da Rede Folkcom, publicações coletivas e projetos de internacionalização. Tornou-se também um dos autores de The Folk Communication Theory, primeiro livro dedicado à apresentação sistemática da teoria em língua inglesa.

Para o professor, a publicação pode ampliar o diálogo com estudantes e pesquisadores que não leem português. A internacionalização, no entanto, não deve apagar a origem da teoria. Seu potencial está justamente em apresentar ao mundo uma resposta formulada a partir da experiência histórica e cultural brasileira.


Uma teoria brasileira de exportação

Ao definir a folkcomunicação como “teoria de exportação”, Draper retomou a proposta modernista de produzir uma poesia capaz de representar o Brasil para além de suas fronteiras. A expressão não significa transformar a teoria em mercadoria nem aplicá-la mecanicamente a qualquer sociedade.


Trata-se de reconhecer que o Brasil produziu uma abordagem original para compreender como grupos populares e marginalizados criam mensagens, formam redes, negociam com os meios de massa e interferem na vida social. Essas perguntas podem ser levadas a outros territórios, desde que reinterpretadas diante de cada contexto.


Na América do Norte, um dos caminhos de entrada estaria nos estudos culturais latino-americanos. Os dois campos compartilham o interesse pela relação entre culturas hegemônicas e subalternizadas, pela política da representação e pelas disputas que atravessam os sistemas midiáticos.


Os estudos culturais também investigam como práticas locais se relacionam com processos globais. Draper recuperou uma formulação de Néstor García Canclini segundo a qual uma abordagem interdisciplinar combina a perspectiva ampliada da Sociologia com a atenção antropológica às comunidades e ao cotidiano. Esse movimento entre global e local também aparece em diferentes pesquisas de folkcomunicação.


Outra aproximação está entre a noção gramsciana de intelectual orgânico e a figura do ativista midiático proposta por Osvaldo Trigueiro. Ambas ajudam a compreender sujeitos que atuam como intérpretes de suas comunidades, organizam conhecimentos, ocupam espaços de visibilidade e disputam sentidos diante de estruturas dominantes.


Quem é excluído dos sistemas de poder?

Se os campos possuem convergências, Draper argumentou que também podem aprender um com o outro. Uma das contribuições dos estudos culturais latino-americanos está em seu diálogo com os estudos subalternos, desenvolvidos inicialmente na Índia e posteriormente apropriados por pesquisadores de outras regiões.


Essa tradição pergunta quais sujeitos, discursos e ideologias são constituídos como exclusões dos sistemas políticos, econômicos e culturais. Em vez de tratar a hegemonia apenas como aquilo que ocupa o centro, torna-se necessário observar quem é deixado de fora para que esse centro possa existir.


A pergunta interessa diretamente à folkcomunicação. Meios nacionais podem ignorar determinadas regiões; instituições esportivas podem incorporar jogadores negros sem abrir espaço equivalente para treinadores e dirigentes; produções culturais podem apresentar personagens femininas sem modificar as relações de poder atrás das câmeras.


Os processos de inclusão também não acontecem de uma vez por todas. Um grupo pode conquistar visibilidade em determinado nível e permanecer marginalizado em outro. Por isso, a pesquisa precisa acompanhar movimentos históricos, contradições e limites das representações produzidas.


Representar o outro exige autocrítica

Durante a aula e o debate, o ensaio “Pode o subalterno falar?”, de Gayatri Chakravorty Spivak, ofereceu uma referência para discutir a posição do pesquisador. A tentativa de “dar voz” a grupos marginalizados pode repetir a desigualdade quando o intelectual fala em nome deles e se apresenta como intérprete definitivo de suas experiências.


Draper relacionou essa crítica ao trabalho da folkcomunicação. O campo pode reconstruir as tentativas realizadas por grupos populares para participar de sistemas midiáticos desiguais e analisar seus processos de autorrepresentação. A tarefa não consiste em substituir essas vozes.


Quando vem de fora da comunidade estudada, o pesquisador precisa explicitar a própria posição, reconhecer os poderes envolvidos na relação e refletir sobre os limites de sua capacidade de representar o outro. A transparência e a consciência da própria localização tornam-se parte do método.


Essa exigência é especialmente importante em uma teoria dedicada a grupos historicamente marginalizados. A folkcomunicação não deve apenas ampliar o catálogo de objetos acadêmicos, mas questionar como o conhecimento é produzido, quem recebe autoria e quais sujeitos participam efetivamente da interpretação dos fenômenos.


Luiz Gonzaga levou o sertão ao rádio nacional

O forró foi o primeiro exemplo utilizado para aproximar a pesquisa de Draper à teoria brasileira. O professor propôs compreender Luiz Gonzaga como um ativista folkcomunicacional do Nordeste.


Ao cantar o sertão, a seca, a pobreza, a partida e a saudade, Gonzaga representou experiências compartilhadas por nordestinos que deixaram a região em direção ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Os migrantes levavam consigo repertórios musicais, memórias e identidades que precisavam encontrar lugar nas novas cidades.


O artista inseriu o baião no sistema radiofônico do Rio de Janeiro em um momento no qual o samba havia conquistado a posição de música nacional. Uma cultura regional frequentemente marginalizada passou a disputar espaço no centro da mídia brasileira.

Essa circulação não apagou as tensões. A transformação do forró em música popular de alcance nacional envolveu negociações entre mercado, meios de comunicação e referências locais. Ao mesmo tempo, permitiu que migrantes ouvissem suas histórias e seu território representados no rádio.


A saudade ocupou papel central nesse processo. Draper definiu o forró como expressão de uma emoção diaspórica: cantar e ouvir ajudavam os migrantes a lidar com o afastamento, compartilhar experiências e fortalecer vínculos comunitários fora do Nordeste.


Cangaço, cinema e memória popular

As pesquisas de Draper também examinaram a representação do cangaço na música e no cinema. O grupo de Lampião permitiu ser filmado por Benjamin Abrahão, inserindo a própria imagem no sistema midiático de sua época. As imagens tornaram-se documentos fundamentais para a memória do movimento.


Depois do fim do cangaço, sobreviventes como Dadá continuaram a disputar publicamente as narrativas sobre o grupo. A passagem da experiência vivida para canções, filmes, entrevistas e registros históricos demonstra como agentes populares participam da elaboração de sua própria memória, ainda que não controlem todas as formas de circulação.


No cinema, Draper ampliou essa investigação para as relações entre gênero, emoção e identidade regional. Em Saudade in Brazilian Cinema, acompanhou diferentes maneiras pelas quais a saudade foi representada ao longo da história cinematográfica do país.

O sentimento pode assumir sentidos políticos e coletivos. Filmes que expressam saudade do mundo rural, por exemplo, não falam somente de lembranças individuais: podem criticar a urbanização, denunciar o apagamento de modos de vida e defender a presença de regiões marginalizadas no imaginário nacional.


Mulheres diante e atrás das câmeras

Outra frente de pesquisa foi apresentada por meio do livro Woman-Centered Brazilian Cinema, coorganizado por Draper. A obra analisa a presença crescente de mulheres no cinema brasileiro das últimas décadas, tanto como protagonistas quanto como diretoras, produtoras e outras profissionais da indústria.


A expressão “cinema centrado nas mulheres” permite observar simultaneamente as narrativas e as condições de produção. Não basta contar personagens femininas na tela: é necessário perguntar quem dirige, escreve, financia e decide quais histórias serão filmadas.


As análises reunidas no livro abordam experiências de mulheres em culturas regionais e periferias urbanas, além de diferentes marcadores de classe, raça, idade e território. A perspectiva volta a encontrar a folkcomunicação ao investigar quais sujeitos conseguem falar, quais permanecem ausentes e como grupos marginalizados conquistam espaços dentro de meios industriais.


O racismo permanece na gestão do futebol

O futebol ofereceu outro exemplo de inclusão incompleta. Draper traduziu para o inglês O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho, obra que narra a luta de jogadores negros e pobres para ingressar nos principais clubes e na seleção nacional.


A abertura dos campos aos atletas, contudo, não produziu uma transformação equivalente nos cargos de comando. Técnicos negros, integrantes de diretorias e presidentes de clubes continuam pouco representados.


Em uma pesquisa desenvolvida a partir do conceito de ativismo midiático, Draper analisou a atuação de treinadores negros contra o racismo. Em 2019, um jogo entre equipes comandadas pelos únicos técnicos negros daquela edição do Campeonato Brasileiro tornou-se oportunidade para denunciar publicamente a desigualdade, em diálogo com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol.


O caso demonstra que o ativismo também acontece dentro das indústrias culturais e esportivas. Pessoas que ocupam posições de visibilidade podem utilizar entrevistas, eventos e redes institucionais para traduzir demandas coletivas e questionar as estruturas das quais participam.


A história das mulheres no futebol apresenta outra exclusão. Enquanto a narrativa clássica se concentrou na incorporação dos jogadores negros ao esporte profissional, as jogadoras enfrentaram inclusive a proibição legal da prática. A formação de equipes e de uma seleção nacional exigiu uma luta própria por reconhecimento.


O lundu marajoara mantém viva uma matriz africana

Entre as pesquisas mais recentes, Draper apresentou um estudo sobre o lundu marajoara, desenvolvido a partir de entrevistas com músicos e participantes de comunidades da Ilha de Marajó, no Pará.


Embora o lundu tenha sido tratado como manifestação desaparecida em outras regiões do Brasil, permanece vivo no território marajoara. A dança e a música expressam encontros entre diferentes matrizes culturais, com presença importante de referências africanas e afro-brasileiras.


A investigação procura compreender como os participantes definem o ritmo, de que maneira ele representa a identidade regional e como circula entre apresentações comunitárias, festivais e outros contextos. Também observa seus diálogos com manifestações como o carimbó e o boi-bumbá.


O caso permite articular território, memória e representação. Em vez de estudar o lundu apenas como sobrevivência de uma forma antiga, a pesquisa acompanha as pessoas que o mantêm vivo, atualizam seus sentidos e negociam sua presença em diferentes espaços culturais.


Estudos afrorromânicos ampliam o mapa da teoria

Draper apontou os estudos afrorromânicos como outra possibilidade de expansão da folkcomunicação. O campo acompanha as relações entre África, Europa, América Latina e Caribe em territórios atravessados por línguas de origem latina e por histórias coloniais, escravistas e migratórias.


Uma pesquisa folkcomunicacional poderia examinar, por exemplo, como músicos angolanos e cabo-verdianos representam comunidades migrantes em Portugal. Em Lisboa, artistas circulam entre o português, os crioulos e outras línguas, articulando memórias africanas, experiências pós-coloniais e condições contemporâneas de migração.


Esses músicos podem atuar como agentes comunicacionais ao traduzir demandas, fortalecer pertencimentos e ocupar meios que nem sempre oferecem espaço às suas comunidades. O exemplo mostra que uma teoria criada para compreender grupos marginalizados no Brasil pode dialogar com outras situações sem presumir que todas sejam iguais.


Dos Estados Unidos, novas comparações

Ao final, Draper foi convidado a sugerir objetos estadunidenses que poderiam ser investigados pela folkcomunicação. Sua resposta apontou para histórias paralelas da música negra nos dois países.


O samba saiu de comunidades negras e periféricas do Rio de Janeiro para conquistar reconhecimento como símbolo nacional. Nos Estados Unidos, gêneros como o ragtime e o jazz também atravessaram processos de marginalização, apropriação e consagração.

Uma comparação entre Pixinguinha e Scott Joplin permitiria observar músicos que transitaram entre mundos populares e circuitos institucionalizados. Os dois transformaram repertórios negros, dialogaram com novas tecnologias e linguagens artísticas e ajudaram a ampliar a legitimidade de seus gêneros.


O interesse da comparação não estaria em afirmar equivalências fáceis. O objetivo seria compreender como diferentes agentes populares enfrentaram hierarquias raciais, ocuparam indústrias culturais e participaram da construção de imaginários nacionais.


Uma teoria que viaja sem perder a origem

A quinta aula encerrou o curso demonstrando que internacionalizar a folkcomunicação não significa apenas traduzir seus conceitos para o inglês. É preciso colocá-la em diálogo com tradições acadêmicas de outros países, testar sua capacidade explicativa e reconhecer aquilo que também pode aprender.


Os estudos culturais latino-americanos oferecem um caminho institucional para essa circulação nos Estados Unidos. Os estudos subalternos reforçam a autocrítica sobre representação; os estudos afrorromânicos ampliam o olhar sobre diásporas e mundos pós-coloniais; as pesquisas comparativas aproximam histórias culturais sem apagar diferenças.


A folkcomunicação leva a esses diálogos uma contribuição própria: a atenção aos agentes populares, às linguagens produzidas à margem e às negociações entre comunidades e sistemas midiáticos. De Luiz Gonzaga aos treinadores negros, das mulheres no cinema aos músicos de Cabo Verde, o foco permanece sobre sujeitos que disputam o direito de representar a si mesmos.


Como teoria de exportação, ela não abandona o Brasil. Viaja justamente porque carrega uma experiência intelectual brasileira capaz de formular perguntas para o mundo.

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