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“Folclore acontece todos os dias”: Museu Edison Carneiro preserva memórias em transformação

10 de ago.
7 min de leitura

Homenageado pela Folkcom 2025, museu reúne milhares de objetos e propõe um olhar contemporâneo para as culturas populares, entendidas como tradições vivas e permanentemente reinventadas


Entrevista: Gisele Sobrinho

Edição: Andriolli Costa



Folclore não é uma lembrança restrita aos livros escolares, uma coleção de personagens fantásticos nem uma manifestação que sobrevive apenas no campo. Como lembra a museóloga Elizabeth Pougy, chefe de divisão do Museu de Folclore Edison Carneiro, o termo designa um conjunto diverso de culturas populares que acompanha as transformações da própria sociedade.


“Essas manifestações estão acontecendo ao nosso lado durante o ano todo. Não são uma coisa isolada da vida”, afirma. Pougy trabalha na instituição desde 1984 e assumiu a chefia da divisão em 2009. Na entrevista concedida a Gisele Sobrinho, ela apresentou a história do Museu, discutiu os questionamentos contemporâneos em torno da palavra “folclore” e mostrou como os objetos preservados podem voltar a dialogar com artistas, pesquisadores e comunidades.


Criado em 1968, o Museu de Folclore Edison Carneiro integra o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Localizado na Rua do Catete, o Centro reúne aproximadamente 17 mil objetos museológicos, além de extensos acervos bibliográficos, fotográficos, sonoros, audiovisuais e documentais.


De campanha nacional a espaço de memória

A trajetória do Centro começou em 1958, com a criação da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. O projeto nasceu no contexto do Movimento Folclórico Brasileiro, articulado desde a década anterior por intelectuais e pesquisadores interessados em estudar, documentar e preservar manifestações culturais que poderiam ser afetadas pela industrialização acelerada e pelas mudanças sociais do período pós-guerra.


Comissões estaduais foram constituídas em diferentes partes do país. Além das pesquisas de campo, o movimento estimulou a formação de arquivos, bibliotecas e museus que pudessem guardar os registros produzidos. Fotografias, gravações, documentos, objetos rituais, instrumentos musicais, ferramentas de trabalho e peças de arte popular passaram a compor uma memória material das práticas observadas.


O Museu surgiu em 1968, inicialmente como uma seção dedicada ao folclore dentro do Museu Histórico Nacional. Em 1976, recebeu o nome de Edison Carneiro, pesquisador que havia defendido a criação de um museu nacional voltado para esse campo.


Edison Carneiro e o compromisso com as culturas afro-brasileiras

Jornalista, advogado, ensaísta e pesquisador, Edison Carneiro teve atuação decisiva nos estudos das culturas populares e afro-brasileiras. Acompanhou comunidades de candomblé na Bahia, denunciou a perseguição policial sofrida pelos povos de terreiro e ajudou a organizar, em 1937, o II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador, que contou com a participação de lideranças religiosas.


Pougy chama atenção para a proximidade construída por Carneiro com as pessoas e comunidades que pesquisava. Não se tratava apenas de observar manifestações à distância, mas de estabelecer relações e compromissos. Mais tarde, como segundo diretor da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, ele defendeu a documentação sistemática das culturas populares e a criação de um museu capaz de tornar esses registros acessíveis à sociedade.


Carneiro foi afastado da direção da Campanha após o golpe militar de 1964. "Edison era comunista mesmo, de filiação e estudo. Quando ele foi deposto por conta do golpe, ficou escondido num terreiro de candomblé", registra. O pesquisador morreu em 1972, quatro anos depois da criação do Museu cuja implantação havia defendido. A adoção de seu nome, em 1976, reconheceu tanto sua contribuição intelectual quanto sua atuação política e institucional.


Uma palavra vista de fora para dentro


Apesar de permanecer no nome da instituição, a palavra “folclore” é hoje objeto de debate. Pougy explica que a crítica não é recente. Mesmo durante o Movimento Folclórico, pesquisadores das Ciências Sociais já questionavam as relações de poder presentes na classificação de determinadas práticas como folclóricas.


“Os agentes não se identificam como folclóricos”, observa. Artesãos, músicos, brincantes, artistas e integrantes de comunidades tradicionais reconhecem-se a partir de suas práticas, seus territórios e suas histórias. “Folclore” foi uma categoria criada por pesquisadores e aplicada de fora para dentro sobre essas experiências.


O problema se agrava quando o termo sugere manifestações anônimas, rurais, antigas ou prestes a desaparecer. Essa perspectiva pode retirar dos sujeitos a autoria de suas obras e tratar a cultura como algo imóvel. Por isso, a instituição trabalha cada vez mais com expressões como “culturas populares”, “tradições” e “manifestações culturais”, sem simplesmente apagar a própria história institucional.


Para Pougy, reconhecer a origem e os limites do conceito permite atualizá-lo. O desafio não é determinar rigidamente o que pertence ou não ao folclore, mas compreender como as pessoas constroem sentidos, narrativas e formas de expressão no cotidiano.


Objetos que materializam o imaterial

O Museu foi criado para preservar objetos associados às pesquisas e manifestações registradas em diferentes regiões do país. Há trajes de folguedos, representações de reinados, instrumentos musicais, esculturas, ferramentas tradicionais, teares, peças ligadas à produção de cachaça e objetos de religiões de matriz africana, entre muitas outras tipologias.


Esses itens não substituem as manifestações vivas das quais fizeram parte. Uma roupa ritual guardada no Museu, por exemplo, não contém sozinha a música, os movimentos, as relações comunitárias e os sentidos envolvidos em sua utilização. Ainda assim, ela pode funcionar como testemunho e ponto de partida para novas perguntas.


“Os objetos de museu materializam aquilo que é imaterial”, sintetiza Pougy. Quando colocados em diálogo com fotografias, gravações, documentos e pesquisas, eles ajudam a registrar transformações, reconstruir trajetórias e discutir as narrativas produzidas sobre a sociedade brasileira.


A preservação, entretanto, exige investimento contínuo. Materiais como barro, madeira, fibras, tecidos, papel e metal demandam condições específicas de conservação. Pougy reconhece que cuidar de um acervo tão diverso é uma luta permanente, mas ressalta que a guarda não pode ser pensada como o isolamento de um tesouro. “A ideia é que esse material sirva à sociedade.”


Quando o acervo reencontra seus criadores

Algumas das experiências mais significativas acontecem quando artistas e representantes das comunidades entram nas reservas técnicas. Em uma pesquisa sobre maracatus, um integrante de um grupo de Recife encontrou trajes originais e uma calunga preservados pelo Museu. Além de reconhecer as peças, identificou o trabalho de uma pessoa importante para a comunidade que já havia morrido. A visita permitiu que informações guardadas na instituição retornassem ao grupo de origem.


Em outra ocasião, um luthier procurou o acervo para estudar as características físicas e técnicas de violas tradicionais. O contato direto com os instrumentos forneceu referências para novas produções. Nos dois casos, os objetos deixaram de ser apenas documentos do passado e passaram a participar de processos contemporâneos de criação e transmissão.


O Programa Sala do Artista Popular, criado em 1983, reforça essa relação. Há mais de quatro décadas, a iniciativa realiza pesquisas, exposições, catálogos e documentários sobre artistas e comunidades artesanais. A cada edição, peças são incorporadas ao Museu, formando um panorama das mudanças na chamada arte popular brasileira.

As visitas dos próprios artistas às reservas também ajudam a corrigir lacunas de documentação. Eles reconhecem técnicas, autorias e vínculos familiares desconhecidos pela equipe. Em algumas situações, encontram trabalhos produzidos durante a infância ou obras de parentes que já morreram. A memória preservada passa, assim, a ser revisitada e ampliada pelas pessoas às quais ela pertence.


O folclore não acontece apenas em agosto

O Dia do Folclore, celebrado em 22 de agosto, foi instituído em 1965 como uma estratégia de valorização dessas manifestações. Com o tempo, porém, a data também contribuiu involuntariamente para concentrar o assunto em um único mês e associá-lo às representações escolares do saci, da Iara e de outros personagens.

“O folclore não acontece só no dia 22”, alerta Pougy. Festas, religiosidades, formas de trabalho, narrativas, músicas, danças, grafites e práticas coletivas continuam presentes ao longo de todo o ano, inclusive nas grandes cidades.


A exposição de longa duração Os objetos e suas narrativas procura desestabilizar a imagem de um folclore rural e congelado. Logo no início, o visitante encontra um suposto fragmento lançado por um disco voador em Leopoldina, Minas Gerais. O objeto remete às histórias criadas durante a corrida espacial e mostra como acontecimentos contemporâneos também alimentam o imaginário popular.


Mais adiante, uma escultura produzida em Caruaru representa uma nave espacial com formas que lembram uma garrafa de refrigerante. A exposição também inclui um painel de grafite, aproximando o Museu das manifestações urbanas do Rio de Janeiro. O percurso revela que as culturas populares não estão distantes: elas respondem ao que acontece ao redor e transformam acontecimentos em imagens, objetos e narrativas.


Tradição não significa imobilidade

Para que as culturas populares permaneçam relevantes, não devem ser tratadas como formas puras que precisam ser repetidas indefinidamente. “A cultura é uma renovação permanente”, afirma Pougy.


Escolas de samba, quadrilhas, grupos tradicionais e artistas populares continuam existindo porque incorporam novos materiais, linguagens e experiências. O artesanato, antes associado apenas ao barro ou à madeira rústica, passou a incluir reciclagem e outras técnicas. A tradição permanece, mas é reinterpretada pelas pessoas que a praticam.


Essa compreensão orienta também as estratégias de aproximação com novas gerações. Oficinas, palestras, redes sociais, jogos e roteiros pela cidade podem mostrar que as culturas populares fazem parte da vida contemporânea. Em uma das ações do Museu, um percurso de arte urbana parte do grafite presente na exposição e segue por obras localizadas entre o Catete e a Lapa.


Pougy recorda ainda uma estudante da UERJ que morava nas proximidades, mas nunca havia entrado no Museu. Durante a visita, a jovem reconheceu objetos semelhantes aos produzidos por sua mãe. Depois, retornou acompanhada dela. A experiência demonstra que, muitas vezes, aproximar novos públicos depende de revelar que o patrimônio já faz parte de suas próprias histórias.


Uma homenagem ao Museu e às políticas públicas

O Museu de Folclore Edison Carneiro foi uma das instituições homenageadas na abertura da Folkcom 2025 com o diploma José Marques de Melo de Folkcomunicação. Para Elizabeth Pougy, o reconhecimento deve ser estendido ao trabalho mais amplo do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.


Enquanto o Museu atua na preservação, documentação e disponibilização do acervo, outras divisões desenvolvem pesquisas, mantêm arquivos e bibliotecas, dialogam com comunidades e colaboram com políticas públicas. São frentes diferentes de uma mesma tarefa: reconhecer, estudar e apoiar as culturas populares brasileiras.


Pougy considera que eventos como a Folkcom ampliam o conhecimento sobre essas instituições e reafirmam a necessidade de políticas culturais permanentes. “É de suma importância em um país como o nosso”, afirma.


A homenagem, portanto, não celebra apenas os objetos guardados no Catete. Reconhece a rede de artistas, pesquisadores, comunidades e profissionais que continua atribuindo novos sentidos a esses acervos. Se a cultura é renovação permanente, o Museu cumpre sua função quando transforma a preservação em reencontro, debate e possibilidade de futuro.


A entrevista foi realizada em setembro de 2025, no Museu de Folclore Edison Carneiro, no Catete, Rio de Janeiro. Na época, Gisele Sobrinho era estudante de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A gravação integrou as ações preparatórias da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2025.

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