“Eu precisava ir, olhar, perguntar e escutar”: Dan Zhou aproxima folclore e folkcomunicação
Em participação especial no curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, pesquisadora chinesa apresentou uma jornada por diferentes tradições acadêmicas e explicou por que encontrou no Brasil uma perspectiva de resistência às hegemonias
Uma pesquisa intercultural não se constrói apenas pela leitura de livros e artigos. É preciso viajar, observar, perguntar, escutar e aceitar que os sentidos encontrados em campo podem contrariar as expectativas formuladas à distância. Foi a partir desse princípio que a pesquisadora chinesa Dan Zhou apresentou sua trajetória entre instituições, arquivos e comunidades de diferentes países durante o curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”.
Doutoranda em estudos do folclore no Japão, com mestrado em literatura popular chinesa pela Shanghai University, Zhou desenvolveu uma pesquisa internacional sobre as possibilidades de construir uma rede mundial de estudos folclóricos capaz de relativizar hegemonias acadêmicas. Na época da apresentação, atuava também como pesquisadora visitante na University of Tartu, na Estônia.
O projeto levou-a à Inglaterra, à Irlanda, à Finlândia, aos países bálticos, ao Bahrein, ao Egito e, por fim, ao Brasil. Mais do que comparar definições de folclore, a pesquisadora procurou compreender como diferentes histórias políticas e culturais determinaram o lugar ocupado pelo campo em universidades, arquivos, museus e movimentos sociais.
O Brasil tornou-se uma etapa especial do percurso porque desenvolveu uma formulação teórica própria: a folkcomunicação. Para Zhou, a perspectiva criada por Luiz Beltrão possui uma consciência contra-hegemônica que se aproxima diretamente das questões investigadas por sua rede de pesquisa.
Uma rede mundial para questionar hegemonias acadêmicas
Dan Zhou iniciou seu doutorado em 2022, quando as restrições impostas pela pandemia de Covid-19 começavam a diminuir e o trabalho de campo internacional voltava a ser possível. Naquele período, passou a integrar um projeto voltado à construção de uma rede mundial de estudos do folclore que permitisse relativizar perspectivas hegemônicas.
A proposta partia de uma questão ampla: o folclore pode oferecer instrumentos para resistir a hegemonias políticas, culturais e acadêmicas? Formulada teoricamente, a pergunta ainda parecia abstrata. Para encontrar respostas concretas, seria necessário observar como pesquisadores e comunidades lidavam com relações de poder em contextos locais.
Essa orientação transformou a viagem em método. Cada destino deveria representar uma posição específica na história internacional do campo: o lugar onde a palavra folklore foi criada; países que recorreram às tradições populares para afirmar identidades nacionais; centros responsáveis pela institucionalização universitária da disciplina; territórios atravessados por colonialismos, disputas linguísticas e independências recentes; e experiências que desenvolveram respostas teóricas próprias.
O percurso não teve a forma linear de um planejamento executado sem obstáculos. Vistos, dificuldades de contato, ausência de respostas e mudanças de rota também determinaram os lugares aos quais a pesquisadora conseguiu chegar. A investigação internacional, mostrou Zhou, depende tanto de grandes hipóteses quanto de condições práticas: documentos, recursos, redes de colaboração e pessoas dispostas a responder a uma mensagem.
Inglaterra e Irlanda revelam dois lugares diferentes para o folclore
A Inglaterra foi incluída por ser o país no qual William John Thoms propôs, em 1846, o termo folklore. A criação da palavra influenciou pesquisas em diferentes partes do mundo, mas não garantiu ao campo uma presença universitária proporcional à sua importância histórica.
Em Londres, Zhou visitou bibliotecas, museus e arquivos. Surpreendeu-se com a possibilidade de consultar diretamente livros com cerca de dois séculos, sem os procedimentos prévios exigidos em muitas instituições do Japão e da China. A experiência revelou a força dos acervos britânicos, mas também um paradoxo: o país associado ao nascimento do conceito não transformou os estudos do folclore em uma disciplina universitária tão consolidada quanto outras nações europeias.
A Irlanda ofereceu um contraste. Após séculos de domínio britânico e pouco mais de cem anos de independência, o país precisou responder a uma pergunta decisiva: como reconhecer a si mesmo sob a longa sombra do império?
Nesse processo, o folclore participou da construção da identidade irlandesa. A pesquisadora encontrou uma tradição acadêmica estruturada, com materiais didáticos próprios, coleções nacionais e arquivos ligados à universidade. Objetos utilizados por gerações anteriores de estudiosos — mesas, cadeiras e antigos equipamentos de gravação — materializavam a continuidade de um trabalho institucional.
Para Zhou, a relação entre Inglaterra e Irlanda demonstra que os estudos folclóricos não se desenvolvem somente por interesse nas tradições. Eles respondem às necessidades políticas e simbólicas de cada sociedade. Um império pode considerar sua identidade suficientemente estabelecida, enquanto um país submetido ao colonialismo recorre às narrativas, músicas e costumes populares para afirmar a própria existência.
Na Finlândia, o folclore tornou-se disciplina
A viagem prosseguiu pela Finlândia, considerada um dos centros de institucionalização dos estudos do folclore. Na University of Helsinki, o campo conquistou reconhecimento acadêmico por meio de métodos voltados à classificação, à comparação e à reconstrução da circulação das narrativas.
Zhou recordou a importância de pesquisadores como Kaarle Krohn e Antti Aarne. O trabalho desenvolvido no país contribuiu para o método histórico-geográfico e para a criação de sistemas internacionais de classificação dos contos, posteriormente ampliados por outros estudiosos.
O épico Kalevala também ocupou um lugar central na exposição. Organizada a partir de poemas e narrativas orais, a obra ajudou a construir uma imagem da nação finlandesa em um território historicamente submetido à Suécia e à Rússia. As tradições populares ofereciam uma linguagem para que as pessoas pudessem declarar: somos finlandeses, não suecos nem russos.
Durante o debate, Zhou relacionou essa experiência ao grau de reconhecimento universitário do folclore. Quando um país transforma suas tradições em fonte de identidade, método e teoria, o campo tende a ganhar estrutura institucional. Isso não significa que toda pesquisa relevante aconteça dentro das universidades, mas explica por que algumas nações estabeleceram cursos, arquivos e coleções mais sólidos.
Os países bálticos mostram que identidade continua em disputa
Estônia, Letônia e Lituânia foram escolhidas por apresentarem histórias políticas e linguísticas ainda mais complexas. Depois de sucessivos domínios e da integração à União Soviética, os três países recuperaram a independência no início da década de 1990. Nesse contexto, os estudos folclóricos permaneceram ligados à afirmação das línguas, das memórias e das identidades nacionais.
Na University of Tartu, Zhou entrou em contato com uma tradição de pesquisa que aproxima folclore, semiótica e circulação internacional de teorias. A instituição estoniana também se tornou seu local de atuação como pesquisadora visitante.
A experiência no país revelou, ao mesmo tempo, os limites da comparação intercultural. Zhou contou que se interessou pelas pequenas casas de verão utilizadas durante o período soviético para plantar alimentos e complementar o abastecimento urbano. Para investigar as memórias ligadas a esses espaços, precisaria conversar com pessoas idosas. Muitas delas, porém, falavam russo, estoniano ou alemão, línguas que a pesquisadora não dominava.
O caso evidenciou que a diferença linguística não é um detalhe externo ao trabalho de campo. Ela define quem pode ser ouvido, quais memórias se tornam acessíveis e de quem o pesquisador dependerá para construir conhecimento. A investigação contra-hegemônica também precisa enfrentar as desigualdades produzidas pela própria circulação internacional da ciência.
Mudar a rota também faz parte do método
A passagem pelo mundo árabe não estava prevista no desenho inicial. O projeto pretendia realizar uma etapa na Índia, mas dificuldades relacionadas à documentação e ao visto impediram a viagem. Zhou procurou então instituições no Bahrein, em outros países do Norte da África e no Egito.
O contato foi difícil. Algumas mensagens ficaram sem resposta; em outros casos, sequer foi possível localizar endereços eletrônicos de pesquisadores. A intenção era visitar Marrocos, Tunísia e Egito, mas a viagem acabou limitada ao Bahrein e ao contato com dois professores que atuavam em estudos culturais no Egito.
As dificuldades não tornaram essa etapa irrelevante. No Bahrein, a pesquisadora conheceu uma organização dedicada à cultura popular e observou a importância que redes internacionais podem assumir fora dos circuitos acadêmicos mais conhecidos. Também foi recebida em casas de moradores e compartilhou refeições, chá e conversas.
Essas situações mostraram que um projeto comparativo não se faz somente por meio de entrevistas formais. A hospitalidade, as regras religiosas, os modos de vestir, os alimentos e a organização dos espaços revelam sistemas de valores que dificilmente aparecem da mesma forma em textos científicos.
A folkcomunicação trouxe Dan Zhou ao Brasil
O Brasil encerrou os três anos de trabalho de campo. A escolha não ocorreu apenas para acrescentar mais um continente ao mapa. Zhou identificou no país uma teoria capaz de articular cultura popular, comunicação e resistência às hegemonias: a folkcomunicação.
Antes da viagem, ela consultou as edições da Revista Internacional de Folkcomunicação publicadas desde 2003. Sempre que encontrava um artigo relacionado a seus interesses, utilizava ferramentas de tradução automática para ler o texto em português, registrava os pontos principais e os apresentava ao coordenador do projeto.
Foi nesse levantamento que encontrou um artigo de Andriolli Costa e decidiu escrever ao pesquisador. A resposta à mensagem abriu o caminho para a etapa carioca da investigação, realizada em março de 2025. Durante a visita, Zhou entrevistou pesquisadores, acompanhou atividades acadêmicas e conheceu espaços e práticas culturais do Rio de Janeiro.
O percurso ilustra uma combinação cada vez mais presente na pesquisa internacional. As tecnologias de tradução permitiram o primeiro acesso a uma produção escrita em outra língua, mas não substituíram a experiência de campo. Os artigos ajudaram a formular perguntas; a convivência mostrou aspectos que essas perguntas ainda não conseguiam alcançar.
O significado das práticas não está somente nos artigos
Zhou preparava antecipadamente perguntas sobre a história da folkcomunicação, as pesquisas recentes e as relações do campo com os estudos do folclore e a antropologia. Percebeu, entretanto, que muitas dessas respostas poderiam ser encontradas nas publicações acadêmicas — e algumas surgiram em conversas informais antes mesmo das entrevistas.
Se o objetivo fosse apenas recolher definições, não haveria necessidade de atravessar o mundo entre o Japão e o Brasil. A viagem se justificava porque a pesquisadora precisava “ir, olhar, perguntar e escutar”.
Em restaurantes, por exemplo, Zhou não sabia inicialmente como pedir a comida, realizar o pagamento ou compreender determinadas regras do atendimento. As explicações práticas eram importantes, mas produziam uma nova camada de perguntas. O que aquele prato significava? Estava associado a lembranças da infância, a encontros familiares ou à influência de outra cultura?
A pesquisadora também se surpreendeu com a exposição dos corpos em espaços públicos do Rio de Janeiro. Em sociedades do Leste Asiático, explicou, o corpo costuma ser tratado de maneira mais reservada. A diferença não deveria ser convertida em julgamento, mas em questão de pesquisa: como cada sociedade aprende a interpretar roupas, privacidade, clima e convivência?
Outro aspecto marcante foi a sociabilidade. A cada passeio, novos estudantes, professores e amigos se juntavam ao grupo, até que se tornava difícil reunir todos em uma única fotografia. Para alguém que viajava sozinha, falava pouco inglês e não dominava o português, a rede de apoio também permitiu circular pela cidade durante o carnaval.
A comparação com outras etapas da pesquisa levou Zhou a destacar a acolhida recebida no Brasil. Em alguns países, as entrevistas se restringiram a uma conversa em um café. No Rio, o trabalho de campo envolveu convivência, deslocamentos, refeições e encontros coletivos. A própria hospitalidade tornou-se parte do conhecimento produzido.
Folclore não é automaticamente resistência
Ao retomar a pergunta central do projeto, Zhou fez uma ressalva importante. A ideia de que o folclore pode relativizar hegemonias precisa ser investigada concretamente. Não basta afirmar, antes de entrar em campo, que toda manifestação popular funciona como resistência.
Os diferentes países revelaram maneiras específicas de enfrentar, negociar ou mesmo reproduzir poderes dominantes. Em alguns contextos, talvez não exista uma resistência claramente organizada. Em outros, ela aparece na recuperação de uma língua, na valorização de narrativas locais, na criação de instituições, na transformação de elementos recebidos de fora ou na formulação de teorias próprias.
O objetivo do trabalho comparativo é passar da hipótese à prática. Isso exige compreender as tradições acadêmicas locais e perguntar quem define o que merece ser registrado, quais vozes entram nos arquivos e quais conceitos circulam internacionalmente.
A folkcomunicação interessa a esse debate porque reconhece que grupos marginalizados não são receptores passivos. Eles produzem informações, opiniões, símbolos e redes a partir de suas próprias linguagens. Ao aproximar comunicação e folclore, a teoria brasileira oferece ferramentas para observar a resistência como processo situado, e não como qualidade automática de uma manifestação.
Pesquisa acadêmica e produção de conhecimento não são sinônimos perfeitos
Na conversa com os participantes, Zhou voltou à diferença entre a Inglaterra e países como Irlanda e Finlândia. Embora o folclore tenha presença limitada nas universidades inglesas, isso não significa ausência de estudos relevantes.
A pesquisadora mencionou o trabalho de Gillian Bennett sobre narrativas de fantasmas e experiências relacionadas à saúde. Mesmo sem manter uma carreira universitária convencional, Bennett possuía formação acadêmica e condições materiais para desenvolver investigações consistentes.
O exemplo provocou uma aproximação com a realidade brasileira. Participantes lembraram que alguns museus de folclore, especialmente em áreas rurais de São Paulo, nasceram de coleções mantidas por pessoas com recursos e interesse nas culturas populares. Posteriormente, esses acervos tornaram-se fontes para pesquisadores.
A discussão permitiu distinguir institucionalização e produção de conhecimento. A universidade oferece formação, métodos, redes e reconhecimento profissional, mas não detém sozinha a capacidade de pesquisar. Ao mesmo tempo, condições econômicas determinam quem pode dedicar tempo a uma investigação sem ocupar um cargo acadêmico.
Esse problema se conecta à proposta contra-hegemônica do projeto de Zhou. Ampliar o mapa mundial dos estudos do folclore não significa apenas acrescentar países. É necessário reconhecer diferentes lugares de produção do conhecimento e as desigualdades que permitem a algumas teorias viajar mais facilmente do que outras.
Da tradução ao encontro
A apresentação de Dan Zhou mostrou que a pesquisa intercultural ocorre em sucessivas traduções. Traduzem-se palavras, conceitos e artigos, mas também gestos, alimentos, roupas, formas de hospitalidade e expectativas sobre o que é fazer pesquisa.
As ferramentas automáticas ajudaram a pesquisadora a atravessar inicialmente a barreira da língua portuguesa e a descobrir a folkcomunicação. A relação com pesquisadores brasileiros, porém, transformou uma leitura distante em encontro. Foi no cotidiano que conceitos como cultura popular, resistência, comunicação e hegemonia adquiriram novas perguntas.
Ao abrir o quarto módulo do curso, Zhou preparou o terreno para a discussão latino-americana desenvolvida em seguida por Cristian Yáñez. Seu percurso mostrou que a folkcomunicação pode participar de uma conversa mundial sem abandonar sua origem brasileira. Ao contrário, é justamente a resposta formulada a partir de uma realidade local que desperta interesse em outros continentes.
O caminho sugerido pela pesquisadora não consiste em procurar uma teoria única capaz de explicar todas as culturas. Trata-se de criar redes nas quais diferentes tradições possam se observar, questionar suas hierarquias e aprender umas com as outras. Para isso, ler é indispensável — mas ainda é preciso ir, olhar, perguntar e escutar.





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