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A universidade ainda precisa aprender com os mestres: o legado de Ricardo Gomes Lima

10 de ago.
9 min de leitura

Homenageado pela Folkcom 2025, antropólogo revisita sua trajetória no Museu Nacional, no Museu de Folclore Edison Carneiro e na UERJ e defende que os saberes tradicionais ocupem a academia em igualdade com o conhecimento científico


Entrevista: Maria Raiane Oliveira

Edição: Andriolli Costa



Uma colher de ferro, uma grade de janela, um pote de barro ou uma caricatura produzida no computador podem pertencer ao mesmo campo de investigação. Para o antropólogo Ricardo Gomes Lima, o folclore e a arte popular não estão definidos apenas pelo material utilizado, pela origem rural ou pela função prática de um objeto. São categorias construídas socialmente, atravessadas por trocas, disputas e mudanças de sentido.


Essa compreensão orientou mais de cinco décadas de trabalho. Ricardo começou a carreira no setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional, participou da renovação conceitual do Museu de Folclore Edison Carneiro e, na UERJ, atuou como professor, pesquisador e gestor cultural. Aposentado desde junho de 2025, continua organizando exposições, desenvolvendo projetos e aproximando o público dos artistas e das comunidades que conheceu ao longo da vida.


Na entrevista concedida remotamente a aluna Maria Raiane Oliveira, Ricardo reconstruiu sua formação, falou sobre as mulheres decisivas em sua trajetória e apresentou uma frustração que permanece como tarefa para a universidade: reconhecer os detentores de saberes tradicionais não apenas em homenagens ou atividades complementares, mas como professores capazes de compartilhar a sala de aula em igualdade com os docentes de formação acadêmica.


Uma infância entre a oficina e a Folia de Reis

Ricardo nasceu em Campos dos Goytacazes e passou os primeiros anos em uma área rural do Norte Fluminense. As lembranças mais marcantes da infância estão ligadas à fazenda do avô materno, em São José de Ubá, onde a família se reunia durante férias e feriados.


O aniversário do avô era celebrado em 6 de janeiro, Dia de Reis. A festa contava com uma Folia de Reis mantida pela própria fazenda. O proprietário fornecia instrumentos, roupas e os demais recursos necessários para que o grupo realizasse sua jornada.

Ricardo recorda que, naquele contexto, a folia também expressava relações de prestígio e poder. Grandes propriedades procuravam manter seus grupos, e a beleza das fardas e dos instrumentos ajudava a demonstrar a posição social dos fazendeiros. A experiência ensinou que uma manifestação cultural pode reunir religiosidade, música, celebração, memória e hierarquias sociais.


O contato com o fazer artesanal vinha ainda do pai, um migrante mineiro que começou como aprendiz em uma serralheria de Campos. Tornou-se oficial, depois sócio e, por fim, proprietário da oficina. Produzia grades, portas, bancos, colheres e diferentes peças de ferro.


Embora esses objetos fossem feitos para cumprir funções cotidianas, carregavam também escolhas estéticas e marcas pessoais. Ao olhar retrospectivamente, Ricardo percebe o trabalho do pai como uma expressão artesanal situada no mesmo campo de interesses que estudaria profissionalmente.


“O folclore são formas de expressão espontânea da vida social”, explica. Por isso, não está presente apenas em festas rurais consagradas, mas também nas cidades, nas oficinas e nos modos pelos quais as pessoas transformam materiais em objetos socialmente significativos.


Dos livros para as Ciências Sociais

A antropologia não fazia parte dos planos iniciais. Tímido e muito ligado aos livros, Ricardo foi encaminhado pela família para a carreira diplomática. Mudou-se para Niterói no fim da adolescência e ingressou na faculdade de Direito, considerada uma preparação adequada para chegar ao Instituto Rio Branco.


A mudança começou ainda no ensino médio, quando um professor recomendou a leitura de História da riqueza do homem, de Leo Huberman. Ricardo foi o único estudante da turma que não apenas leu o livro durante as férias, mas também o fichou. O professor percebeu seu interesse pelas questões sociais e afirmou que ele deveria cursar Ciências Sociais.


Ricardo ainda permaneceu três anos no Direito, procurando cumprir o projeto familiar. Quando já não havia dúvidas de que aquela não era sua vocação, ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF).


No segundo semestre, recebeu o convite para estagiar no Museu Nacional. A oportunidade alterou definitivamente sua trajetória. Ele permaneceu durante 11 anos no setor de Etnologia e Etnografia, trabalhando com coleções provenientes de diferentes partes do mundo e participando de atividades de campo entre povos indígenas do Xingu.


O contato com os acervos mostrou que os objetos não são apenas documentos materiais. Eles condensam técnicas, relações sociais, formas de pensamento e modos de organizar a vida. No Museu, Ricardo trabalhou com a antropóloga Maria Heloísa Fénelon Costa, pesquisadora que aproximava arte e antropologia e se tornou uma referência central em sua formação.


Uma trajetória cercada por grandes mulheres

Ao recordar a própria carreira, Ricardo destaca repetidamente a presença de mulheres que abriram caminhos e modificaram sua maneira de trabalhar. “Minha vida sempre foi cercada de grandes mulheres”, resume.


Uma professora o levou ao Museu Nacional, onde encontrou Maria Heloísa Fénelon Costa. Em 1976, Cáscia Frade o convidou para participar de um curso sobre folclore e cultura popular destinado a professores de diferentes municípios do Estado do Rio de Janeiro. Ricardo ficou responsável pela unidade que apresentava o conceito de cultura a partir da antropologia.


Anos depois, Lélia Coelho Frota o chamou para integrar a equipe do então Instituto Nacional de Folclore. Escritora, museóloga e pesquisadora, Lélia assumira a direção da instituição com o propósito de rever as maneiras pelas quais o folclore e as culturas populares eram estudados, preservados e expostos.


Ricardo chegou em 1983 para ajudar a criar uma unidade de antropologia e reformular as exposições do Museu de Folclore Edison Carneiro. Sua atuação na instituição se estendeu por quase três décadas e incluiu pesquisas, curadorias e a coordenação da Sala do Artista Popular, programa que aproxima artistas, comunidades e público por meio de exposições, catálogos e documentação.


Cáscia Frade voltaria a ter participação decisiva quando o convidou para lecionar na UERJ. Musicista e pesquisadora, ela dirigia o então Departamento de Educação Artística e Cultura Popular e foi uma das responsáveis pela transformação da unidade no atual Instituto de Artes.


Para Ricardo, Cáscia foi a grande mentora dos estudos sobre cultura popular na área de Artes da Universidade. Juntos, organizaram atividades como a Semana de Cultura Popular, que mobilizava pesquisadores, artistas e grupos tradicionais no campus.


A virada antropológica no Museu de Folclore

Ricardo considera a reformulação iniciada em 1983 um dos momentos mais importantes de sua carreira. Até então, grande parte das políticas institucionais havia sido orientada pela ideia de “defender” manifestações ameaçadas de desaparecimento.


Essa perspectiva tinha raízes no Movimento Folclórico Brasileiro. Em um país que se urbanizava rapidamente, estudiosos observavam o êxodo rural, a expansão do rádio e as mudanças nos modos de vida como ameaças às tradições. A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, criada na década de 1950, mobilizou escolas, pesquisadores e órgãos públicos para registrar práticas que poderiam desaparecer.


O trabalho produziu acervos fundamentais, mas também contribuiu para representar o folclore como um conjunto de sobrevivências do passado que precisavam ser resgatadas antes que a modernização as destruísse.


Sob a direção de Lélia Coelho Frota, o Instituto Nacional de Folclore procurou incorporar uma perspectiva antropológica. Em vez de tratar culturas populares como formas imóveis, passou a enfatizar os sujeitos, as relações sociais e os processos de transformação. A reformulação iniciada naquele período resultou na criação da Sala do Artista Popular e em uma nova exposição de longa duração para o Museu de Folclore Edison Carneiro.


Ricardo participou desse processo aproximando os estudos de folclore dos debates da antropologia. A mudança não significava apagar a história do movimento folclórico, mas rever conceitos e reconhecer que a cultura permanece viva justamente porque se transforma.


Quem decide se um objeto é arte?

Para Ricardo, “folk” é uma categoria fluida e volátil. Toda tentativa de defini-la por fronteiras rígidas encontra exemplos capazes de desestabilizar a separação proposta. Objetos utilitários podem adquirir valor estético; práticas consideradas populares dialogam com referências eruditas; artistas sem formação acadêmica aprendem técnicas e linguagens por meio das mídias digitais.


Mestre Vitalino oferece um exemplo conhecido. As figuras de barro associadas ao artista de Caruaru descendem de brinquedos infantis vendidos em feiras. Quando pesquisadores, colecionadores e instituições passaram a apresentá-las em exposições, os objetos ingressaram também no circuito das artes.


“Não são os objetos em si que dizem se são folclore ou arte. Somos nós que discutimos sobre eles”, afirma Ricardo. A posição de uma peça depende dos discursos, dos espaços de circulação e da capacidade de determinados agentes de convencer a sociedade sobre seu significado.


O antropólogo Carlos Rodrigues Brandão ajuda a explicar outra dimensão. Um pote pode servir para guardar água, mas, quando recebe flores, passa a guardar também referências, lembranças e identidades. O uso simbólico não elimina a função: amplia as relações construídas ao redor do objeto.


Ricardo leva a mesma reflexão para a produção contemporânea. Um artista das periferias pode criar caricaturas digitais sem ter frequentado uma escola formal de arte e, ao mesmo tempo, aprender observando grandes caricaturistas pela internet. Nesse processo, o erudito, o popular e a comunicação de massa deixam de ocupar compartimentos isolados.


As trocas não enfraquecem necessariamente as culturas. Ao contrário, podem produzir novas formas de criação. “Toda vez que culturas distintas se encontram, há mais chance de criar o novo”, defende.


A arte popular dentro da UERJ

Ricardo ingressou como professor da UERJ em 1995, no Instituto de Artes, e passou a atuar também no Programa de Pós-Graduação em Artes. Ao longo de mais de 30 anos, conciliou o ensino com atividades de pesquisa, extensão e gestão cultural.


Dirigiu o Departamento Cultural da Universidade e, posteriormente, trabalhou como assessor na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. Nessas funções, participou da formulação de exposições, oficinas e projetos voltados à circulação artística dentro e fora do campus.


Uma das iniciativas foi o programa Artista Visitante, que levou nomes como o xilógrafo pernambucano Marcelo Soares e o ator Antônio Pitanga à UERJ. Eles ministraram oficinas e desenvolveram atividades com os estudantes, aproximando a formação universitária de conhecimentos construídos fora dos percursos acadêmicos convencionais.


Apesar da qualidade dos encontros, as atividades contavam apenas como formação complementar. Não possuíam o mesmo reconhecimento curricular de uma disciplina conduzida por um professor vinculado formalmente à Universidade. Essa diferença se tornou uma das principais inquietações de Ricardo.


O sonho ainda não realizado

Ao avaliar a própria trajetória na UERJ, Ricardo identifica uma frustração: não conseguiu colocar os saberes tradicionais em igualdade com o conhecimento acadêmico e científico.


A Universidade pode conceder títulos honoríficos e convidar mestres para palestras, oficinas e eventos. Essas ações são importantes, mas não equivalem a reconhecê-los como produtores de conhecimento capazes de assumir regularmente uma disciplina e participar da formação dos estudantes.


“Meu sonho era colocar os grandes mestres da cultura popular dentro da Universidade, dando aula com a gente, em pé de igualdade com o professor acadêmico”, afirma.

Para Ricardo, uma oficina de Antônio Pitanga deveria poder integrar formalmente o currículo de Artes. O mesmo valeria para o curso de um xilógrafo, de uma ceramista, de um mestre de Folia de Reis ou de qualquer outro detentor de conhecimentos desenvolvidos por meio da experiência, da prática e da transmissão entre gerações.


O reconhecimento não exige transformar os mestres em acadêmicos nem submeter seus saberes aos mesmos critérios utilizados para uma tese. Exige que a Universidade amplie sua compreensão sobre quem pode ensinar e sobre as formas legítimas de produzir conhecimento.


Aposentadoria sem cadeira de balanço

Ricardo se aposentou da UERJ em junho de 2025, mas rejeita a ideia de que a aposentadoria represente o fim da vida profissional. Considera injusto que trabalhadores em pleno vigor sejam afastados compulsoriamente apenas em razão da idade.


Poucos meses depois, mantinha projetos apoiados pela Faperj, organizava exposições e criava novas frentes de atuação. Em Niterói, ajudou a transformar a sala de espera de uma clínica de fisioterapia em uma pequena galeria. A proposta nasceu da percepção de que o contato com a arte poderia contribuir não apenas para ocupar as paredes, mas também para o bem-estar das pessoas que aguardavam atendimento.


Na UERJ, encerrou sua trajetória funcional com a exposição Expressões da arte popular fluminense, organizada com Jorge Mendes na Galeria Cândido Portinari. A mostra reuniu 17 artistas de diferentes regiões do estado, aproximando nomes reconhecidos e novos talentos da criação popular fluminense.


Ricardo continuou ainda a organizar viagens em pequenos grupos para territórios de produção artesanal. Depois de percursos pelo Norte de Minas e pelo Vale do Jequitinhonha, preparava uma visita ao Baixo São Francisco, em Alagoas. A iniciativa transforma o conhecimento acumulado em mediação direta entre o público, os artistas e os lugares onde as obras são produzidas.


“A vida não termina na aposentadoria; abrem-se outras chances”, afirma. Ele admite estar cansado da rotina de sala de aula, mas não da pesquisa, da curadoria e dos encontros proporcionados pela cultura popular.


Uma homenagem e uma tarefa para o futuro

Ricardo recebeu a homenagem da Folkcom 2025 como uma honra e como reconhecimento a uma trajetória construída coletivamente. Sua história reúne instituições e pessoas que ajudaram a modificar o modo como o Brasil pensa o folclore, os objetos e as artes populares.


A homenagem, contudo, ganha sentido quando aponta para o trabalho ainda necessário. A aproximação entre a Universidade e as culturas populares não pode ocorrer apenas quando o pesquisador transforma práticas em artigos, teses ou exposições. Precisa permitir que os próprios detentores dos saberes participem da produção e da transmissão do conhecimento.


Depois de décadas levando artistas para museus e universidades, Ricardo continua a defender uma mudança de posição: os mestres não devem entrar nesses espaços apenas como objetos de estudo, convidados ocasionais ou homenageados. Devem ser reconhecidos como interlocutores e professores.


Essa talvez seja a principal herança de sua trajetória. Mais do que preservar objetos ou registrar manifestações, trabalhar com cultura popular significa rever hierarquias e admitir que a Universidade não possui todas as respostas. Para continuar relevante, ela também precisa aprender com quem ensina fora de seus muros.


A entrevista foi realizada remotamente em setembro de 2025 e integrou as ações preparatórias da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2025. Na época, Maria Raiane Oliveira era estudante de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O antropólogo e professor Ricardo Gomes Lima foi um dos homenageados do evento por sua trajetória dedicada ao folclore, ao artesanato e às artes populares.

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