“A terra não é mercadoria, as mulheres também não”: mesa destaca protagonismo feminino e resistência cultural na Amazônia
Pesquisadoras e ativistas reunidas na IV Jornada de Folkcomunicação da Pan Amazônia discutiram comunicação popular, mulheres de terreiro, ancestralidade, jornalismo, desigualdade e mobilização social.
Comadre Nete queria compreender como funcionava o Sistema Único de Saúde. Para participar de uma atividade realizada no bairro São Francisco, em Parintins, ela deixou uma bacia cheia de roupas no giral e foi ouvir uma enfermeira falar sobre o SUS.
A apresentação, porém, estava repleta de termos técnicos e siglas. Sem conseguir acompanhar a explicação, Comadre Nete pediu licença, disse que era analfabeta e deixou o encontro. Sua atitude fez com que a enfermeira reconsiderasse a linguagem utilizada e organizasse uma nova conversa com a comunidade.
A história, narrada pela educadora popular Fátima Guedes Araújo, abriu um dos momentos mais marcantes da mesa “Protagonismo das mulheres e resistência cultural: práticas folkcomunicacionais em territórios da Amazônia”, realizada durante a IV Jornada de Folkcomunicação da Pan Amazônia, em Parintins.
O episódio sintetizou uma das principais questões discutidas no encontro: não basta transmitir uma informação. Para haver comunicação, é necessário que a mensagem possa ser compreendida, compartilhada e transformada em ação pelas pessoas envolvidas.
Mediada pelo professor Charles Maciel Falcão, do Instituto de Saúde e Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas, a mesa reuniu a professora Karina Janz Woitowicz, da Universidade Estadual de Ponta Grossa; a historiadora Márcia Gabrielle Ribeiro Silva, do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM; e Fátima Guedes Araújo, educadora popular e fundadora da Associação de Mulheres de Parintins.
Onde estão as mulheres?
Karina Janz Woitowicz iniciou sua exposição com uma pergunta aparentemente simples: onde estão as mulheres?
Segundo a pesquisadora, a resposta depende do lugar para o qual se dirige o olhar. As mulheres ainda enfrentam uma histórica ausência nos espaços formais de poder, decisão e representação. Ao mesmo tempo, exercem funções fundamentais na política cotidiana, na organização comunitária, na preservação dos saberes e na continuidade das manifestações culturais.
Para Karina, as questões de gênero não podem ser analisadas isoladamente. É necessário observar também os marcadores de raça, classe, sexualidade e território, que produzem experiências distintas e, muitas vezes, aprofundam as desigualdades.
Essa reflexão aproxima os estudos de gênero da Folkcomunicação, teoria dedicada aos processos comunicacionais desenvolvidos por grupos populares e historicamente marginalizados. São formas de comunicação que acontecem por meio de relações comunitárias, conhecimentos tradicionais, celebrações, objetos culturais, práticas religiosas e diferentes maneiras de narrar o cotidiano.
Karina definiu as mulheres como “guardiãs” ou “guardadoras da cultura”. Além de preservarem conhecimentos, elas os transformam e os transmitem para outras gerações. Por isso, podem ser compreendidas como agentes folkcomunicadoras e protagonistas dos processos culturais de seus territórios.
Da violência ao protagonismo
Para demonstrar como a mídia constrói suas representações, a pesquisadora realizou um exercício de busca por notícias que relacionavam as palavras “mulheres” e “Amazônia”.
Os primeiros resultados estavam associados principalmente à violência sexual, ao feminicídio, à exploração e à atuação de organizações criminosas. Karina reconheceu a necessidade de denunciar esses problemas, mas chamou a atenção para o risco de reduzir as mulheres amazônicas exclusivamente ao lugar de vítimas.
Quando acrescentou a palavra “cultura” à pesquisa, outros sentidos apareceram. As notícias passaram a abordar mulheres envolvidas com a produção de biojoias, a preservação de sementes, o cinema indígena, o empreendedorismo quilombola e a agricultura sustentável.
A mudança mostrou como as escolhas editoriais podem ampliar ou limitar a maneira como a sociedade conhece essas mulheres. O desafio não está em deixar de denunciar a violência, mas em reconhecer também as trajetórias de liderança, criação, organização política e defesa dos territórios.
Durante o debate, Karina dirigiu uma provocação especialmente aos profissionais do jornalismo: “O que a gente escolhe mostrar, quem a gente escolhe mostrar e de que forma estamos mostrando?”.
Mulheres de terreiro e histórias silenciadas
“Sou professora, sou ativista, sou de movimento social e sou sacerdotisa de Umbanda.”
Foi assim que Márcia Gabrielle Ribeiro Silva se apresentou ao público. A pesquisadora tomou como fio condutor de sua exposição o ponto cantado “Arreda, homem, que aí vem mulher” para abordar o protagonismo das mulheres de terreiro e suas lutas por direitos sociais, políticos e religiosos.
Márcia destacou que as religiões de matriz africana possuem uma importante tradição matriarcal. As mulheres exercem funções de liderança espiritual, acolhem comunidades, preservam conhecimentos ancestrais e articulam estratégias para a sobrevivência dos terreiros.
Mesmo com essa atuação, suas histórias permaneceram durante muito tempo fora da historiografia oficial. Corpos de mulheres negras e indígenas foram associados ao trabalho forçado, aos serviços domésticos e à sexualização, enquanto seus conhecimentos, suas lideranças e suas formas de resistência eram desconsiderados.
Ao apresentar essas mulheres como “mães de muitos”, Márcia ressaltou uma maternidade que ultrapassa os vínculos biológicos. Elas são mães de filhos e filhas de santo, conselheiras, cuidadoras e referências para as comunidades que se formam ao redor dos terreiros.
A pesquisadora também recuperou depoimentos de sacerdotisas que participaram de seu trabalho acadêmico. As falas revelaram perseguições, abaixo-assinados contra terreiros, discriminação religiosa e, simultaneamente, orgulho e felicidade pelo pertencimento à religião.
Para Márcia, descolonizar a produção do conhecimento significa reconhecer essas trajetórias como parte fundamental da história. Significa compreender que as mulheres de terreiro não são apenas personagens secundárias de uma narrativa escrita por outras pessoas: elas são produtoras de saberes e protagonistas de suas próprias histórias.
“Quem sou eu para mandar Exu embora?”, questionou a pesquisadora ao recusar a ideia de que essas narrativas possam receber um ponto final. São histórias que continuam sendo escritas entre terreiros, sambas, comunidades, movimentos sociais e universidades.
A “teimosia feminista” de Parintins
Fátima Guedes preferiu substituir a palavra protagonismo por outra expressão: “teimosia feminista”.
Caboca das terras baixas da Amazônia, educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais, Fátima contou que nasceu de um ventre rural e foi a 11ª filha de sua mãe. Ao recordar essa ancestralidade, perguntou quantos desejos e sofrimentos foram silenciados para que ela pudesse chegar a uma mesa de debates dentro da universidade.
Sua exposição relacionou a luta das mulheres à defesa da Mãe Terra. Fátima apresentou o Cóio das Utopias, agrofloresta urbana situada no bairro Tonzinho Saunier, como um espaço de aprendizagem, cuidado e resistência.
No local, a observação das árvores, formigas, plantas e casas de cabas revela uma lição sobre a vida comunitária. Isolados, os seres se tornam mais frágeis; unidos, constroem formas de proteção e sobrevivência. Para Fátima, essa é a “universidade dos comuns”, na qual a natureza ensina sobre solidariedade, equilíbrio e organização coletiva.
A educadora também recordou as mobilizações das mulheres de Parintins pela criação do feriado municipal de 8 de março. O projeto de iniciativa popular reuniu mais de 5 mil assinaturas, passou pela Câmara Municipal e foi vetado pelo Poder Executivo. Apesar da decisão, o movimento permaneceu ativo e levou a reivindicação a outras instâncias.
Outra experiência mencionada foi a produção do livro Algemas Silenciadas, construído a partir de entrevistas realizadas com mulheres encarceradas em Parintins. Os relatos permitiram discutir as diferentes prisões impostas às mulheres, mesmo quando não existem grades: relações abusivas, exploração do trabalho, dependência econômica e controles políticos ou religiosos.
Fátima encerrou sua exposição com uma declaração que uniu feminismo, agroecologia e defesa da vida: “A terra não é mercadoria, as mulheres também não”.
Autoconsciência, escuta e transformação
Na etapa de debates, as participantes foram questionadas sobre os caminhos para superar as desigualdades e sobre o papel dos homens nesse processo.
Fátima apontou a autoconsciência como ponto de partida. Para ela, é necessário romper divisões rígidas, reconhecer a origem comum dos seres humanos e construir espaços de diálogo. Como exemplo, apresentou os Círculos Sagrados de Saúde realizados durante as luas cheias, nos quais ancestralidade, educação popular e cuidados com a natureza se encontram.
Márcia defendeu que a mudança começa “aqui dentro” e nas relações cotidianas. Isso envolve respeitar as mulheres, reconhecer a legitimidade das pesquisas sobre gênero e raça e compreender que a violência não surgiu recentemente. Em muitos casos, o que aumentou foi a possibilidade de denunciar, devido à criação de leis, políticas públicas e redes de proteção.
Karina destacou a necessidade de vigilância permanente sobre os privilégios e as escolhas feitas por pesquisadores, professores e jornalistas. Quais autores são estudados? Quais teorias recebem legitimidade? Quem aparece nas reportagens? Que experiências continuam fora das universidades e dos meios de comunicação?
Ao encerrar a mesa, Charles Maciel Falcão ressaltou que não faltam ações, trabalhos ou intervenções protagonizadas pelas mulheres. O que ainda falta é um olhar social capaz de reconhecer e valorizar essa presença.
A discussão deixou uma mensagem central: o protagonismo feminino não é uma concessão recente. As mulheres sempre estiveram nos terreiros, nas comunidades, nas agroflorestas, nas organizações populares, nas festas, nos movimentos sociais e na produção de conhecimento.
Como resumiu Márcia Gabrielle, ao reivindicar para essas trajetórias um lugar na história: “As mulheres estão aqui”.
A transmissão completa da mesa está disponível no canal do Portal da Ciência no YouTube.




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