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Territórios, memória e cultura popular marcam GT de Folkcomunicação no Intercom 2026

Primeiro bloco reuniu quatro pesquisas sobre mobilização comunitária em Olinda, literatura de cordel, festas religiosas na Bahia e batalhas de rima nas periferias de Maceió.



Território, pertencimento e produção popular de sentidos atravessaram a primeira sessão do Grupo de Pesquisa Folkcomunicação no 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Realizado remotamente na manhã desta sexta-feira, 14 de agosto, o encontro reuniu pesquisas desenvolvidas em Pernambuco, Ceará, Bahia e Alagoas.

Intitulada “Tradição, territórios e plataformas: perspectivas contemporâneas da Folkcomunicação”, a sessão foi coordenada por Betania Lemos Maciel, da ESUDA – Faculdade de Ciências Humanas, e teve Guilherme Moreira Fernandes, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), como debatedor. A atividade integrou a etapa remota do Intercom 2026, realizada entre 11 e 14 de agosto. A etapa presencial acontecerá de 1º a 5 de setembro, na Universidade Católica de Brasília.


Comunicação comunitária e cidadania em Olinda

A primeira apresentação foi “Coletivo Salgadinho e Sítio em Movimento: histórias de vidas transformadas pelo empoderamento através da cidadania”, de Charles Gomes Martins, Leandro de Albuquerque Sales e Betania Lemos Maciel, da ESUDA. O trabalho foi apresentado por Charles Martins, com uma intervenção complementar de Betania.


Ainda em sua etapa inicial, a pesquisa acompanha a atuação do Coletivo Salgadinho e Sítio em Movimento, organização sem fins lucrativos que desenvolve atividades nas comunidades de Salgadinho e Sítio Novo, em Olinda. Desde 2022, o grupo promove oficinas e ações relacionadas a direitos, saúde, cultura, formação de lideranças e cidadania.


A investigação parte do contraste entre a imagem de Olinda como cidade turística, marcada pelo carnaval e pela riqueza cultural, e as condições enfrentadas por comunidades periféricas que convivem com vulnerabilidades e violações de direitos. Segundo Martins, as primeiras representações encontradas em buscas sobre Salgadinho e Sítio Novo estão frequentemente associadas a problemas, conflitos e reivindicações sociais, deixando pouco espaço para as iniciativas culturais e comunitárias existentes no território.


Por meio de entrevistas e histórias orais de vida, os pesquisadores pretendem compreender como os integrantes das comunidades interpretam o mundo, constroem discursos e se posicionam diante das condições sociais, políticas e econômicas que os cercam. O estudo também procura identificar de que maneira as oficinas realizadas pelo coletivo estimulam disposições de liderança, comunicação, resiliência e participação social.


Os primeiros relatos apontam para o fortalecimento da consciência crítica, o empoderamento feminino e a formação de lideranças. Atividades como dança, capoeira, arte e formação em direitos são compreendidas como práticas culturais e comunicacionais que ajudam a comunidade a formular suas próprias narrativas.


Durante o debate, Guilherme Moreira Fernandes sugeriu que a pesquisa identifique os ativistas midiáticos presentes no coletivo e observe como conhecimentos acadêmicos, jurídicos e institucionais são adaptados ao cotidiano e aos sistemas comunicacionais próprios das comunidades.


O disco “Alucinação” pelas narrativas do cordel

Na sequência, Alberto Magno Perdigão Silveira, da Universidade de Fortaleza, apresentou “Alucinação: o que dizem os folhetos da literatura de cordel sobre o disco de Belchior”. O trabalho investiga como o álbum lançado em 1976, considerado um marco da música popular brasileira, aparece nas narrativas produzidas por cordelistas.


Perdigão partiu da premissa de que o folheto de cordel constitui uma mídia informativa, popular, alternativa e contra-hegemônica. Para a análise, selecionou 15 publicações editadas entre 2016 e 2026, quase todas produzidas no Ceará. O pesquisador examinou três aspectos: os sentidos atribuídos à palavra “alucinação”, as referências à canção que dá nome ao álbum e a representação do disco como obra musical.


Nos folhetos, a ideia de alucinação aparece relacionada à experiência cotidiana, à sobrevivência diante das dificuldades e à percepção da realidade social. Em outros casos, remete à trajetória do compositor, aos festivais de música e às referências culturais e filosóficas que participaram de sua formação.


As menções à canção destacam sua beleza e sua capacidade de falar sobre a realidade, romper limites morais e estimular mudanças. Já o álbum é apresentado como uma obra revolucionária, responsável pela projeção nacional de Belchior e capaz de transformar as inquietações de uma geração em poesia.


Segundo Perdigão, a produção de cordéis sobre o compositor intensificou-se depois de seu falecimento, em 2017. Essa característica está relacionada à função memorial do folheto biográfico, que frequentemente transforma personalidades em heróis populares e contribui para sua permanência no imaginário coletivo.


“No cordel, Belchior não morreu. Belchior continua vivo”, afirmou o pesquisador durante o debate. Enquanto a imprensa tradicional tende a encerrar a trajetória de uma personalidade com sua morte, o cordel atualiza sua presença e a projeta para outras gerações.


Festa da Purificação como fenômeno comunicacional

O terceiro trabalho foi “Processos Comunicacionais da Festa de Nossa Senhora da Purificação em Santo Amaro-BA”, de Adailane dos Santos Souza e Guilherme Moreira Fernandes, da UFRB. Fruto da dissertação de mestrado de Adailane, a pesquisa analisa a celebração realizada anualmente entre 22 de janeiro e 2 de fevereiro, no Recôncavo Baiano.

A pesquisadora empregou estudo de caso, entrevistas em profundidade, análise documental, observação direta, registros fotográficos, vídeos e caderno de campo. A abordagem fenomenológica permitiu considerar não apenas os discursos, mas também as sensações, emoções e experiências produzidas pela festa.


Adailane identificou processos comunicacionais nas missas, novenas, procissões, orações, gestos, símbolos, músicas e encontros entre moradores e visitantes. Também analisou a atuação da Pastoral da Comunicação, dos veículos jornalísticos e de ativistas midiáticos responsáveis por divulgar diferentes aspectos da celebração.


A festa reúne dimensões religiosas, culturais e profanas. A programação inclui o Bando Anunciador, a Lavagem da Purificação, missas, procissões, apresentações musicais, trios elétricos, blocos e carros de som. Para Adailane, trata-se de “uma festa dentro de outra festa”, na qual diferentes manifestações ocupam simultaneamente as ruas e praças de Santo Amaro.


A comunicação não se limita às palavras ou aos meios tecnológicos. Ela também acontece pelos corpos, sons, imagens, cheiros, gestos e emoções compartilhados pelos participantes. As ruas, os casarões, a basílica, os monumentos e as memórias dos moradores constituem um território vivido, marcado pelo pertencimento e pela ancestralidade.


A análise mostrou ainda que a procissão incorpora questões sociais contemporâneas. Na apresentação dos santos, temas como racismo, políticas de cotas e condições de trabalho foram abordados publicamente, demonstrando como o prestígio religioso pode ser mobilizado para fazer circular reivindicações sociais.


Batalhas de rima produzem pertencimento em Maceió

Encerrando o primeiro bloco, Amaro Xavier Braga Junior, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), apresentou “Folkcomunicação e Cultura Pop Periférica: a potente comunicação das batalhas de rima no Vergel do Lago em Maceió”. O trabalho é assinado em parceria com a mestranda Jordana Gomes Barros, que não pôde participar da sessão.

A pesquisa acompanha jovens envolvidos em batalhas de rima no Vergel do Lago, comunidade periférica localizada nas proximidades da Lagoa Mundaú. Professora de escola pública na região, Jordana percebeu o envolvimento de seus alunos na organização e na participação dos encontros, que mobilizam diferentes bairros de Maceió.


As batalhas são organizadas por meio de redes sociais e plataformas digitais. Inscrições, agendas, resultados e rankings circulam em perfis administrados pelos próprios participantes. Ao mesmo tempo, as rimas improvisadas abordam as experiências dos jovens, as condições sociais das periferias e o pertencimento aos bairros.


O estudo procura compreender como uma linguagem associada à cultura global do hip-hop é apropriada e transformada pelas experiências locais. As batalhas produzem uma cultura de bairro, formam lideranças juvenis e dão visibilidade a sujeitos que raramente encontram espaço nos meios de comunicação convencionais.


A metodologia inclui acompanhamento etnográfico dos encontros, observação das redes sociais e análise dos discursos produzidos pelos MCs. Embora o foco esteja no Vergel do Lago, os participantes circulam por diferentes bairros, formando redes de disputa, reconhecimento e colaboração.


No debate, foram sugeridos novos caminhos para a pesquisa, entre eles a observação da participação feminina nas batalhas. Amaro explicou que muitos torneios são mistos e não estabelecem separações formais por gênero, embora esse aspecto ainda possa ser aprofundado em estudos posteriores.


Folkcomunicação ligada ao chão dos territórios

As quatro apresentações mostraram como a folkcomunicação permite investigar práticas muito diferentes sem perder de vista os sujeitos, os territórios e os sistemas populares de produção de sentidos.


Das oficinas comunitárias de Olinda aos versos dedicados a Belchior; das procissões de Santo Amaro às batalhas de rima de Maceió, os trabalhos demonstraram que a comunicação também se realiza nas relações cotidianas, na oralidade, na memória, nos rituais e nas estratégias pelas quais grupos populares narram suas próprias experiências.

O debate reforçou ainda a importância de pesquisas comprometidas com os territórios e com as pessoas que produzem essas manifestações. Mais do que registrar práticas culturais, a folkcomunicação ajuda a compreender como elas geram pertencimento, consciência crítica, memória e participação social.

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