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Entre algoritmos e culturas populares, sessão final do GP de Folkcomunicação debate IA e educação

14 de ago.
7 min de leitura

Três pesquisas discutiram educação midiática, mediações algorítmicas e professores populares do YouTube durante o encerramento das atividades do grupo no Intercom 2026.



As transformações provocadas pela inteligência artificial e pelas plataformas digitais estiveram no centro da sessão final do Grupo de Pesquisa Folkcomunicação no 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Realizado remotamente nesta sexta-feira, 14 de agosto, o encontro reuniu três trabalhos dedicados a compreender como tecnologias contemporâneas interferem na educação, na representação das culturas populares e nas formas de atuação dos mediadores folkcomunicacionais.


A atividade deu continuidade à sessão “Tradição, territórios e plataformas: perspectivas contemporâneas da Folkcomunicação”, coordenada por Betania Lemos Maciel, da ESUDA – Faculdade de Ciências Humanas, e debatida por Guilherme Moreira Fernandes, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A programação oficial do GP integrou a etapa remota do Intercom 2026, realizada entre os dias 11 e 14 de agosto.


Quem fala pelas máquinas?

A primeira apresentação foi “Quem fala pelas máquinas? Cultura, identidade e exclusão nas experiências de educação midiática em Inteligência Artificial no Ensino Médio brasileiro”, de Jefte Fernando de Amorim Barbosa e Marcelo Sabbatini, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática e Tecnológica da UFPE, Jefte apresentou um recorte de sua tese sobre educação midiática e inteligência artificial. O ponto de partida da pesquisa é que as plataformas de IA não podem ser entendidas como ferramentas neutras: elas selecionam informações, produzem representações da realidade e carregam as visões de mundo dos grupos e empresas responsáveis por seu desenvolvimento.


A concentração da infraestrutura tecnológica nas mãos de poucas empresas produz uma assimetria na qual um número reduzido de pessoas pode determinar aquilo que será apresentado a bilhões de usuários. Por isso, a pesquisa procura identificar quais línguas, corpos, estéticas e visões de mundo são privilegiados nos bancos de dados e quais culturas são excluídas, invisibilizadas ou representadas por estereótipos.


O diálogo com a folkcomunicação aparece justamente na atenção às desigualdades de poder. A perspectiva de Luiz Beltrão permite observar grupos populares não como ruídos dentro de uma comunicação hegemônica, mas como sujeitos que produzem sentidos e desenvolvem formas próprias de representar a realidade.


Para compreender como essas questões estão sendo trabalhadas no Ensino Médio, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura no Portal de Periódicos da Capes. Dos 18 registros inicialmente encontrados, apenas um descrevia uma experiência empírica de educação midiática sobre inteligência artificial que atendia aos critérios estabelecidos.


A experiência analisada foi realizada remotamente com estudantes do Ensino Médio e envolveu uma exposição conceitual, um estudo de caso e o uso de ferramentas de geração de imagens. A análise mostrou, contudo, maior concentração no funcionamento técnico das plataformas do que em questões relacionadas a representação, propriedade dos dados, interesses econômicos e desigualdades culturais.


“Temos a técnica em cena e a cultura nos bastidores”, sintetizou Jefte. Segundo o pesquisador, os estudantes foram estimulados a compreender como utilizar as ferramentas, mas tiveram pouco contato com discussões sobre quem as produz, quais perspectivas culturais orientam seus resultados e quais relações de poder participam dessa produção.


A existência de apenas um trabalho compatível com os critérios da revisão também revelou uma lacuna. Embora a inteligência artificial ocupe espaço crescente no cotidiano e no debate público, ainda são poucas as experiências sistematizadas de educação midiática crítica sobre o tema no Ensino Médio brasileiro.


Lideranças populares sob o poder dos algoritmos

O segundo trabalho, “Folkcomunicação entre tradição e algoritmo: reconfigurações teóricas, mediações e disputas simbólicas na era das redes digitais”, foi apresentado por Fabio Rodrigues Corniani, da Universidade Federal do Sul da Bahia.


A pesquisa recupera estudos realizados pelo autor desde 2004 e 2005, quando investigou redes sociais e lideranças folkcomunicacionais em ambientes como o Orkut. A proposta atual é revisitar esses conceitos diante das mudanças introduzidas pelos algoritmos, pelas novas plataformas e pela inteligência artificial generativa.


Corniani parte do reconhecimento de que já existem lideranças midiáticas populares atuando na internet. O problema contemporâneo consiste em compreender como essas lideranças são transformadas por plataformas nas quais a circulação das mensagens depende de decisões algorítmicas.


Nas primeiras redes sociais, as escolhas dos usuários exerciam papel mais direto sobre aquilo que seria visto. No cenário atual, os algoritmos determinam o alcance das publicações, selecionam conteúdos e interferem na formação das audiências. A mediação deixa de seguir um desenho linear e passa a envolver infraestruturas controladas por empresas privadas.


A inteligência artificial também facilita a produção de conteúdos e permite que mais pessoas criem imagens, vídeos e textos. Essa ampliação pode favorecer o ativismo midiático, mas não elimina problemas de qualidade, representação ou circulação.


Corniani citou imagens de inteligência artificial relacionadas ao candomblé nas quais Oxalá aparecia representado segundo uma iconografia cristã europeia, próxima à imagem de um Jesus branco e de olhos claros. O exemplo evidencia como as plataformas podem produzir distorções culturais mesmo quando tentam responder a solicitações sobre manifestações populares específicas.


Em vez de assumir uma posição imediatamente favorável ou contrária às tecnologias, o pesquisador propôs uma etapa de observação. Inspirado na conhecida oposição de Umberto Eco entre “apocalípticos” e “integrados”, Corniani ressaltou que a pesquisa ainda procura compreender o que se modifica em cada ponto do processo comunicacional: a liderança mediática, a mensagem, a recepção e as formas de circulação.


Para ele, a folkcomunicação oferece instrumentos para analisar o aumento da produção midiática feita por grupos marginalizados sem ignorar que sua visibilidade continua condicionada pelas plataformas. O acesso à produção foi ampliado, mas o poder de decidir o que circula permanece concentrado.


Professores populares levam a sala de aula ao YouTube

A terceira pesquisa foi “Professores populares do YouTube: cultura, mediação e exclusão no design audiovisual de videoaulas de Matemática sobre frações”, de Thomás Frutuoso Alves e Marcelo Sabbatini, da UFPE. Diante da ausência de Thomás na sessão, o trabalho foi apresentado por Sabbatini.


A pesquisa acompanha um fenômeno fortalecido durante a pandemia, mas iniciado antes dela: a consolidação de professores como criadores de conteúdo em plataformas digitais. No YouTube, estudantes encontram explicações alternativas, podem rever aulas, alterar a velocidade dos vídeos e escolher o educador com cuja linguagem possuem maior identificação.


Esses professores passam a exercer uma forma de mediação popular do conhecimento. Embora não substituam necessariamente a escola, eles ocupam lacunas deixadas pelo ensino formal e constroem relações próprias com suas audiências.


O estudo de Thomás concentra-se nas videoaulas de Matemática sobre frações. A pesquisa selecionou canais e vídeos para identificar quais modelos audiovisuais são empregados na explicação de conteúdos abstratos.


Os resultados preliminares apontam pouca exploração das possibilidades narrativas e visuais do audiovisual. Entre os modelos encontrados estão o professor falando diretamente para a câmera e os vídeos nos quais apenas a mão do educador aparece escrevendo equações. Apesar da mudança de plataforma, muitas aulas reproduzem o formato expositivo e a abstração presentes na sala de aula convencional.


O desafio, segundo a pesquisa, é compreender como os recursos audiovisuais podem ser utilizados para construir explicações mais contextualizadas, narrativas e visualmente acessíveis. A presença no YouTube amplia o acesso ao conteúdo, mas não garante, por si mesma, inovação pedagógica ou inclusão.


Sabbatini explicou que o trabalho integra um ciclo de estudos dedicado às relações entre tecnologia, educação e folkcomunicação. O grupo procura aproximar pesquisas de mestrado e doutorado dos conceitos de cultura popular, identidade e pertencimento, sem abandonar as bases teóricas do campo.


Experimentação exige leitura crítica

Durante o debate, Guilherme Moreira Fernandes destacou o pioneirismo de Fabio Corniani e Marcelo Sabbatini nos estudos que aproximaram folkcomunicação e ambientes digitais. Corniani esteve entre os primeiros pesquisadores a analisar comunidades culturalmente marginalizadas nas redes sociais, enquanto Sabbatini vem discutindo cibercultura, convergência e produção popular de conteúdos desde os primeiros anos de expansão da internet.


Fernandes observou que a promessa de uma internet democrática, na qual todos poderiam produzir e compartilhar informações, foi sendo substituída por um cenário de alcance controlado, circulação paga, desinformação e discursos de ódio. Para ele, a mesma cautela precisa orientar a incorporação da inteligência artificial às práticas de comunicação popular.


“Podemos experimentar, mas experimentar com sentido crítico”, afirmou Sabbatini. Além dos vieses e das alucinações, é necessário considerar os direitos autorais, a origem dos dados utilizados no treinamento e a dependência de infraestruturas pertencentes às grandes empresas de tecnologia.


O pesquisador Alberto Magno Perdigão Silveira aproximou o debate do universo da literatura de cordel. Segundo ele, os textos produzidos por inteligência artificial ainda apresentam problemas de métrica, linguagem e qualidade poética, enquanto as imagens generativas já começam a ocupar espaço nas capas dos folhetos.


Perdigão defendeu que a discussão não seja conduzida apenas pela oposição entre tradição e tecnologia. “O cordel não precisa de purismo, precisa de qualidade”, resumiu. Para o pesquisador, uma capa deve ser avaliada por sua qualidade estética, independentemente de ter sido criada por xilogravura, programas de edição ou inteligência artificial.


Fabio Corniani reforçou que as conclusões sobre IA ainda devem ser tratadas com prudência. Diferentemente da internet, que já pode ser observada historicamente desde sua popularização comercial, a inteligência artificial generativa ainda passa por transformações aceleradas. “Estamos no meio do furacão”, afirmou.


Novas tecnologias, antigas questões de poder

A participação de Osvaldo Trigueiro ampliou a discussão ao aproximar os fenômenos atuais das teorias clássicas da comunicação. O pesquisador questionou até que ponto conceitos como emissor, receptor, mensagem, canal, ruído e redundância estão sendo retomados, com uma nova linguagem, nos estudos sobre algoritmos e inteligência artificial.


Trigueiro também recuperou a passagem do líder de opinião, descrito por Luiz Beltrão, para o conceito de ativista midiático. Se, anteriormente, figuras como tropeiros, vendedores, artistas itinerantes e caminhoneiros transportavam informações entre os grandes centros e as pequenas comunidades, o ativista contemporâneo pode permanecer em seu território e reinterpretar as mensagens recebidas de acordo com os interesses locais.


Nas plataformas digitais, porém, essa atuação passa a conviver com novos agentes de mediação. Entre a liderança e sua comunidade encontram-se algoritmos, sistemas de recomendação, modelos generativos e empresas que controlam a infraestrutura comunicacional.


A sessão final mostrou que as novas tecnologias não eliminam as questões históricas da folkcomunicação. Ao contrário, atualizam os conflitos relacionados à hegemonia, à exclusão e ao direito de grupos populares produzirem e fazerem circular suas próprias representações.


Diante da inteligência artificial, o desafio do campo não é apenas perguntar o que as máquinas conseguem produzir, mas investigar quem fala por meio delas, quais culturas são reconhecidas e quem permanece nos bastidores.

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