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“A festa sempre tem algo a dizer”: Matheus Schwab discute comunicação e cultura popular com estudantes da UFRN

Convidado de ciclo coordenado pelo professor Itamar de Morais Nobre, pesquisador apresentou exemplos de diferentes regiões do país para mostrar como celebrações populares narram histórias, renovam vínculos comunitários e expressam conflitos sociais.



A festa popular não é apenas o cenário onde a comunicação acontece. Ela própria comunica. Foi essa a ideia que orientou a participação de Matheus Schwab, doutorando em Comunicação pelo PPGCom da UERJ, no quinto encontro do I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação e seus Campos de Pesquisa, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).


Realizada de forma on-line, a aula “Festas populares e comunicação” integrou o ciclo coordenado pelo professor Itamar de Morais Nobre, do Departamento de Comunicação Social da UFRN, com a colaboração da pesquisadora Ermaela Cícera Silva Freire. Durante o encontro, Schwab articulou registros de campo, experiências pessoais e conceitos da folkcomunicação para apresentar a festa como meio de expressão das comunidades.


Publicitário, produtor cultural e integrante da Rede Folkcom desde 2022, Matheus pesquisa festas populares a partir de uma trajetória que também é feita de deslocamentos. Nos últimos cinco anos, realizou trabalho de campo em 27 celebrações, distribuídas por seis estados brasileiros.


O número parecia grande até ser colocado no mapa. “Eu até me impressionei: ‘Caramba, foi muita coisa’. Aí joguei no mapa e não é nada. Ainda tem muita coisa para conhecer”, contou.


Entre o pesquisador e o brincante

Ao chegar a uma festa, Matheus procura conciliar diferentes posições. Observa como pesquisador, mas também participa como brincante, festeiro e visitante. Fotografa, conversa com moradores e, ao voltar para casa, registra o que encontrou em um diário de campo alimentado há vários anos.


É desse acervo de imagens, histórias e impressões que surgem perguntas para artigos, pesquisas e projetos. Em sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade de Sorocaba (Uniso), ele investigou as relações entre as festas da cultura caipira de São Luiz do Paraitinga e as mídias digitais. Agora, no doutorado, volta-se para os vínculos entre festas populares e desastres socioambientais.


São Luiz do Paraitinga também ocupa um lugar afetivo nessa trajetória. Foi ali que Matheus passou seu primeiro carnaval, aos 13 anos, e descobriu o estranhamento provocado pelo tempo festivo.


“Eu falei: ‘Gente, o que é isso? Por que o mundo é tão diferente nesses dias de carnaval? Por que o mundo não é sempre assim?’”, recordou. Na Festa do Divino Espírito Santo, o pesquisador encontrou um espaço onde diferentes tradições se cruzam. Dança de São Gonçalo, jongo, congadas, grupos de Moçambique, dança de fitas, música caipira e cavalhadas dividem as ruas e ajudam a contar histórias por meio de corpos, ritmos, imagens e objetos.


A dança dedicada a São Gonçalo, por exemplo, concentra os movimentos nos pés e nas pernas. A performance retoma a narrativa do santo e se relaciona às promessas feitas por pessoas que pedem a cura de dores ou feridas. Quando a graça é alcançada, pode ser oferecida uma refeição à comunidade.


Para Matheus, situações como essa mostram como o rito traduz uma narrativa compartilhada. A festa conta histórias sem depender apenas da palavra escrita ou de um suporte midiático convencional.


Uma tradição que permanece porque muda

A passagem pela Festa da Colônia Agrícola Italiana de Quiririm, em Taubaté, permitiu observar outro aspecto das celebrações: a tradição não permanece isolada do presente.

Em meio às bandeiras italianas, músicas, danças e comidas associadas à imigração, Matheus encontrou a figura de um saci. Em uma barraca, viu também um pano de prato estampado com a “grávida de Taubaté”, personagem que ganhou projeção nacional pela televisão e pelas redes sociais.


Os dois registros revelavam uma festa atravessada simultaneamente pela cultura caipira, pela memória da imigração italiana e pelo imaginário midiático contemporâneo.

“A festa popular que muitas vezes a gente chama de tradicional não é algo cristalizado no passado. Não é algo estanque”, afirmou.


A distinção proposta pelo pesquisador é entre tradição e tradicionalismo. Enquanto a primeira se transforma para continuar fazendo sentido, o segundo tenta reproduzir o passado como se práticas culturais pudessem permanecer intactas.


“A única coisa fixa da tradição é que ela muda e está sempre mudando. A festa é sempre igual à do ano passado e sempre diferente”, resumiu.


Quando o boi é a própria comunidade

Entre as experiências apresentadas, uma das mais marcantes ocorreu durante os festejos do Bumba Meu Boi, em São Luís do Maranhão. Matheus chamou atenção para as muitas camadas que atravessam a celebração: a narrativa de Pai Francisco e Catirina, o trabalho dos artesãos, a música dos cantadores, a religiosidade, a publicidade e as disputas políticas.


Uma barraca chamada “Bumba Meu Crepe” serviu de exemplo para discutir o folkmarketing e as apropriações econômicas da cultura popular. Em outro momento, o pesquisador percebeu o uso político da festa em propagandas que apresentavam a primeira-dama do estado como “madrinha dos bois”, embora brincantes ouvidos por ele não reconhecessem uma relação efetiva entre ela e os grupos.


A cena que mais o impressionou, porém, foi o batismo do Boi de Maracanã. Diante da comunidade, o padre explicou que não estava batizando um animal, mas todo o grupo representado naquele artefato.


Depois da bênção, as pessoas se aproximaram para tocar o boi e compartilhar a energia atribuída a ele. O objeto artesanal havia adquirido uma condição sagrada. Em outra conversa, Matheus encontrou uma brincante que estava acordada havia mais de 30 horas, acompanhando o grupo de arraial em arraial. Quando ele perguntou como ela ainda conseguia continuar, recebeu uma resposta curta: “É a fé”.


Foi nesse encontro que o pesquisador compreendeu com maior clareza a relação entre festa e pertencimento. “A festa é mais do que uma representação da comunidade. A festa, naquele momento, é a própria comunidade”, afirmou.


Essa relação assume sentidos diferentes em cada território. No Morro do Querosene, na zona oeste de São Paulo, a festa do boi ajuda a reunir moradores e fortalecer a resistência contra a gentrificação e o avanço das construtoras. A celebração, levada ao bairro também pela presença de migrantes maranhenses, torna-se uma forma de defender um modo de vida comunitário cada vez mais raro naquela região da cidade.


O que faz uma festa ser popular?

Na aula, Matheus reuniu cinco características que ajudam a reconhecer uma festa popular. A primeira é o caráter comunitário: ainda que movimente recursos e gere atividades econômicas, sua finalidade principal não é o lucro. A segunda é o vínculo com o território, entendido não apenas como espaço geográfico, mas como conjunto de relações, memórias e modos de vida.


Também aparecem a ligação com mitos e cosmovisões; a criação de um tempo extraordinário e cíclico; e a relação dinâmica com a tradição. Essa perspectiva diferencia as festas populares dos megaeventos, festivais privados ou ações promocionais organizadas por empresas. A festa não depende exclusivamente de um proprietário ou produtor. Ela existe porque está enraizada na vida da comunidade.


Matheus recorreu a uma provocação de Luiz Antonio Simas para tornar a distinção mais clara: a escola de samba existe porque desfila ou desfila porque existe? Mesmo que o Sambódromo desapareça, argumentou, a escola procurará outros modos de continuar existindo.


A interrupção de uma festa, por sua vez, pode sinalizar uma ruptura na própria comunidade. A pandemia de Covid-19 evidenciou essa relação ao suspender carnavais, procissões e celebrações que organizavam o calendário e a vida coletiva.


A festa como meio de comunicação

Ao aproximar essas observações da folkcomunicação, Matheus recuperou a trajetória de Luiz Beltrão e sua atenção aos modos pelos quais grupos populares produziam e compartilhavam informações fora dos veículos de massa.


Cantadores, almanaques, mamulengos, circos, ex-votos e celebrações populares mostraram ao pioneiro da teoria que a comunicação não estava restrita ao rádio, ao jornal, ao cinema ou à televisão.


Um dos exemplos apresentados foi a Malhação do Judas. Embora o boneco originalmente represente o personagem bíblico, muitas comunidades passaram a transformá-lo em prefeito, vereador, coronel, empresário, político ou qualquer outra figura identificada como opressora.


Protegida pelo tempo extraordinário da festa, a população podia criticar autoridades que, no cotidiano, não poderiam ser confrontadas abertamente. Em manifestações mais recentes, até a fumaça das queimadas na Amazônia foi transformada em Judas, atualizando a tradição para denunciar problemas ambientais.


“A festa tem algo a dizer. Sempre a festa vai ter algo a dizer”, destacou Matheus.

A celebração pode ser observada como espaço de comunicação, mas também como um meio em si mesma. Gestos, roupas, tambores, procissões, danças, cartazes, comidas e objetos comunicam valores e posicionamentos, mesmo quando nenhuma mensagem é formulada verbalmente.


Para explicar a coexistência entre diferentes sistemas comunicacionais, Matheus comparou as placas oficiais de trânsito às cruzes encontradas nas margens das rodovias. A placa alerta institucionalmente para o perigo. Já as cruzes, flores e pequenas capelas informam que alguém morreu naquele trecho e também pedem atenção ao motorista.


A comparação despertou uma lembrança de Itamar Nobre. O professor contou que percorreu a estrada entre Natal e Florânia, ao lado do pesquisador Élmano Ricarte, parando de cruz em cruz para entrevistar moradores e conhecer as histórias das mortes lembradas ao longo do caminho.


Quando a festa responde ao desastre

Na parte final da aula, Matheus apresentou o tema que atualmente desenvolve no doutorado: as relações entre festas populares e desastres socioambientais.


Em localidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, moradores que foram obrigados a deixar seus territórios retornam às ruínas nos dias de festa para realizar procissões. Em uma das paredes fotografadas, a frase “Samarco queria nos matar, mas Jesus nos salvou” estabelece uma comunicação direta entre fé, denúncia e memória.


Em São Luiz do Paraitinga, atingida por uma grande enchente em 2010, o carnaval passou a incorporar referências aos profissionais de rafting que usaram seus botes para resgatar moradores. O desastre entrou na narrativa da festa e passou a fazer parte da maneira como a cidade conta sua própria história.


Durante o debate, Ermaela Cícera Silva Freire relacionou a discussão ao desastre provocado pela mineração de sal-gema da Braskem em Maceió. A pesquisadora levantou a possibilidade de observar como a experiência dos bairros evacuados vem sendo expressa por meios populares e manifestações comunitárias.


Matheus explicou que sua hipótese de trabalho parte justamente dessa busca: a festa mais importante para uma comunidade atingida tende a manifestar o desastre de alguma maneira. A lembrança pode aparecer de forma direta, em uma faixa ou discurso, mas também na paisagem, na dança, nos muros, nos objetos e na atmosfera da celebração.


Isso não significa transformar a violência em mero divertimento ou esquecer suas consequências. Para o pesquisador, a festa permite elaborar coletivamente a experiência da dor.


“Ela opera muitas vezes a transformação da lágrima no riso”, afirmou. “Não para esquecer o desastre ou minimizar o desastre, mas para tentar transformar aquela dor em outra coisa.”

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