“A comunicação deveria ser um lugar de ouvir”: Adair Rocha aproxima favela, cultura e universidade
Homenageado pela Folkcom 2025, professor, gestor cultural e folião de Reis defende uma comunicação construída a partir das comunidades e uma cidade que reconheça as favelas como centros de criação e conhecimento
Entrevista: Ana Clara Alves
Edição: Andriolli Costa

Para Adair Rocha, a expressão “comunicação comunitária” revela uma insuficiência. Se toda comunicação nascesse da escuta e considerasse as experiências das pessoas às quais se dirige, talvez não fosse necessário acrescentar o adjetivo. O problema é que, frequentemente, os meios se limitam a levar informações para as comunidades, em vez de produzir conhecimento a partir delas.
“A comunicação deveria cumprir esse papel”, afirma. Em sua perspectiva, até o chamado lugar de fala precisa estar atento a um “lugar de ouvir”: um exercício capaz de revelar os limites da própria visão e de impedir que a fala reproduza relações tendenciosas.
A formulação sintetiza uma trajetória de mais de quatro décadas no ensino, na pesquisa, na militância social e na gestão pública da cultura. Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Adair também trabalhou no Ministério da Cultura, participou da expansão dos Pontos de Cultura e manteve uma relação contínua com movimentos de favelas. Mineiro radicado no Rio, é ainda folião de Reis desde a infância.
Ao ser entrevistado pela aluna Ana Clara Alves, ele percorreu essa história com a ajuda de fotografias e documentos. As imagens mostravam encontros políticos, manifestações culturais, salas de aula, movimentos sociais, amigos e familiares. Mais do que um arquivo de realizações pessoais, formavam um mapa das relações que orientaram seu modo de pensar a cidade.
Na entrevista, Adair falou sobre a Folia de Reis, o programa Cultura Viva, o Morro Santa Marta e o conceito de “cidade cerzida”. Também explicou por que considera a escuta indispensável à comunicação e refletiu sobre o reconhecimento recebido na Folkcom 2025. Em todos esses temas, reaparece uma mesma convicção: cultura, conhecimento e cidadania são produzidos por vínculos e não podem ser compreendidos de fora das experiências cotidianas.
“Todo mundo me chama de professor”
Ao ser convidado a se apresentar, Adair começa com uma brincadeira. Conta que até pessoas que convivem com ele há anos demoram a perguntar seu nome, porque todos — inclusive o caixa do supermercado — simplesmente o chamam de “professor”.
O tratamento combina com uma vida atravessada pelo ensino. Adair lecionou por 43 anos na PUC-Rio, desenvolveu uma longa trajetória na UERJ e passou por outras instituições no interior fluminense. Ensinou filosofia, sociologia, comunicação comunitária, produção cultural, cinema e temas ligados ao fenômeno religioso. Sua formação reúne estudos em Filosofia e Teologia, mestrado em Educação e doutorado e pós-doutorado em Comunicação.
Na entrevista, contudo, ele evita separar a formação acadêmica da participação social. A teoria, em seu entendimento, ajuda a produzir perguntas sobre a realidade, mas a vida cotidiana também coloca a teoria à prova. O professor que chega à sala de aula é o mesmo que acompanha associações de moradores, celebrações religiosas, projetos culturais e mobilizações por direitos.
Ainda jovem, Adair participou de trabalhos pastorais na Baixada Fluminense durante a ditadura militar. Atuou ao lado de Dom Adriano Hipólito e ajudou a formar grupos que mais tarde contribuíram para associações de moradores, pastorais operárias e organizações sindicais. Em Petrópolis, participou da criação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos com Leonardo Boff.
Também integrou articulações como o Movimento Fé e Política, a mobilização que levou à criação do Partido dos Trabalhadores e a Ação da Cidadania contra a Fome, associada a Herbert de Souza, o Betinho. Ao recordar essas experiências, Adair não as apresenta como uma biografia paralela à universidade. Para ele, elas fazem parte da própria produção de conhecimento.
“A formação teórica está o tempo todo ligada à minha participação na sociedade”, resume. É nessa circulação entre estudo e ação que se constitui sua singularidade como professor.

Uma política cultural que reconhece o que já existe
Antes de atuar no governo federal, Adair trabalhou na área cultural do Estado do Rio de Janeiro, com atenção especial à Baixada Fluminense e ao interior. Mais tarde, foi convidado pelo então ministro Gilberto Gil para trabalhar em Brasília. Depois, assumiu a representação regional do Ministério da Cultura no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, instalada no Palácio Gustavo Capanema.
Sua passagem pelo ministério coincidiu com a construção e a expansão do programa Cultura Viva. A política pública partia de uma mudança de perspectiva: o Estado não deveria se comportar como se produzisse cultura para comunidades desprovidas dela. Sua função era reconhecer, apoiar e conectar iniciativas que já criavam sentidos, memórias e formas de convivência em seus territórios.
Adair associa essa proposta à imagem do “do-in antropológico”, utilizada por Gilberto Gil. Assim como a técnica corporal pressiona pontos para estimular a circulação de energia, a política cultural deveria identificar onde a sociedade já pulsa e oferecer condições para que essa potência se ampliasse.
Na prática, o Cultura Viva substituiu parte da antiga política de balcão por editais públicos e criou uma rede de Pontos e Pontões de Cultura. Os Pontos reconheciam grupos e instituições com atuação cultural consolidada. Os Pontões, por sua vez, podiam articular diferentes iniciativas, compartilhar oficinas e ampliar o alcance das ações.
Adair participou de processos que levaram esse reconhecimento a projetos como o Museu da Maré, o bloco Loucura Suburbana, iniciativas da Zona do Mangue e associações de Folias de Reis do Sul Fluminense. Também trabalhou para criar parcerias com o governo estadual e com municípios, entre eles Rio de Janeiro, Niterói e Campos dos Goytacazes.
Ao recordar a defesa do Museu da Maré como Ponto de Cultura, ele destaca a capacidade da instituição de transformar memória em “arte e vida”. Um museu construído a partir das contradições e criações cotidianas de uma favela, argumenta, também desloca concepções elitistas segundo as quais determinados espaços culturais não pertenceriam a todos.
O mesmo princípio orientava o apoio a folias, jongos, rodas de samba, blocos e expressões do funk. Para Adair, não se tratava de enquadrar práticas diferentes em um modelo único, mas de permitir que cada uma fortalecesse suas próprias formas de organização e transmissão.
Os editais ampliaram o acesso, mas não eliminaram as barreiras. Quando dezenas de projetos disputam uma única vaga, observa, isso demonstra que novos grupos conseguiram participar e, ao mesmo tempo, que os recursos continuam insuficientes. Democratizar a cultura exige, portanto, reconhecer conquistas sem deixar de examinar quem ainda permanece fora das políticas públicas.
Folia de Reis como fé e forma de viver
A relação de Adair com as culturas populares não começou na gestão pública nem na universidade. Ela vem da zona rural de Minas Gerais, em uma região próxima a Pouso Alegre, Silvianópolis e Espírito Santo do Dourado. Seus pais eram devotos dos Santos Reis e recebiam as folias em casa.
Ainda menino, ele se encantava com os grupos que percorriam longas distâncias entre uma casa e outra, durante o dia ou à noite. Na tradição mineira que conheceu, predominavam instrumentos de cordas: viola, cavaquinho, violão e banjo, acompanhados pela sanfona de oito baixos e pelo som do bumbo, ouvido de longe.
Adair começou a acompanhar os foliões, aprendeu a tocar violão e logo se tornou contramestre. Também ajudava a compor versos. As letras se alimentavam da chamada História Sagrada, mas não permaneciam presas ao passado bíblico: relacionavam aquela narrativa aos acontecimentos e às questões do presente.
A folia organizava ainda outras dimensões da vida comunitária. Como os participantes precisavam cuidar das lavouras, vizinhos realizavam mutirões para adiantar o trabalho de cada família. A convivência construída nos cortejos alcançava o plantio, o futebol, os bailes e as amizades. Fé, trabalho e lazer não apareciam como universos separados.
Ao se mudar para o Rio de Janeiro, Adair manteve o vínculo. Tornou-se integrante da Folia dos Penitentes, no Morro Santa Marta, e aproximou-se de grupos da Mangueira, da Formiga e de outros territórios.
Por isso, ele rejeita a ideia de que a Folia de Reis seja apenas uma apresentação realizada entre o Natal e o Dia de Reis. A jornada possui um calendário ritual, mas os vínculos, as promessas, os preparativos e os modos de compreender o mundo permanecem durante todo o ano. “Ela é uma relação de fé”, explica. “As pessoas vivem aquilo o ano inteiro.”
Essa experiência também ajuda a entender sua atuação no Ministério da Cultura. Ao defender o reconhecimento das folias como Pontos de Cultura, Adair não observava uma manifestação externa à sua vida. Conhecia por dentro as redes de solidariedade, memória e devoção que o poder público precisava aprender a enxergar.
Cultura não é sinônimo de evento

Um dos problemas das políticas e coberturas culturais, segundo Adair, está na redução da cultura a uma agenda de eventos. Shows, exposições e espetáculos são importantes, mas não esgotam aquilo que dá sentido à vida coletiva.
Cultura, para ele, é significação. Está nas práticas religiosas, nas memórias familiares, nos modos de ocupar a cidade, nas formas de solidariedade e nos conhecimentos transmitidos entre gerações. Está no samba, no carnaval, no funk, no passinho, nas folias, nas rezas e em muitas outras expressões criadas cotidianamente.
Quando os holofotes se voltam apenas para o espetáculo pronto, o mercado pode se apropriar de linguagens populares enquanto apaga os grupos e territórios que as produziram. A política cultural, ao contrário, precisa reconhecer os processos que existem antes e depois do palco.
Adair oferece um exemplo pessoal. Antes do nascimento de um de seus filhos, passou com a esposa pelo Morro Santa Marta para receber a reza de Quinha, uma rezadeira da comunidade. O gesto não era uma atração cultural nem um episódio decorativo. Participava de uma forma de viver e de atribuir sentido a um momento decisivo da família.
É esse tipo de relação que a noção de cultura viva procura alcançar. Preservar uma prática não significa congelá-la nem convertê-la em apresentação para um observador externo. Significa garantir que seus protagonistas possam continuar recriando-a, transmitindo-a e definindo o lugar que ela ocupa em suas vidas.
Da cidade partida à cidade cerzida
A mesma mudança de perspectiva aparece na maneira como Adair pensa as favelas. Seu livro Cidade cerzida: a costura da cidadania no Morro Santa Marta dialoga com a imagem da “cidade partida”, difundida pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura.
Adair reconhece a importância do trabalho de Zuenir, mas considera que a metáfora da divisão pode reforçar uma leitura de separação entre favela e cidade. Em certas narrativas públicas, a violência deixa de ser tratada como um fenômeno social complexo e passa a ser associada automaticamente a determinados territórios e moradores. A favela aparece como o lugar do problema, enquanto as relações que atravessam toda a cidade desaparecem.
A ideia de “cerzir” propõe outro movimento. Cerzir é costurar uma parte rasgada sem apagar as marcas do tecido. A cidade, nessa leitura, é construída diariamente por moradores de favelas que trabalham, circulam, produzem cultura, prestam serviços e estabelecem relações em todas as suas regiões. A favela não está fora da cidade à espera de integração: já participa de sua constituição.
O conceito nasceu da convivência de Adair com o Santa Marta, mas se estende à Maré, ao Complexo do Alemão, à Rocinha e a muitos outros territórios. Em vez de olhar apenas para carências, ele chama atenção para formas históricas de organização e resistência.
Durante a pandemia de covid-19, essas redes se tornaram ainda mais visíveis. Em diferentes favelas, moradores e organizações criaram ações de saúde, distribuíram alimentos e equipamentos de proteção e produziram informações adequadas às condições locais. Para Adair, as respostas não surgiram do nada: apoiaram-se em décadas de cooperação comunitária.
Mais recentemente, ele passou a desenvolver também a ideia de uma “cidade multicêntrica”. Se a cidade possui centros por toda parte, os territórios classificados apenas como frágeis podem ser reconhecidos como lugares de potência, criação e formulação de soluções. Não se trata de romantizar desigualdades, mas de recusar uma leitura que enxerga os moradores somente por aquilo que lhes falta.
Comunicar para ou comunicar a partir de?
Essa discussão conduz ao tema que marcou grande parte da carreira docente de Adair: a comunicação comunitária. Ele questiona os modelos que chegam às comunidades com pautas prontas, selecionadas a partir dos interesses e critérios dos grandes meios.
Nesse formato, a comunicação entrega notícias para o povo. Pode até falar sobre uma favela, uma folia ou um movimento cultural, mas não necessariamente permite que seus participantes definam as perguntas, os sentidos e as prioridades da narrativa.
A comunicação construída a partir das comunidades começa de outra maneira. Ela escuta antes de enquadrar, reconhece conhecimentos locais e admite que o comunicador também precisa rever suas certezas. Não se limita a divulgar manifestações: procura compreender o que elas significam para quem as vive.
É nesse ponto que Adair transforma o “lugar de fala” em uma provocação sobre o “lugar de ouvir”. Ter legitimidade para falar sobre determinada experiência não elimina a necessidade de escutar outras pessoas nem protege automaticamente uma fala de limitações e tendências.
“Trabalhar a comunicação comunitária é rediscutir a própria comunicação”, afirma. O adjetivo continua necessário porque a comunicação dominante nem sempre cumpre essa função. Seu horizonte, porém, seria tornar a escuta e a participação princípios de qualquer prática comunicacional.
Essa perspectiva ajuda também a manter vivas manifestações como Folias de Reis e blocos comunitários. O objetivo não é apenas anunciar datas ou produzir registros. É fazer circular memórias, aproximar gerações e abrir espaço para que os próprios grupos contem como se transformam, quais ameaças enfrentam e o que desejam preservar.
A universidade também está em jogo
Ao comentar a homenagem da Folkcom 2025, Adair resiste a se definir como mestre ou griô. Reconhece a força desses títulos e prefere que sejam atribuídos pelas comunidades, não assumidos pelo próprio homenageado. Ainda assim, diz receber o reconhecimento com profunda felicidade.
Para ele, a homenagem alcança trabalhos que muitas vezes permanecem invisíveis, sobretudo quando adotam uma perspectiva crítica sobre a vida cotidiana e evidenciam suas dimensões políticas. Mais do que celebrar uma biografia, o encontro cria uma oportunidade para perguntar que conhecimentos a universidade valoriza e que trocas estabelece com a população.
“O próprio conceito de universidade é que está em jogo”, afirma. O mesmo vale, acrescenta, para os conceitos de ensino e pesquisa. Quando mestres, foliões, comunicadores comunitários e agentes culturais entram no espaço acadêmico como produtores de conhecimento, não estão apenas oferecendo temas para pesquisadores. Também desafiam a instituição a rever seus métodos, suas linguagens e suas hierarquias.
Adair relaciona essa transformação às políticas de cotas e à ampliação da presença de estudantes oriundos de grupos que historicamente permaneceram fora das universidades. O acesso não muda apenas quem ocupa as salas de aula. Modifica perguntas, referências e formas de relacionar formação acadêmica e experiência social.
É por isso que ele identifica uma afinidade direta entre a Folkcom, os Pontos de Cultura e as culturas tradicionais. Todas essas experiências podem aproximar comunicação, educação e modos populares de produzir significado. Também ajudam a superar uma relação na qual a universidade apenas recolhe informações nos territórios, sem se deixar transformar por eles.
Reconhecer uma trajetória coletiva
A entrevista aconteceu pouco depois da aposentadoria de Adair, mas sua fala não tem o tom de encerramento. Ele continua envolvido em projetos, conversas com antigos estudantes, debates sobre políticas culturais e iniciativas ligadas às favelas e às culturas populares.
As fotografias que levou ao Lunar ajudam a explicar essa continuidade. Embora registrem momentos de sua vida, quase nunca o mostram sozinho. Ao seu redor aparecem professores, artistas, lideranças comunitárias, religiosos, estudantes, militantes, gestores públicos e moradores de diferentes territórios. A memória individual é apresentada como parte de uma trama coletiva.
A homenagem da Folkcom 2025 reconhece justamente essa capacidade de fazer conexões: entre Minas e Rio, Folia de Reis e política pública, sala de aula e movimento social, comunicação e escuta, favela e cidade.
Ao final, a trajetória de Adair Rocha sugere que não basta falar sobre cultura popular nem levar informação a quem foi historicamente excluído dos meios de comunicação e das universidades. É preciso reconhecer onde a cultura já acontece, de quem partem os conhecimentos e que relações tornam possível sua continuidade.
Se a cidade possui muitos centros, como ele propõe, comunicar é aprender a percebê-los. E, antes de ocupar cada um deles com uma nova fala, encontrar ali um lugar para ouvir.
A entrevista foi realizada em setembro de 2025, no Laboratório de Podcasts Narrativos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Lunar/UERJ). Na época, Ana Clara Alves era estudante de Jornalismo da UERJ. A gravação integrou as ações preparatórias da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2025, que homenageou Adair Rocha por sua trajetória ligada à comunicação, às políticas culturais e às culturas populares.





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