“A cidade não está morta”: Júnia Martins discute folkcomunicação, mídias marginais e transformação social
Na abertura do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”, pesquisadora apresentou os fundamentos da teoria brasileira e analisou como grafites, pichações e lambe-lambes circulam entre os muros e as redes digitais
A cidade não se resume ao deslocamento entre a casa e o trabalho, nem está condenada a ser apenas cenário de pressa, consumo e isolamento. Ela também é lugar de encontro, conflito, memória, criação e resistência. Foi a partir dessa compreensão que a professora e pesquisadora Júnia Martins conduziu a primeira aula do curso “Iniciação à Folkcomunicação — Mídias, Culturas Populares e Outras Epistemologias”.
Diretora regional Nordeste da Rede Folkcom e professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Júnia apresentou os fundamentos da teoria criada por Luiz Beltrão e os aproximou de sua pesquisa sobre grafites, pichações e lambe-lambes. A aula percorreu quase seis décadas de estudos, chegou aos ambientes digitais e terminou com um chamado à ocupação organizada das ruas e das redes.
O percurso mostrou que a folkcomunicação não se limita a registrar manifestações tradicionais ou a classificar objetos populares. Seu interesse está nos processos pelos quais grupos socialmente minorizados criam meios, linguagens e estratégias para informar, interpretar o cotidiano, disputar sentidos e promover transformações.
Por que ainda precisamos definir a folkcomunicação?
Júnia iniciou a exposição recuperando uma pergunta que a acompanhava quando começou a estudar o campo, cerca de 15 anos antes: afinal, o que é folkcomunicação? A dúvida, segundo ela, continua presente entre estudantes, pesquisadores iniciantes e até pessoas que já participam das atividades da área.
Em quase 60 anos, pesquisadoras e pesquisadores ampliaram metodologias, atualizaram objetos e problematizaram conceitos formulados nas obras pioneiras. Esse percurso permite reconhecer hoje a folkcomunicação como uma teoria sedimentada, interdisciplinar e necessária às Ciências da Comunicação. A resistência à sua aceitação, entretanto, ainda aparece na dificuldade de inseri-la nos currículos universitários e de compreender a especificidade de seus objetos.
Para explicar esse processo, a professora comparou as dúvidas dirigidas à folkcomunicação com aquelas que marcaram a institucionalização da própria Comunicação como área científica. Durante muito tempo, o estudo de fenômenos simbólicos, culturais e midiáticos foi considerado menos rigoroso do que as pesquisas das ciências naturais. A aproximação com psicologia, antropologia, sociologia e linguística também foi interpretada como sinal de fragilidade, e não como expressão da complexidade do campo.
Outra objeção reduzia a formação em Comunicação ao aprendizado técnico. Se pessoas sem diploma já exerciam atividades no jornalismo, na publicidade e no audiovisual, por que seriam necessários cursos universitários? A resposta construída pelo campo demonstrou que dominar ferramentas não basta. A produção midiática exige formação teórica, reflexão ética e capacidade de compreender os efeitos sociais dos conteúdos.
A folkcomunicação enfrenta questionamentos semelhantes. Se manifestações populares existem antes da universidade e já são estudadas pela antropologia, pela sociologia e por outras áreas, qual seria a contribuição específica da Comunicação? Se há conceitos como comunicação comunitária, alternativa, marginal ou rebelde, por que recorrer a outra teoria? E, se a cultura popular está presente em inúmeras práticas cotidianas, tudo poderia ser considerado folkcomunicação?
Para Júnia, as respostas estão na obra de Luiz Beltrão e nas atualizações realizadas pelas gerações seguintes.
Uma teoria brasileira para enxergar comunicações invisibilizadas
Jornalista e pesquisador pernambucano, Luiz Beltrão fundou, em 1963, o Instituto de Ciências da Informação na Universidade Católica de Pernambuco e lançou, dois anos depois, a revista Comunicação & Problemas. Em 1967, tornou-se o primeiro doutor em Comunicação do Brasil, com a tese na qual formulou as bases da folkcomunicação.
Enquanto boa parte das pesquisas se concentrava nos meios de massa e em seus efeitos, Beltrão observava mensagens que circulavam nas feiras, nos rituais religiosos, nas festas, nos veículos, nos muros e nas conversas cotidianas. Ex-votos, folhetos, cantadores, artesanatos, inscrições em banheiros, carnaval e bumba meu boi estavam entre os objetos por meio dos quais percebeu uma inteligência comunicacional frequentemente desprezada pelas elites acadêmicas e midiáticas.
O pesquisador identificou ainda a atuação dos líderes de opinião: pessoas próximas de seus grupos sociais que recebiam mensagens dos grandes meios, reinterpretavam-nas e as transmitiam em linguagens capazes de dialogar com a experiência coletiva. Júnia comparou essa função à dos influenciadores contemporâneos e lembrou que Osvaldo Trigueiro atualizou o debate com o conceito de ativista midiático.
Esses agentes não apenas repetem informações. Funcionam como tradutores culturais, escolhem argumentos, produzem enquadramentos e mobilizam meios acessíveis às comunidades. Ao reconhecer sua importância, a folkcomunicação desloca a atenção científica para conteúdos criados por indivíduos e grupos marginalizados, especialmente quando não dispõem dos veículos controlados pelas camadas privilegiadas.
Na síntese apresentada durante a aula, a folkcomunicação estuda as culturas populares como mídias de sujeitos e grupos socialmente minorizados. Essa definição impede que a teoria seja confundida com o folclore tomado isoladamente, com qualquer expressão popular ou com toda forma de comunicação comunitária. Para que um fenômeno seja analisado pela perspectiva folkcomunicacional, deve existir uma relação entre culturas populares, processos midiáticos e marginalização social.
A marginalização, ressaltou Júnia, não se limita à classe econômica. Ela alcança grupos colocados em posições minoritárias ou subalternizadas por diferentes estruturas sociais. Do mesmo modo, “folclore” não designa apenas personagens, festividades antigas ou curiosidades preservadas do passado. Na tradição mobilizada por Beltrão, o termo se aproxima do conhecimento do povo e das culturas populares — no plural, porque não há uma única cultura popular.
A cidade como território de sentidos e conflitos
Depois de apresentar os delineamentos da teoria, Júnia voltou-se para a cidade. Embora Beltrão seja frequentemente associado ao estudo dos ex-votos e de manifestações tradicionais, sua obra também foi construída pela observação das relações urbanas e das mensagens aparentemente banais que atravessam o cotidiano.
Para compreender grafites, pichações e lambe-lambes como mídias marginais, porém, é necessário definir o território em que essas mensagens aparecem. A cidade não pode ser explicada exclusivamente pela arquitetura, pela mobilidade, pela demografia ou pela economia. Ela é um espaço complexo, produzido por relações materiais e simbólicas, modos de vida, técnicas, desigualdades e disputas de poder.
A pesquisadora apresentou três abordagens complementares. No interacionismo simbólico, a cidade é um espaço vivido e um ambiente de trocas socioculturais que afetam percepções e comportamentos. A leitura de Georg Simmel permite observar como a vida metropolitana expõe os indivíduos a estímulos constantes, favorecendo uma atitude de distanciamento e proteção. A mesma cidade que oferece liberdade e individualidade também pode produzir isolamento e alienação.
Na perspectiva marxista, o espaço urbano é atravessado pelas relações do capital. A concentração econômica, a exploração do trabalho e a segregação territorial fazem da cidade um cenário privilegiado de desigualdades, mas também de lutas pelo direito à cidade. Autores como Henri Lefebvre e David Harvey ajudam a pensar a ação coletiva necessária para transformar modos de vida urbanos.
Uma terceira abordagem considera a cidade como herança cultural e órgão de transmissão social. O presente urbano guarda marcas religiosas, políticas, tecnológicas e humanas de diferentes tempos. Júnia aproximou essa visão do pensamento de Milton Santos, para quem o espaço geográfico reúne relações materiais e imateriais mediadas por técnicas, objetos, informações e valores.
No meio técnico-científico-informacional, tecnologias podem aprofundar o controle, a exploração e a fragmentação do território. Isso não significa, contudo, que possuam um destino único. A mesma materialidade usada para construir um mundo desigual pode receber novos sentidos e contribuir para relações mais humanas. É nessa possibilidade de apropriação e ressignificação que se inserem as mídias marginais urbanas.
Dos muros às redes: nasce a mídia marginal urbanodigital
Grafites, pichações e lambe-lambes interrompem a paisagem planejada da cidade. Suas frases, imagens e símbolos podem denunciar injustiças, convocar mobilizações, registrar afetos ou confrontar discursos hegemônicos. Para Júnia, essas mensagens funcionam como dispositivos políticos capazes de provocar fissuras no cotidiano.
A circulação digital, entretanto, modificou profundamente sua existência. Uma intervenção fixada em determinado muro pode desaparecer com a chuva, uma demolição ou uma camada de tinta. Quando fotografada e publicada, ganha permanência, atravessa territórios e alcança pessoas que nunca circularam pela rua onde foi produzida.
As redes também abrem novas possibilidades de pesquisa. Curtidas, comentários, compartilhamentos e números de seguidores oferecem indícios sobre circulação e recepção que dificilmente poderiam ser obtidos apenas pela observação do espaço físico. Ao mesmo tempo, a fotografia não preserva todas as relações da intervenção com o muro, o bairro e o percurso dos transeuntes.
Por isso, a professora respondeu simultaneamente “não” e “sim” à pergunta sobre a mensagem encontrada na rua e sua publicação digital serem o mesmo objeto. Não são idênticas porque a postagem constitui uma representação retirada da aderência territorial original. Mas permanecem relacionadas porque a imagem registra uma intervenção que existiu fisicamente e transporta seu conteúdo para outro dispositivo e outra dinâmica de circulação.
Para nomear essa condição híbrida, Júnia propõe o conceito de mídia marginal urbanodigital. A expressão designa intervenções populares originadas no espaço urbano que se prolongam nas redes, adquirindo outras formas de acesso, distribuição e leitura.
O popular não desapareceu no ambiente digital
A expansão das plataformas e dos fluxos culturais transnacionais levou a professora a retomar outra pergunta: ainda é possível sustentar o conceito de popular em uma sociedade globalmente massificada? Sua resposta foi afirmativa, desde que o conceito seja atualizado.
Júnia apontou três dimensões especialmente produtivas para a folkcomunicação contemporânea. A primeira corresponde à comunicação criada espontaneamente pelas camadas populares. A segunda reúne culturas de resistência que confrontam domínios hegemônicos. A terceira abrange tradições de grupos e comunidades socialmente marginalizados que atravessam o tempo e se reconfiguram em ambientes digitais.
Esse popular não deve ser confundido automaticamente com o massivo ou com a cultura pop. O massivo é produzido para grandes públicos; o pop costuma estar associado à circulação comercial ampla, muitas vezes global. Há, contudo, zonas de contato. Funk, rap e forró dialogam com a indústria cultural, mas preservam origens e experiências periféricas que podem ser examinadas pela folkcomunicação.
Memes, vídeos, estéticas periféricas, movimentos sociais e linguagens de resistência confirmam que o popular não foi eliminado pelas tecnologias. Ele se reorganizou em novas ambiências, nas quais algoritmos, plataformas e formas de engajamento também moldam visibilidade e circulação.
“Muros que falam” e a necessidade de escutar o objeto
Durante o debate, Júnia relatou como sua própria pesquisa precisou acompanhar essas transformações. No projeto de iniciação científica “Muros que falam”, estudantes percorriam cidades, fotografavam intervenções e recebiam registros enviados de diferentes regiões pelo Instagram. O trabalho deu origem a uma investigação de doutorado que previa mapear mensagens urbanas em contextos de rupturas democráticas na América do Sul.
A pandemia de Covid-19 interrompeu as viagens e exigiu uma mudança de rota. Em vez de forçar o método originalmente planejado, a pesquisadora voltou-se para o acervo digital e para os conteúdos publicados no Instagram. A alteração permitiu incorporar indicadores de circulação e combinar análise de conteúdo e análise do discurso em um conjunto de mensagens produzidas entre 2019 e 2022.
O aprendizado metodológico foi transformado em orientação aos participantes: não se deve obrigar um objeto a caber em um método previamente escolhido. É preciso escutá-lo, observar suas mudanças e definir os procedimentos capazes de responder ao problema de pesquisa.
A experiência evidencia ainda que a formação em Comunicação não pode se restringir ao domínio de câmeras, lentes, enquadramentos ou softwares. A técnica precisa ser acompanhada por reflexão metodológica, teórica e ética sobre os produtos criados e sobre os modos pelos quais eles interferem na formação de opiniões e comportamentos.
A transformação começa pela ocupação das ruas e das redes
No último eixo da aula, Júnia discutiu estratégias folkcomunicacionais para a transformação social. Não apresentou uma receita, mas um conjunto de possibilidades: formação audiovisual em comunidades, estímulo a manifestações culturais, educação coletiva, diálogo em situações de conflito e uso articulado de meios urbanos e digitais.
As redes ampliam o alcance das mobilizações, mas não substituem o contato humano. A ocupação da cidade continua necessária porque ruas, praças e bairros são territórios de trocas sensoriais e simbólicas decisivas. “É preciso restaurar a ideia de que a cidade não está morta”, afirmou a pesquisadora.
Esse chamado também implica compreender as estruturas de poder que organizam o cotidiano. Comunicação algorítmica, concentração econômica e tecnológica, fundamentalismo religioso e militarização atravessam as disputas contemporâneas. Para agir sobre esse cenário, grupos minorizados precisam construir organização, reconhecer os sistemas que os submetem e disputar a formação de opinião tanto no espaço físico quanto no digital.
Júnia defendeu a atualização da figura do intelectual orgânico para um contexto multicultural e plataformizado. Em lugar de falar pelos grupos populares, universidades e pesquisadores devem aproximar-se, aprender e atuar com eles. Uma ciência menos hostil e menos encerrada em sua própria autoridade pode reconhecer as inteligências das culturas populares e colaborar com estratégias de resistência já existentes.
Estar com as comunidades, não falar por elas
Uma pergunta sobre o desaparecimento de carnavais de rua em cidades do interior levou o debate à continuidade das tradições. Para Júnia, o esvaziamento desses festejos não decorre apenas da polarização política recente. Também está relacionado a um modelo urbano que transforma a rua em lugar de perigo, favorece espaços privados de consumo e planeja as cidades para veículos e parcelas privilegiadas da população.
Quando festas populares são confinadas a ambientes controlados e higienizados, perdem parte do contato, da imprevisibilidade e da experiência coletiva que as constituem. A resposta não está em esperar que alguma instituição “resgate” a tradição, como se as comunidades fossem objetos passivos. Está em criar projetos de extensão, aproximar estudantes, registrar memórias e fortalecer as pessoas que produzem suas próprias culturas.
A professora recordou a experiência do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, em Pernambuco. No projeto estudado em seu mestrado, jovens das comunidades foram formados como produtores culturais, trabalhadores rurais e mestres transmitiram conhecimentos em escolas e sessões de cinema circularam por terreiros e espaços desativados. A comunidade não apareceu apenas diante das câmeras: participou da produção das imagens, da preservação das memórias e da movimentação da economia cultural.
O exemplo reforça uma das ideias centrais da aula: pesquisadores precisam abandonar o hábito de dar a palavra final sobre a experiência alheia. Mais do que falar pelo outro, é necessário estar com o outro e aprender com ele.
Culturas populares como conhecimento
O debate também enfrentou o preconceito associado à palavra “folclore”. Júnia observou que conhecimentos sobre mitologias europeias costumam receber reconhecimento intelectual, enquanto narrativas indígenas e africanas são frequentemente reduzidas a curiosidades ou conteúdos infantis.
Tratar folclore e culturas populares como conceitos próximos não significa ampliar artificialmente o campo. Significa recuperar o sentido do conhecimento produzido e compartilhado pelo povo, sem limitá-lo ao antigo, ao rural ou ao que permaneceu imutável. Culturas populares estão em movimento, apropriam-se de tecnologias, entram em contato com a indústria cultural e criam formas contemporâneas de expressão.
Ao finalizar a aula, Júnia retornou à relação entre conhecimento e ação. A folkcomunicação oferece um amplo repertório de objetos científicos, mas seu potencial não se encerra na interpretação acadêmica. Ao reconhecer mídias, saberes e estratégias dos grupos marginalizados, a pesquisa também pode colaborar com processos coletivos de transformação.
O chamado deixado aos participantes foi direto: ocupar de forma organizada os espaços da cidade e das redes. Plataformas controladas por grandes empresas, bolhas algorítmicas e desigualdades territoriais tornam essa tarefa difícil, mas não dispensável. Para a pesquisadora, a transformação social começa quando cada sujeito se reconhece como parte dessa construção.





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