top of page
Buscar

Quem conta a cultura popular? Jornalismo, animação e publicidade entram no debate da Folkcomunicação

Segundo bloco da sessão do Intercom Nacional aproximou perfis do Nonada Jornalismo, cinema de animação brasileiro e campanha da São Geraldo Zero



Quem ganha espaço para contar sua própria história e o que acontece quando manifestações culturais são transportadas para o jornalismo, a animação ou a publicidade? Essas questões atravessaram o segundo bloco da sessão “Folkmídia, narrativas e imaginários da cultura popular”, realizada nesta quarta-feira, 12 de agosto, pelo GP de Folkcomunicação do Intercom Nacional 2026.


A primeira apresentação foi de Jessica Allana Grossi, em trabalho desenvolvido com Karina Janz Woitowicz, da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A pesquisa analisou a presença de folkcomunicadores nos perfis publicados pelo Nonada Jornalismo.


Criado em 2010 e sediado em Porto Alegre, o Nonada realiza uma cobertura nacional de cultura, políticas culturais, patrimônio, comunidades tradicionais e questões climáticas. O veículo se apresenta como uma organização de jornalismo, cultura e educação orientada por uma perspectiva decolonial.


Jessica partiu da constatação de que o jornalismo cultural não apenas registra manifestações culturais. Ao escolher suas pautas e fontes, ele pode reforçar estereótipos, privilegiar expressões já legitimadas pelo mercado ou abrir espaço para novos sujeitos e sentidos.


A pesquisadora localizou 28 perfis publicados pelo Nonada entre 2020 e 2025. Depois de um primeiro recorte com 15 textos dos três anos mais recentes, concentrou a análise em cinco perfis publicados em 2025.


Entre os personagens identificados como agentes populares de comunicação estão Mãe Stella de Oxóssi, João Cândido da Silva e Juliana Xukuru. As trajetórias mostram diferentes formas de produzir conhecimento e manter vínculos com suas comunidades.


Mãe Stella criou museu, biblioteca e escola com currículo afrocentrado, publicou livros e escreveu crônicas para comunicar o terreiro também fora de seus limites. João Cândido construiu uma trajetória artística vinculada ao samba, às artes visuais e às redes de artistas negros e periféricos, apesar do racismo que o manteve distante dos circuitos institucionais. Juliana Xukuru trabalha com a arte como instrumento de resistência e defende que os povos indígenas contem suas histórias a partir de suas próprias experiências.


A análise aponta que o Nonada não utiliza essas pessoas apenas como personagens curiosos ou representantes de uma tradição. Os perfis valorizam sua atuação comunicacional, sua relação com o território e o reconhecimento conquistado dentro das comunidades.


O bloco avançou para o cinema de animação brasileiro com o trabalho de Pedro Lopes de Assunção e Thífani Postali, da Universidade de Sorocaba. Os pesquisadores propuseram o conceito de “Folkanimação” para pensar a animação como folkmídia e dispositivo de memória cultural.


A formulação procura observar como o cinema de animação pode registrar, transformar e fazer circular narrativas, personagens, saberes e referências da cultura popular. Nesse processo, a animação não funciona somente como suporte técnico ou entretenimento. Ela passa a integrar a maneira pela qual determinadas memórias são preservadas, apresentadas a novas gerações e atualizadas no contato com linguagens contemporâneas.


A proposta também abre uma questão importante: a presença de mitos, festas, costumes ou personagens populares em uma obra não garante, por si só, que as comunidades sejam representadas com profundidade. A ideia de Folkanimação permite discutir quem produz essas imagens, quais referências são mobilizadas e como a cultura popular é reorganizada para circular no audiovisual.


Na terceira apresentação, Alison Marques, da Universidade Federal do Ceará, voltou-se para a publicidade. O pesquisador analisou o vídeo de lançamento do refrigerante São Geraldo Zero, divulgado com o mote “Tu num queria? Pois cuida!”.


Lançada em 2025, a campanha respondeu aos pedidos dos consumidores por uma versão sem adição de açúcar. Em vez de adotar uma comunicação genérica, a marca recorreu ao modo de falar regional, ao humor e à relação afetiva construída em torno do refrigerante de caju.


A expressão escolhida para a campanha é familiar em diferentes partes do Nordeste e funciona como uma resposta bem-humorada a quem pede alguma coisa e depois precisa lidar com sua realização. No vídeo, os consumidores são convocados a cumprir as promessas que haviam feito caso a versão zero fosse lançada.


O objeto permite observar como a publicidade se apropria de expressões cotidianas e de marcas de identidade regional para produzir reconhecimento. Ao mesmo tempo, coloca em discussão os limites entre valorização cultural e uso comercial do pertencimento.


Embora tratem de objetos muito diferentes, as três pesquisas se encontram em uma mesma pergunta. Seja em um perfil jornalístico, em um filme de animação ou em uma campanha publicitária, a cultura popular não chega à mídia de maneira neutra. Ela é selecionada, narrada, transformada e colocada em circulação.

 
 
 

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page