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Do GTA às toadas de Parintins, pesquisas mostram como a cultura popular circula e se reinventa

Primeiro bloco do GP de Folkcomunicação do Intercom Nacional reuniu estudos sobre hip-hop nos games, fotografia da Amazônia e narrativas do Festival de Parintins



Um videogame lançado em 2004, um livro de fotografias em preto e branco e as músicas que conduzem o espetáculo dos bois de Parintins foram os pontos de partida do primeiro bloco da sessão “Folkmídia, narrativas e imaginários da cultura popular”. Realizado nesta quarta-feira, 12 de agosto, durante a etapa remota do Intercom Nacional 2026, o encontro mostrou como diferentes linguagens ajudam a produzir, disputar e fazer circular representações da cultura popular.


A primeira apresentação foi de Giovanna Hellen Meira Silva, em trabalho desenvolvido com Thífani Postali, da Universidade de Sorocaba. A pesquisa analisou a representação do hip-hop em Grand Theft Auto: San Andreas, um dos jogos mais vendidos da história do PlayStation 2.


A hipótese inicial era de que o jogo, ambientado em um universo marcado por gangues, drogas, violência e corrupção, apresentaria o hip-hop de forma predominantemente negativa. A análise observou cinco elementos da cultura hip-hop presentes no jogo: o grafite, o break, o DJ, o MC e o conhecimento.


O resultado foi mais complexo do que o esperado. Embora a narrativa reproduza estereótipos e faça uso de sátiras, as pesquisadoras identificaram cuidado na construção de personagens, músicas e situações relacionadas ao movimento. Segundo Giovanna, “boa parte daquilo que aparece no jogo tem um trato sério sobre o movimento”.


As pichações e os grafites aparecem como formas de demarcação territorial. As rádios, os DJs e os rappers ajudam a organizar a experiência do jogador dentro da cidade fictícia. Já os conflitos vividos pelos personagens mostram diferenças entre a exploração comercial da música e o compromisso com a comunidade.


Para Giovanna, o jogo não se limita às imagens mais conhecidas do hip-hop. “Eles não esquecem que o hip-hop salva vidas”, afirmou, ao destacar que a narrativa também apresenta conhecimento, pertencimento e possibilidade de transformação.


A debatedora Betania Maciel chamou a atenção para as relações entre juventude, identidade, territorialidade e desigualdade social presentes no trabalho. Para ela, o jogo pode ser entendido como espaço de circulação e reelaboração de sentidos sobre culturas periféricas. Guilherme Moreira Fernandes, coordenador da sessão, sugeriu que a pesquisa dialogue também com os estudos sobre folk games e com as discussões mais recentes sobre jogos digitais no campo da Folkcomunicação



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Da cidade virtual de San Andreas, o encontro seguiu para a Amazônia fotografada por Sebastião Salgado. Gabriel Ferreira Fragata, da Universidade Federal do Pará, apresentou uma análise do fotolivro Amazônia, publicado em 2021.


O pesquisador propôs compreender Salgado como um “agente folk-imagético”: não exatamente um líder popular, mas um mediador com reconhecimento internacional, capaz de levar imagens, denúncias e códigos culturais das comunidades amazônicas a públicos que dificilmente teriam contato direto com essa realidade.


Fragata partiu de uma inquietação com as imagens históricas da Amazônia como vazio demográfico, paraíso intocado, “inferno verde” ou território disponível para exploração. Em sua leitura, as fotografias de Salgado ajudam a deslocar os povos indígenas da posição de objetos passivos da narrativa para a de sujeitos políticos e simbólicos.


Entre as imagens analisadas estavam paisagens da Terra Indígena Yanomami e retratos de jovens indígenas. Para o pesquisador, o preto e branco, os olhares dirigidos à câmera e a circulação das fotografias em livros, museus e exposições internacionais contribuem para afastar a Amazônia da condição de mero cartão-postal.


A proposta de “agente folk-imagético” provocou uma das principais discussões do debate. Guilherme Fernandes considerou o conceito promissor e sugeriu que Fragata desenvolva critérios mais precisos para sua utilização. Também levantou uma pergunta sobre a passagem entre o exótico e o familiar: até que ponto o olhar de um fotógrafo reconhecido internacionalmente consegue romper com a visão externa lançada sobre a Amazônia?


Osvaldo Meira Trigueiro também incentivou o aprofundamento da proposta e se colocou à disposição para trocar referências com o pesquisador. Fragata aceitou o convite e explicou que o artigo nasceu de seu interesse pela fotografia e pelas representações da Amazônia, embora seu doutorado esteja voltado a uma festa religiosa popular de Manaus.



Na terceira apresentação, as toadas do Festival Folclórico de Parintins foram tratadas como muito mais do que músicas de acompanhamento do espetáculo. Anny Gabrielly Peixoto de Oliveira, em trabalho com Maria Luiza Cardinale Baptista, da Universidade de Caxias do Sul, analisou composições dos bois Garantido e Caprichoso como narrativas culturais e eixos de um ecossistema folkcomunicacional.


A pesquisadora selecionou toadas produzidas entre 1993 e 2026. As letras abordam a transmissão de conhecimentos entre mulheres indígenas, a presença negra na formação da Amazônia, o pertencimento às duas agremiações e a compreensão do território indígena como espaço de ancestralidade, espiritualidade e vida.


Segundo Anny, as toadas preservam memórias, constroem identidades e comunicam acontecimentos e modos de viver da região. Elas também articulam compositores, intérpretes, torcidas, alegorias, coreografias, tecnologias, visitantes e moradores.


“As toadas são como uma forma de a Amazônia e os amazônidas narrarem a si mesmos”, resumiu.


O debate ampliou o olhar para além da arena. Nascido em Parintins, Gabriel Fragata indicou autores e pesquisas sobre os bois e recordou sua própria relação com o Garantido. Osvaldo Trigueiro sugeriu que novos estudos observem também a chegada das pessoas ao cais, a venda de lugares nas filas, a preparação das alegorias, as casas que recebem visitantes e as relações construídas no entorno da festa.


 
 
 

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