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Da televisão na praça ao WhatsApp: Osvaldo Trigueiro revisita quatro décadas de pesquisa no sertão

Em palestra no GP de Folkcomunicação do Intercom Nacional, pesquisador apresentou o livro “Quando a televisão vira outra coisa” e mostrou como as redes cotidianas transformam os conteúdos que chegam às pequenas cidades



Uma televisão instalada no centro da praça, cercada por arquibancadas, reuniu moradores de São José de Espinharas, no sertão paraibano, para acompanhar a novela Roque Santeiro nos anos 1980. Quatro décadas depois, a tela é plana, o sinal chega por fibra óptica, a cidade oferece acesso público à internet e parte das notícias locais circula por grupos de WhatsApp, canais no YouTube e perfis no Instagram.


As mudanças ocorridas nesse intervalo orientaram a palestra de Osvaldo Meira Trigueiro nesta quarta-feira (12), durante a etapa remota do 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. O pesquisador participou da sessão “Folkmídia, narrativas e imaginários da cultura popular”, promovida pelo GP de Folkcomunicação da Intercom.


Com o título “Quando a televisão vira outra coisa: folkcomunicação e ativismo midiático”, a apresentação encerrou a programação da tarde. A sessão foi coordenada por Guilherme Moreira Fernandes, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e teve Betania Maciel, da Faculdade de Ciências Humanas Esuda, como debatedora.


Trigueiro partiu de sua pesquisa para lançar uma provocação aos participantes: embora as plataformas digitais tenham ganhado centralidade nos estudos de comunicação, a televisão continua presente no cotidiano de milhares de pequenas cidades brasileiras. Compreender esse cenário, argumentou, exige olhar também para as relações de parentesco, amizade e vizinhança pelas quais os conteúdos midiáticos são comentados, reinterpretados e colocados em circulação.


“Há uma outra rede social que nós precisamos estudar e compreender: as redes cotidianas de comunicação, as redes folkcomunicacionais”, afirmou.


Uma pesquisa que virou livro

A palestra também marcou a divulgação do livro lançado em 2026 pela Editora Ideia. A obra recupera integralmente a tese de doutorado defendida por Trigueiro em 2004, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), sob orientação de Antonio Fausto Neto.


A publicação acrescenta ao trabalho original um texto no qual o pesquisador atualiza sua reflexão sobre as pequenas cidades do interior. São municípios reconhecidos politicamente como urbanos, com prefeitura, Câmara de Vereadores e serviços públicos, mas cuja vida econômica e cultural permanece ligada à agricultura familiar, às tradições rurais e às relações comunitárias.


Trigueiro aproxima essas realidades da ideia de cidades rurbanas, conceito utilizado para pensar espaços nos quais rural e urbano não aparecem como universos separados. A chegada da televisão, e posteriormente da internet, não eliminou as práticas locais. As novas tecnologias passaram a conviver com redes de comunicação já existentes.


São José de Espinharas, município com menos de 5 mil habitantes, acompanha o pesquisador desde o início da década de 1980. Ao longo desse período, ele observou as transformações da cidade, conversou com moradores e registrou diferentes formas de apropriação da televisão.


A pesquisa não se limitou à aplicação de entrevistas. Trigueiro acompanhou conversas em escolas, bares, calçadas e rodas de dominó realizadas debaixo de árvores. Para ele, esses lugares permitem compreender como informações vindas da televisão são incorporadas às discussões locais.


“Eu aprendi a não ter medo da pesquisa empírica. Ela exige muito do pesquisador. É preciso saber montar uma estratégia para chegar, dialogar e conseguir as informações necessárias”, explicou.


Uma cidade, várias televisões

As fotografias apresentadas durante a palestra mostraram como cada mudança tecnológica alterou também a paisagem de São José de Espinharas. Nas primeiras décadas, a televisão instalada na praça era acompanhada por arquibancadas. Moradores se reuniam para assistir a novelas, telejornais e partidas de futebol.


Com a popularização dos aparelhos domésticos, a praça perdeu parte do público cotidiano. Ainda assim, continuou sendo ocupada em transmissões de grande interesse coletivo, como jogos da seleção brasileira e notícias de forte repercussão.


A própria arquitetura do local foi modificada a cada renovação do equipamento. A antena de recepção deu lugar à parabólica; a televisão colorida foi substituída por uma tela plana; bancos, iluminação e outros elementos da praça foram reorganizados em torno das novas formas de exibição.


“Cada vez que chega uma tecnologia e uma nova televisão, a praça e a cidade passam por uma nova urbanização”, observou Trigueiro.


O título do livro nasceu justamente da tentativa de compreender os sentidos assumidos pelo aparelho. A televisão não era apenas um meio pelo qual imagens e sons chegavam à cidade. Dentro das casas, também funcionava como objeto de decoração e sinal de posição social. Na praça, tornava-se ponto de encontro. Nas conversas cotidianas, seus programas forneciam assuntos e informações que seriam selecionados e reinterpretados pelos moradores.


A televisão virava “outra coisa” porque os usos atribuídos a ela ultrapassavam aqueles previstos pelas emissoras. O público não recebia automaticamente os conteúdos: apropriava-se deles de acordo com necessidades, interesses e repertórios locais.


“Será que estou estudando uma arqueologia da televisão?”, questionou Trigueiro durante a palestra. A pergunta foi feita em tom bem-humorado, mas conduziu a uma reflexão sobre o lugar ainda ocupado pelo veículo. Mesmo com a redução do público das novelas e o crescimento do streaming, a televisão permanece nas casas, praças, ruas e estabelecimentos comerciais das pequenas cidades.


O ativista midiático também produz conteúdo

As observações realizadas em São José de Espinharas contribuíram para que Trigueiro desenvolvesse o conceito de ativista midiático da folkcomunicação. No estudo original, essa figura aparecia principalmente como alguém que selecionava conteúdos da mídia e os reinterpretava dentro de seu grupo de referência.


Era o morador reconhecido pela comunidade como conhecedor da política, da história local, das tradições ou dos acontecimentos da região. Nem sempre produzia uma mensagem inteiramente nova, mas exercia um papel importante ao explicar, comentar e dar sentido às informações recebidas.


A chegada das plataformas ampliou essa atuação. Os ativistas midiáticos não apenas se apropriam de conteúdos produzidos por outros: agora também gravam vídeos, realizam entrevistas, mantêm canais e narram os fatos de suas cidades.


Trigueiro citou o exemplo de Batista Alves, poeta-repórter que o entrevistou em versos para um canal local. Com milhares de visualizações em um município de poucos habitantes, o comunicador combina referências do cordel com procedimentos de reportagem e circulação digital.


Esses produtores ocupam um espaço pouco alcançado pelas emissoras regionais. A televisão costuma chegar às pequenas cidades quando ocorre um crime, um acidente, uma crise política ou outro acontecimento considerado extraordinário. Já os canais locais acompanham diariamente decisões da prefeitura, atividades culturais, problemas comunitários e personagens conhecidos pela população.


As plataformas também passaram a ser usadas para anunciar artesanato, queijo, manteiga, comidas tradicionais e outros produtos. Os moradores consomem mercadorias oferecidas por grandes empresas, mas utilizam as mesmas estruturas digitais para vender aquilo que produzem.


“Aquilo que eu estudava nos anos 2000 mudou. O ativista midiático não era necessariamente produtor de conteúdo. Agora, ele também é”, resumiu.


O retorno à comunidade

“Não é fácil fazer pesquisa nessas cidades. Quando comecei a pesquisar em São José de Espinharas, tinha que levar pão e água, porque não havia pousada. Às vezes, a gente dormia dentro do carro ou no terraço da casa de alguma pessoa conhecida”, recordou.


O contraste com a cidade atual ajuda a dimensionar as transformações acompanhadas pelo pesquisador. Hoje, o município possui pousada, pequenos supermercados, novos restaurantes e acesso público à internet. Um dos netos de seus antigos interlocutores, contou Trigueiro, chegou a abrir um restaurante de comida japonesa.


Em uma visita recente a São José de Espinharas, Trigueiro levou exemplares do livro para a biblioteca municipal e para as famílias dos moradores que participaram da pesquisa. Muitos de seus primeiros interlocutores já morreram. O contato agora prossegue com filhos, filhas e netos.


Um dos exemplares foi entregue ao neto de um homem que colaborou tanto com a dissertação de mestrado quanto com a tese de doutorado do pesquisador. O gesto foi apresentado como uma devolução à comunidade que tornou o trabalho possível.


A continuidade dos vínculos também permitiu que Trigueiro acompanhasse mudanças que não estavam previstas no estudo inicial. Hoje, o município possui pousada, pequenos supermercados, novos restaurantes e acesso público à internet. Ao mesmo tempo, as relações de vizinhança e as tradições rurais permanecem presentes.


Para o pesquisador, estudos dessa natureza exigem convivência. Não basta chegar à cidade, realizar algumas entrevistas e retornar à universidade. É preciso acompanhar os espaços de troca, ganhar a confiança dos moradores e compreender como as transformações são vividas ao longo do tempo.


“Todos os meus informantes já não estão mais vivos. Agora são os filhos, as filhas e os netos. Deixei com as famílias o livro como uma devolução do que aprendi com eles.”


Ao final da palestra, Trigueiro reconheceu as dificuldades de continuar realizando pessoalmente deslocamentos frequentes pelo interior. Próximo de completar 80 anos, apresentou o livro como o fechamento de um ciclo, mas também como um convite para que outros pesquisadores deem continuidade ao percurso.


“Trago uma provocação para que esse processo continue. Temos uma rede de pesquisadores da folkcomunicação próxima dessas cidades. Precisamos nos deslocar e entender como os fluxos de informação estão chegando até elas”, concluiu.

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