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Antonio Hohlfeldt relembra encontro com Luiz Beltrão e defende Folkcomunicação voltada ao presente

Em entrevista à Rede Folkcom, ex-presidente da Intercom recorda sua aproximação com o pioneiro da área, a recuperação da obra beltraniana e os caminhos de uma teoria que continua a ajudar a interpretar o Brasil



“Sou o único aqui na sala que conheceu o Beltrão pessoalmente.” A constatação surpreendeu o próprio Antonio Hohlfeldt durante o 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Aos 77 anos, o jornalista, professor e ex-presidente da Intercom percebeu que, entre os pesquisadores reunidos em Brasília, ocupava também a posição de testemunha de uma geração fundadora dos estudos de comunicação no país.


Em entrevista à Rede Folkcom, concedida a Andriolli Costa durante a etapa presencial do Intercom 2026, Hohlfeldt recuperou sua relação com Luiz Beltrão, o percurso que o aproximou da Folkcomunicação e o trabalho de preservação de uma obra que ainda guarda materiais pouco conhecidos. Ao longo da conversa, defendeu que o legado beltraniano não deve ser tratado apenas como parte da história do campo, mas como uma perspectiva capaz de interpretar fenômenos atuais — das culturas periféricas aos usos cotidianos das tecnologias digitais.


Uma entrevista na Feira do Livro

O primeiro encontro entre Hohlfeldt e Beltrão ocorreu em 1977. Na época, o jovem repórter trabalhava no setor de cultura do Correio do Povo, em Porto Alegre, e soube que o pesquisador participaria da Feira do Livro para lançar O índio, um mito brasileiro, publicado pela Editora Vozes.


Até então, Hohlfeldt não mantinha relação com a pesquisa em comunicação. Seu interesse inicial era o tema indígena. A conversa, porém, ultrapassou o lançamento e se transformou numa longa entrevista, durante a qual Beltrão falou sobre sua passagem pela Fundação Nacional do Índio, a Funai, e apresentou ao jornalista suas pesquisas de Folkcomunicação.

“Achei-o muito simpático, muito legal”, recorda. Beltrão também lhe deu uma publicação datilografada relacionada aos cursos que havia ministrado no Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina, o Ciespal, no Equador.


O encontro foi breve, mas deixou uma marca que só se tornaria mais nítida anos depois.

Antes desse encontro, em 1974 e 1975, Hohlfeldt havia trabalhado na Rádio Canadá Internacional, depois de um período de sucessivas convocações para depor durante a ditadura militar. Ao retornar ao Brasil, retomou o trabalho no Correio do Povo e começou a lecionar Jornalismo na Unisinos. A aproximação com os encontros da União Cristã Brasileira de Comunicação Social e, posteriormente, com a Intercom fez com que voltasse a encontrar Beltrão e passasse a conviver com pesquisadores como José Marques de Melo, Roberto Benjamin e Osvaldo Trigueiro.


Marques de Melo teve papel decisivo nesse percurso. Segundo Hohlfeldt, era ele quem frequentemente o provocava a escrever sobre aspectos da produção beltraniana. “Comecei a me envolver não diretamente porque aderisse à Folkcomunicação, mas porque o Zé Marques cobrava uma série de textos que se tornaram referenciais na área”, conta.


Folkcomunicação não é apenas estudar folclore

Para Hohlfeldt, um dos aspectos mais fecundos do pensamento de Beltrão está na percepção das diferentes realidades sociais e comunicacionais que coexistem no Brasil. A Folkcomunicação teria surgido justamente da tentativa de compreender as pontes entre os espaços letrados, concentrados historicamente nos centros urbanos e no litoral, e as formas populares de informação e expressão presentes no interior e nas periferias.

Essa distinção também ajuda a delimitar o campo. “Quando estudo Folkcomunicação, não estou estudando o processo folclórico em si. Estou estudando os modos de sua difusão, de sua propagação, de sua comunicação”, afirma.


Uma pesquisa sobre comida tradicional, exemplifica, pode permanecer no campo do folclore quando se concentra nas receitas, nos modos de preparo e na continuidade da tradição. Torna-se uma investigação folkcomunicacional quando pergunta como essa comida é apropriada como valor simbólico, acionada por instituições, transformada em atração turística ou reinterpretada por diferentes grupos.


O mesmo raciocínio vale para o Carnaval e para os bois de Parintins. Mais do que descrever as manifestações, é preciso observar como seus enredos circulam, que valores comunicam, de que modo são compreendidos pelo público e quais disputas culturais colocam em cena. “A Folkcomunicação tem que ser pensada enquanto processo de comunicação a partir das manifestações folclóricas”, resume.


Entre os exemplos mencionados está o café colonial promovido como atração turística na Serra Gaúcha, associado à atuação de Oswaldo Goidanich. Ao reunir referências culinárias alemãs e italianas, o formato transformou práticas culturais em uma experiência voltada ao turismo. Outro caso é o São João de Campina Grande, estudado por Severino Lucena Filho em tese de doutorado orientada por Hohlfeldt, que analisou a festa como estratégia de folkmarketing.


A Vila do IAPI como laboratório de comunicação

A própria trajetória de Hohlfeldt oferece um exemplo das possibilidades dessa abordagem. Criado na Vila do IAPI, conjunto habitacional de Porto Alegre inaugurado oficialmente em 1953, ele descreve o bairro como um espaço de intensa sociabilidade popular.

Ali, cinema, igreja, escola, associações esportivas, feira livre, biblioteca e pequenos jornais comunitários formavam circuitos de informação e convivência. Nas matinês do Colégio Dom Bosco, por exemplo, assistir aos filmes era apenas uma parte da experiência: as crianças também trocavam gibis e bolinhas de gude, encontravam amigos e construíam seus próprios modos de ocupar o espaço.


Na Igreja Nossa Senhora de Fátima, Hohlfeldt ajudou a criar um jornal paroquial e participou de atividades teatrais e encenações da Paixão de Cristo. Também integrou uma associação de reivindicações do bairro, que mantinha outra publicação. Para ele, uma pesquisa sobre o IAPI poderia ir além da história urbana e investigar os processos comunicacionais responsáveis pela constituição daquela comunidade.


“Acho que os pesquisadores da comunicação ainda não se deram conta do enorme potencial desse campo. Está todo mundo muito louco para trabalhar com internet e se esquece dessas coisas, que são as nossas coisas”, provoca.


A reflexão alcança também as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Hohlfeldt acompanhou a tragédia de perto e precisou deixar temporariamente sua casa quando a água chegou a poucos metros do prédio. Passado o impacto imediato, reconhece a possibilidade de estudar os mutirões, as cozinhas solidárias e as redes comunitárias organizadas durante o desastre.


Entre os símbolos produzidos naquele contexto, destaca o cavalo Caramelo, resgatado depois de permanecer sobre um telhado em Canoas. “A gente não tinha um herói personificado isoladamente; tinha conjuntos de heróis, todos esses grupos de mutirão que ajudaram. O cavalo virou o super-herói”, observa.


Preservar a obra de Beltrão

A relação de Hohlfeldt com o legado beltraniano ganhou uma nova dimensão em 2001. À frente do doutorado em Comunicação da PUCRS e de uma coleção editorial da universidade, ele ajudou a publicar integralmente a tese Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias, defendida por Beltrão em 1967. A edição contou ainda com estudos de José Marques de Melo e Juremir Machado da Silva.


Mais tarde, durante seus dois mandatos na presidência da Intercom, entre 2008 e 2014, Hohlfeldt assumiu o compromisso de ampliar a recuperação desse acervo. Ao lado do então diretor editorial Osvando J. de Morais, participou da criação da Coleção Beltranianas.

Um dos resultados foi o volume Jornalismo cultural: bem de consumo ou produção cultural?, organizado por Hohlfeldt a partir de vinte artigos que Beltrão publicou no Caderno de Sábado, suplemento do Correio do Povo, entre 1973 e 1975. A coleção também recuperou, em edição fac-similar, a revista Comunicação & Problemas, fundada por Beltrão em 1965. Ao todo, a série chegou a nove volumes, publicados entre 2012 e 2016.


O projeto, no entanto, não esgotou as possibilidades. Hohlfeldt acredita que parte da produção jornalística, da correspondência e dos documentos pessoais de Beltrão ainda permanece dispersa. “Há muita coisa do Beltrão ainda perdida por aí. Muita coisa. O Beltrão produzia compulsivamente”, afirma.


Uma teoria para estudar o presente

Na avaliação de Hohlfeldt, a permanência da Folkcomunicação depende da capacidade de acompanhar as transformações sociais sem abandonar sua pergunta central: como grupos populares e marginalizados produzem, reinterpretam e fazem circular informações?


Isso significa que a presença das tecnologias digitais não reduz a importância da teoria. Ao contrário, abre novas frentes para investigar memes, linguagens informais, comportamentos juvenis e usos não previstos das plataformas. O foco não está simplesmente no aparelho ou na rede, mas nas apropriações criadas no cotidiano.


“O fato de haver tecnologia não impede a gente de pensar a tecnologia enquanto Folkcomunicação”, defende. “Há muita coisa para estudar: essas apropriações informais, não oficiais, não prescritas, não canonizadas, que ocorrem em relação aos processos de informação e comunicação. Esse é o campo que Beltrão abriu e deixou sugerido.”


Ao final, Hohlfeldt deixa uma orientação que funciona também como síntese de sua leitura do legado beltraniano: a Folkcomunicação não deve ficar restrita à imagem de uma cultura rural, imóvel ou museológica. “É para estudar o presente.”

 
 
 

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