Maria Paula Maciel vence Prêmio Quati com pesquisa sobre memória e Carnaval
- Andriolli Costa
- há 2 horas
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Dissertação reconhecida como a melhor de Humanidades da EACH/USP investiga como agremiações, brincantes e espaços do Recife e de Olinda mantêm viva a memória do Carnaval pernambucano
Uma fotografia de Maria Paula Maciel aos seis meses, no colo do pai, está na origem da pesquisa que conquistou o Prêmio Quati de Melhor Dissertação de Mestrado na área de Humanidades. A premiação foi entregue em 3 de setembro, durante cerimônia realizada no Auditório Azul da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP).
Associada da Rede Folkcom, Maria Paula foi premiada pela dissertação Pelas ruas, eu vou: o carnaval nas cidades do Recife e Olinda como lieu de mémoire urbano. Defendido em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais e orientado pelo professor Martin Jayo, o trabalho investiga as relações entre Carnaval, espaço urbano, identidade e memória coletiva.
O Prêmio Quati é promovido pela Comissão de Pós-Graduação da EACH e reconhece as melhores teses e dissertações defendidas na unidade. Em sua segunda edição, foram avaliados trabalhos concluídos em 2025 nas áreas de Humanidades, Ciências da Vida, Ciências Exatas e Tecnológicas e Interdisciplinar.
Quando a memória pessoal vira pesquisa
Durante a cerimônia, Maria Paula partiu da fotografia de infância para explicar como uma experiência familiar pode se transformar em problema de pesquisa. A imagem aparece na abertura da dissertação, em uma seção intitulada “O nascer de uma pesquisadora: quando a memória pessoal vira pesquisa”.
“A partir dessa memória da minha família, dessa memória pessoal, eu começo a falar da memória de uma festa. De um povo que usa da alegria para poder se conectar”, afirmou.
A pesquisa acompanha o Carnaval vivido nos centros históricos do Recife e de Olinda. Mais do que cenários da festa, as ruas aparecem como espaços que acumulam lembranças, afetos, percursos e formas de pertencimento. É nelas que os cortejos atualizam histórias e que o corpo dos foliões estabelece uma relação direta com a cidade.
A metodologia articula o pesquisador conversador, a autoetnografia e entrevistas semiestruturadas. Maria Paula combina a própria experiência como foliã com conversas realizadas junto a artistas, brincantes e pessoas ligadas às agremiações carnavalescas. Em vez de observar a festa de maneira isolada, procurou entrar nas sedes, acompanhar o cotidiano dos grupos e compreender como o Carnaval é produzido por quem o vive durante todo o ano. “Eu comecei a perceber que tinha que ir para o meio do povo, entrar nas sedes e viver o cotidiano deles”, contou.
Entre o hiperespetáculo e a participação
A dissertação pergunta se o Carnaval pernambucano pode permanecer perene diante das transformações da indústria cultural. Para responder, diferencia o Carnaval-participação, construído pelos grupos que fazem das ruas o seu palco, de formas cada vez mais espetacularizadas e orientadas pelo consumo turístico.
O estudo conclui que o Carnaval permanece, mas seus formatos podem mudar. Práticas tradicionais enfrentam o risco de se tornar mais escassas, enquanto agremiações, ritos e redes de transmissão mantêm conhecimentos e memórias em circulação. A continuidade da festa não depende de uma forma imutável, mas da capacidade das pessoas de lembrar, transmitir e voltar a ocupar os espaços onde o Carnaval acontece.
“Ele se reinventa na tensão entre o efêmero e o eterno. Sua sobrevivência não depende da forma, mas da capacidade de lembrar e ocupar”, sintetizou Maria Paula. A pesquisa também resultou na criação de dois mapas sentimentais, um do Recife e outro de Olinda. Os trabalhos reúnem lugares que existem fisicamente e outros que permanecem por meio das lembranças e narrativas dos foliões. Nos mapas, pessoas e espaço urbano se fundem no conceito de “corpo-cidade”: o corpo guarda a experiência das ruas, enquanto a cidade recebe as marcas dos cortejos que a atravessam.
Para a pesquisadora, essa dimensão política e afetiva impede que a festa seja reduzida a entretenimento. “Em tempos hipermodernos, minha pesquisa reafirma que o Carnaval não é apenas uma celebração, mas uma tecnologia de ocupação do espaço”, declarou.
Da Folkcomunicação aos Estudos Culturais
A premiação reconhece uma trajetória de pesquisa iniciada ainda na graduação em Comunicação Social na Universidade Católica de Pernambuco. Em seu trabalho de conclusão de curso, Evoé Pernambuco, Maria Paula estudou a comunicação popular e a reafirmação identitária presentes no Carnaval tradicional a partir da teoria da Folkcomunicação.
No mestrado, esse percurso foi ampliado pelo diálogo com os Estudos Culturais e com os estudos da memória e da cidade. A pergunta sobre como o povo comunica sua identidade durante a festa passou a incluir outra preocupação: o que acontece quando os lugares, grupos e modos tradicionais de brincar desaparecem ou são transformados?
Ao receber o prêmio, Maria Paula destacou o orgulho de levar o Carnaval pernambucano para a produção acadêmica da EACH. Também lembrou que desenvolveu a pesquisa sem bolsa e encerrou o discurso retomando a dimensão afetiva que atravessa toda a dissertação. “Parece que estou falando de metodologia, mas estou falando de amor”, disse. “Eu não tive bolsa nessa hora, que eu podia aproveitar e agradecer à bolsa. Mas eu tive uma mãe que me financiou e me financia. A quem eu dedico esse prêmio.”
A imagem que abre a pesquisa, portanto, também ajuda a compreender seu desfecho. Do colo do pai às ruas tomadas pelos foliões, a memória familiar encontra a memória coletiva. E o Carnaval aparece não apenas como objeto de estudo, mas como uma maneira de viver, lembrar e produzir a cidade.
Leia o discurso na íntegra:
Essa missão de apresentar em três minutos é difícil, porque eu falo muito, escrevo muito, vivo muito. Então, como é que eu vou resumir em três minutos? Eu acho que dar esse exemplo é a melhor forma.
Eu trabalho com o carnaval da cidade em que eu nasci. Essa cidade que eu conheço na palma da minha mão e cuja festa é minha melhor amiga. Então, eu comecei a reparar nas mudanças do seu cotidiano, principalmente no mundo pós-pandemia.
Eu divido minha pesquisa em três frases. A primeira delas: eu pensei em Liev Tolstói, quando ele fala: “Se quiseres ser universal, começa por pintar a sua aldeia”, que é exatamente isso que eu faço.
Na minha introdução, intitulada “O nascer de uma pesquisadora: quando a memória pessoal vira pesquisa”, eu começo narrando uma fotografia. Uma fotografia minha, quando eu tinha seis meses, no colo do meu pai.
E, a partir dessa memória da minha família, dessa memória pessoal, eu começo a falar da memória de uma festa. De um povo que usa da alegria para poder se conectar.
Eu comecei a pensar o quão perto os nossos brinquedos populares estão de deixar de existir. O que leva à segunda frase, do mestre Simas, quando ele diz que o contrário de lembrar não é o esquecimento. É a morte.
Só que, para deixar mais acadêmico, eu falei que minha missão era compreender a relação entre espaço físico, identidade e memória no contexto da festa.
A partir desse caso, o carnaval não foi analisado de forma isolada. Eu comecei a perceber que eu tinha que ir para o meio do povo, entrar nas sedes e viver o cotidiano deles.
Dessa experiência, eu fiz dois mapas. São produtos artísticos onde eu mapeei o que existe e o que não existe numa cidade, mas que lembra e que canta essa memória.
Esses mapas de referência de memória urbana são onde as pessoas se fundem ao espaço, criando o que eu chamo de corpo-cidade.
Ele se reinventa na tensão entre o efêmero e o eterno. Sua sobrevivência não depende da forma, mas da capacidade de lembrar e ocupar.
Esse trabalho marca um primeiro trabalho sobre o carnaval de Pernambuco aqui na EACH. E eu tenho muito orgulho de ter ganhado esse prêmio por conta disso.
Em tempos hipermodernos, minha pesquisa reafirma que o carnaval não é apenas uma celebração, mas uma tecnologia de ocupação do espaço.
E, como eu falei que são três frases, vou finalizar com a última frase, que é: “Parece que estou falando de metodologia, mas estou falando de amor”.
Eu não tive bolsa nessa hora, que eu podia aproveitar e agradecer à bolsa. Mas eu tive uma mãe que me financiou e me financia. A quem eu dedico esse prêmio.
Muito obrigada.





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