Família de Luiz Beltrão recebe homenagens durante o Intercom 2026
- Andriolli Costa
- há 21 horas
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Atividades realizadas nos dias 1º e 3 de setembro reuniram bisnetos e netos do pesquisador e aproximaram sua trajetória acadêmica das memórias afetivas preservadas pela família.

A família de Luiz Beltrão foi homenageada em dois momentos do 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Brasília. As atividades reuniram diferentes gerações de descendentes do pesquisador e destacaram tanto sua contribuição para a Comunicação brasileira quanto as lembranças do avô, do pai e do homem atento às manifestações da cultura popular.
A primeira homenagem aconteceu na terça-feira, 1º de setembro, durante a abertura do Intercom 2026. O ex-presidente da Rede Folkcom Guilherme Fernandes foi responsável pela entrega de uma placa aos bisnetos Caio Luiz Beltrão e Clarissa Beltrão, acompanhados de Renata Beltrão, esposa de um dos netos do pesquisador. A articulação foi realizada pelo próprio Guilherme e amplamente acolhida pelo presidente da Intercom, Juliano Domingues.
Na quinta-feira, 3, foi a vez de Iara Beltrão e Luiz Beltrão Neto participarem do GP de Folkcomunicação. Em uma roda de conversa, os dois compartilharam histórias familiares, falaram sobre o legado intelectual do avô e receberam uma homenagem preparada pela Rede Folkcom.
Uma trajetória ligada a Brasília
A realização das homenagens na capital federal tem um significado especial. Entre 1965 e 1967, Luiz Beltrão foi professor e dirigiu a Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Em 1967, defendeu na instituição a tese que sistematizou a Folkcomunicação e o tornou o primeiro doutor em Comunicação do Brasil.
A partir de 1969, Beltrão também participou da estruturação do curso de Comunicação Social do CEUB. O pesquisador permaneceu ligado a Brasília até seu falecimento, em 24 de outubro de 1986. Quarenta anos depois, sua trajetória voltou a ser lembrada na cidade que acolheu parte decisiva de sua atuação acadêmica.
Durante o encontro do dia 3, porém, a família apresentou um Beltrão que nem sempre aparece nos livros. “Quem é Luiz Beltrão? Vovô”, resumiu Luiz Beltrão Neto. Segundo ele, a proximidade familiar impediu que os netos compreendessem, durante a infância, a dimensão pública do trabalho realizado pelo avô.
Iara recordou um homem profundamente apaixonado por Dona Zita, por Olinda, pelas viagens e pela comunicação. Entre suas lembranças estão os trajetos de Corcel até a chácara da família, o escritório repleto de livros e as pequenas representações de bandas de pífano recolhidas nas viagens pelo interior de Pernambuco.
A leitura também ocupava um lugar central em seu cotidiano. Iara contou que certa vez perguntou quanto tempo o avô levava para concluir um livro. Beltrão teria respondido que não demorava mais de dois dias, pois, se alguém tinha uma história para contar, ele precisava compreender o que aquela pessoa tinha a dizer.
Roscas, dicionários e uma família ampliada
As memórias compartilhadas revelaram ainda pequenos rituais familiares. Beltrão visitava semanalmente a casa da filha mais velha e levava uma rosca para o lanche da terça-feira. Nos encontros com os netos, propunha desafios no dicionário: dizia uma palavra e oferecia uma pequena recompensa a quem encontrasse primeiro seu significado.
Luiz também destacou a religiosidade do avô e a maneira ampliada como ele compreendia a família. Nas celebrações de Natal e Páscoa, Beltrão e Dona Zita costumavam convidar amigos que passariam as datas sozinhos. “Para ele, família era uma coisa ampliada”, afirmou o neto.
Esse olhar ajuda a compreender a própria Folkcomunicação. Ao comentar a tese do avô, Luiz Beltrão Neto ressaltou sua preocupação com as formas de comunicação dos grupos marginalizados e invisibilizados. Ele relacionou essa perspectiva a uma experiência recente em uma roda de jongo, na qual os pontos cantados transmitiam receitas, avisos e mensagens cifradas entre os participantes.
A conversa também aproximou o pensamento de Beltrão dos desafios contemporâneos. Questionada sobre como o avô reagiria à inteligência artificial e à circulação instantânea de informações, Iara afirmou que ele provavelmente se preocuparia com a “potência de burrificação” provocada pelo uso acrítico das tecnologias. Segundo ela, Beltrão valorizava a precisão, a qualidade da comunicação, a pesquisa e a confiabilidade das fontes.
Legado bordado à mão
Ao final da atividade, o presidente da Rede Folkcom, Andriolli Costa, entregou a Iara e Luiz uma homenagem bordada à mão. Em lugar de uma placa tradicional, a Rede escolheu uma peça artesanal, considerada mais próxima do universo cultural e do legado do pesquisador. O bordado reuniu os nomes da diretoria e de integrantes da Rede Folkcom.
As homenagens realizadas nos dois dias mostraram que a memória de Luiz Beltrão permanece viva em diferentes dimensões: na história da Comunicação brasileira, nas pesquisas sobre Folkcomunicação, nas manifestações populares que continuam inspirando novos estudos e nas lembranças preservadas por seus descendentes.
Entre placas, bordados, livros, fotografias e histórias de família, o Intercom 2026 reuniu as várias faces de um legado que atravessa gerações.




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