Do encontro com Luiz Beltrão à Coleção Beltranianas: uma conversa com Antonio Hohlfeldt
- Andriolli Costa
- há 9 horas
- 28 min de leitura

Esta publicação reúne a transcrição completa da entrevista concedida por Antonio Hohlfeldt a Andriolli Costa, pela Rede Folkcom, em 4 de setembro de 2026, durante o 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. A gravação foi feita no saguão do hotel do entrevistado.
Na entrevista, Hohlfeldt revisita sua relação com Luiz Beltrão, iniciada em 1977, quando o entrevistou para o Correio do Povo por ocasião do lançamento de O índio, um mito brasileiro. A conversa percorre sua posterior aproximação com a Folkcomunicação, a influência de José Marques de Melo e o trabalho de recuperação da produção beltraniana, que resultou na republicação da tese de 1967 e na Coleção Beltranianas.
Entre memórias pessoais e reflexões teóricas, Hohlfeldt discute as fronteiras entre folclore e comunicação, identifica processos folkcomunicacionais nas festas, na comida, nos bairros populares e nas tecnologias digitais e defende que o legado de Beltrão permanece atual justamente por oferecer instrumentos para compreender as formas cotidianas, informais e marginalizadas de produção e circulação de sentidos.
Antonio Carlos Hohlfeldt, nascido em Porto Alegre em 1948, é jornalista, escritor, professor e pesquisador. Formado em Letras, iniciou a carreira na imprensa gaúcha, com passagens por veículos como Folha da Tarde, Correio do Povo e Diário do Sul, além de atuar como crítico de teatro. Mestre e doutor em Linguística e Letras, com pós-doutorado em Teoria e História do Jornalismo, atualmente é professor na UFRGS.
Autor e organizador de dezenas de livros, incluindo obras infantojuvenis e estudos acadêmicos, também construiu uma trajetória na vida pública, como vereador de Porto Alegre e vice-governador do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2006. Na Intercom, exerceu dois mandatos consecutivos como presidente, a partir de 2008, e permanece ligado à entidade e aos estudos da comunicação brasileira. Junto à Rede Folkcom, foi Diretor de Relações Internacionais na gestão 2022-2024.
Confira a entrevista.
Andriolli Costa: Sexta-feira, 4 de setembro de 2026. Entrevisto o professor Antonio Hohlfeldt, para contar um pouco da história da sua relação com Luiz Beltrão, a Folkcomunicação e o percurso até chegarmos aqui. Professor, ontem você contou que entrevistou Beltrão ainda enquanto repórter. Em que ano foi?
Antonio Hohlfeldt: Olha, foi em 1977. Quando o Beltrão foi afastado da Universidade de Brasília por ser de esquerda, por ser “subversivo”. Essas coisas contraditórias da ditadura, né? Ele era subversivo para a universidade, mas não foi subversivo para a Funai. Então, a Fundação Nacional do Índio contratou o Beltrão exatamente para organizar o sistema de comunicação da Funai.
Esses dados que estou dizendo vêm dessa entrevista que ele me deu, em que ele me contou isso. Há um tempo, em um dos encontros — não lembro mais se foi na própria Intercom, no grupo da Folk ou na Alaic, alguma coisa parecida —, eu recuperei essa história a partir daquele artigo.
Então, ele foi para a Funai, reorganizou realmente o sistema de comunicação, ficou lá uns dois ou três anos e acabou escrevendo o livro O índio, um mito brasileiro, publicado pela Editora Vozes.
Eu atuava no Correio do Povo, lá de Porto Alegre, no setor de cultura, e a gente tinha uma relação muito grande com o pessoal da Editora Vozes. A Vozes tinha um gerente ali muito efetivo e tinha um projeto editorial muito bom. Então, o Lídio me avisou que o Beltrão estava indo para a Feira do Livro para lançar o livro.
Andriolli Costa: Quem avisou?
Antonio Hohlfeldt: O Lídio, que era o gerente da Vozes. Escapa-me agora o sobrenome dele, mas era Lídio. Não me lembro. Eu então disse: “Não, eu quero entrevistar o Beltrão”, porque a questão do índio me interessava.
Andriolli Costa: Você não tinha ouvido falar do Beltrão até então?
Antonio Hohlfeldt: Não. Eu não tinha nada a ver diretamente com pesquisa em comunicação ou algo parecido. Era um jornalista, pura e simplesmente. Então, ele me deu uma longa entrevista. Achei-o muito simpático, muito legal. Ele já falou um pouco das pesquisas dele de Folkcomunicação e me deu um primeiro livro de presente, mas era uma apostila datilografada, reproduzida como aquelas coisas que havia na época.
Andriolli Costa: Qual livro era?
Antonio Hohlfeldt: Era um sobre teoria do jornalismo, quase o curso que ele tinha dado... Um curso que ele deu naqueles cursos que a Unesco promovia lá no Equador. Então, ficou aí a minha relação: publiquei a entrevista e ponto final. Muitos anos depois, já sendo professor na área da comunicação...
Andriolli Costa: Em que momento você fez a migração de repórter para pesquisador?
Antonio Hohlfeldt: Não foi uma migração. Eu continuei sempre repórter. Continuei trabalhando no Correio do Povo, mas, em 1974, 1975 — portanto, antes dessa entrevista —, por questões do jornalismo, acabei saindo do Brasil e fui trabalhar na Rádio Canadá Internacional. Naquela época ainda havia rádio de ondas curtas.
Era um período complicado da ditadura. Praticamente a cada mês a Polícia Federal me chamava para depor. Era aquela coisa: eu tinha que ir lá de manhã, às sete horas, sentava e passava o dia inteiro esperando para ser chamado. Às vezes chegava às seis horas da tarde e me dispensavam; às vezes, às seis da tarde, eu entrava no depoimento. O depoimento era sempre o mesmo, as perguntas eram sempre as mesmas. Mas, enfim, era um negócio muito tensionante.
Tive a oportunidade de trabalhar na Rádio Canadá e resolvi mudar de ares. Fiquei trabalhando fora em 1974 e 1975. Na volta, retornei ao Correio do Povo. Aliás, não me separei do Correio; apenas mudei de status. Deixei de ser redator e repórter e me tornei correspondente, para registrar na carteira de trabalho direitinho. Claro, porque mudava o salário também, né?
Andriolli Costa: Pagava mais?
Antonio Hohlfeldt: Pagava menos...
Andriolli Costa: O correspondente pagava menos? Mesmo internacional?
Antonio Hohlfeldt: Pagava menos, mesmo internacional. Porque, na verdade, eu estava trabalhando na outra rádio lá. Mas, na volta, me tornei de novo redator e repórter do Correio.
Nesse meio-tempo, fui convidado para dar aula na Unisinos, no curso de Jornalismo. Dei várias disciplinas, entre as quais, desde o início, Teorias da Comunicação, que na época tinha outro nome.
Nesse processo todo, comecei a me interessar um pouco mais pela pesquisa e vim para os primeiros congressos da UCBC, a União Cristã Brasileira de Comunicação Social, que envolvia o José Marques de Melo e o Beltrão. Eles tinham criado isso. É um dos espaços que antecederam a criação da Intercom. E um dos encontros foi exatamente em São Leopoldo, onde fica a Unisinos. Então, eu me aproximei gradualmente.
Nesse percurso de lecionar, comecei a me interessar em voltar a estudar, fazer o mestrado. Mas fui fazer mestrado em Literatura. Só depois me envolvi mais com os estudos da comunicação e me aproximei definitivamente, quando se criou a Intercom. O Zé Marques tinha uma preocupação: a UCBC, bem ou mal, tinha uma marca religiosa. Não era católica; era cristã. Então, envolvia metodistas, a Universidade Metodista, e envolvia os católicos. A Editora Vozes, não por acaso, estava nesse centro. O então diretor da Vozes e os editores da casa publicavam o frei Leonardo, publicavam Darcy Ribeiro, publicavam Luiz Beltrão. Quer dizer, a Vozes era...
E a Vozes tinha uma revista de comunicação, a Revista de Cultura Vozes, que era extraordinária. Eu diria que a Revista de Cultura Vozes foi uma espécie de pioneira das publicações sobre comunicação no Brasil. Não era especializada, mas fazia números monográficos, e um deles o Zé Marques coordenava.
A Vozes foi uma das primeiras editoras brasileiras que começaram a publicar livros de pesquisadores brasileiros da comunicação, inclusive do próprio Zé Marques. O primeiro livro do Muniz Sodré, aquele A comunicação do grotesco, é da Vozes. Então, aí tu tens esse panorama.
Fundou-se a Intercom, eu vim para a Intercom e entrei para o grupo de Jornalismo, que na época era coordenado pela professora Marialva Barbosa. A partir daí, fiquei e fiz o caminho. Encontrei-me de novo com Beltrão, com Trigueiro, com Benjamin e com o próprio Zé Marques, que assumiu a responsabilidade de perpetuar, guardar e garantir a memória do Beltrão, quer na parte de teoria do jornalismo, quer na parte da Folkcomunicação.
E o Zé Marques provocava, sempre me provocava: “Vai ter o encontro. Escreve um artigo sobre tal coisa”. Aí eu escrevia o artigo. “Escreve um artigo sobre tal coisa.” E eu ia lá. Então, comecei a me envolver com isso não diretamente porque aderisse à Folkcomunicação, mas porque o Zé Marques cobrava uma série de textos que se tornaram referenciais na área.
Depois, quando se constituíram os grupos de pesquisa e se criou a Rede Folkcom, continuei sempre acompanhando. Tive uma relação muito grande com o Roberto Benjamin até a morte dele.
Andriolli Costa: De onde veio essa relação?
Antonio Hohlfeldt: Por causa desse grupo todo: o Benjamin, o Osvaldo Trigueiro — mesmo eles não estudando jornalismo, estudando sobretudo Folkcomunicação. O Trigueiro, a mesma coisa. Ele ia muito a Portugal para fazer os estudos dele, como faz até hoje. O próprio Marques. E aí se constituiu o grupo. Conheci, sobretudo, a Betânia Maciel. Então, estou sempre envolvido, sempre acompanhando. Quando o pessoal me provoca...
Por isso que, ontem, a menina lá...
Andriolli Costa: A Júnia Martins.
Antonio Hohlfeldt: A Júnia,,. Quando ela disse aquilo, eu aceitei; não tem problema nenhum. Porque hoje tenho um espaço específico, que é a minha pesquisa de história do jornalismo. Mas eu gosto da Folkcomunicação. Por quê? Porque acho que tem muito a ver com aquilo que o próprio Beltrão sempre valorizou, que está no livro dele, na tese dele: a questão da identidade nacional.
Eu acho uma sacada muito legal quando ele coloca no livro que você tem duas dimensões sociais no Brasil: aquela dimensão letrada, vamos dizer assim, que está mais no litoral, e a dimensão não letrada, mas que tem uma vitalidade enorme e está mais para o interior. Foi a tentativa de fazer a ponte entre as duas que motivou, em última análise, Beltrão a criar a Folkcomunicação.
Também acho que o Beltrão foi muito feliz quando, depois de fazer essa primeira estruturação, não parou nisso. Continuou pensando o problema e o trouxe inclusive para a questão urbana, mostrando que também na cidade você tem vários níveis, periferias com comunidades diferentes, o problema do grafite. Em um dos livros dele, publicado pela Summus, se não me engano, ele estuda os diferentes níveis comunicacionais, os diferentes circuitos comunicacionais que identifica.
Então, acho muito rico o pensamento do Beltrão, e isso me interessa. Por causa dele, por exemplo, cheguei a propor aos meus alunos, ainda lá na Unisinos, estudar os grafites de banheiros. E a gente chegou a uma conclusão muito engraçada: os grafites dos banheiros femininos eram muito mais pornográficos do que os dos banheiros masculinos. Os banheiros masculinos tinham mais grafite político. Os grafites das meninas eram mais pornográficos, trabalhavam mais com a questão da sexualidade.
Estou falando de vinte ou trinta anos atrás; talvez elas fossem mais reprimidas. Fiz essa experiência em duas universidades bem diferentes: na Universidade de Caxias do Sul, onde dei aulas, e depois na Unisinos, que é, digamos assim, mais urbana, está ali ao lado de Porto Alegre. O resultado foi exatamente o mesmo. O espaço feminino era mais pornográfico; o masculino, mais politizado, mais ideológico.
Então, acho que a Folk é uma teoria muito interessante...
Andriolli Costa: Por que?
Antonio Hohlfeldt: Porque o Brasil continua sendo dois Brasis. Acho que a teoria dos dois Brasis continua válida. Nós continuamos tendo dois — hoje talvez tenhamos mais Brasis — e acho que a internet não mudou muito isso. Ampliou, complicou mais, misturou, mas nós continuamos tendo dois Brasis: um Brasil de formação mais formal, mais erudita, e um Brasil que se alastrou, inclusive. Não é nem classe social; são modos de pensar.
Eu acho que, se hoje o Beltrão estivesse vivo, estaria muito feliz com o material fantástico que há para estudar e desenvolver. E acho muito bacana essa persistência do grupo inicial que o Zé Marques criou, com Benjamin, Trigueiro e, depois, Betânia, continuada pela segunda e pela terceira gerações que estão trabalhando com isso.
Ontem, eu te confesso, de repente, na fala do Luiz Beltrão Neto, tomei um susto. Quando a Betânia disse que não conheceu o Beltrão pessoalmente, pensei: “Pô, sou o único aqui na sala que conheceu o Beltrão pessoalmente”. Isso me dá a dimensão de que estou bem velho — estou com 77 anos —, mas, de toda maneira, ali eu era a única testemunha, de fato. Por isso quis falar rapidamente.
E também, quando assumi a presidência da Intercom, assumi um compromisso comigo mesmo, atendendo às preocupações do Zé Marques, de fazer a Coleção Beltranianas...
Andriolli Costa: Mas acho que antes da Beltranianas houve a republicação da tese, em 2001.
Antonio Hohlfeldt: Exatamente. Foi quando ajudei a criar e assumi a coordenação do doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAMECOS, na PUCRS. O Zé Marques tinha o manuscrito da tese e eu tinha criado uma coleção de livros de comunicação na editora da universidade. Tanto publicávamos teses e textos novos quanto alguns textos clássicos. Aí eu disse ao Zé Marques: “Passa-me o manuscrito, que acho que a gente consegue publicar”.
Então, a primeira edição — aliás, a segunda repete — tem um estudo do Zé Marques, em que ele vincula a história da Folkcomunicação com Beltrão. O Juremir fez um estudo específico sobre a questão do jornalismo no Beltrão.
Andriolli Costa: Juremir Machado da Silva. Como foi convidar o Juremir? Porque ele não tinha proximidade com a teoria.
Antonio Hohlfeldt: Não, mas ele trabalha com jornalismo, com teoria do jornalismo. Então, fez o texto basicamente a partir de Iniciação à filosofia do jornalismo. E eu fiz, inclusive, sobre os cursos que Beltrão deu exatamente no Equador, quando se criou o instituto que existe até hoje. Há uma coisa importante: a primeira geração de professores da comunicação no Brasil, entre os quais se incluem Beltrão e Zé Marques, começou os cursos na... Escapa-me o nome do instituto.
Andriolli Costa: O Ciespal.
Antonio Hohlfeldt: O Ciespal. É interessante porque o Beltrão foi professor convidado. O Zé Marques tinha aquele material, e eu o tinha ganhado do Beltrão; então, a gente duplicou. Era um folheto de umas trinta páginas, datilografado pelo Beltrão e reproduzido por um sistema que não era xerox, era pré-xerox.
Andriolli Costa: Mimeografado?
Antonio Hohlfeldt: Não era nem mimeografado. Era anterior ainda, outro sistema. Era isso que ele distribuía nos cursos do Ciespal. Então, a gente partiu desse tipo de material.
Saiu a primeira edição e encontrei uma colega lá na FAMECOS, a professora Beatriz Dornelles, infelizmente hoje já falecida, que também se encantou com a Folkcomunicação. Ela passou a trabalhar mais com Folkcomunicação no curso. Eu, nas minhas aulas de Teorias da Comunicação, sempre guardava uma aula para falar sobre Folkcomunicação. Acho que foi assim que gradualmente se espalhou, porque sei que outros professores, em outros cursos e programas, também fizeram a mesma coisa.
Andriolli Costa: Falando dessa ponte de Iniciação à filosofia do jornalismo para a Folkcomunicação: um antecede o outro em quase uma década. Você já via ali rastros do que viria a ser a Folkcomunicação? Consegue perceber ali o princípio do pensamento beltraniano?
Antonio Hohlfeldt: Eu acho que sim. Quando Iniciação à filosofia do jornalismo completou cinquenta anos, o Congresso da Intercom foi exatamente em Caxias do Sul. Era o meu primeiro mandato como presidente da Intercom, e o Zé Marques pediu... Nós fizemos uma homenagem a Luiz Beltrão.
Andriolli Costa: Intercom Caxias do Sul? Então foi em 2010...
Antonio Hohlfeldt: Em 2010, foi isso. O Zé Marques pediu que eu fizesse a aula, a palestra de abertura. Foi exatamente uma aula sobre esse livro do Beltrão. Fiz um artigo longo, longo, que está publicado em algum número da revista da Intercom.
Eu acho que há uma coisa básica no pensamento do Beltrão que, para mim, é fundamental. Jornalismo é, basicamente, transmissão de informação. Isso constitui uma narrativa. Mas ele vai adiante: não basta transmitir a informação; você tem que ajudar a entendê-la. Então, Beltrão talvez seja o primeiro teórico no Brasil a falar da transmissão e da interpretação da informação. Não é opinião, é interpretação: examinar a informação e ver as alternativas, as possibilidades dos desdobramentos. Acho isso básico em jornalismo, sobretudo no jornalismo de investigação.
Quando, na Folk, ele fala dos ex-votos como um jornalismo primitivo, vamos dizer assim, acho que está mantendo essa coerência conceitual. Porque o ex-voto não fala explicitamente, mas fala implicitamente. Eu sei o que é um ex-voto. O ex-voto, bem ou mal, é notícia de um milagre, notícia de uma cura. É isso. Implicitamente, é isso. E esse é o ponto de partida do Beltrão para considerar o ex-voto como a primeira forma de jornalismo. Acho coerente a reação de Câmara Cascudo, que adorou a posição do Beltrão.
E sempre me preocupou muito quando os jovens pesquisadores começam a trabalhar com Folkcomunicação. Escrevi um artigo, a pedido do Zé Marques, também sobre isso. Quando estudo Folkcomunicação, não estou estudando o processo folclórico em si. Estou estudando os modos de sua difusão, de sua propagação, de sua comunicação. E isso, às vezes, não é muito claro para o pesquisador mais jovem.
Andriolli Costa: É bom que você esteja falando disso, professor. Como conseguimos distinguir onde está o limite entre o folclore e o processo comunicacional do folclore, sendo que hoje há quem estude a roupa como comunicação, a comida como comunicação? Como você vê isso?
Antonio Hohlfeldt: Há, inclusive, um livro bem interessante, originado de um trabalho de mestrado que orientei lá na FAMECOS, exatamente sobre a questão da comida. Veja: se você se limitar a estudar a comida em si, o modo de fazer, a tradição dessa comida, isso é folclore, não é Folk. Agora, se considerar como essa comida é apropriada enquanto valor simbólico, cultural, aí entra no campo da Folk.
Acho que essa fronteira tem que ser muito bem delimitada, embora concorde que, às vezes, seja difícil. Você tem que ter muito cuidado para trabalhar com isso. Por exemplo, pode estudar o carnaval enquanto Folkcomunicação. Aliás, orientei vários trabalhos de alunos meus na graduação sobre carnaval e Folkcomunicação. E, de novo, eu não vou apenas estudar o carnaval, a escola de samba, aquele enredo. Vou perguntar: como isso se difunde? Como é apropriado? Como é compreendido pela população, pelos grupos?
Outro exemplo são os bois de Parintins. Uma coisa é descrever o boi de Parintins; isso é puro folclore. Hoje em dia, já se alastrou, já está industrializado, chegou muito perto do que é o carnaval e tal. Mas, se eu estudar os enredos dos bois e o que está por trás desses enredos — quais são os valores, os princípios e as disputas colocadas —, estou no campo da Folk.
Entende? Não posso perder isso; sempre chamo a atenção para isso. A Folkcomunicação tem que ser pensada enquanto processo de comunicação a partir das manifestações folclóricas. Eu acho que, nisso, o Beltrão é muito claro. O que às vezes atrapalha um pouco as pessoas é que, seguindo um conceito bem antigo de folclore, elas pensam que o folclore se limita às questões da cultura iletrada, da cultura rural, de uma cultura estagnada, passada, quase museológica. Não é isso.
Por exemplo, acho muito legal estudar, a partir de Porto Alegre, mas também de qualquer grande cidade, os migrantes que vêm do interior e se estabelecem na capital, às vezes em bairros muito grandes. Lá em Porto Alegre tem um bairro que é todo de gente que veio do interior. No domingo de manhã, você vê os caras tomando chimarrão, ouvindo rádio, música gauchesca, preparando churrasco. Como mudaram esses valores? Porque eles mudaram. O sujeito não está mais naquele espaço rural; está no espaço urbano. As manifestações continuam, mas já não são exatamente iguais. O cara, por exemplo, começa a ter mais requinte para escolher qual erva-mate vai comprar e, às vezes, faz mudanças. O que vai comer com o churrasco?
Andriolli Costa: A família da minha tia é de ascendência árabe; então, eles comem churrasco com coalhada seca. Uma coisa que eu nunca tinha visto.
Antonio Hohlfeldt: Pois é. No Rio Grande do Sul, há uma mistureba fantástica. E é interessante: nos anos 1970, mais ou menos, a questão do turismo começou a aparecer. O governo do Estado estruturou o setor de turismo, e quem foi atuar ali foi um jornalista, Oswaldo Goidanich, que era quase um erudito. Ele era diretor do Touring Club do Brasil, seção Rio Grande do Sul. O Touring Club, na época, era quem fornecia o documento para o motorista que ia ao exterior tirar uma carteira. Não era o Detran, era o Touring. O Touring preparava os documentos do teu carro se você ia para a Argentina, por exemplo. Então, você tinha que ser sócio do Touring.
O Goidanich tinha uma casa em Gramado, na serra alemã, e a prefeitura estava interessada em ter turismo na cidade. Havia um pouco de turismo para subir a serra, mas não havia assim... O que vou fazer em Gramado? Vou olhar mato, vou olhar montanha, só. Não é nada.
Aí, o Goidanich bolou uma atração: o tal café colonial, que é uma criação absolutamente artificial. O que ele fez? Pegou a culinária alemã e misturou com a italiana, porque havia os dois lados da serra. Quer dizer: Gramado, Canela, alemão; Caxias, Bento Gonçalves, italiano. Então, o café colonial é a mistura.
Mas você soma tudo junto: tem café preto, café com leite, vinho, suco de uva. E, claro, se alguém não toma isso, toma Coca-Cola mesmo, não tem problema. Você passa a ter café colonial com trinta, quarenta, cinquenta pratos.
Andriolli Costa: É o imaginário da cocanha, né? A fartura...
Antônio Hohlfeldt: Aquela coisa gigantesca. Quer dizer, você tem que deixar de comer uns dois ou três dias antes para pegar um café colonial. Isso passou a levar pilhas e pilhas de gente para a serra. Era sempre da metade para o final da tarde. Não era nem almoço, nem janta; era no meio. Poder contar essa história, contar esses valores, é tipicamente um estudo de Folkcomunicação: como essas coisas foram se misturando e produzindo variações.
Andriolli Costa: E uma apropriação também institucional.
Antonio Hohlfeldt: Claro, claro. Assim como o Lucena depois estudou — eu orientei a tese dele — o grande São João, “o maior São João do mundo”.
Andriolli Costa: Eu ia puxar isso. Na pesquisa coletiva da Rede Folkcom, notamos que não havia nenhuma instituição no Nordeste que absorvesse, no doutorado, as pesquisas em Folk. Então, o pessoal tinha que sair do mestrado e ir para um doutorado no Sul ou no Sudeste. Como foi essa recepção de pesquisadores de fora?
Antonio Hohlfeldt: Olha, pelo menos em Porto Alegre não houve muitos. Posso falar do Lucena, que foi um caso bem objetivo. Ele chegou ao nosso programa, apresentou o projeto de doutorado, eu achei interessante, mas ele foi designado para outro professor, o professor Jacques Wainberg. Inicialmente não era comigo. Acabei assumindo porque tinha mais disponibilidade e conhecia um pouco mais o assunto. O desafio era entender o que era a tradição de Campina Grande.
Então, a primeira coisa que pedi ao Lucena foi que me dissesse o que era a festa, o que acontecia nela. A partir daí, começamos a pensar como categorizar esse procedimento. Nesse sentido, acho que o Lucena foi muito feliz, porque conseguiu mostrar claramente.
Havia outra coisa interessante: a TAM, antes da LATAM, empresa de aviação do interior de São Paulo, lá de Marília. Isso ainda era no tempo de Congonhas, quando a gente pegava o avião e saía de Congonhas, chegava a Congonhas. Quando era junho, a TAM tinha a mania de obrigar os funcionários do balcão a se vestir de caipira.
Andriolli Costa: Olha!
Antonio Hohlfeldt: E havia, na sala de espera — não era apenas para passageiros, era para todo mundo —, pipoca, rapadura, quentão e um monte de coisas assim. Era um bom investimento de marketing. Sempre achei isso muito legal. Também chamava a atenção do pessoal: “Olha, isso aqui é um fenômeno para a gente estudar”. Um fenômeno tipicamente capitalista e urbano, uma empresa de aviação, que se dá conta de que pode assimilar esses valores e transferi-los de um campo para outro. Era muito divertido, porque você ficava esperando o avião ali, não enchia o saco, comia uma pipoquinha. Acho que isso mostra, inclusive, uma dinâmica cultural muito legal.
O próprio Beltrão, nos últimos livros dele, foi sempre evoluindo, sempre aprimorando. E está correto. Em um campo científico, você não estabelece uma teoria e ela fica parada. Essa teoria vai sendo aplicada, ampliada, modificada e ganha novas nuances. Como eu disse antes, ele se deu conta de que, na verdade, você tem vários campos de marginalização, mesmo na estrutura urbana: a periferia de uma cidade, o bairro mais popular, os tipos de divertimento.
Eu nasci num bairro geograficamente de periferia. A Vila do IAPI, em Porto Alegre. Foi um grande conjunto habitacional criado especificamente pelo governo federal para receber famílias de trabalhadores. Foi idealizado ainda por Getúlio Vargas, teve uma primeira inauguração em 1950 e foi inaugurado oficialmente por ele em 1953. A minha família se mudou para lá no final de 1954.
Quem coordenou esse projeto, junto com Marcos Kruter, foi um engenheiro chamado Edmundo Gardolinski. Dois de seus filhos foram meus colegas no Colégio São João, dos lassalistas. Edmundo Gardolinski Filho estava um ano na minha frente, e André Gardolinski era meu colega de aula; então, eu frequentava a família. Ele coordenou o projeto da Vila do IAPI.
E é um conjunto muito bem-feito. As casas são de excelente qualidade. Morei numa casa dessas por quase vinte anos. Saí porque resolvi fazer a minha vida, mas meus pais ainda ficaram muito tempo morando na Vila do IAPI. Durante um tempo, a prefeitura não cuidou e ela perdeu um pouco de suas características, principalmente nas bordas, mas o centro do bairro ainda se mantém com as casas originais, sem grandes transformações. Hoje já existem livros, tanto de pessoas da Arquitetura quanto do Urbanismo, estudando a Vila. Mas não sei se há alguma tese ou estudo do ponto de vista da Folkcomunicação.
É muito interessante. Digo que ela ficava fisicamente na periferia porque, como acontece com esses conjuntos habitacionais, você pega o terreno mais barato. E qual é o terreno mais barato? O que está fora da cidade. Então, a Vila do IAPI foi criada no final da cidade, ao norte, na saída em direção às outras cidades que fazem a conurbação: Cachoeirinha, Gravataí, três ou quatro cidades ali.
Quando fui morar lá, no final de 1954, quase não havia transporte público. O bonde chegava até o início da vila e eu morava na rua mais alta. Tinha que subir e descer o morro todos os dias, duas, três, quatro vezes por dia, para ir ao colégio. Aos sábados havia feira livre. A gente descia e tinha que voltar com as sacolas para casa. Era assim.
Depois, esse bonde avançou, rodeando a vila um pouquinho mais. Chegou até o que hoje é a Volta do Guerino. Havia o bonde IAPI, que terminava na entrada, e depois o bonde Assis Brasil, que entrava mais. A linha de ônibus também parava na entrada e já rodeava. Antes de eu estar na faculdade, o ônibus já ia lá em cima e parava, casualmente, em frente à minha casa. Não era o final da linha; o final da linha era junto ao Cemitério São João, um cemitério municipal.
Depois, o INPS criou, nos terrenos abertos do governo, um grande postão. Há ali um centro de saúde gigantesco, que hoje atende toda a região. O final da linha de ônibus era ali. Do meu quintal, eu via a parada. Quando o ônibus saía de lá e fazia a volta, eu já ia para a frente de casa. Dá para contar a história da Vila do IAPI também como a expansão urbana de Porto Alegre.
Andriolli Costa: Agora entendi.
Antonio Hohlfeldt: Hoje, a cidade emendou com as outras, mas, quando fui morar lá, em 1954, 1955, era o final de Porto Alegre. Quando tinha dezoito anos e fui estudar para tirar a carteira de motorista, treinei com um amigo numa área baldia, que era uma estrada de chão. Hoje é uma baita avenida que liga todas as áreas daquela região. Houve uma mudança urbana muito acelerada nessa região toda.
Isso é um estudo que você pode fazer no campo da comunicação. Quem eram as pessoas que foram morar lá? Naquela época, a gente não tinha INPS. Tinha IAPC, dos comerciários; IAPI, dos industriários; e IAPM, dos marítimos. Em 1966, durante o governo Castelo Branco, houve a unificação, gerando o INPS. O INSS só foi criado depois, em 1990, pela fusão do INPS com o Iapas. Juntou tudo. Mas, na época, era tudo separado.
Meu pai trabalhava como contador num moinho de arroz. Então, isso era indústria; por isso, a gente pôde comprar a casa. Era uma casa que você pagava em trinta anos, aquele processo normal. Depois veio o Banco Nacional da Habitação, cuja formulação teve a participação da Sandra Cavalcanti, que foi também a primeira presidente.
Mas, para você ter uma ideia, em um dos lados da Vila do IAPI havia o Colégio Dom Bosco, dos salesianos. Eles tinham um auditório enorme e, aos domingos, havia matinê. Não era um cinema comercial, mas você tinha uma sessão de cinema, podia pagar um ingressinho e assistir aos filmes. E a sessão de cinema era um negócio gigante: havia o Jornal da Tela, porque ainda não havia televisão; havia os trailers; havia os filmes em série, Flash Gordon, Roy Rogers, Rin-Tin-Tin; e, depois, um ou dois filmes de longa-metragem. A sessão de cinema era um negócio gigante.
E o que a gente fazia lá, além de ver os filmes? Trocava gibi, trocava bolinha de gude, namorava as gurias, evidentemente. Esse é outro estudo de socialização.
Dentro da vila havia a Igreja Nossa Senhora de Fátima, em frente ao Estádio Alim Pedro, onde se jogava futebol. Havia uma série de ligas desportivas em toda a Zona Norte de Porto Alegre, e faziam campeonato regional naquele campo.
E, na igreja — deixa eu só completar —, uma vez sugeri ao padre que a gente fizesse um jornalzinho da paróquia. Começamos a fazer o jornalzinho. Depois, começamos a fazer teatro. Toda Semana Santa, na Sexta-Feira Santa, tinha uma procissão. A gente saía da igreja, rodeava todo o estádio e voltava para a igreja. Era uma procissão luminosa, à noite. Passamos a fazer a representação da Paixão.
A gente fazia algumas estações em vários pontos. O Colégio Dom Bosco e a Igreja Nossa Senhora de Fátima também foram pontos de sociabilização. Depois, criou-se a biblioteca pública em frente ao estádio.
O Estádio Alim Pedro era bacana porque você assistia a todos os jogos sentado no meio do mato. Em torno do estádio havia uma grande ribanceira com árvores e capim. Você sentava ali e assistia ao jogo, ponto. Havia uma associação dos clubes que cuidava do estádio. O estádio existe até hoje.
Andriolli Costa: Qual estádio mesmo?
Antonio Hohlfeldt: Alim Pedro. Não me pergunte por quê. É o nome de alguém que ajudou a fazer a associação. E, claro, havia a Associação de Reivindicações, a parte política, da qual também participei. Também tínhamos um jornalzinho lá. Quero dizer com isso que a vida do IAPI foi, inclusive, uma criação, digamos assim, de uma expansão de sociabilização popular muito grande.
Vou te dar um exemplo. Onde nasceu Elis Regina? Na Vila do IAPI, na rua atrás da minha. A minha era a Dom Pedrito, mais alta; ela nasceu na Rio Pardo, logo abaixo. Meu pátio da frente dava para uma primeira casa, que fazia fundos com a casa dela e por onde ela podia atravessar. Ela era aluna da minha mãe para estudar inglês, porque começou cantando em inglês. Então, conheci Elis desde guria, com treze ou catorze anos. Dois ou três dos principais publicitários do Rio Grande do Sul nasceram na Vila do IAPI. Então, a Vila foi um referencial muito grande.
Andriolli Costa: Que legal.
Antonio Hohlfeldt: Quando fui eleito vice-governador, uma agência de publicidade pegou isso para festejar: “Os caras da Vila do IAPI”. Fizeram um pôster grandão, com algumas figuras importantes que nasceram na vila. Uma coisa é fazer — e há um livro sobre a Vila do IAPI — um estudo do desenvolvimento urbano. Outra coisa é fazer um estudo exatamente sobre os processos comunicacionais que ocorreram naquela comunidade, que foram muito ricos e diversos. Acho que os pesquisadores da comunicação ainda não se deram conta do enorme potencial desse campo. Está todo mundo muito louco para trabalhar com internet, com...
Andriolli Costa: Eu ia pegar esse gancho para fazer um salto temporal. Estamos fazendo um projeto novo para pensar folkcomunicação em áreas afetadas por desastres ambientais. Um dos campos que adicionamos foi Porto Alegre por conta das enchentes, para pensar mutirões, cozinhas solidárias. Olhando em retrospecto, como você consegue ver o período a partir deste olhar.
Antonio Hohlfeldt: Na época, confesso, não consegui prestar atenção porque estava muito preocupado com o processo todo. Tanto com a minha mãe, que estava em uma casa de repouso, quanto meu filho que foi um dos primeiros a sair de Porto Alegre. Hoje em dia, talvez desse para a gente parar, porque acompanhei muito de perto e sou bem consciente dos processos que aconteceram.
Toda a área atingida foi gigantesca. Foram 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul atingidos pelas enchentes, com cidades absolutamente destruídas. Organizou-se muito esse tipo de trabalho. E foi muito bonita também a vinda de gente de fora, de outros estados, para participar. Foi realmente um negócio... Agora, eu diria que talvez a coisa mais folclórica que valeria a pena estudar — não sei se já estudaram — foi a questão do cavalo.
Andriolli Costa: Ah, sim. Movimentou paixões.
Antonio Hohlfeldt: Até hoje o cavalo está lá, né? E a última notícia, de dois ou três meses atrás, é que a Ulbra estava começando a se movimentar para arranjar uma égua para o cavalo, porque o Caramelo está sozinho. Então, você tem que arranjar uma égua para ele. E ele está super bem.
Andriolli Costa: Foi impressionante a resiliência daquele cavalo.
Antonio Hohlfeldt:É um negócio admirável: ficar de pé, parado, em cima de um negócio precário, que é um telhado. E foram horas e horas e horas. É uma história bonita. A gente não tinha um herói personificado isoladamente; tinha conjuntos de heróis, todos esses grupos de mutirão que ajudaram. O cavalo virou o super-herói. Não foi um personagem humano; foi o cavalo.
Andriolli Costa: Para a gente encerrar, então, professor: como foi o processo da Coleção Beltranianas?
Antonio Hohlfeldt: O processo da Beltranianas foi bem simples. Desde que assumi a presidência da Intercom — foram dois mandatos —, segui a linha do Zé Marques. Ele tinha muita preocupação em editar livros, colocar no papel, documentar. Eu tinha como diretor editorial o professor Osvando J. de Morais, agora já falecido. O Osvando era o meu editor. Então, a gente decidiu recuperar toda a obra editorial do Beltrão, que estava perdida.
Iniciação à filosofia do jornalismo era uma edição da Agir. Dois livros dele haviam sido publicados em Porto Alegre, quando ele morou lá, pela Editora Sulina. Havia outro livro, A imprensa informativa, um livrão muito mal impresso aqui em São Paulo, que não existia mais. Dos livros da Folco Masucci e dos livros da Summus, a gente tinha alguma coisa. Eu tinha reeditado, um tempo atrás, a...
Andriolli Costa: Há os livros de ficção também?
Antonio Hohlfeldt: Há. E quero te dizer que, por culpa do Zé Marques, tenho um longo artigo sobre os livros de ficção do Beltrão.
Antonio Hohlfeldt: Não me lembro mais se foi para um congresso da Folk ou para um congresso da Intercom, mas tenho um artigo longo, publicado, sobre os romances. Não acho os romances muito ...
Andriolli Costa: Não é a melhor parte da produção...
Antonio Hohlfeldt: Mas acho interessante. Eles pegam muito uma coisa que foi interessante no depoimento do Luiz Beltrão Neto: a questão da religiosidade. Em todos os livros há uma forte presença da religiosidade. Inclusive, um dos romances era bem polêmico para a época: a história de um sacerdote que se rebela contra as regras de Roma. É um sacerdote marginal, vamos dizer assim.
Então, pensamos a Beltranianas. Começamos pelo que estava mais à mão. Aí alguém, não lembro mais quem, me disse: “Mas o Beltrão morou em Porto Alegre”. E, de fato, numa época, depois que foi demitido e depois da Funai, ele foi convidado por um irmão marista da PUC — já vou me lembrar o nome — para dar aulas na FAMECOS. E ele foi. Deve ter ficado uns dois anos.
Lá, publicou Jornalismo opinativo e, acho, Jornalismo interpretativo. São dois livros que ele publicou pela Editora Sulina. Também escreveu artigos para o suplemento cultural do Correio do Povo, o Caderno de Sábado, do qual eu viria a ser editor — naquela época, ainda não era.
Eu não tinha a mínima ideia da existência desses artigos, mas alguém falou e fui caçá-los. Como a coleção do Caderno de Sábado está toda organizada, com índices por título de artigo, nome do autor, temas e um monte de coisas, fui aos índices e encontrei logo o nome do Beltrão. Comecei a acompanhar e separar. Encontrei vinte artigos dele, sobre os temas mais variados possíveis.
Separei esse material e fizemos um dos volumes da Beltranianas. Então, esse é um volume tipicamente inédito: os artigos nunca tinham sido publicados em livro. Reproduzimos outros trabalhos dele.
Andriolli Costa: Você conseguiu encontrar alguma coisa da produção jornalística anterior dele?
Antonio Hohlfeldt: Não. Mas a gente não chegou a pesquisar. Estávamos primeiro trabalhando com o material que tinha acessibilidade mais fácil. A ideia era depois constituir um grupo de pesquisa que fosse atrás. Incluiria, inclusive, essa questão de que se falou ontem: a correspondência que sumiu, desapareceu e tal. Há muita coisa do Beltrão ainda perdida por aí. Muita coisa. O Beltrão produzia compulsivamente.
Andriolli Costa: Você falou que não se terminou de publicar a Beltranianas. O que faltou?
Antonio Hohlfeldt: Quando terminei o meu mandato, na minha percepção, com a presidente seguinte esses projetos perderam continuidade. Pararam. Foi uma série de projetos, e um deles era a Beltranianas. Era uma coleção em aberto, digamos assim. Cada vez que a gente descobrisse eventualmente alguma coisa nova, poderia fazer um novo volume. E aí saíram nove volumes, com as obras mais imediatas, às quais a gente tinha mais acesso.
Não saiu, por exemplo, a reedição de A imprensa informativa, aquela edição paulista. Ela integra, com Jornalismo interpretativo e Jornalismo opinativo, a trilogia do Beltrão dedicada aos gêneros jornalísticos. Isso já estava no escopo. Consegui comprar uma edição desse livro, tenho em casa, mas não chegamos a editá-lo. O Osvando também ficou doente, já no final do segundo mandato, e a coisa foi interrompida. Editamos toda a coleção da revista Comunicação & Problemas. Há uma edição refeita, uma edição editorada e uma edição fac-similada. Depois parece que perderam isso, mas a gente tinha a edição fac-similada da revista toda.
Andriolli Costa: Professor, despeça-se do público da Rede. Qual é a sua mensagem final?
Antonio Hohlfeldt: Quero dizer que, se eu não estivesse diretamente envolvido com os grupos de Jornalismo — porque esse é o meu campo de estudo e estou trabalhando com a história do jornalismo na América Latina —, certamente estaria nesse grupo da Folk. Acho que é um grupo com muito potencial. Há muita coisa para estudar; é muito rico em temas, em assuntos que chamam a atenção. Nesse sentido, interessa-me muito.
Por isso eu dizia ontem: se o grupo me provoca, produzo alguma coisa. No mais, fico no meu cantinho com os jornalistas, que já ocupam bastante a gente. Agora, quero dizer que tive uma alegria muito grande. Minha relação com o Guilherme (Moreira Fernandes) vem totalmente dessa área da Folk. O Guilherme é dessa terceira geração, digamos assim, e é muito organizado. Acho que já devemos a ele muitas coisas. Dois, três livros foram publicados, livros longos, livros avultados, recuperando muitos desses artigos, estudos e textos fundadores — não do Beltrão, mas dos outros que estudaram o Beltrão.
Acho que a Folk realmente tem um futuro muito bom como grupo de pesquisa. Espero que as pessoas se deem conta de que o fato de haver tecnologia não impede a gente de pensar a tecnologia enquanto Folkcomunicação. De maneira nenhuma.
Basta imaginar todo esse anedotário, os jovens, o modo pelo qual usam um celular. Por exemplo, uma coisa que me chamou a atenção quando estava em Portugal, mas que depois encontrei em várias outras situações: quando pegava o metrô para ir da universidade à casa onde morava, a gurizada da escola, da própria universidade, também pegava o metrô. Um se sentava de um lado do vagão, outro se sentava do outro lado, e ficavam se falando pelo celular.
Hoje é muito pior. Eu gosto de ir ao cinema e já vi várias vezes: eu e minha mulher estamos na sala de espera; há um casal sentado, os dois com o celular, e eles não estão conversando. Cada um está com o seu celular. Ou, pior: estão conversando através do celular.
Fazer estudos nesse campo é tipicamente um estudo comunicacional. Há muita coisa para estudar: essas apropriações informais, não oficiais, não prescritas, não canonizadas, que ocorrem em relação aos processos de informação e comunicação. Esse é o campo que Beltrão abriu e deixou sugerido. Não é para ficar apenas com a coisa rural e folclórica no sentido antigo. É para estudar o presente. Essas coisas existem. Há muita coisa para estudar. Acho esse campo muito interessante.
Notas de fim
1. Afastamento da UnB e ingresso na Funai. As fontes consultadas confirmam que Beltrão foi afastado da UnB no contexto repressivo posterior ao AI-5 e ingressou na Funai no fim de 1968 para colaborar na estruturação da assessoria de comunicação. Ver artigo retrospectivo de Antonio Hohlfeldt na Revista Internacional de Folkcomunicação e relato de Beltrão sobre a comunicação da Funai.
2. Material didático do Ciespal. A identificação exata do documento presenteado a Hohlfeldt não é segura. Provavelmente se tratava de material relacionado a Métodos en la enseñanza de la técnica del periodismo, publicado pelo Ciespal em 1963. Os registros disponíveis apresentam Beltrão como professor convidado do IV Curso Internacional do Ciespal. Ver o catálogo da Mediateca do Ciespal e o estudo sobre Beltrão e o ensino de jornalismo..
3. Relação entre UCBC e Intercom. A UCBC foi um importante espaço de articulação anterior à Intercom, mas não deve ser descrita como sua predecessora formal, pois as duas entidades coexistiram. A ABEPEC, fundada em 1972, é apontada como antecedente institucional mais direto. A Intercom foi criada em 12 de dezembro de 1977. Ver a história institucional da Intercom e o depoimento histórico de José Marques de Melo.
4. Inscrições em banheiros universitários. Trata-se do relato de exercícios conduzidos em sala de aula; não foi localizada publicação com a descrição do corpus, do método ou dos resultados. Por isso, a observação não deve ser generalizada como conclusão sobre diferenças de gênero. Um estudo brasileiro publicado em 1998, com outro corpus, não encontrou diferença significativa na frequência de inscrições sexuais entre banheiros masculinos e femininos, embora tenha identificado diferenças de conteúdo. Ver Psicologia: Reflexão e Crítica. .
5. O ex-voto como forma de jornalismo. Beltrão publicou O ex-voto como veículo jornalístico em 1965. As formulações documentadas são “veículo jornalístico” e “jornalismo primitivo”. Ver o texto na Revista Internacional de Folkcomunicação e o estudo histórico sobre a Folkcomunicação.
6. Goidanich e o café colonial. A atuação de Oswaldo Goidanich na promoção do turismo gaúcho e na idealização do café colonial como atração é documentada.O primeiro estabelecimento comercial identificado como café colonial, o Bela Vista, abriu em Gramado em 1972. Ver o perfil de Goidanich publicado pela PUCRS e a história do Café Colonial Bela Vista.
7. Ações juninas da TAM. A origem da TAM como Táxi Aéreo Marília, criada em 1961, é documentada pela história institucional da Latam. As roupas e comidas juninas nos aeroportos são uma memória pessoal do entrevistado e não foram confirmadas por fonte documental independente.
8. Continuidade da Coleção Beltranianas. A coleção não foi interrompida imediatamente na mudança de gestão: os volumes 7, 8 e 9 foram publicados em 2014, 2015 e 2016, durante a presidência de Marialva Barbosa, que se estendeu de 2014 a 2017. É possível que tenha ocorrido mudança de ritmo ou de planejamento editorial. Ver o perfil institucional de Marialva Barbosa, o levantamento histórico da coleção e o registro bibliográfico do volume 9.




Comentários