“Visibilidade não é preservação”: última mesa da Jornada debate quem controla a memória da cultura popular
Arquivos comunitários, documentos dos bois-bumbás, repositórios digitais, influenciadores, inteligência artificial e direitos autorais estiveram no centro da Mesa 8 da IV Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação.
Uma alegoria pode permanecer durante poucos minutos na arena do Bumbódromo, mas sua criação produz meses de pesquisa, desenhos, orçamentos, contratos, mensagens, plantas técnicas, fotografias e decisões artísticas.
Quando somente a imagem do espetáculo final é preservada, parte significativa da história desaparece. Não é mais possível saber quais caminhos foram percorridos, quem participou do processo, quais propostas foram recusadas ou por que determinados conhecimentos foram utilizados enquanto outros permaneceram ausentes.
Essa foi uma das provocações da última mesa da IV Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação. Realizada no campus da Universidade do Estado do Amazonas, em Parintins, a Mesa 8 discutiu “Registro, comunicação e estratégias de salvaguarda do patrimônio cultural”.
O encontro reuniu o professor Thayron Rodrigues Rangel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; a professora Danielly Inomata, da Universidade Federal do Amazonas; e a advogada Juliana Salema, da agência +Q Creators. A mediação foi conduzida por Jonel Vasconcelos.
As três falas partiram de campos diferentes — Arquivologia, Gestão do Conhecimento, Comunicação e Direito —, mas chegaram a uma questão comum: preservar uma manifestação cultural não significa apenas guardar objetos ou aumentar sua circulação nas redes sociais.
É preciso decidir coletivamente o que será registrado, quem poderá acessar os documentos, quais conhecimentos não devem ser divulgados e como as comunidades participarão da construção de sua própria memória.
A memória começa antes da arena
Thayron Rangel iniciou sua participação dizendo que não estava ali para agradar às associações culturais, mas para provocar mudanças.
“Eu acho que estou aqui para incomodar”, afirmou.
Professor do curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação da UFRJ, Rangel explicou que a memória de uma associação cultural não está limitada às fotografias, fantasias e alegorias escolhidas para uma exposição.
Ela começa no momento em que a instituição define o tema que pretende levar para a arena.
A partir dessa decisão, surgem o argumento artístico, a pesquisa bibliográfica, as sinopses, os roteiros, os croquis, as plantas técnicas, os figurinos, as partituras, as letras de toadas, os calendários de ensaio e os controles de distribuição de materiais.
Também são produzidos documentos administrativos: contratos, registros de pessoal, orçamentos, comprovantes de pagamento, prestações de contas, documentos de segurança e correspondências entre setores.
Para o pesquisador, separar a documentação artística da administrativa impede que se compreenda o funcionamento da instituição. Uma decisão estética depende de recursos, prazos, contratações, disputas e escolhas políticas que também deixam vestígios documentais.
A pesquisa utilizada para desenvolver um tema indígena, por exemplo, pode revelar quais autores foram consultados — ou mostrar que nenhum pesquisador indígena foi incluído. O documento permite identificar não apenas o que foi dito, mas os caminhos intelectuais e políticos que levaram àquela representação.
“Ali é possível identificar as escolhas epistemológicas e também as possibilidades de apagamento sociocultural”, explicou.
Preservar somente o texto final apresentado aos jurados elimina esse percurso. Sem acesso às pesquisas, às primeiras versões e às propostas recusadas, o futuro pesquisador encontra o resultado, mas não consegue reconstruir o processo.
Um arquivo não é uma coleção de lembranças bonitas
Rangel diferenciou o trabalho arquivístico do colecionismo. Um centro de documentação não deve guardar apenas aquilo que uma presidência ou um conselho considera bonito, vitorioso ou conveniente.
Documentos surgem inicialmente para cumprir uma função. Um contrato permite realizar um serviço. Uma nota fiscal comprova uma despesa. Um roteiro organiza o espetáculo. Depois de cumprida essa finalidade, parte desses registros pode adquirir valor histórico, cultural ou social.
A dificuldade é que muitas associações realizam os projetos, entregam as prestações de contas e deixam a documentação se dispersar. Os arquivos permanecem nas casas de antigos dirigentes, artistas e funcionários ou simplesmente desaparecem.
Quando alguém tenta criar um centro de memória anos depois, precisa percorrer a cidade procurando doações. Mesmo que os documentos sejam recuperados, frequentemente já perderam sua relação com o conjunto original.
“Essa memória estará descontextualizada”, advertiu o professor.
Para evitar o problema, Rangel defendeu que as instituições estabeleçam políticas de gestão documental desde o início de cada projeto. Isso inclui identificar documentos, classificar suas funções e determinar, por meio de uma tabela de temporalidade, o que pode ser eliminado e o que deve permanecer preservado.
A decisão, entretanto, não pode ser tomada apenas por técnicos externos ou dirigentes das associações. Em um arquivo comunitário, a própria comunidade precisa participar da definição dos documentos que considera representativos.
“Se o arquivo é da comunidade, a comunidade tem que ser copartícipe”, afirmou.
A reflexão dialoga com um artigo publicado por Rangel e outros pesquisadores sobre os centros de documentação como lugares de memória e conhecimento.
Pessoas, processos, tecnologias e governança
Danielly Inomata levou para a mesa as ferramentas da Gestão do Conhecimento. Bibliotecária e professora da UFAM, ela explicou que a área costuma trabalhar com três pilares: pessoas, processos e tecnologias.
A esses elementos, acrescentou a necessidade de governança. Sem uma liderança responsável por orientar, acompanhar e avaliar as ações, plataformas e projetos podem existir de maneira isolada, sem continuidade institucional.
A Gestão do Conhecimento procura compreender como uma experiência mantida pelas pessoas pode ser documentada, compartilhada e transmitida. Trata-se da passagem entre o conhecimento tácito — formado pela prática, pela experiência e pela vivência — e o conhecimento explícito, que pode ser registrado.
No campo do patrimônio cultural, o desafio é especialmente complexo. Um saber tradicional não se resume a uma descrição escrita. Ele envolve gestos, ambientes, relações comunitárias, espiritualidade e modos de perceber o mundo.
Por isso, registrar não significa capturar completamente uma prática ou transformá-la em algo imóvel. O objetivo deve ser criar condições para sua continuidade.
“Pensamos muito no patrimônio cultural como algo do passado, mas ele é uma ponte para o futuro”, afirmou Danielly.
Entre as estratégias apresentadas estavam a produção de inventários culturais, relatórios técnicos, fotografias, entrevistas, registros audiovisuais, repositórios digitais e projetos de educação patrimonial.
As escolas de arte dos bois-bumbás também foram reconhecidas como espaços de salvaguarda. Ao ensinar técnicas a crianças e jovens, elas não apenas formam novos artistas, mas mantêm conhecimentos em circulação.
A pesquisadora mencionou ainda o Centro de Documentação e Memória do Boi-Bumbá Caprichoso, o CEDEM, como uma experiência importante para a organização da história da associação.
Informação difícil de encontrar também é memória inacessível
Antes de viajar para Parintins, Danielly tentou localizar uma plataforma que reunisse de maneira organizada os bens culturais materiais e imateriais do Amazonas.
Esperava encontrar um sistema semelhante aos mantidos por outros estados, mas teve dificuldades. Precisou recorrer ao trabalho de uma pesquisadora que havia desenvolvido uma tese sobre o tema.
O exemplo demonstrou que não basta possuir informações. Elas precisam estar organizadas, descritas e acessíveis.
Um repositório digital pode preservar fotografias, documentos, vídeos e depoimentos, mas deve ser construído com objetivos claros. Também precisa apresentar informações suficientes para que o usuário compreenda o contexto de cada registro.
Disponibilizar centenas de imagens sem indicar autoria, data, local, personagens e relação com outros documentos cria uma coleção visual, mas não necessariamente um arquivo capaz de produzir conhecimento.
A gestão participativa também deve definir os níveis de acesso. Nem todos os documentos precisam ficar abertos na internet. Há informações pessoais, rituais, conhecimentos religiosos e conteúdos reservados a determinadas hierarquias comunitárias.
A tecnologia permite preservar esses registros sem ignorar as restrições estabelecidas por seus detentores.
“Visibilidade não é preservação”
Juliana Salema levou o debate para o campo das redes sociais, do marketing de influência e da responsabilidade jurídica.
Advogada especializada em entretenimento e comunicação, ela começou distinguindo registro e salvaguarda. O registro documenta, inventaria e reconhece uma manifestação. A salvaguarda é um processo contínuo de transmissão, valorização e fortalecimento das comunidades.
A distinção encontra respaldo nos artigos 215 e 216 da Constituição Federal, que reconhecem os direitos culturais e o patrimônio material e imaterial relacionado à identidade, à ação e à memória dos grupos formadores da sociedade brasileira.
Uma fotografia publicada, um vídeo viral ou uma transmissão com milhares de visualizações não garantem que uma manifestação continuará existindo.
“Visibilidade não é preservação”, resumiu Juliana.
A afirmação tornou-se o centro de sua apresentação. Influenciadores podem ampliar o alcance de uma festa, de uma dança ou de uma comunidade, mas também podem simplificar conhecimentos complexos, reproduzir estereótipos e concentrar os benefícios econômicos da exposição.
Quando alguém produz conteúdo sobre uma comunidade, decide quais imagens serão vistas, quais falas serão editadas e o que será lembrado. Se esse material é monetizado, surge ainda a pergunta sobre como o valor retorna para as pessoas que forneceram o conhecimento.
Juliana propôs uma mudança aparentemente pequena, mas decisiva: deixar de produzir apenas conteúdo “sobre” uma comunidade para produzir conteúdo “com” a comunidade.
O Nordeste não é um estado — e os povos indígenas não são um personagem genérico
Para demonstrar como a comunicação pode empobrecer culturas, Juliana falou sobre pedidos recebidos por sua agência.
Empresas procuram um “influenciador nordestino” como se o Nordeste fosse um território culturalmente uniforme. Muitas vezes esperam alguém com chapéu de couro, sotaque marcado e referências ao cangaço.
“O Nordeste não é um estado”, lembrou.
O mesmo problema aparece na representação dos povos indígenas. Criadores e marcas procuram “um indígena” sem considerar as diferenças entre povos, línguas, territórios, conhecimentos e formas de organização.
Essas imagens alcançam milhões de pessoas, mas repetem um repertório limitado. A circulação produz reconhecimento imediato, não compreensão.
A discussão ganhou um exemplo local quando um estudante de Jornalismo relatou uma reportagem sobre o chamado turismo exótico na Amazônia. Ao pesquisar Manaus nas redes sociais, encontrou conteúdos centrados em comunidades indígenas apresentadas como atração, contato com animais silvestres e alimentação de botos.
As imagens mais repetidas pelos algoritmos acabam funcionando como resumo de toda a região. Manaus aparece apenas como porta de entrada para a floresta e a população amazônica permanece fora da narrativa.
Juliana comparou essa prática aos passeios realizados em favelas do Rio de Janeiro, nos quais turistas fotografam moradores sem estabelecer relações reais com a comunidade.
Dar visibilidade, nesses casos, pode significar reforçar uma relação colonial: alguém de fora observa, registra, publica e lucra, enquanto os sujeitos retratados permanecem como cenário.
Influenciadores também são agentes de memória
Apesar das críticas, Juliana não tratou as redes sociais apenas como ameaça. Celulares e plataformas digitais permitiram que pessoas antes afastadas dos meios de comunicação passassem a narrar suas próprias realidades.
Um criador de conteúdo pode funcionar como agente de memória ao decidir o que será visto, compartilhado e lembrado. A questão é como essa mediação será realizada.
A participação de influenciadores no Festival de Parintins ampliou a projeção nacional dos bois-bumbás. Essa exposição pode atrair novos públicos, gerar renda e fortalecer a festa, mas também incentiva conteúdos produzidos para atender tendências rápidas.
O debate questionou se as associações estão investindo mais na repercussão imediata do que em políticas permanentes para seus arquivos, artistas e comunidades de referência.
Influência não precisa ser incompatível com salvaguarda. Para isso, a comunicação deve incorporar pesquisa, escuta, contextualização e participação comunitária.
A inteligência artificial não conhece aquilo que nunca ouviu
Juliana também chamou a atenção para o uso da inteligência artificial na produção de imagens e narrativas culturais.
As ferramentas podem auxiliar na organização, recuperação e preservação de acervos. Entretanto, são alimentadas por conteúdos já disponíveis, muitos deles construídos a partir de representações coloniais ou estereotipadas.
Se o repertório digital descreve a Amazônia apenas como floresta, animais e povos genéricos, a inteligência artificial tende a reorganizar e reproduzir essas mesmas imagens.
A tecnologia pode criar uma aparência nova para uma narrativa antiga.
“Vamos escutar os mais velhos antes da inteligência artificial”, propôs Juliana.
Somente depois dessa escuta devem ser pensados os registros audiovisuais, bancos de dados e demais recursos tecnológicos. Caso contrário, a ferramenta preservará uma representação vazia em lugar do conhecimento comunitário.
O reconhecimento pelo Iphan não encerra a salvaguarda
Durante o debate, o professor Diego Omar da Silveira, diretor do CEDEM Caprichoso e coordenador do Laboratório de Estudos das Festas, Folclores e Tradições da UEA, apresentou um diagnóstico crítico.
Segundo ele, as associações dos bois-bumbás concentram grande parte de suas energias na conquista do festival. Existem pessoas preocupadas com memória e patrimônio dentro das instituições, mas ainda faltam estruturas permanentes capazes de garantir continuidade ao trabalho.
O resultado são iniciativas pontuais, dependentes do esforço de pesquisadores, universidades e colaboradores.
Diego também criticou a dificuldade de acesso aos acervos, muitas vezes mantidos sob controle de indivíduos ou setores que evitam disponibilizá-los para pesquisadores e para a sociedade.
O Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins é reconhecido pelo Iphan como patrimônio cultural brasileiro. Esse reconhecimento, porém, não substitui a necessidade de planos, equipes, orçamento e participação contínua das comunidades.
O próprio Iphan registra a realização de oficinas de salvaguarda relacionadas ao Complexo Cultural. Para os participantes da mesa, o desafio é transformar ações periódicas em uma política articulada entre associações, município, estado, União, universidades, artistas e brincantes.
Diego descreveu quem trabalha pela preservação dentro dos bois como uma espécie de “inimigo interno”: alguém que deseja guardar documentos que poderiam contradizer versões convenientes da história.
A memória institucional, nesse sentido, não é neutra. Preservar também significa manter disponíveis registros que permitem questionar decisões, disputas e apagamentos.
Quando a marca encontra a cultura do povo
Um dos momentos mais intensos da mesa surgiu com uma pergunta sobre direitos autorais e uso comercial das imagens dos bois-bumbás.
Diego relatou preocupações de pequenos produtores, artistas e músicos que utilizam as cores, os símbolos e as toadas dos bois em trabalhos desenvolvidos há décadas. Para ele, uma cobrança indiscriminada poderia afastar dos produtores populares uma cultura que eles próprios ajudaram a construir.
O professor citou o exemplo do Mestre Evanil, artista cuja trajetória está profundamente ligada à iconografia do Caprichoso. Impedir que um criador como ele comercialize um desenho do boi revelaria uma contradição: a associação se apropria juridicamente de uma imagem que também foi construída por gerações de artistas e brincantes.
Juliana respondeu que, do ponto de vista jurídico, usos comerciais de marcas e de obras protegidas podem exigir autorização ou licenciamento. No caso das toadas, a Lei de Direitos Autorais protege os autores e regula a execução pública das composições.
A discussão, contudo, mostrou que marca, obra autoral e expressão cultural coletiva não são a mesma coisa. O símbolo registrado por uma associação, a composição de um autor específico e o imaginário compartilhado pela população exigem análises distintas.
Aplicar uma lógica exclusivamente comercial pode inviabilizar pequenos produtores. Ignorar completamente os direitos pode permitir que grandes empresas explorem a cultura sem remunerar artistas e comunidades.
Entre esses extremos, a mesa apontou a necessidade de licenças diferenciadas, critérios transparentes e políticas que considerem o porte e a relação histórica de cada produtor com a manifestação.
Salvaguarda também é política econômica
Thayron Rangel ampliou a discussão ao lembrar que os grandes festivais movimentam toda uma cadeia econômica.
Costureiras, artesãos, músicos, vendedores de alimentos, ambulantes, pequenos fabricantes de camisetas e trabalhadores informais dependem direta ou indiretamente do evento.
Enquanto as associações recebem patrocínios, parte significativa desses trabalhadores permanece fora das decisões. Para Rangel, as políticas públicas deveriam acompanhar a dimensão econômica da festa, criando formas de credenciamento, formação e apoio aos trabalhadores.
Preservar a cultura popular não significa cuidar apenas do espetáculo ou dos arquivos. Significa também garantir condições para que as pessoas responsáveis por sua continuidade possam sobreviver.
O conhecimento pode estar na paisagem
Na parte final do debate, Thayron e Danielly questionaram os próprios limites das áreas de Arquivologia e Biblioteconomia.
Grande parte das teorias tradicionais define o documento como uma informação registrada em algum suporte. Essa concepção funciona para papéis, fotografias e arquivos digitais, mas não consegue explicar completamente conhecimentos transmitidos pelo corpo, pela oralidade ou pela relação com o território.
Thayron contou que, durante uma visita a um galpão, encontrou um artista ensinando um curumim a construir o Boi Caprichoso. O aprendizado não acontecia por meio de um manual. Era transmitido pela observação, pela palavra e pelo fazer conjunto.
Esse processo também é uma forma de registro e transmissão, embora não esteja fixado em papel.
Danielly recordou uma experiência vivida ao falar sobre Gestão do Conhecimento para estudantes de Antropologia. Ao explicar que, em uma organização, o conhecimento de uma pessoa pode desaparecer quando ela morre sem registrá-lo, recebeu uma resposta inesperada.
Para outras formas de compreender o mundo, disseram os participantes, o conhecimento pode permanecer na paisagem, nos animais, nas plantas e nas relações espirituais.
A observação obrigou a pesquisadora a rever uma concepção excessivamente cartesiana. Nem todo conhecimento está localizado apenas na mente de um indivíduo, esperando ser convertido em documento.
Reconhecer isso modifica também a organização dos repositórios. Uma instituição pode registrar a existência de um ritual sem disponibilizá-lo integralmente. Pode preservar uma entrevista e limitar seu acesso. Pode reconhecer que determinados conteúdos pertencem a grupos ou hierarquias específicas.
Guardar não significa tornar público indiscriminadamente.
Uma agenda para depois da Jornada
Thayron sugeriu que universidades e instituições públicas promovam cursos de formação em Arquivologia, Biblioteconomia, organização de acervos e preservação digital em Parintins.
A ausência de profissionais especializados não pode servir como justificativa permanente para a perda dos documentos. Parcerias, cursos intensivos, formação a distância e projetos de extensão podem capacitar pessoas da própria cidade.
A prioridade deve ser formar agentes locais capazes de trabalhar nos centros de memória sem retirar os acervos de seus territórios.
Ao chegar ao fim, a Mesa 8 ofereceu uma síntese de toda a IV Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação. As discussões sobre gênero, protagonismo feminino, identidades indígenas, cultura negra, folclore, educação antirracista e inteligência artificial convergiram para perguntas que atravessam qualquer política de memória:
Quem registra? Quem descreve? Quem pode acessar? Quem recebe reconhecimento? Quem lucra? E quem decide aquilo que deve permanecer?
O tempo terminou enquanto ainda havia participantes presenciais e espectadores no chat aguardando para falar. O encerramento forçado pelo cronograma produziu uma imagem apropriada para o tema.
A salvaguarda também é uma conversa inacabada.
Ela não se resolve com uma fotografia, um registro oficial, um vídeo viral ou uma plataforma digital. Depende de continuidade, recursos, formação, escuta e participação social.
Visibilidade pode fazer uma cultura aparecer.
Preservação exige criar condições para que ela continue pertencendo às pessoas que a mantêm viva.
A gravação integral da Mesa 8 está disponível no canal Portal da Ciência. A programação completa da IV Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação pode ser consultada no site oficial do evento.




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