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“A gente conhece as manifestações, mas às vezes não sabe que existe uma teoria brasileira”, afirma Amanda Noleto

Em entrevista à Univale TV, pesquisadora da Rede Folkcom apresentou conceitos da Folkcomunicação e discutiu as relações entre cultura popular, mídia, identidade e mercado



O folclore está nas festas populares, nas músicas, nas lendas e nos símbolos nacionais, mas também pode ser encontrado em lugares menos evidentes, como as frases escritas nos para-choques dos caminhões. Ao participar do programa Prosa Acadêmica, da Univale TV, a pesquisadora Amanda Noleto mostrou como a Folkcomunicação oferece instrumentos para compreender essas diferentes formas de expressão.


Apresentado por Deborah Vieira, o programa também contou com Roberto Villela Filho, conhecido como Bob Villela. Jornalista, publicitário e professor da Univale, ele participou da conversa relacionando a Folkcomunicação aos estudos da arte, da publicidade e da cultura brasileira.


Associada da Rede Folkcom, Amanda Laís Pereira Noleto é jornalista, mestra em Comunicação Social pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e professora dos cursos de Comunicação da Universidade Vale do Rio Doce (Univale).


Uma teoria brasileira no cotidiano

Amanda iniciou a entrevista destacando que a Folkcomunicação é uma teoria da Comunicação formulada no Brasil por Luiz Beltrão, a partir da década de 1960. Seu interesse está nos processos pelos quais grupos populares e marginalizados produzem e fazem circular informações, opiniões e maneiras próprias de interpretar o mundo.


“Na prática, a gente conhece os produtos, conhece as manifestações, entende mais ou menos do que ela trata, mas às vezes não sabe que é uma teoria e que é uma teoria brasileira. Esse é o grande X da questão”, explicou.


A Folkcomunicação também permite investigar as relações entre as manifestações populares e os meios de comunicação de massa. Mais do que observar quando uma prática cultural conquista visibilidade, a teoria ajuda a questionar os enquadramentos adotados pela mídia e os silenciamentos que permanecem.


“Por meio da teoria, a gente consegue perceber como esses grupos marginalizados e essas manifestações aparecem na mídia, quando aparecem. E, quando não aparecem, por que não aparecem na grande mídia?”, questionou Amanda.


Para além da aparência

Roberto Villela chamou a atenção para a importância de compreender as raízes e os sentidos sociais das manifestações. Segundo o professor, muitas vezes o público conhece e aprecia seus aspectos visuais, musicais ou festivos, mas não se aproxima das histórias e dos grupos que lhes deram origem.


“A gente compreende o nosso país de forma geográfica, mas muito pouco em termos simbólicos”, avaliou. Para ele, a Folkcomunicação ajuda os brasileiros a se reconhecerem como povo e a perceberem como suas diferentes histórias se encontram.


A observação também funciona como um alerta contra um olhar exclusivamente estético ou “cosmético” sobre as culturas populares. Uma festa, uma dança ou uma música não se resume àquilo que apresenta visualmente: envolve experiências comunitárias, relações de pertencimento, memórias e disputas por reconhecimento.


Um espaço para pesquisadores e estudantes

Amanda também apresentou o trabalho da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação, criada em 1998 para congregar pesquisadores interessados na comunicação das classes populares, no folclore e em suas relações com a mídia.

A pesquisadora destacou que a entidade oferece um espaço para a circulação das pesquisas e para a continuidade do legado de Luiz Beltrão. No site da Rede, estudantes e pesquisadores podem encontrar livros, artigos, registros históricos e materiais gratuitos sobre a teoria.


“Se quiser fazer parte enquanto pesquisador ou estudante, é muito bem-vindo”, convidou.

Para Amanda, o crescimento da Rede também acompanha a transformação das manifestações culturais. À medida que surgem novos canais, linguagens e produtos, a Folkcomunicação amplia seus objetos de pesquisa e atualiza suas perguntas.


Dos para-choques ao Festival de Parintins

Entre os exemplos mencionados por Amanda estão as frases de para-choque de caminhão, objeto que despertou o interesse de diferentes pesquisadores. Com humor, religiosidade, conselhos e comentários sobre o cotidiano, essas inscrições transformam o veículo em um canal de comunicação popular.


A conversa também chegou ao folkmarketing, campo que estuda a utilização de elementos das culturas populares por empresas, instituições e estratégias publicitárias. Um dos exemplos mais conhecidos vem do Festival de Parintins, no Amazonas, onde a rivalidade entre o vermelho do Garantido e o azul do Caprichoso influencia até a apresentação de marcas e embalagens comerciais.


Nesse caso, as empresas precisam adaptar sua comunicação aos códigos simbólicos compartilhados pelos torcedores dos dois bois-bumbás. “A comunicação vem muito disso: é o reforço da identidade”, resumiu Amanda.


Para quem as festas são feitas?

A transformação das manifestações populares em grandes espetáculos comerciais ocupou a parte final da entrevista. O sertanejo foi apresentado como exemplo de uma música ligada às tradições dos violeiros e às narrativas sobre o trabalho, a vida no campo e as dificuldades enfrentadas pelas populações rurais.


Amanda ponderou que os grandes eventos podem manter festas no calendário e abrir espaço para artistas regionais. Ao mesmo tempo, é preciso observar como essas celebrações mudam quando passam a ser organizadas para públicos segmentados entre áreas comuns, camarotes, setores VIP e espaços de consumo exclusivo. “O grande X da questão é entender onde essas festas têm chegado hoje e para quem elas são feitas”, afirmou.


A pesquisadora também observou como parte do sertanejo contemporâneo se afastou das narrativas sobre a vida rural para incorporar temas como consumo, luxo e ostentação. Esse deslocamento evidencia que uma manifestação cultural pode continuar evocando suas raízes enquanto assume novos sentidos dentro do mercado.


Quando o discurso muda de lugar

Como exemplo recente, o programa discutiu Não é Pressa, é Pressão, lançamento de Rincon, Ana Castela e DJ Boss que interpola o Rap da Felicidade, conhecido na voz de Cidinho & Doca. Enquanto a canção popularizada nos anos 1990 expressa a reivindicação por dignidade, liberdade e tranquilidade para os moradores das favelas, a nova música desloca seus versos para um universo marcado por festas, bebidas e veículos de luxo.


Amanda lembrou que o funk foi historicamente marginalizado e enfrentou dificuldades para ocupar a mídia e conquistar patrocínios. A retomada de um de seus maiores símbolos por outro segmento musical permite observar como uma expressão antes rejeitada pode ser incorporada pelo mercado após a transformação de seus sentidos. “A paródia é abraçada, o discurso é invertido”, observou.

 
 
 

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