top of page

Sétima RIF acompanha a cultura popular entre a festa, a televisão e a internet

Publicada no primeiro semestre de 2006, edição mostrou que as tradições permanecem vivas não pelo isolamento, mas pela capacidade de ocupar novos espaços e meios de comunicação


O Unhudo da Pedra Branca deixou as narrativas orais de Dois Córregos para aparecer na televisão. O Tambor de Crioula passou a circular em páginas da internet, CDs e DVDs. Festas religiosas tornaram-se objeto de livros e reportagens, enquanto agentes ligados às comunidades começavam a utilizar as novas tecnologias para divulgar manifestações e reivindicações locais.


Publicada no primeiro semestre de 2006, a sétima edição da Revista Internacional de Folkcomunicação registrou um momento em que os pesquisadores da área procuravam compreender o que acontecia com a cultura popular ao atravessar diferentes meios. Em vez de apresentar tradição e mídia como universos necessariamente opostos, os trabalhos investigavam as negociações, os conflitos e as possibilidades abertas por esses encontros.


O volume reuniu dez artigos e ensaios, duas discografias e três resenhas. Festas, mitos, narrativas orais, música e religiosidade dividiam espaço com televisão, internet, turismo e políticas culturais. Em comum, os textos reconheciam que as manifestações populares não permaneciam imóveis: eram recriadas pelas comunidades e transformadas cada vez que passavam de um ambiente de comunicação para outro.


Cotidiano, oralidade e tradição

A edição começava com “A retomada do cotidiano: reflexões sobre um possível encontro entre a Folkcomunicação e a Teoria das Representações Sociais”, de Alessandra Prudente de Oliveira, Augusto Dutra Galery e Natália C. Ribeiro Alves. O artigo aproximava duas perspectivas interessadas nos conhecimentos produzidos fora dos espaços científicos institucionalizados. Ao reconhecer o cotidiano como lugar de interpretação e construção coletiva da realidade, os autores reafirmavam um dos fundamentos da Folkcomunicação: a necessidade de compreender os modos pelos quais grupos populares elaboram e compartilham seus próprios saberes.


Essa atenção às práticas cotidianas atravessava os estudos sobre oralidade. Em “Para uma poética da poesia oral infantil e juvenil”, Carlos Nogueira analisava rimas recolhidas em escolas e aldeias do concelho de Baião, em Portugal. Crianças e adolescentes não apareciam apenas como receptores de versos transmitidos pelos adultos. Ao modificar composições conhecidas e inventar outras, participavam ativamente da renovação da tradição.


Em “Contos (En)Cantos de Tucuruí: histórias de encantamentos e assombrações”, Renata Gobatti Calça encontrava processo semelhante nas histórias narradas por moradores do município paraense. Cobra Grande, Boto, Anhanga e Dourado — descrito como uma espécie de lobisomem — apareciam em cerca de 40 relatos reunidos pela pesquisadora. Contadas como experiências vividas ou testemunhadas, as narrativas mostravam que o sobrenatural continuava presente na interpretação do território e nas decisões da vida diária.


A festa como espaço de comunicação

As celebrações populares formavam outro eixo importante da edição. Conceição Lopes, em “A festa como manifestação privilegiada da ludicidade humana”, examinava a festa como uma experiência de comunicação na qual ruas, músicas, danças, roupas, comidas, gestos e silêncios adquirem novos sentidos. Mais do que uma interrupção do cotidiano, o acontecimento festivo criava um tempo próprio, capaz de reorganizar temporariamente as relações entre os participantes.


A perspectiva podia ser observada na prática em “Manifestação da religiosidade católica luso-açoriana: a Festa do Divino Espírito Santo em Laguna (SC) como veículo de comunicação popular”. Clarissa do Nascimento Peixoto e Helena Iracy Cerquiz Santos Neto mostravam como a celebração realizada pela comunidade de Magalhães transmitia crenças, valores e referências identitárias dos descendentes de açorianos.


“Palavras e imagens de fé: mesmo numa sociedade contemporânea, as festas religiosas e sacro-profanas cativam brasileiros”, de Camila Lourenço Cardoso, apresentava o livro Festas de Fé, com textos de Percival Tirapeli e mais de 200 fotografias de Rosa Gauditano. Ao percorrer celebrações de diferentes regiões do país, a obra transformava a fotografia em instrumento de memória e divulgação, sem perder de vista o protagonismo das comunidades responsáveis por renovar as festas a cada ano.


Entre a televisão e a internet

Os trabalhos seguintes deslocavam a atenção para os encontros entre essas manifestações e os meios de comunicação. Christiane Rocha Falcão analisava o especial apresentado por Xuxa na Rede Globo em 2005 em “Expropriação ou possibilidade de inserção? Modos de inserção da cultura popular brasileira no conteúdo simbólico da Grande Rede: caso do programa de fim de ano da Rede Globo ‘Folias de Natal’”. O programa substituía parte do imaginário natalino importado por folguedos e referências brasileiras. A autora reconhecia os riscos de banalização, mas propunha que a presença na televisão também poderia ampliar o conhecimento público sobre a cultura popular quando sustentada por pesquisa e tratamento responsável.


A passagem da oralidade para a televisão aparecia de maneira ainda mais direta em “O mito do Unhudo na mídia: uma análise a partir do Jornalismo Comparado”, de Tamara de Souza Brandão Guaraldo. Ao comparar reportagens da TV Globo, TV Bandeirantes e TV TEM, a pesquisadora percebeu que o personagem assustador transmitido pela memória rural de Dois Córregos teve seu aspecto aterrorizante suavizado. A televisão aumentava o alcance do mito, mas também devolvia à comunidade uma narrativa modificada.


No Maranhão, a tensão ocorria entre a promessa e o espetáculo. Em “Cultura popular: Tambor de Crioula em links e sites”, Rogério Costa acompanhava a transformação de uma manifestação ligada à devoção a São Benedito diante do turismo, da profissionalização dos grupos e das políticas culturais. Palcos, páginas eletrônicas, CDs e DVDs ofereciam visibilidade e novas fontes de recursos, ao mesmo tempo que favoreciam a padronização das apresentações e o afastamento de seus contextos comunitários.


O ativista midiático entra em cena

A figura capaz de transitar entre esses diferentes ambientes ganhava nome em “O ativista midiático da rede folkcomunicacional”, de Osvaldo Meira Trigueiro. Para o pesquisador, não bastava perguntar o que os meios de comunicação faziam com as pessoas. Era necessário observar também como os grupos populares selecionavam, reinterpretavam e recolocavam em circulação as mensagens recebidas.


O ativista midiático poderia ser o organizador de uma festa, o comunicador comunitário, o animador cultural ou qualquer sujeito reconhecido pelo grupo por sua capacidade de mediar informações. Ligado às referências locais e atento às tecnologias disponíveis, ele conectava relações presenciais, rádio, televisão e internet. A formulação atualizava a figura do líder de opinião estudada por Luiz Beltrão para um cenário marcado por redes de comunicação mais complexas.


A discussão estava diretamente ligada às transformações vividas pela Folkcomunicação naquele período. Em outubro de 2006, poucos meses depois da publicação da revista, a IX Conferência Brasileira de Folkcomunicação adotaria o tema “Folkcomunicação e cibercultura: a voz e a vez dos excluídos na arena digital”. A sétima RIF já preparava esse debate ao mostrar que a entrada das culturas populares nas novas mídias não dependia apenas das decisões das grandes empresas de comunicação. Também envolvia as estratégias criadas pelos próprios grupos para conquistar visibilidade.


Música, livros e circulação cultural

As seções finais mantinham a atenção sobre os cruzamentos culturais. Na Discografia Folkcom, Christiane Rocha Falcão apresentava a banda sergipana NaurÊa em “O lado rock do forró”, enquanto Karina Janz Woitowicz discutia as aproximações entre música de concerto, repentes, cantigas e matrizes indígenas e africanas em “O som popular e erudito do Quarteto Romançal”.


As resenhas também apontavam diferentes caminhos para a circulação da cultura e do conhecimento. Sérgio Luiz Gadini apresentava o audiovisual Ver e Entender a Folkcomunicação em “Folkcomunicação ganha documentário didático em DVD”. Diego Antonelli discutia a imigração italiana na Colômbia em “Reflexos de uma ocupação cultural”. Karina Janz Woitowicz, por sua vez, destacava a chegada de folhetos populares ao mercado editorial em “Literatura de cordel nas ruas e nas livrarias”.


Com Sérgio Luiz Gadini, Karina Janz Woitowicz, Douglas Moreira e Fábio Burnat na equipe de produção, a revista chegava ao quarto ano mantendo sua periodicidade semestral e ampliando o diálogo entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Mais do que reunir diferentes objetos, a edição ajudava a deslocar o olhar da área: das manifestações tomadas isoladamente para os caminhos percorridos por elas entre comunidades, instituições, mercados e meios de comunicação.


A sétima RIF mostrava, assim, que a tradição não depende da ausência de mudanças. Rimas infantis, assombrações, festas, folguedos, mitos e ritmos continuavam vivos justamente porque eram narrados novamente, adaptados a outros formatos e apropriados por novos sujeitos. Entre o terreiro e a internet, a promessa e o espetáculo, a conversa cotidiana e a televisão, a cultura popular permanecia em movimento — e os agentes das comunidades continuavam a disputar os sentidos dessa circulação.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page