Sexta RIF põe a cultura popular entre a promessa, o poder e a mídia
- Andriolli Costa
- 1 de ago.
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Edição publicada no fim de 2005 reuniu dez artigos sobre migração, ex-votos, música, pichação e apropriação política das manifestações populares, além de inaugurar a seção Discografia Folkcom.
Uma parede coberta por inscrições, um ex-voto depositado em um santuário, uma carta levada do Piauí a São Paulo, um samba-enredo dedicado a um político e um CD gravado por uma comunidade Guarani. Objetos tão diferentes podem funcionar como meios de comunicação quando expressam memórias, reivindicações, crenças e disputas de grupos sociais.
É essa variedade que marca a sexta edição da Revista Internacional de Folkcomunicação, correspondente ao segundo semestre de 2005. Com dez artigos e ensaios, uma produção discográfica comentada e uma resenha, o número ampliou consideravelmente o alcance temático da publicação. A cultura popular aparece como espaço de identidade e resistência, mas também como território disputado pelo Estado, pelo mercado, pela mídia e pelo turismo.
Uma edição marcada pelo crescimento
O editorial “Aumento de iniciativas nos estudos Folkcom” atribui a expansão da edição ao crescimento do número de trabalhos recebidos. Projetos, pesquisas, comunicações apresentadas em eventos e investigações em andamento indicavam que a Folkcomunicação começava a mobilizar um conjunto mais amplo de pesquisadores.
A edição manteve a parceria entre a Rede Folkcom, a Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional e a Agência de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Sérgio Luiz Gadini aparece como editor, Karina Janz Woitowicz como coordenadora da Agência de Jornalismo, Danilo Correia na produção visual e Renato de Morais no suporte do Centro de Processamento de Dados da UEPG.
O editorial também registra uma nova etapa da diversificação da revista. Depois da introdução do ensaio fotográfico na edição anterior, a sexta RIF passou a contar com a seção Discografia Folkcom, destinada a produções musicais situadas no encontro entre expressão midiática e cultura popular.
Migrar sem perder os vínculos
Em “Piauienses na cidade de São Paulo: um retrato do bairro de São Miguel Paulista”, Carlos Jorge Barros Monteiro e Aline Alves de Carvalho Sousa observam como migrantes e seus descendentes mantêm relações com o estado de origem.
O trabalho aborda famílias que deixaram o Piauí em busca de melhores condições de vida e se estabeleceram em bairros paulistanos. Em São Miguel Paulista, encontros comunitários, missas, produtos típicos, cartas, músicas e lembranças ajudam a construir uma rede de pertencimento mesmo entre pessoas que nunca retornaram ao lugar onde nasceram.
Um dos personagens centrais da pesquisa é Etevaldo Ferreira, apresentado como agregador da comunidade piauiense em São Paulo. Sua atuação na organização de encontros e na preservação das relações com a terra natal aproxima-o da figura do agente folkcomunicacional: alguém capaz de reunir pessoas, fazer circular informações e renovar os vínculos culturais do grupo.
A migração não aparece apenas como deslocamento geográfico. Ela produz novas maneiras de comunicar a origem, transmitir costumes aos descendentes e construir uma identidade que reúne experiências piauienses e paulistanas.
A canção popular atravessa fronteiras
O caráter internacional da revista ganha força com “Identidades populares en algunas canciones del Dúo Salteño”, do argentino Carlos Juárez Aldazábal. O estudo analisa a trajetória musical de Néstor “Chacho” Echenique e Patricio Jiménez, integrantes do Dúo Salteño, sob a orientação artística de Gustavo “Cuchi” Leguizamón. As letras, harmonias e formas de cantar são tratadas como representações de sujeitos populares da província argentina de Salta em meados do século XX.
Aldazábal mobiliza a noção de circularidade cultural de Carlo Ginzburg para observar as trocas entre culturas hegemônicas e subalternas. A música do Dúo Salteño transita entre a tradição folclórica, a experimentação estética e os circuitos consagrados de produção musical. Com isso, o artigo mostra que o popular não permanece isolado: dialoga, tensiona e troca elementos com outros campos culturais.
O ex-voto entre Portugal e Juazeiro do Norte
Dois artigos aproximam a sexta RIF das origens da teoria da Folkcomunicação. Antes de formular o conceito que daria nome ao campo, Luiz Beltrão estudou o ex-voto como um veículo jornalístico por meio do qual as populações comunicavam acontecimentos, doenças, acidentes, graças e situações sociais.
Em “Aspectos do ex-voto pictórico português”, Carlos Nogueira examina tábuas, painéis, quadros e retábulos oferecidos em cumprimento de promessas. Essas peças reúnem imagem e escrita para contar histórias de enfermidades, naufrágios, riscos e intervenções consideradas milagrosas.
O ex-voto pictórico é apresentado como uma narrativa concentrada. A imagem registra o perigo, identifica a pessoa beneficiada e representa a entidade responsável pela graça. Para interpretar essas peças, o autor articula estudos da literatura, linguística, estética, religião, etnologia e sociologia.
Marcelo Sabbatini, por sua vez, dirige o olhar para “O museu de ex-votos de Padre Cícero: um olhar museológico sobre o turismo religioso em Juazeiro do Norte”. O artigo analisa o museu simultaneamente como repositório e meio de comunicação.
Cada objeto comunica uma experiência individual de sofrimento e esperança. Quando reunidos em uma exposição, os ex-votos formam uma narrativa coletiva sobre a devoção a Padre Cícero. O museu e as peças passam a constituir um aparato comunicacional duplo, com efeitos sobre a preservação da memória, o turismo religioso e o desenvolvimento local.
A presença desses trabalhos dialoga com a VIII Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada em junho daquele ano, em Teresina. O encontro teve como tema “A comunicação dos pagadores de promessas: do ex-voto à indústria dos milagres” e promoveu uma retomada do objeto que ajudou Luiz Beltrão a construir a teoria.
Quando o poder se apropria da festa
Três artigos colocam a cultura popular diante das relações de dependência política e financeira. Em “Estetização política da cultura popular e marketing no governo Roseana Sarney”, Gisélia Castro Silva Nogueira investiga a utilização das manifestações culturais maranhenses na construção da imagem pública da então governadora.
A autora analisa investimentos, campanhas publicitárias e o Projeto Viva, que criou espaços destinados a apresentações de bumba meu boi, tambor de crioula, cacuriá, quadrilhas e outras manifestações. Seu argumento é que o apoio governamental também produzia dependência e projetava Roseana como protetora da cultura popular.
O mesmo contexto é retomado por Letícia Conceição Martins Cardoso em “A cultura popular no Maranhão: uma indústria política?”. O artigo pergunta se o Estado estaria apenas industrializando a cultura ou constituindo uma indústria política baseada na gestão das manifestações populares.
A autora identifica um processo de refuncionalização: festas, ritos e grupos tradicionais passam a responder a calendários, financiamentos, estratégias turísticas e interesses de visibilidade pública. A cultura não desaparece, mas seus modos de produção e circulação são reorganizados pelas relações econômicas e políticas.
A tensão reaparece no carnaval de Campos dos Goytacazes. Em “Do samba de protesto ao marketing político: o carnaval campista vira a página da história”, Paulo de Almeida Ourives e Orávio de Campos Soares discutem as homenagens prestadas por escolas de samba a políticos contemporâneos.
O estudo contrapõe a história do samba como expressão negra de crítica e resistência à dependência financeira das escolas em relação ao poder público. Quando o financiamento condiciona o enredo e transforma governantes em homenageados, a festa corre o risco de deixar de confrontar o poder para servir à sua promoção.
A pichação como escrita da cidade
Luizan Pinheiro da Costa oferece outro olhar sobre a comunicação dos grupos urbanos em “Pichação: expressionismo abstrato e caos urbano”. Em vez de restringir a pichação às categorias de vandalismo ou desordem, o autor propõe observá-la como fenômeno artístico e intervenção estética. O trabalho aproxima suas linhas, gestos e repetições da Teoria do Caos e do expressionismo abstrato, especialmente da pintura de ação.
A cidade é compreendida como um sistema visual em transformação. As inscrições interferem nas superfícies planejadas, produzem outras leituras do espaço e registram a presença de sujeitos que raramente controlam os meios institucionais de comunicação. Ainda que controversa, a pichação torna visível uma disputa sobre quem pode escrever, significar e deixar marcas na paisagem urbana.
Da literatura de cordel ao ciberespaço
A edição também dedica espaço à discussão teórica e metodológica.
Em “Apontamentos sobre uma metodologia de Folkcomunicação: uma análise da literatura de cordel como produção de notícia na obra de Téo Azevedo”, Sebastião Breguez trata o cordel como uma modalidade de jornalismo popular.
O autor observa que acontecimentos políticos, crimes, mortes, conflitos e fatos extraordinários são registrados pelos poetas e cantadores em linguagem acessível às comunidades. Quando um acontecimento possui grande repercussão, pode motivar inclusive uma edição extraordinária, em dinâmica semelhante à edição extra dos jornais.
A obra do cantador e repentista mineiro Téo Azevedo serve para discutir as particularidades da poesia popular do Norte de Minas. Quadrinhas, sextilhas, martelo mineiro, cantorias, calangos e aboios formam um sistema próprio de produção e transmissão de notícias.
Já Rosa Maria Ferreira Dales Nava, em “Temas e problemas da cultura popular e do folclore na mídia”, propõe mapear como as manifestações populares são incorporadas por livros, jornais, teatro, cinema, televisão e internet.
A autora percorre obras como O Pagador de Promessas, Roque Santeiro e A Marvada Carne para discutir a transformação de crenças, promessas e simpatias em narrativas midiáticas. A questão central deixa de ser apenas como o povo se comunica e passa a incluir como os meios de comunicação selecionam, adaptam e espetacularizam essas expressões.
Sons Guarani inauguram nova seção
A primeira Discografia Folkcom foi dedicada ao CD Nhanderú Jepoverá, expressão traduzida na edição como “Rio Sagrado de Deus”. Em “Os sons da aldeia Guarani como expressão da identidade cultural”, Karina Janz Woitowicz apresenta a produção musical da aldeia Tekoá Jataity, no Morro dos Cavalos, em Palhoça, Santa Catarina.
O disco reúne 16 cantos relacionados aos ritos, aos mitos e à vida comunitária Guarani. Instrumentos, vozes, sons da natureza e a língua indígena transformam o CD em registro da memória e instrumento de reafirmação cultural.
A gravação também estava ligada à luta da comunidade pela demarcação de seu território. Nesse caso, o produto midiático não substitui a tradição oral. Ele permite que os cantos atravessem os limites da aldeia, fortaleçam o diálogo intercultural e comuniquem a existência e as reivindicações do povo Guarani.
Operárias também interpretam a cultura de massa
A edição se encerra com “Fusões midiáticas na cultura popular”, resenha de Diego Antonelli sobre o livro Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias, de Ecléa Bosi.
A pesquisa de Bosi, realizada com trabalhadoras da Grande São Paulo, questiona a imagem de um público inteiramente passivo diante da indústria cultural. Revistas, jornais, fotonovelas, livros e materiais religiosos participavam do cotidiano das operárias, mas eram selecionados e interpretados a partir de suas experiências, limitações econômicas e desejos de conhecimento.
A cultura popular e a cultura massiva não aparecem como mundos separados. Elas coexistem e se modificam no cotidiano, produzindo adesões, tensões e formas particulares de leitura.
Uma revista atenta às disputas culturais
A sexta RIF registra o amadurecimento de uma agenda de pesquisa. A Folkcomunicação já não se limitava a identificar meios populares tradicionais. Passava a investigar deslocamentos migratórios, políticas culturais, marketing, turismo, museus, gravações musicais, inscrições urbanas e representações produzidas pela grande mídia.
Em todos esses casos, a cultura popular aparece atravessada por uma disputa. O ex-voto pode ser testemunho de fé e atração turística. O samba pode ser protesto e propaganda política. O CD pode preservar cantos e fortalecer uma luta territorial. O cordel pode ser poesia e jornalismo. A pichação pode ser condenada como desordem e interpretada como escrita social.
A sexta edição mostra, assim, que estudar Folkcomunicação é observar não apenas o que o povo comunica, mas também quem se apropria dessas mensagens, por quais meios elas circulam e quais relações de poder são acionadas nesse percurso.


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