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Oitava RIF encontra novas formas de expressão popular, dos muros ao ciberespaço

Publicação estreia seção de entrevistas e reúne estudos sobre pichações, religiosidade digital, cinema, propaganda eleitoral, cultura surda e exclusão digital


Um muro pichado em Ponta Grossa, uma vela acesa diante da tela do computador, um filme sobre a travessia de dois jovens pela América Latina, o horário eleitoral, uma releitura de Cinderela em Libras e uma inscrição para o vestibular realizada exclusivamente pela internet. À primeira vista, são objetos distantes. Reunidos na oitava edição da Revista Internacional de Folkcomunicação, eles revelam diferentes maneiras pelas quais grupos sociais produzem sentidos, disputam representações e procuram ocupar espaços de comunicação.


Correspondente ao período de julho a dezembro de 2006, a nova RIF mantém a periodicidade semestral e amplia a variedade de formatos da publicação. Além dos artigos e ensaios, o número inaugura uma seção dedicada a entrevistas, criada a partir de sugestões dos leitores. A primeira convidada é a pesquisadora franco-brasileira Idelette Muzart-Fonseca dos Santos, que discute literatura de cordel, oralidade e cultura popular.


A edição também apresenta uma resenha da obra de Patativa do Assaré e uma análise do disco São João Pra Dançar, de Cláudio Pinheiro. Entre os textos, a cultura popular aparece menos como um conjunto de manifestações imobilizadas pela tradição do que como uma produção em movimento, capaz de ocupar ruas, telas, campanhas políticas, narrativas audiovisuais e ambientes digitais.


As paredes e as telas tornam-se territórios

Em “Formas comunicacionais como reterritorialização do espaço social”, Adrielle da Costa observa pichações encontradas em Ponta Grossa para discutir como grupos urbanos se apropriam simbolicamente da cidade. Em vez de tratar essas inscrições apenas como vandalismo, a autora procura compreendê-las como formas alternativas de comunicação, utilizadas para registrar insatisfações, reivindicar direitos e demarcar a existência de uma comunidade.


O estudo parte do impacto da globalização sobre as identidades locais. Diante de cidades atravessadas por marcas, produtos e referências compartilhadas mundialmente, as pichações funcionariam como tentativas de reconstruir vínculos com o espaço vivido. Muros e paredes deixam de ser somente superfícies e transformam-se em meios pelos quais grupos periféricos contam sua história, expressam resistências e procuram tornar públicas suas demandas.


O deslocamento da comunicação popular para novos territórios também orienta “Altar Virtual... Uma reprojeção espiritual e comunicativa”, de Camila Hamdan, Bruna Penha e Marlei Sigrist. O artigo analisa um altar disponibilizado pelo portal Planeta na Web, no qual os usuários podiam acender velas e incensos virtuais, escolher entidades, deixar mensagens e compartilhar orações, simpatias e pedidos.


Nesse ambiente, práticas religiosas e crenças populares eram reorganizadas pelas possibilidades técnicas da internet. O usuário não apenas recebia um conteúdo pronto: participava da construção do altar, deixava marcas pessoais e interagia com mensagens publicadas por outras pessoas. Para as autoras, essa combinação entre símbolos tradicionais e recursos digitais formava um ritual eletrônico, marcado pela mistura entre o popular e o erudito, o moderno e o tradicional, o hegemônico e o subalterno.


A experiência mostrava que a expansão do ciberespaço não significava necessariamente o desaparecimento das expressões populares. Simpatias, velas, preces e entidades encontravam novos suportes e passavam a circular em redes de alcance ampliado.


Quem aparece — e quem continua à margem

O cinema é abordado por Denis Porto Renó em “O filme Diários de Motocicleta como um mediador folkcomunicacional dos excluídos da América do Sul”. O autor analisa a produção dirigida por Walter Salles como uma narrativa capaz de apresentar os sujeitos e os traços culturais encontrados durante a viagem de Ernesto Guevara e Alberto Granado pelo continente.


A reflexão questiona representações cinematográficas que reduzem a cultura popular ao pitoresco ou a transformam em espetáculo destinado às elites. Em Diários de Motocicleta, Renó identifica uma tentativa de colocar em cena as desigualdades, os modos de vida e as experiências de grupos subalternizados. O filme funcionaria, assim, como mediador entre essas realidades e públicos que dificilmente teriam contato direto com elas.


A disputa pela visibilidade reaparece em “Minorias sociais na pauta da política midiatizada: identidade e diferença como expressões folkcomunicacionais no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral em 2006”, de Karina Janz Woitowicz. O trabalho acompanha os programas eleitorais veiculados em Santa Catarina em agosto daquele ano e identifica referências a raça e etnia, gênero, classe social, geração, religião, deficiência e orientação sexual.


Candidatos, personagens, músicas, vestimentas e códigos culturais eram utilizados para produzir identificação com diferentes segmentos do eleitorado. Elementos ligados à cultura sertaneja, ao tradicionalismo gaúcho e ao hip-hop conviviam com discursos em defesa de mulheres, negros, indígenas, jovens, idosos e pessoas com deficiência.


A presença dessas pautas, entretanto, não significava automaticamente participação política efetiva. O artigo chama a atenção para o uso mais ou menos oportunista das causas dos grupos marginalizados e questiona se a igualdade atribuída ao voto se convertia em condições igualmente distribuídas de representação e poder.


Outra experiência de adaptação cultural aparece em “Uma Cinderela Surda: símbolos e contos de fada”, de Saulo Xavier. O autor compara o conto de Charles Perrault a uma versão brasileira construída a partir das identidades e das experiências das pessoas surdas.


Na nova narrativa, a luva assume o lugar ocupado pelo sapato na história mais conhecida. A mudança aproxima o conto de uma cultura na qual as mãos possuem papel central na comunicação por meio da Língua Brasileira de Sinais. A análise mostra que adaptar uma história não consiste apenas em substituir personagens ou traduzir palavras: exige reorganizar os símbolos para que eles façam sentido dentro de outro repertório cultural.


A tecnologia que cria oportunidades de expressão também pode produzir barreiras. É esse o problema discutido por Rômulo Madureira Faria Filho e Sérgio Luiz Gadini em “Desencantos de uma promessa de inclusão digital”. O artigo analisa a decisão da Universidade Estadual de Ponta Grossa de aceitar, a partir de 2005, somente inscrições pela internet em seu concurso vestibular.


Os autores observam que diversas cidades dos Campos Gerais possuíam poucos espaços públicos de acesso à rede e até mesmo escassez de lan houses. Em um período no qual se estimava que 68% da população brasileira nunca havia utilizado a internet, transformar a inscrição on-line na única possibilidade disponível poderia afastar do ensino superior justamente os candidatos mais vulneráveis. O texto antecipa uma questão que acompanharia a expansão dos serviços digitais: oferecer um procedimento pela internet não significa garantir que todas as pessoas consigam utilizá-lo.


O cordel entre a voz, a escrita e a internet

A oitava edição marca ainda a estreia da seção de entrevistas. Em “Literatura de Cordel, Oralidade e Cultura Popular”, Karina Janz Woitowicz conversa com Idelette Muzart-Fonseca dos Santos sobre a formação histórica do cordel brasileiro e sua capacidade de incorporar acontecimentos, tecnologias e novos circuitos de circulação.


A pesquisadora destaca a relação profunda entre a escrita e a voz. Embora impresso, o cordel preserva o ritmo, a sonoridade e as marcas da cantoria, razão pela qual pode ser entendido como uma “escritura da voz”. Essa característica não impede que os poetas adotem recursos contemporâneos. A internet já permitia divulgar folhetos, receber encomendas e imprimir pequenas tiragens, reduzindo custos e ampliando a circulação.


Idelette também discute a crítica, a ironia e o humor presentes nos versos populares. Em vez de funcionar simplesmente como “jornal do pobre”, o cordel oferece outro olhar sobre acontecimentos já divulgados por jornais, rádios e emissoras de televisão. O poeta recolhe a informação, reorganiza-a e devolve ao público um comentário marcado pela compaixão, pela denúncia ou pelo riso.


A oralidade volta a ocupar o centro da edição em “Cantos de um cabra da peste, de um cabra do Ceará”, resenha em que Douglas Moreira apresenta Ispinho e Fulô, coletânea de poemas de Patativa do Assaré publicada pela Editora Hedra. O texto percorre temas como a seca, a migração, a falta de terra, o preconceito e as desigualdades sociais para mostrar como a poesia de Patativa transforma a fala do sertão em literatura de resistência.


Na seção Discografia Folkcom, Diego Antonelli analisa o CD São João Pra Dançar, de Cláudio Pinheiro, em “Nuances atualizadas de uma cultura fragmentada”. Com sanfonas, triângulos, zabumbas, baiões e forrós, o disco reúne composições relacionadas às festas juninas, ao Maranhão e ao Bumba Meu Boi. A gravação é apresentada como uma forma de fazer circular repertórios regionais que permaneciam pouco conhecidos em outras partes do país.


Dos muros de Ponta Grossa aos altares construídos na internet, a oitava RIF acompanha manifestações populares que procuram novos lugares para existir. Os estudos reunidos na edição mostram que mudar de suporte não elimina necessariamente a tradição. Em muitos casos, é justamente essa mudança que permite atualizar símbolos, ampliar públicos e abrir outros espaços de expressão.

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