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Nona RIF aproxima mundos distintos, da clausura beneditina ao hip-hop

Edição reúne estudos sobre memória fotográfica, religiosidade, ex-votos, carisma político e

rádio, além de entrevista com Alzira Rufino e reflexão sobre as quadrilhas juninas


A chama acesa no pátio de um mosteiro, três cortejos religiosos que convergem para o centro de Picos, objetos deixados em salas de milagres, fotografias do carnaval pernambucano, o rap que conquista espaço no rádio e jovens que levam suas quadrilhas dos bairros populares ao Parque do Povo. São manifestações bastante distintas, mas que se encontram na nona edição da Revista Internacional de Folkcomunicação.


Correspondente ao período de janeiro a junho de 2007, o número foi lançado às vésperas da X Conferência Brasileira de Folkcomunicação. A diversidade é apresentada desde o editorial, que aproxima os festejos juninos realizados diante de grandes públicos dos rituais preservados por monges beneditinos em regime de clausura.


O contraste não chama atenção apenas pela distância entre os objetos, mas pelo que ele mostra. Procissões, fotografias, músicas, ex-votos, campanhas políticas e celebrações religiosas são tratados como formas de produzir e fazer circular sentidos. A edição procura entender quem comunica por meio dessas manifestações, quais grupos encontram espaço para falar e como a cultura popular se relaciona com instituições, meios de comunicação e estruturas de poder.


A fotografia como memória, não apenas ilustração

A edição abre com “Imagens Folkcomunicacionais: estudos da iconografia fotográfica da antropóloga Katarina Real”, de Betania Maciel e Rosi Cristina da Silva. O artigo investiga uma coleção de 647 fotografias preservada pela Fundação Joaquim Nabuco, formada por imagens produzidas pela antropóloga e por outros fotógrafos.


Norte-americana radicada durante anos no Recife, Katarina Real dedicou-se ao estudo do carnaval e das manifestações populares pernambucanas. Seu acervo registra passistas de frevo, maracatus, caboclinhos, pastoris, bois, cavalos-marinhos, ex-votos e personagens que ajudaram a manter essas tradições.


As autoras defendem que a fotografia não deve ser tratada apenas como ilustração de um texto. Cada imagem preserva informações sobre indumentárias, gestos, espaços, relações sociais e modos de organização. O conjunto permite reconstituir práticas culturais, reconhecer lideranças e acompanhar transformações ocorridas ao longo do tempo.

A digitalização do acervo ampliava ainda as possibilidades de consulta. Aquilo que antes permanecia restrito a arquivos físicos podia alcançar pesquisadores e públicos de outros lugares. A fotografia passava, assim, a cumprir uma dupla função: preservar a memória e continuar comunicando.


A fé comunica por cortejos, objetos e silêncio

A religiosidade ocupa parte importante do fascículo. Em “A folkcomunicação religiosa na Procissão de Bom Jesus dos Passos, em Picos–PI”, Denílson Pereira Avelino, Evandro Alberto de Sousa, Gean Carvalho, Ilzanete dos Remédios da Silva Amorim, Josimar de Moura Santana, Orlando Maurício de Carvalho Berti e Sebastião de Araújo Sousa investigam uma das maiores manifestações católicas do interior piauiense.


A procissão era formada por diferentes cortejos. Fiéis saíam de três paróquias carregando a cruz e as imagens de Bom Jesus dos Passos e Nossa Senhora das Dores até o encontro diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios. Um dos percursos ultrapassava sete quilômetros e seguia parcialmente pelas margens da BR-316.


Segundo as estimativas recolhidas pelo estudo, aproximadamente 10 mil pessoas participavam da celebração. Durante o caminho, orações, paradas, bênçãos, cânticos, símbolos e orientações dos líderes religiosos organizavam uma extensa rede de comunicação. A procissão não era apenas um deslocamento de fiéis: construía publicamente uma narrativa sobre sofrimento, fé, encontro e pertencimento comunitário.


Se em Picos a mensagem religiosa percorria as ruas, nos santuários baianos ela também permanecia depositada em objetos. Em “Semiologia dos ex-votos na Bahia: arte, simbolismo e comunicação religiosa”, José Cláudio Alves de Oliveira analisa peças encontradas nas salas de milagres de lugares como o Santuário do Senhor do Bonfim e Bom Jesus da Lapa.


Fotografias, fitas, esculturas de partes do corpo, roupas, chapéus, ferramentas, bilhetes, caixões em miniatura e maquetes de casas ou propriedades rurais registravam pedidos e agradecimentos. Para o autor, esses objetos possuem caráter simbólico e comunicativo: narram doenças, acidentes, curas, conquistas e dificuldades mesmo quando não apresentam uma explicação escrita.


Os ex-votos também ultrapassam a experiência individual. Uma maquete de propriedade rural oferecida como agradecimento pode revelar o desejo pela posse da terra; um pequeno caixão pode registrar a proximidade da morte e a crença na cura. Reunidas, as peças tornam-se documentos sobre a fé, mas também sobre desigualdades, relações econômicas e problemas sociais de determinada época.


O caminho da religiosidade leva ainda ao ensaio fotográfico “Morte e ressurreição: celebração da Páscoa no Mosteiro da Ressurreição”, de Maria Zaclis Veiga Ferreira. As imagens acompanham os rituais realizados no mosteiro beneditino de Ponta Grossa, então habitado por 30 monges em regime de clausura.


O ensaio percorre quatro dias de celebrações, do lava-pés e da vigília iniciada na quinta-feira ao altar vazio da Sexta-Feira Santa, à fogueira do Sábado de Aleluia e à retomada das cores no Domingo de Páscoa. Mesmo preservado no interior da clausura, o rito participa de um repertório religioso compartilhado por grande parte da população.


O carisma também governa

A política aparece em “A política de pop stars: o poder da personalidade no governo de Roseana Sarney”, de Letícia Conceição Martins Cardoso. O artigo parte de uma comparação provocativa entre a política e o universo das celebridades para analisar como a então governadora do Maranhão construía e atualizava sua imagem pública.


Participações em festas, referências à cultura maranhense, aparições ao lado da família e demonstrações de proximidade com determinados grupos contribuíam para apresentar Roseana como representante natural dos interesses da população. A governante não aparecia apenas como ocupante de um cargo, mas como personalidade capaz de estabelecer identificação afetiva com seus públicos.


A autora chama esse processo de “política do estrelato”. O carisma e a exposição da vida pessoal podem deslocar o debate das decisões administrativas para as intenções, os sentimentos e a personalidade do governante. Nesse modelo, a política incorpora elementos do entretenimento e passa a depender cada vez mais da capacidade de produzir imagens reconhecíveis.


O artigo também discute os espaços conhecidos como “Vivas”, criados em bairros de São Luís para receber festas e eventos. Ao mesmo tempo que ofereciam equipamentos culturais, esses locais funcionavam como símbolos materiais do governo e como palcos para a aproximação entre a imagem da governadora e as manifestações populares.


O rap ocupa as ondas do rádio

Outras relações de poder atravessam “O rádio como meio de divulgação do movimento hip-hop”, de Mariana Machado Bonora, Pedro Leonardo Alonso Buriti e Juliano Maurício de Carvalho. O artigo acompanha o percurso do rap pelas rádios livres e comunitárias, sua entrada nas emissoras comerciais e o espaço conquistado em programações universitárias.


O rádio foi decisivo para que o hip-hop atravessasse as fronteiras das periferias e chegasse a outros segmentos sociais. Nas emissoras comunitárias, integrantes do próprio movimento podiam selecionar músicas, comentar letras e relacionar as produções ao cotidiano dos bairros. A música circulava acompanhada das informações necessárias para compreender sua dimensão cultural e política.


A entrada nas rádios comerciais ampliou a audiência, mas produziu outras tensões. O rap podia ser tratado apenas como produto musical, separado dos debates sobre desigualdade, racismo, violência e juventude que participavam de sua formação. Artistas internacionais também recebiam mais espaço do que grupos brasileiros.


As rádios universitárias apareciam como uma alternativa. Programas como Se Liga: o Som do Hip Hop, apresentado por Preto Zezé na Rádio Universitária FM, em Fortaleza, e Poesia Ritmada, conduzido por MC Ralph na Rádio Unitau, combinavam música e informação. O estudo mostra que divulgar o rap não significava apenas tocar uma faixa: era preciso permitir que o movimento explicasse a si mesmo.


Comunicação para contar outra história

A entrevista “Uma trajetória de lutas em defesa das mulheres negras”, realizada por Karina Janz Woitowicz, coloca no centro da edição a ativista, poeta, ialorixá e comunicadora popular Alzira Rufino.


Fundadora do Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista e da Casa de Cultura da Mulher Negra, Alzira fala sobre o combate simultâneo ao racismo, ao sexismo e às desigualdades de classe. A entrevista recupera conquistas alcançadas pela organização das mulheres negras, mas também aponta limites existentes dentro dos próprios movimentos negro e feminista.


A comunicação aparece como parte indispensável dessa luta. Diante de uma imprensa que frequentemente associava mulheres negras à subalternidade, à pobreza ou a estereótipos sexualizados, a produção de veículos próprios permitia registrar outras trajetórias.


A Casa de Cultura começou com pequenos folhetos e boletins e chegou à publicação da revista Eparrei e do boletim Eparrei Online. Esses meios davam visibilidade a intelectuais, ativistas, sacerdotisas e lideranças comunitárias pouco reconhecidas pela mídia comercial.

O trabalho não se limitava a reagir às representações negativas. Tratava-se de construir uma história narrada pelas próprias mulheres negras, capaz de registrar seus conhecimentos, suas organizações, sua religiosidade e sua participação política.


Do cerrado ao Parque do Povo

Na Discografia Folkcom, Diego Antonelli apresenta a banda brasiliense João Ninguém em “Fusões musicais provindas do cerrado brasileiro”. O grupo misturava rock, poesia, experimentalismo e crítica social em um disco independente de nove faixas.

Sem o apoio de uma grande gravadora, a banda procurava escapar das fórmulas mais previsíveis do mercado fonográfico. Canções como “Alfavela” e “Continui Continum” abordavam a violência urbana, a vida burocrática, a alienação e as contradições das cidades por meio de letras fragmentadas, jogos vocais e arranjos pouco convencionais.


A edição se encerra com “O Festival de Quadrilhas Estilizadas no Parque do Povo”, de Osvaldo Meira Trigueiro. O pesquisador acompanha grupos formados principalmente por jovens dos bairros populares de Campina Grande durante os festejos juninos.


As quadrilhas observadas já não procuravam reproduzir uma imagem fixa do matuto. Apresentavam enredos, alegorias, figurinos e coreografias que misturavam referências tradicionais e contemporâneas. Para Trigueiro, essa transformação não representava necessariamente o desaparecimento da festa, mas o surgimento de uma nova forma de expressão.


O texto chama atenção também para a desigualdade no financiamento. Enquanto as quadrilhas gastavam milhares de reais para preparar seus espetáculos, o prêmio recebido pelo grupo vencedor era insuficiente para cobrir os custos. Ainda assim, os participantes mantinham atividades durante o ano inteiro e transformavam a dança em espaço de sociabilidade, criação e inclusão.


Do silêncio dos monges ao som do rap, das imagens guardadas em um arquivo aos corpos que ocupam o Parque do Povo, a nona RIF mostra que a cultura popular não depende de um único meio ou de uma única forma. Ela pode comunicar pela fotografia, pelo objeto religioso, pelo cortejo, pela música, pela dança ou pela criação de veículos próprios. O que aproxima essas experiências é a necessidade de preservar memórias, disputar representações e tornar visíveis grupos que nem sempre controlam os espaços centrais da comunicação.

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