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Sobre comunicação e caranguejos: Flávio Santana fala sobre pesquisa e comunidade

10 de ago.
6 min de leitura

Em entrevista a Claudiene Costa durante a Folkcom 2025, pesquisador relembrou a orientação de José Marques de Melo, apresentou livro sobre marisqueiras e catadores de caranguejo e explicou os caminhos de seu doutorado na UnB



Uma pesquisa pode começar com um objeto cultural conhecido e terminar questionando quem paga o preço por sua transformação em símbolo de uma cidade. Esse foi o caminho percorrido por Flávio Santana ao estudar a presença do caranguejo na identidade de Aracaju. O trabalho, iniciado sob a orientação de José Marques de Melo, levou o pesquisador aos manguezais do povoado Coqueiro, em São Cristóvão, e tornou visíveis as experiências de marisqueiras e catadores de caranguejo que raramente aparecem nas representações turísticas e midiáticas da capital sergipana.


Durante a 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2025, Santana conversou com a pesquisadora Claudiene dos Santos Costa sobre essa trajetória, a transformação da dissertação em livro e as novas questões que passou a investigar no doutorado em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB). A entrevista foi gravada nos estúdios do Audiolab da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).


Além da atuação como jornalista e pesquisador, Flávio integra a diretoria da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação como diretor financeiro. Claudiene, responsável pela entrevista, ocupava a Diretoria-Secretaria da instituição. O encontro permitiu revisitar uma história iniciada ainda na graduação e construída por meio das relações acadêmicas e afetivas proporcionadas pela Rede Folkcom.


Um tema encontrado antes de receber um nome

O contato de Flávio Santana com a folkcomunicação começou durante a elaboração de seu trabalho de conclusão de curso. Embora não tivesse cursado uma disciplina específica sobre a teoria, ele procurou sua orientadora com o desejo de pesquisar cultura popular. Foi ela quem identificou que a proposta se situava no campo criado por Luiz Beltrão.


A descoberta levou o estudante a buscar referências por conta própria. Nesse percurso, chegou aos textos de José Marques de Melo, a quem atribui papel decisivo na difusão e no desenvolvimento da folkcomunicação. Vinculado à Universidade Metodista de São Paulo e à Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, Marques de Melo ajudou a ampliar a circulação da teoria e a formar novas gerações de pesquisadores.


As leituras contribuíram para o trabalho de graduação e também para uma decisão profissional. Flávio já possuía experiência como repórter de televisão, mas encontrou na pesquisa em comunicação um espaço em que se sentia mais realizado. A aproximação com a Rede Folkcom ampliou os contatos acadêmicos e, mais tarde, tornou possível o encontro com o próprio Marques de Melo.


Flávio ingressou no mestrado da Universidade Metodista e tornou-se o último orientando do professor. Na entrevista, afirmou que preferiria não carregar essa condição: gostaria de ter sido apenas mais um entre os muitos estudantes acompanhados pelo mestre, inclusive no doutorado. A morte de Marques de Melo, ocorrida durante o desenvolvimento da dissertação, interrompeu essa convivência, mas não a influência de suas perguntas sobre a pesquisa.


Claudiene recordou a emoção da defesa realizada em 2020. Naquele momento, a conclusão do trabalho representava também o encerramento de uma orientação que permanecia viva no texto e no percurso do pesquisador. Anos depois, a dissertação daria origem a um livro lançado na Folkcom 2025.


Quem escolheu o caranguejo como símbolo de Aracaju?

A proposta inicial do mestrado pretendia analisar as imagens midiáticas do caranguejo. O animal ocupa lugar importante na cultura e na gastronomia de Aracaju e é utilizado como um dos símbolos da cidade. Durante o processo seletivo, porém, José Marques de Melo fez duas perguntas que alteraram o rumo da investigação: “Como esta pesquisa vai contribuir para o desenvolvimento da sua região?” e “Quem escolheu o caranguejo como elemento de representação de Aracaju?”.


Flávio não tinha respostas imediatas. Ao persegui-las, encontrou um paradoxo. A cidade que comercializa e celebra a imagem do caranguejo foi construída sobre áreas de mangue e expandiu-se por meio da transformação desse ambiente. O concreto avançou sobre a lama, ao mesmo tempo que o caranguejo se consolidou como produto cultural, gastronômico e turístico.


Para compreender essa contradição, o pesquisador deixou o circuito das representações oficiais e aproximou-se do povoado Coqueiro, localizado no município de São Cristóvão, na Região Metropolitana de Aracaju. Ali, acompanhou marisqueiras e catadores de caranguejo e observou como o animal está ligado ao trabalho, à sobrevivência, ao pertencimento e aos conhecimentos transmitidos pela comunidade.


A dissertação estabeleceu um contraste entre o caranguejo divulgado pela mídia e aquele vivido no território. Ao lado da imagem festiva e comercial, aparecem a degradação dos manguezais, as dificuldades enfrentadas na coleta, os deslocamentos para vender a produção e diferentes formas de opressão que atravessam a vida dos trabalhadores dentro e fora da comunidade.


Esse movimento aproximou a pesquisa da folkcomunicação não apenas pelo objeto cultural, mas pelo reconhecimento dos sujeitos populares como produtores de conhecimento e de interpretações sobre o próprio território. Em vez de observar o caranguejo somente como símbolo, Flávio procurou compreender as redes de comunicação, os vínculos e as resistências existentes entre as pessoas que dependem do mangue.


Um livro guiado pela comunidade

Cinco anos após a defesa, Flávio lançou Sobre vivências com caranguejos: entre as raízes dos manguezais e as pontes para Aracaju. O intervalo provocou uma dúvida: os dados de uma pesquisa realizada entre 2018 e 2020, antes da pandemia de Covid-19, ainda justificariam uma publicação?


A decisão de publicar veio do compromisso com a comunidade. Para o autor, a força das marisqueiras e dos catadores precisava alcançar outros leitores. Isso exigiu mais do que converter a dissertação para um formato comercial. Flávio desmontou a estrutura acadêmica, reescreveu o trabalho em primeira pessoa e incorporou experiências que não haviam entrado no texto defendido no mestrado.


O livro acompanha o próprio processo de pesquisa: o projeto inicial, as primeiras orientações, a chegada ao campo, as mudanças de perspectiva e os aprendizados construídos na convivência com a comunidade. A linguagem mais acessível procura devolver centralidade às pessoas do Coqueiro e mostrar que seus corpos e suas memórias funcionam como arquivos vivos do manguezal.


O título explora deliberadamente a separação entre “sobre” e “vivências”. A escolha articula sobrevivência e experiência vivida, dois elementos inseparáveis da relação que marisqueiras e catadores mantêm com o território. A publicação também evidencia a passagem entre as raízes dos mangues e as pontes que ligam a comunidade a Aracaju — trajetos físicos e simbólicos pelos quais circulam trabalho, alimentos, narrativas e desigualdades.


O lançamento na Folkcom 2025 marcou um retorno. Flávio participou pela primeira vez da Conferência Brasileira de Folkcomunicação em 2017, no Recife, pouco depois da graduação, e recebeu uma premiação por seu artigo. Oito anos mais tarde, voltou ao evento para apresentar o livro resultante de uma pesquisa que começou a ganhar forma naquele mesmo campo de interlocuções.


Da pesquisa de campo à educação midiática

Em 2025, Flávio iniciou o doutorado em Comunicação na UnB. O objeto ainda se encontrava em processo de delimitação quando a entrevista foi realizada, mas o novo projeto conservava uma inquietação surgida no mestrado: como a pesquisa e as políticas de comunicação podem responder às desigualdades vividas por comunidades em situação de vulnerabilidade e marginalização social?


A experiência no Coqueiro também modificou sua compreensão sobre intervenção. Flávio afirmou ter aprendido que comunidades populares não precisam ser tratadas como grupos aos quais a universidade deve simplesmente ensinar algo. Elas possuem conhecimentos, ancestralidades e modos próprios de organizar a vida. O desafio, portanto, não seria substituí-los nem incluí-los em um modelo previamente definido, mas construir formas de integração capazes de respeitar diferentes experiências sociais.


O projeto de doutorado passou a aproximar políticas de comunicação e educação midiática. O pesquisador pretende analisar a Estratégia Brasileira de Educação Midiática e investigar como meios de comunicação, especialmente os públicos, podem colaborar para que suas ações alcancem territórios socialmente vulnerabilizados.


A preocupação nasce de um ambiente marcado por intensa circulação de informações, desinformação e discursos de ódio. Nesse cenário, a educação midiática não deve limitar-se ao domínio técnico de plataformas. Precisa considerar as condições concretas de acesso, os repertórios comunitários e as formas pelas quais diferentes grupos interpretam e produzem mensagens.


Flávio ressaltou que o recorte territorial ainda seria definido ao longo do doutorado. Mais do que apresentar respostas prontas, a entrevista registrou o momento de construção de uma pesquisa e as perguntas que deverão guiá-la. Entre elas, permanece a provocação de Marques de Melo sobre a contribuição social do trabalho acadêmico.


A Rede como lugar de encontros

Ao final da conversa, Flávio e Claudiene recordaram que suas trajetórias também se cruzaram nos eventos da Rede Folkcom. Colegas encontrados em uma conferência podem tornar-se parceiros de pesquisa, orientadores ou amigos que permanecem próximos apesar da distância geográfica.


Para o entrevistado, essa capacidade de articulação é uma das maiores contribuições da Rede. Foi por meio dela que aprofundou seu contato com a folkcomunicação, conheceu José Marques de Melo e construiu relações que continuam a produzir pesquisas e projetos.


A trajetória narrada no Audiolab da UERJ liga diferentes momentos: o estudante que queria pesquisar cultura popular sem ainda conhecer o nome da teoria; o mestrando confrontado por perguntas sobre desenvolvimento regional; o autor que reescreveu a dissertação para colocar uma comunidade no centro do livro; e o doutorando que procura transformar esses aprendizados em reflexão sobre políticas públicas.


Em todos eles, a folkcomunicação aparece menos como uma classificação de objetos e mais como uma maneira de olhar. Um olhar atento às vozes que os discursos oficiais silenciam, aos conhecimentos existentes nos territórios e à responsabilidade do pesquisador diante das pessoas com quem constrói seu trabalho.

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