“Se eu não sei o que é, eu não sei o que perguntar”: Thífani Postali discute ética e Folkcomunicação
Em entrevista ao Encontro Literário, pesquisadora da Rede Folkcom aborda os estereótipos sobre o hip hop, os desafios de representar outros grupos sociais e as relações entre comunicação popular, universidade e jogos digitais.
“Sua música é música de bandido?” A pergunta dirigida ao rapper Macarrão no documentário Fala Tu foi um dos exemplos retomados por Thífani Postali para discutir como uma entrevista pode reproduzir os preconceitos de quem pergunta. Para a pesquisadora, a abordagem cria uma barreira: o realizador chega interessado no hip hop, mas conduz a conversa a partir de uma associação com a criminalidade. “Se eu não sei o que é, eu não sei o que perguntar”, observou.
Professora da Universidade de Sorocaba (Uniso) e diretora científica da Rede Folkcom, Thífani participou do sexto episódio do Encontro Literário, produzido pelo LabCom Uniso. A conversa partiu de seu livro sobre documentário e ética dialógica e percorreu questões que atravessam sua trajetória: a escuta das pessoas representadas pela mídia, o hip hop como forma de comunicação das periferias e a presença da Folkcomunicação nas pesquisas e na formação universitária.
O documentário começa na relação
O interesse pela ética na produção audiovisual surgiu durante o doutorado. Depois de estudar o hip hop no mestrado, Thífani procurou aproximar o tema de sua pesquisa em cinema. Ao analisar documentários sobre o movimento, passou a observar as relações estabelecidas entre realizadores e participantes e os efeitos desses encontros sobre os filmes.
Em algumas produções, identificou um olhar que privilegiava o exótico e a violência, reproduzindo ideias prévias sobre a periferia. No caso do hip hop, destacou a contradição de associar à criminalidade um movimento que, segundo ela, tem entre suas finalidades combatê-la. Conhecer minimamente o contexto e as propostas dos grupos seria, portanto, um primeiro cuidado de quem pretende abordá-los.
A ética dialógica, discutida a partir do filósofo Martin Buber, oferece um caminho para essa aproximação. Thífani explicou que o diálogo depende de respeito, sinceridade e confiança, além da disposição de reconhecer conhecimentos que não passaram pela formação universitária. “Eu posso ser doutora e eu posso estar conversando com alguém que nunca estudou num lugar formal, mas eu aprendo com ela muito”, afirmou.
A pesquisadora também chamou atenção para a autoridade atribuída ao documentário pelo público. Embora possa ser recebido como uma verdade sobre determinado grupo, o filme resulta de escolhas e de um ponto de vista. “É uma representação, é um recorte feito através do olhar de uma pessoa”, lembrou.
O rap antes da universidade
A relação de Thífani com o hip hop começou muito antes de se tornar tema de pesquisa. Nos anos 1980 e 1990, ela viveu no Parque São Bento, em Sorocaba, numa região que descreveu como a “periferia da periferia”. O rap estava na escola pública, nos encontros e nos bailes de sua adolescência.
Durante anos, ao ser questionada sobre a escolha do objeto, respondia que sempre havia gostado de música. Com o amadurecimento de sua trajetória acadêmica, passou a reconhecer o peso daquela experiência na decisão de estudar o movimento. “O rap faz parte de um momento muito importante da minha vida, que é a minha adolescência e juventude”, contou.
Essa memória também orienta sua compreensão da pesquisa. “A gente sempre escolhe o que pesquisar porque a gente enxerga coisas nesse tema que outras pessoas não enxergariam se não estivessem no nosso lugar”, afirmou. Ao falar sobre as letras e os encontros do hip hop, destacou a produção de conhecimento sobre desigualdade, violência do Estado e condições de vida a partir das próprias pessoas que enfrentam essas situações.
Uma teoria que também enfrenta preconceito
A atenção às formas de comunicação dos grupos marginalizados levou a conversa à Folkcomunicação. Thífani recuperou a contribuição de Luiz Beltrão, que, num momento de concentração das pesquisas nos meios de comunicação de massa, se voltou para as maneiras pelas quais a população produzia e fazia circular suas próprias mensagens.
A questão envolvia tanto o acesso aos meios quanto a possibilidade de se reconhecer neles. “Então elas criam suas próprias formas de comunicação e elas são tão importantes quanto essas outras formas que estão em alta, que as pessoas estão estudando”, explicou.
Para Thífani, o reconhecimento acadêmico dessas práticas ainda enfrenta resistências. “É uma teoria que, dependendo do espaço, não é tão aceita”, observou. Na sua avaliação, o preconceito contra determinadas manifestações culturais também alcança o campo que se dedica a compreendê-las. A pesquisadora destacou, porém, a existência de uma rede nacional e internacional de estudos que mostra a importância dessas formas de comunicação para o conhecimento da sociedade.
Mulheres do hip hop e fandango nas redes
As plataformas digitais aparecem nessa discussão como espaços utilizados pelos próprios grupos para se encontrar, produzir e divulgar seus trabalhos. Thífani ressaltou que as condições de acesso são desiguais e que diferentes formas de comunicação continuam coexistindo.
No hip hop, um dos exemplos é a articulação entre mulheres. A pesquisadora observou que a presença masculina tinha maior visibilidade e apontou as possibilidades abertas pelas redes: “Com a internet, as mulheres estão se encontrando, se reunindo, produzindo, mostrando trabalho”.
A conversa também chegou ao fandango caiçara, tema de uma pesquisa de doutorado sob sua orientação. Mesmo em contextos distintos dos grandes centros urbanos, seus participantes recorrem ao YouTube e a outras plataformas para fazer circular a produção cultural. São experiências que, para Thífani, ajudam a perceber as contribuições da internet para a comunicação popular sem presumir que todos os grupos disponham dos mesmos recursos.
Da sala de aula ao GTA
Na Uniso, Thífani relatou ter incorporado a Folkcomunicação a disciplinas, trabalhos e atividades de seu grupo de estudos. A aproximação, iniciada no mestrado, também alcançou a graduação: ao elaborar a ementa de uma disciplina sobre cenários regionais e midiáticos, incluiu a teoria na formação de estudantes de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas.
Sua atuação no curso de Jogos Digitais abriu outra frente de pesquisa. A professora explicou que aproxima os estudos de games das discussões sobre cultura popular, decolonialidade e manifestações de resistência. Como exemplo, mencionou um trabalho apresentado na Intercom com uma orientanda de mestrado sobre a representação do hip hop em GTA.
“É possível aliar folkcomunicação com jogos digitais, com hip hop”, afirmou. Para ela, essas conexões permitem reunir interesses que também convivem em sua trajetória como professora e pesquisadora. “As coisas não são isoladas. A gente que foi ensinado a olhar tudo de forma muito separada.”




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