Quarta RIF chega à UEPG e aproxima rezadeiras, camelôs e novas tecnologias
- Andriolli Costa
- 1 de ago.
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Lançada em novembro de 2004, edição inaugurou a parceria com a Agência de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa e reuniu estudos sobre saúde comunitária, religiosidade, televisão, anedotas, política e comunicação popular
Quando uma política pública de saúde decide trabalhar com rezadeiras, não está apenas convocando novas colaboradoras. Está reconhecendo que determinadas pessoas ocupam posições de confiança nas comunidades, dominam linguagens próprias e participam de redes pelas quais circulam orientações, crenças e formas de cuidado.
Esse encontro entre o saber institucional e o conhecimento popular constitui um dos principais núcleos da quarta edição da Revista Internacional de Folkcomunicação. Publicado no segundo semestre de 2004, o número reúne pesquisas sobre rezadeiras da Paraíba e do Ceará, vendedores ambulantes de medicamentos no Recife, crenças europeias sobre bruxaria, circulação de anedotas, apropriação comunitária da televisão e manifestações políticas presentes na literatura folclórica.
A edição também representa uma mudança decisiva na trajetória da revista. Lançada em novembro de 2004, foi a primeira publicada em parceria com a Agência de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa, sob responsabilidade editorial de Sérgio Luiz Gadini. Iniciava-se uma relação institucional que se tornaria central para a continuidade e a consolidação da RIF.
Uma nova casa editorial
Nas três primeiras edições, a revista havia sido conduzida principalmente pelos editores Antonio Teixeira de Barros e Severino Alves de Lucena Filho, com o apoio da Rede Folkcom e de instituições parceiras. Na quarta RIF, a publicação passa a contar diretamente com uma estrutura de produção instalada na UEPG.
A ficha técnica da edição informa que a revista era editada pela Rede Folkcom, pela Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional e pela Agência de Jornalismo da UEPG. Sérgio Luiz Gadini assumiu como editor, enquanto Antonio Teixeira de Barros passou a integrar o grupo de editores associados.
A equipe de produção reunia Karina Janz Woitowicz, então coordenadora da Agência de Jornalismo; Sérgio Gadini, responsável pela edição; Danilo Correia, na produção visual; e Renato de Morais, do Centro de Processamento de Dados da universidade.
A mudança significava mais do que a transferência das tarefas editoriais. A revista passava a contar com uma base universitária permanente para edição, produção visual e suporte tecnológico. A entrada da UEPG também aproximava a publicação das atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas pelo curso de Jornalismo.
Com periodicidade semestral, a RIF manteve o caráter coletivo e internacional de seu conselho editorial, mas ganhou uma nova sustentação institucional para enfrentar os desafios da publicação científica digital.
Quem cura também comunica
A presença de três artigos sobre medicina popular e saúde comunitária confere identidade própria à edição. Em comum, os trabalhos procuram compreender pessoas que estavam fora dos sistemas formais de saúde, mas possuíam legitimidade e capacidade de comunicação dentro de suas comunidades.
Em “A participação das rezadeiras nos projetos de saúde comunitária no estado da Paraíba”, Luiz Custódio da Silva analisa a inclusão das benzedeiras em atividades desenvolvidas pela Secretaria de Saúde do estado.
Durante muito tempo, lembra o pesquisador, as rezadeiras foram tratadas com preconceito pelos segmentos mais escolarizados da sociedade. Entre as populações pobres, entretanto, continuavam reconhecidas como referências para a realização de bênçãos, orações e aconselhamentos.
Ao integrá-las às campanhas institucionais, os projetos de saúde procuravam aproveitar uma relação de confiança já estabelecida. As rezadeiras assumiam a condição de mediadoras entre técnicos, agentes comunitários e moradores, ajudando a divulgar orientações relacionadas à medicina convencional.
Cantigas, teatro de bonecos, atividades de rua e manifestações religiosas eram mobilizados para estabelecer contato com os públicos. O saber local não aparecia apenas como prática terapêutica alternativa, mas como parte de uma rede comunitária de comunicação.
O processo é observado em outro contexto por Daniel Galindo em “A inclusão das rezadoras de Maranguape na promoção da saúde pública”.
O artigo analisa o projeto “Soro, Raízes e Rezas”, desenvolvido pela Prefeitura de Maranguape, no Ceará. A iniciativa aproximava médicos, pacientes, rezadeiras, vendedores de raízes e gestores municipais, procurando estabelecer uma negociação entre a medicina institucional e as práticas religiosas e terapêuticas locais.
Para Galindo, o sucesso do projeto estava relacionado ao respeito pelo universo cultural dos receptores. Em vez de simplesmente substituir as crenças da comunidade pelo discurso técnico, a política pública reconhecia os fluxos de comunicação já existentes e incorporava seus agentes.
A experiência permite compreender as rezadeiras como líderes de opinião. Sua autoridade não decorre de diplomas ou cargos administrativos, mas do reconhecimento conquistado no cotidiano. São procuradas, ouvidas e respeitadas porque compartilham os códigos, as crenças e as experiências dos grupos aos quais pertencem.
Os dois artigos evitam apresentar medicina popular e ciência como universos obrigatoriamente incompatíveis. O que se observa são processos de negociação nos quais diferentes agentes procuram construir formas possíveis de cooperação.
A retórica dos camelôs de remédio
A comunicação popular ligada à saúde também aparece em “A comunicação dos camelôs de remédio”, de Cerize Maria Ramos Ferrari. O estudo volta-se para os vendedores ambulantes que comercializavam medicamentos artesanais no centro do Recife durante a década de 1970. Embora a prática não fosse regulamentada, os camelôs combinavam referências à medicina popular com indícios de conhecimentos científicos e estratégias de persuasão.
A pesquisa recupera registros realizados por Liêdo Maranhão, estudioso que conviveu com vendedores ambulantes e documentou seus discursos. Os camelôs anunciavam produtos, dramatizavam doenças, prometiam resultados e mobilizavam o humor para conquistar a atenção do público.
Mais do que simplesmente oferecer mercadorias, eles criavam performances. O corpo, a voz, o alto-falante, as histórias e os testemunhos sobre curas faziam parte de uma retórica voltada à construção da confiança.
O artigo procura aproximar folclore, publicidade e marketing para compreender essa comunicação. Publicado quando Cerize Ferrari ainda cursava o quarto ano de Publicidade e Propaganda na AESO/CESBAM, o trabalho também demonstra a abertura da RIF para pesquisas de iniciação científica.
Como a Igreja transformou mulheres em bruxas
Betania Maciel investiga outro ponto de contato entre crenças populares, práticas de cura e comunicação em “O folclore mágico europeu e a Igreja”. O artigo contesta a ideia de que as perseguições teriam combatido uma organização satânica efetivamente estruturada. Segundo a pesquisadora, os registros históricos oferecem poucas evidências da existência de assembleias regulares de bruxas, lideranças demoníacas e rituais coletivos nos moldes descritos pelos inquisidores.
Essas imagens teriam sido sistematizadas pela própria Igreja a partir de crenças e práticas mágicas presentes na vida cotidiana das aldeias. Costumes diversos foram reunidos sob a ideia de um “culto satânico”, criando uma interpretação institucional para comportamentos que não constituíam necessariamente um movimento organizado.
A dimensão de gênero ocupa lugar importante no trabalho. Muitas mulheres perseguidas dominavam conhecimentos sobre ervas, cuidados com o corpo, partos e tratamentos de doenças. Essas práticas médicas ajudaram a transformá-las em personagens suspeitas e, posteriormente, em vilãs estereotipadas.
A pesquisa procura compreender como discursos institucionais e midiáticos contribuíram para construir uma imagem duradoura da bruxa. A crença popular não aparece como algo fixo: ela é interpretada, organizada e devolvida à sociedade por instituições que possuem maior poder de comunicação.
Da conversa ao telefone celular
Se a bruxa representa uma imagem transmitida e transformada durante séculos, a anedota oferece um exemplo de narrativa capaz de se modificar quase instantaneamente.
Em “A anedota popular portuguesa: forma breve multimediática”, Carlos Nogueira examina um gênero que circula entre a oralidade, a escrita e os meios eletrônicos.
A anedota permite que uma comunidade comente rapidamente acontecimentos políticos, religiosos, esportivos e culturais. Sua brevidade favorece a memorização, a adaptação e o compartilhamento. Uma mesma narrativa pode receber novos personagens, incorporar fatos recentes ou ser ajustada aos códigos de diferentes grupos.
Em 2004, Nogueira já observava anedotas circulando por correio eletrônico, mensagens de telefone celular e salas de conversa na internet. Longe de eliminar a tradição oral, essas tecnologias ampliavam sua velocidade e seu alcance.
O texto eletrônico tampouco tornava a anedota imutável. Cortes, acréscimos, atualizações e mudanças de contexto continuavam produzindo variantes, como ocorria na transmissão oral. O computador e o telefone móvel funcionavam como novos espaços para uma prática antiga de recriação coletiva.
O autor também analisa a incorporação das anedotas pela televisão. Ao serem transformadas em esquetes e apresentadas por profissionais, as narrativas populares ingressavam na indústria do entretenimento. Ainda assim, mantinham parte de sua capacidade de inverter hierarquias, questionar convenções e comentar rapidamente os acontecimentos.
Quando a audiência reinventa a televisão
A relação entre cultura local e meios de massa reaparece em “Quando a televisão vira outra coisa: estratégias de apropriação dos mediadores ativistas nas redes de comunicação cotidianas do local”, de Osvaldo Meira Trigueiro.
O pesquisador acompanha uma comunidade do interior paraibano em transição do rural para o urbano e conectada aos produtos televisivos pelas antenas parabólicas. Seu interesse não está somente nos efeitos da televisão, mas nas estratégias utilizadas pelas pessoas para interpretar e reaproveitar seus conteúdos.
A audiência comenta, seleciona, altera e faz circular as mensagens de acordo com os interesses locais. Nesse processo, determinados sujeitos atuam como “mediadores ativistas”, reinterpretando aquilo que chega da mídia e inserindo os produtos televisivos nas redes cotidianas da comunidade.
O artigo desloca a população da posição de simples receptora. Mesmo diante de uma mídia produzida por grandes empresas e destinada a públicos massivos, os sujeitos locais conservam capacidade de apropriação e resposta.
O estudo já estava presente no acervo da terceira edição, associado aos trabalhos da 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, e volta a integrar o quarto número em nova apresentação editorial. A repetição evidencia a proximidade entre a RIF e a produção daquele encontro, mas também constitui uma particularidade da história do acervo.
A política existia antes de receber o nome de Folkcomunicação
Roberto Benjamin encerra a seção de artigos com “Folkcomunicação política na literatura folclórica brasileira”. O pesquisador demonstra que a comunicação política já estava presente na literatura popular e nos registros dos folcloristas antes de Luiz Beltrão formular a teoria da Folkcomunicação.
Benjamin recupera autores e obras que documentaram críticas, sátiras e tomadas de posição presentes em contos, cantos, folhetos e outras formas populares. Entre suas referências estão Padre Lopes Gama, conhecido como O Carapuceiro; Sílvio Romero; Pereira da Costa; Renato Carneiro Campos; e poetas como Cuíca de Santo Amaro, Rodolfo Coelho Cavalcante e Patativa do Assaré.
Livros de sorte, folhetos de cordel, cantorias e poemas populares registravam acontecimentos, avaliavam autoridades e participavam das disputas de opinião. Em determinados momentos, esses veículos chegavam a dedicar edições inteiras a fatos políticos capazes de mobilizar a população.
O artigo reforça que a Folkcomunicação não inventou essas práticas. Sua contribuição foi oferecer uma perspectiva teórica para reconhecê-las como processos comunicacionais e colocá-las em diálogo com os estudos da mídia, da opinião pública e da cultura.
Resenhas ajudam a organizar a biblioteca do campo
A quarta RIF traz quatro resenhas, todas dedicadas a publicações recentes sobre Folkcomunicação. O conjunto registra o esforço de formação de uma bibliografia especializada em um período no qual muitos textos fundamentais ainda eram difíceis de localizar.
Em “Manifestações folclóricas contemporâneas: registros de um passeio”, Rafael Schoenherr analisa o livro Folkcomunicação na sociedade contemporânea, de Roberto Benjamin, lançado em 2004. A obra percorre literatura de cordel, festas, lendas, mitos, xilogravuras, ex-votos e processos de preservação do patrimônio imaterial. Schoenherr observa que o livro privilegia registros e descrições, mais do que uma análise sistemática, mas reconhece sua importância para revelar objetos ainda pouco explorados.
Uma das imagens destacadas na resenha é a de uma cidade amazônica na qual palafitas e antenas parabólicas, procissões e provedores de internet, alto-falantes e músicas produzidas pela indústria cultural dividem o mesmo espaço. A cena sintetiza o desafio de compreender a convivência entre permanências, transformações e novas tecnologias.
Betania Maciel apresenta “Comunicação, globalização e cultura popular”, resenha da coletânea Folkcomunicação: resistência cultural na sociedade globalizada, organizada por Sebastião Breguez.
O livro recupera discussões do I Seminário Brasileiro de Folkcomunicação, realizado em Belo Horizonte em 2001. Seus capítulos abordam resistência cultural, sobrevivência das culturas regionais e coexistência entre tradição e modernidade, além de reunir estudos sobre religiosidade, festas, rap, catira, mídia sertaneja, ex-votos e grafitos de sanitários.
Em “Os caminhos híbridos da Folkcomunicação”, Cristina Kapp comenta Folkcomunicação: teoria e metodologia, de Luiz Beltrão, publicado pela Universidade Metodista de São Paulo em 2004.
A resenha apresenta conceitos centrais da teoria, como o papel dos líderes de opinião, a comunicação horizontal e a utilização de linguagens familiares aos grupos marginalizados. O livro contribuía para recolocar textos e formulações de Beltrão em circulação entre uma nova geração de pesquisadores.
Completa a seção “Folkcomunicação e manifestações de identificação popular”, de Cíntia Xavier da Silva Pinto, sobre a edição especial da revista Signos dedicada à Folkcomunicação.
Produzido pela Univates no contexto da conferência realizada em Lajeado, o volume reunia estudos do Amazonas ao Rio Grande do Sul, além de uma contribuição portuguesa. Rádio de fronteira, ex-votos, comunidades ucranianas, estética vernacular, danças, capoeira e Festival de Parintins estavam entre os temas contemplados.
As quatro resenhas revelam um campo preocupado não apenas em publicar novas pesquisas, mas em organizar sua própria memória intelectual. Livros, coletâneas e números especiais de periódicos construíam uma base comum de referências para professores e estudantes.
Uma nova etapa para a revista
A quarta edição marca uma inflexão na trajetória da RIF. A revista preserva os vínculos com a Rede Folkcom e com a Cátedra Unesco, mas passa a dispor da estrutura editorial e tecnológica de uma universidade pública.
Ao mesmo tempo, seu conteúdo demonstra que a Folkcomunicação já não estava restrita ao inventário de manifestações tradicionais. Os pesquisadores examinavam políticas públicas, mediação comunitária, estratégias de persuasão, circulação digital, apropriações televisivas e disputas em torno da legitimidade dos saberes.
Rezadeiras, camelôs, contadores de anedotas e mediadores locais aparecem como agentes de comunicação. Eles dominam determinados códigos, possuem credibilidade junto aos grupos e são capazes de negociar com sistemas institucionais, mercadológicos e midiáticos.
A chegada à UEPG oferecia à RIF uma nova base para acompanhar essa ampliação do campo. Em novembro de 2004, a revista não mudava apenas de estrutura editorial. Preparava-se para uma etapa mais estável de circulação, memória e institucionalização da Folkcomunicação.


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