Quinta RIF conecta lendas digitais, fé popular e cultura em espetáculo
- Andriolli Costa
- 1 de ago.
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Publicada em junho de 2005, a edição aproxima os primeiros boatos da internet, a devoção ao Monge João Maria e as disputas entre tradição, mídia e mercado.
Em 2005, as redes sociais ainda não organizavam o cotidiano, mas histórias sem origem definida já atravessavam o país por correntes de e-mail. Lendas antigas ganhavam páginas eletrônicas, boatos eram copiados e reenviados, e personagens como o chupa-cabras encontravam na internet um meio de circulação muito mais veloz do que a conversa de rua.
Foi nesse momento de passagem entre formas tradicionais e digitais de comunicação que a Revista Internacional de Folkcomunicação publicou sua quinta edição. Identificado no documento original como “Ano III, número 5 – junho de 2005”, o número reuniu três artigos, duas resenhas, editorial, ficha técnica e uma seção de informes. O conjunto colocou em diálogo fenômenos aparentemente distantes: lendas urbanas na internet, religiosidade popular, festas transformadas em produtos midiáticos, multiculturalismo e literatura produzida na periferia.
Um campo em busca de referências
A edição deu continuidade à parceria iniciada no número anterior entre a Rede Folkcom, a Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional e a Agência de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A ficha técnica apresenta Sérgio Luiz Gadini como editor e registra a participação de Karina Janz Woitowicz na coordenação da Agência, Danilo Correia na produção visual e Renato de Morais, do Centro de Processamento de Dados da UEPG.
Naquele momento, Cristina Schmidt presidia a Rede Folkcom, enquanto José Marques de Melo aparecia como presidente de honra. O conselho editorial reunia pesquisadores brasileiros e estrangeiros, reforçando a intenção de fazer da revista uma referência internacional para os estudos das culturas e das formas populares de comunicação.
O editorial reconhecia o crescimento de projetos, encontros, premiações e pesquisas dedicados à Folkcomunicação. Ao mesmo tempo, alertava para a necessidade de desenvolver referências conceituais e metodológicas capazes de aprofundar as proposições formuladas por Luiz Beltrão desde a década de 1960. Mais do que divulgar trabalhos, a RIF se colocava como parte do esforço de consolidação científica do campo.
Quando o boato entra na rede
O primeiro artigo, “Dona Benta, McLuhan e o chupa-cabras: a força das lendas urbanas na Internet”, de Arquimedes Pessoni, transporta a Folkcomunicação para um ambiente que ainda parecia novo: a rede mundial de computadores. O autor aproxima as ideias de Marshall McLuhan e Luiz Beltrão para observar como histórias antes transmitidas oralmente passaram a circular por sites e correntes de e-mail. Com a internet, narrativas formadas no interior de comunidades deixavam o espaço local e alcançavam públicos numerosos em pouco tempo.
Loira do Banheiro, ET de Varginha, Homem do Saco e chupa-cabras aparecem como exemplos de histórias que mudam conforme são repetidas. Ao lado delas, o artigo examina boatos apresentados como notícias verdadeiras, incluindo mensagens falsas sobre vídeos de emissoras, ameaças em universidades e promessas de produtos gratuitos.
Pessoni percebe uma ambiguidade que se tornaria ainda mais evidente nas décadas seguintes. A internet pode preservar narrativas, registrar a memória popular e levar uma história a diferentes culturas. Também pode ampliar informações falsas, produzir pânico e tornar quase impossível interromper a circulação de um boato depois que ele ganha a confiança dos receptores.
Lido hoje, o texto antecipa discussões sobre viralização, desinformação e responsabilidade no compartilhamento de conteúdos. A tecnologia muda, mas permanece o conhecido mecanismo popular segundo o qual cada pessoa, ao recontar uma história, acrescenta ou transforma algum de seus elementos.
A fé que sobrevive fora das instituições
Em “Heranças da religiosidade popular nas manifestações da cultura”, Karina Janz Woitowicz e Sérgio Luiz Gadini investigam a devoção ao Monge João Maria no Paraná e em Santa Catarina.
O estudo recupera a trajetória de três personagens — João Maria de Agostini, João Maria de Jesus e José Maria — que, embora tenham vivido em momentos diferentes, foram reunidos pela memória popular na figura de um único monge. Pregações, curas, profecias e críticas à desigualdade contribuíram para que suas passagens permanecessem vivas no imaginário das comunidades do Sul do Brasil.
A devoção se manifesta em cruzes, grutas, fontes de água consideradas sagradas, ex-votos, fotografias, relatos de milagres e histórias transmitidas entre gerações. Mesmo sem o reconhecimento oficial da Igreja Católica, o monge é tratado pelos fiéis como santo, curandeiro e protetor dos pobres.
A pesquisa combina observação jornalística, referências históricas e depoimentos de moradores. Com isso, mostra que a crença não depende da validação das instituições ou da presença constante nos meios de comunicação. Sua continuidade ocorre pelas narrativas familiares, pelas peregrinações e pelos símbolos deixados nos lugares por onde o monge teria passado.
A comunicação popular aparece, portanto, como forma de preservar uma memória frequentemente ignorada pelos discursos oficiais. Ao contar histórias sobre João Maria, as comunidades também comunicam suas experiências de abandono, resistência, esperança e pertencimento.
Entre a tradição e o mercado
O terceiro artigo, “A espetacularização das culturas populares”, de Osvaldo Meira Trigueiro, analisa o que acontece quando festas e manifestações tradicionais passam a integrar os circuitos da televisão, do turismo e das indústrias do entretenimento.
Trigueiro utiliza a ideia de produtos culturais folkmidiáticos para explicar as trocas entre a cultura popular e a cultura de massa. A mídia se apropria de festas, músicas, rituais e símbolos locais para transformá-los em atrações de grande alcance. Em movimento inverso, os protagonistas das tradições incorporam tecnologias, linguagens e recursos midiáticos para renovar suas práticas e conquistar visibilidade.
Essa relação não ocorre sem conflitos. Para empresas e agentes externos, a festa pode representar audiência, consumo e lucro. Para as comunidades, continua carregando sentidos religiosos, afetivos, lúdicos e identitários, ainda que também se transforme em fonte de trabalho e renda.
O artigo rejeita a ideia de que toda aproximação com a mídia resulte automaticamente na destruição da tradição. Os grupos populares não recebem passivamente as mensagens globais. Eles negociam, reinterpretam e incorporam elementos externos de acordo com suas necessidades. A cultura permanece viva justamente porque está em movimento.
Cidadania, consumo e literatura marginal
As duas resenhas ampliam o debate da edição. Em “Em tempos de multiculturalismo e crise da cidadania”, Karina Janz Woitowicz apresenta Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização, de Néstor García Canclini.
A resenha discute a relação entre consumo e participação social, mostrando que os bens materiais e simbólicos também ajudam a definir pertencimentos, diferenças e formas de cidadania. Ao mesmo tempo, questiona uma globalização seletiva, na qual direitos e possibilidades de consumo permanecem distribuídos de maneira desigual.
Já “Nas ruas de Capão Pecado”, de Camila Lourenço Cardoso, aborda o romance de Ferréz ambientado no Capão Redondo, periferia de São Paulo. A obra é apresentada como expressão da literatura marginal, produzida por quem conhece diretamente as experiências de violência, pobreza, exclusão e solidariedade presentes nesses territórios.
A presença de Ferréz na RIF reforça uma característica da revista desde suas primeiras edições: tratar grupos populares não apenas como objetos observados de fora, mas como produtores de narrativas sobre suas próprias realidades.
Uma revista que amplia suas linguagens
A quinta edição também anunciou a abertura de espaço para ensaios fotográficos sobre situações folkcomunicacionais. O editorial relaciona a novidade a imagens da devoção ao Monge João Maria, registrando lugares, objetos e práticas de uma crença mantida fora do reconhecimento religioso oficial.
A seção “Informes & Notas” funciona como retrato do período. Divulga o Jornal da Folkcom, editado por Sebastião Breguez, apresenta uma publicação dedicada à história da cachaça como símbolo da brasilidade e explica as normas para envio de trabalhos à revista. Os originais poderiam ser encaminhados por e-mail, mas anexos também eram solicitados em disquete ou CD — detalhe que revela as condições tecnológicas da produção científica naquele início de século.
Tradições em movimento
A quinta RIF registra um campo que começava a olhar simultaneamente para a memória e para as transformações tecnológicas. A lenda contada de boca em boca passa a circular por e-mail. A devoção não reconhecida pelas instituições encontra permanência nos relatos dos fiéis. A festa popular chega à televisão e ao mercado sem deixar de ser disputada pelas comunidades. A periferia transforma sua experiência em literatura.
Ao reunir esses movimentos, a edição mostra que a Folkcomunicação não se restringe à preservação de práticas antigas. Ela também permite compreender como tradições, identidades e narrativas populares atravessam novas tecnologias, reorganizam-se diante do mercado e continuam produzindo sentidos na sociedade contemporânea.


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