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Primeira edição da RIF nasce internacional e leva a Folkcomunicação do tango ao cordel

Lançado em junho de 2003, número inaugural reuniu pesquisadores de Argentina, Bolívia, Portugal e Brasil e criou um espaço permanente para o estudo das relações entre cultura popular, mídia e sociedade


Quando a primeira edição da Revista Internacional de Folkcomunicação chegou à internet, em junho de 2003, a teoria fundada por Luiz Beltrão ganhou algo de que ainda carecia: um periódico científico dedicado à circulação regular de pesquisas do campo. Cinco anos após a criação da Rede Folkcom, a RIF surgia para aproximar pesquisadores dispersos por diferentes regiões brasileiras e ampliar o diálogo com a América Latina e os países de língua portuguesa.


O caráter internacional não estava apenas no título. Em mais de cem páginas, o número inaugural reuniu estudos produzidos na Argentina, Bolívia, Portugal e em diferentes estados brasileiros. Seu conselho editorial também contava com pesquisadores de sete países: Brasil, Portugal, Espanha, Moçambique, Colômbia, Bolívia e México.


A revista foi criada pela Rede Folkcom e pela Cátedra Unesco/Metodista de Comunicação Regional, inicialmente em parceria com o Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB). A edição esteve sob a responsabilidade de Antonio Teixeira de Barros e Severino Alves de Lucena Filho. Cristina Schmidt presidia a Rede Folkcom, que tinha José Marques de Melo como presidente honorário.


A primeira fase da RIF, portanto, antecede sua vinculação à Universidade Estadual de Ponta Grossa. A parceria com a Agência de Jornalismo da UEPG começaria na quarta edição, lançada em novembro de 2004, sob a responsabilidade editorial de Sérgio Luiz Gadini. Um levantamento sobre os dez primeiros números da revista, publicado em 2010, mostra que a RIF se consolidaria nos anos seguintes como um dos principais espaços de divulgação da produção folkcomunicacional.


Uma revista já nascida sem fronteiras

A abertura internacional da edição aparece em três estudos dedicados às transformações das culturas populares diante da urbanização, das indústrias culturais e dos meios de comunicação.


Em “La rebelión de los abrazos: representaciones del tango en la milonga”, a argentina María Eugenia Rosboch analisa o ressurgimento das milongas como espaços de dança e sociabilidade. Mais do que um ambiente de preservação do tango, elas são interpretadas como lugares de reconstrução de vínculos sociais rompidos pelas ditaduras militares e, posteriormente, pela fragmentação promovida pelas políticas neoliberais.


Da Bolívia, Marcelo Guardia Crespo discute, em “Música folklórica en la industria cultural”, as mudanças sofridas pela música autóctone andina quando passa a integrar os sistemas de gravação, comercialização e difusão massiva. O autor identifica processos como a redução de performances originalmente cíclicas a músicas com começo e fim definidos, a adaptação dos instrumentos e a separação entre intérpretes e espectadores. Ao mesmo tempo, evita tratar essas mudanças apenas como perda: a indústria cultural também abre possibilidades de circulação, apropriação e reinvenção.

Carlos Nogueira amplia o diálogo com o mundo lusófono em “Folkcomunicação em Portugal: a esfera permeável da literatura oral”. O estudo acompanha a passagem de narrativas, poemas e outras formas da oralidade para o rádio, a televisão, os discos, os livros e a publicidade. O tradicional, nessa perspectiva, não desaparece diante da tecnologia: transforma-se em uma oralidade mediatizada, capaz de atravessar outros tempos e espaços.


Beltrão e os fundamentos do campo

O número inaugural também reservou espaço para a história e os fundamentos da teoria. José Marques de Melo recupera, em “Folkcomunicação, contribuição brasileira à Teoria da Comunicação”, a trajetória da tese defendida por Luiz Beltrão na Universidade de Brasília, em 1967. O texto situa Beltrão como pioneiro das Ciências da Comunicação no país e destaca a criação do Icinform, da revista Comunicações & Problemas e da primeira tese brasileira de doutorado na área.


Roberto Benjamin, discípulo direto de Beltrão, apresenta uma agenda coletiva de investigação em “Devoções populares não-canônicas na América Latina”. O pesquisador propõe uma tipologia para compreender personagens popularmente reconhecidos como santos, embora não canonizados pela Igreja, além dos lugares de culto, das narrativas e das práticas comunicacionais relacionadas a essas devoções. O objetivo era estimular estudos etnográficos capazes de produzir comparações entre diferentes países latino-americanos.


Nas páginas finais, Sebastião Geraldo Breguêz oferece um retrato da institucionalização alcançada pela teoria. Em “Os estudos de Folkcomunicação hoje no Brasil”, ele registra a presença da área em grupos e núcleos de entidades como Intercom, Alaic, Felafacs e Lusocom. O artigo funciona como um balanço de um campo que, nascido das pesquisas de Beltrão, começava a conquistar reconhecimento dentro e fora do país.


Cordel, fotografia, festas e devoções

A diversidade dos objetos brasileiros já anunciava uma característica que acompanharia toda a trajetória da RIF. Em vez de delimitar a Folkcomunicação a uma única manifestação, a edição aproximou literatura, religiosidade, fotografia, turismo, festas e trajetórias de artistas populares.


Maria Alice Amorim estudou os folhetos de cordel produzidos sobre os atentados de 11 de setembro de 2001. Em “O folheto de circunstância: 11 de setembro em cordel”, mostrou que a literatura popular continuava capaz de narrar acontecimentos amplamente explorados pelos grandes meios. Mesmo quando a novidade jornalística parecia esgotada, autores, leitores e ouvintes ainda buscavam no cordel outras maneiras de interpretar o fato.


Cristina Schmidt refletiu sobre a fotografia como registro e método de leitura da história. A partir do Vale do Paraíba, a pesquisadora mostrou como acervos fotográficos familiares e comunitários ajudam a recuperar dimensões do passado que nem sempre permanecem preservadas pela memória oral ou pelos documentos oficiais.


A Marujada de Bragança, no Pará, foi analisada por Luíndia Azevedo em suas relações com o turismo, a mercantilização e a identidade coletiva. O artigo evita a ideia de que toda mudança representa automaticamente uma descaracterização. A festa aparece como processo vivo, marcado por apropriações, recriações e negociações entre seus participantes e os visitantes.


No Recife, José Xavier dos Santos investigou o culto à Menina sem Nome, criança assassinada e sepultada no Cemitério de Santo Amaro que passou a ser reconhecida popularmente como santa. Bilhetes, fotografias, objetos e ex-votos deixados no túmulo foram interpretados como meios de comunicação pelos quais os devotos narravam graças, pedidos e experiências de sofrimento.


Mariana Mesquita acompanhou três gerações da família Salustiano — João, Manoel e Maciel — para compreender como seus artistas transitaram entre o mundo rural e o urbano, a cultura popular e os circuitos massivos. A partir da história oral, o estudo analisou as estratégias empregadas pela família para manter e recriar manifestações como o maracatu de baque solto, o cavalo-marinho, o mamulengo, a ciranda e o forró de rabeca.


Severino Alves de Lucena Filho completou esse percurso com uma reflexão sobre o turismo religioso popular. Romeiros, santuários, promessas, festas e deslocamentos foram apresentados como cenários folkcomunicacionais nos quais a fé também produz redes de informação, sociabilidade e pertencimento.


Uma agenda que continua atual

Vista mais de duas décadas depois, a primeira edição da RIF impressiona pela quantidade de questões que continuam mobilizando a pesquisa em Folkcomunicação. A relação entre tradição e indústria cultural, a circulação internacional das culturas populares, os usos da memória, a presença da religião no cotidiano, o turismo, as reconversões culturais e a capacidade dos grupos populares de produzir suas próprias interpretações já estavam presentes naquele número inaugural.


A revista também estabeleceu, desde o início, um equilíbrio entre reflexão conceitual e pesquisa empírica. Ao lado dos textos dedicados a Beltrão e à institucionalização da teoria, estavam estudos sobre milongas, músicas andinas, cordéis, fotografias, ex-votos, marujadas e artistas populares. A Folkcomunicação aparecia, assim, não como uma teoria fechada, mas como um campo aberto à observação das formas pelas quais as pessoas narram, celebram, recordam, negociam e transformam sua cultura.


Nascia ali um espaço de memória e, ao mesmo tempo, de experimentação intelectual. A primeira RIF não apenas registrou o que a Folkcomunicação havia conquistado até 2003. Ela ajudou a desenhar os caminhos que o campo percorreria nas décadas seguintes.


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