“Não dá para pensar cidadania sem pensar comunicação”: mesa discute inclusão digital a partir da Amazônia
Na III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação, Thiago Franco e Vilso Santi mostraram que acesso à internet não significa, sozinho, participação social: é preciso reconhecer sujeitos, territórios, saberes e formas comunitárias de comunicar.
Durante a pandemia, uma informação produzida em São Gabriel da Cachoeira precisava alcançar comunidades indígenas distantes, em áreas onde o sinal de internet era escasso ou simplesmente inexistente.
Os boletins eram gravados em áudio e compartilhados pelo WhatsApp. Quando a conexão não permitia que fossem baixados, os arquivos eram salvos em pen drives e levados de barco. Ao chegar à comunidade, o dispositivo era conectado a um computador ligado a uma mesa de som. Megafones instalados em uma árvore faziam a informação circular pelo território.
A imagem parece reunir tempos tecnológicos diferentes: o arquivo digital, o transporte fluvial, o computador, a oralidade e o sistema comunitário de alto-falantes. Mas foi justamente essa combinação que permitiu que uma mensagem de interesse público chegasse aos seus destinatários.
O exemplo da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro apareceu durante a mesa “Educação para a Cidadania Digital”, realizada em 22 de junho de 2022, no auditório do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia da Universidade Federal do Amazonas (ICSEZ/UFAM), em Parintins.
A atividade integrou a programação do terceiro dia da III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação e do V Encontro de Comunicação de Parintins. Participaram do debate o professor Thiago Franco, da Universidade Federal de Goiás (UFG), em apresentação remota, e o professor Vilso Junior Chierentin Santi, da Universidade Federal de Roraima (UFRR). A coordenação foi da professora Soriany Simas Neves, da UFAM.
Mais do que discutir ferramentas ou plataformas, a mesa questionou o próprio significado de cidadania digital em uma região marcada por grandes distâncias, desigualdade de acesso, ausência de infraestrutura e intensa diversidade cultural.
Um celular não elimina a desigualdade
Thiago Franco situou a discussão sobre cidadania digital dentro de uma crise mais ampla da racionalidade ocidental.
Segundo o pesquisador, a sociedade moderna foi construída a partir de separações: humanidade e natureza, sujeito e objeto, ciência e saber tradicional, cidade e floresta. O ser humano foi colocado no centro do mundo, enquanto animais, vegetais, rios e territórios passaram a ser tratados como elementos disponíveis para exploração.
A crise ambiental, social e humanitária demonstra os limites desse pensamento. Para Thiago, é necessário compreender o planeta como uma grande rede de interdependências, na qual seres humanos, animais, plantas, objetos e sistemas tecnológicos participam da organização da vida coletiva.
Os dispositivos digitais também integram essa rede. Eles não são instrumentos neutros que simplesmente transmitem as decisões humanas. Algoritmos selecionam o que será exibido, plataformas determinam quais conteúdos recebem maior visibilidade e empresas privadas controlam boa parte dos ambientes nos quais o debate público acontece.
Um algoritmo pode, por exemplo, reproduzir formas de racismo presentes na sociedade. Da mesma maneira, uma plataforma pode privilegiar mensagens que geram lucro, engajamento ou permanência do usuário, mesmo quando não representam os interesses das comunidades.
A existência de um aparelho conectado, portanto, não garante condições iguais de participação.
Um morador de uma comunidade ribeirinha pode utilizar o celular para registrar uma denúncia, mas dificilmente estará em igualdade de condições com quem possui conexão permanente por fibra óptica, equipamentos atualizados e acesso facilitado às instituições responsáveis por receber aquela manifestação.
A própria experiência de professores e estudantes em Parintins durante as aulas remotas demonstrou essa desigualdade. Enquanto docentes de outras regiões conseguiam organizar encontros virtuais com relativa estabilidade, no interior do Amazonas era comum entrar em uma sala digital e encontrar apenas um estudante — não por falta de interesse, mas porque os demais não conseguiam se conectar.
Antes da cidadania digital, a cidadania comunicativa
Vilso Santi começou sua exposição com uma provocação: pensar de maneira diferente não significa necessariamente inventar algo novo.
Na Amazônia, afirmou, talvez seja mais importante recuperar aquilo que foi negligenciado pela racionalidade moderna. Saberes indígenas, conhecimentos tradicionais, formas comunitárias de organização e práticas populares de comunicação não precisam ser substituídos por uma novidade tecnológica para que a região seja considerada contemporânea.
Antes de discutir cidadania digital, Vilso propôs recuperar noções como cidadania comunicativa, educomunicação, ação comunicativa e participação popular. Sua reflexão aproximou referências como Luiz Beltrão, Paulo Freire e Milton Santos das experiências amazônicas.
“Não dá para pensar cidadania sem pensar comunicação”, afirmou.
Para alguém se constituir como cidadão, é necessário ter acesso aos meios de expressão, dominar códigos compartilhados e encontrar espaços nos quais sua palavra possa ser escutada. Sem essas condições, o acesso a uma plataforma pode existir tecnicamente sem produzir participação efetiva.
A ideia de “cidadania mutilada”, desenvolvida por Milton Santos, ajudou a explicar esse descompasso. Parte da população possui direitos reconhecidos formalmente, mas não encontra condições econômicas, políticas e comunicacionais para exercê-los plenamente.
A cidadania digital pode ser igualmente mutilada. Uma pessoa possui celular, mas não tem sinal. Tem sinal, mas não dispõe de dados móveis. Consegue publicar uma denúncia, mas não alcança as autoridades. Participa de uma rede social, mas permanece submetida às decisões dos algoritmos e das grandes plataformas.
“Estamos longe do digital, mas, antes disso, estamos longe da cidadania”, resumiu Vilso durante o debate.
Quando o edital está na internet, mas a comunidade escuta o rádio
Um exemplo apresentado pelos participantes mostrou como uma estratégia tecnicamente moderna pode fracassar quando ignora os hábitos comunicacionais de seu público.
Um projeto destinado a moradores de uma área rural foi divulgado por meio de site, Instagram e WhatsApp. Apesar da circulação nas plataformas, ninguém da comunidade apareceu.
O problema não estava necessariamente no conteúdo do edital. Estava na escolha dos meios.
Naquele território, a principal fonte de informação continuava sendo uma emissora de rádio. Ao privilegiar as redes digitais, a campanha deixou de utilizar justamente o canal que fazia parte do cotidiano da população que desejava alcançar.
O episódio revela uma diferença importante entre distribuir informação e estabelecer comunicação.
Colocar um texto na internet não significa torná-lo acessível. Da mesma forma, produzir uma mensagem tecnicamente correta não garante que ela dialogue com os conhecimentos, as linguagens e as necessidades de uma comunidade.
A experiência se aproxima da perspectiva folkcomunicacional: para compreender como uma mensagem circula, é preciso observar quem comunica, quais meios são reconhecidos pelo grupo, que códigos são compartilhados e quem atua como mediador ou liderança de opinião naquele território.
Uma rádio local, um comunicador popular, uma associação de moradores ou um sistema de alto-falantes podem ser mais eficazes do que uma sofisticada campanha em redes sociais.
Encontrar os sujeitos antes de escolher a plataforma
Para Vilso, um projeto de comunicação precisa começar pelo encontro com os sujeitos.
Isso significa abandonar a ideia de que o pesquisador chega a uma comunidade carregando respostas prontas. A teoria, o método e a tecnologia precisam ser confrontados com as experiências de quem vive no território.
“Reencontrar o sujeito” envolve reconhecê-lo em seus contextos histórico, cultural, identitário e territorial. Somente depois desse encontro é possível compreender quais práticas comunicacionais já existem e de que maneira novas ferramentas podem dialogar com elas.
O ingresso de estudantes indígenas na Universidade Federal de Roraima foi apresentado como uma experiência transformadora. Esses alunos não chegaram apenas para receber conhecimentos acadêmicos. Levaram para a instituição outras perguntas, referências e formas de compreender a comunicação.
Sua presença começou a tensionar o lugar confortável ocupado pela universidade e a divisão tradicional entre pesquisador e objeto de pesquisa.
As comunidades não são laboratórios humanos destinados a confirmar teorias elaboradas previamente. Seus integrantes são sujeitos capazes de formular problemas, produzir conhecimento, selecionar tecnologias e participar das decisões sobre aquilo que será pesquisado ou comunicado.
Vilso propôs, por isso, uma orientação metodológica baseada na contextualização, na historicização, na relação com a cultura, na aproximação etnográfica e na práxis.
Não basta descrever uma desigualdade. A pesquisa e a comunicação devem contribuir para transformar a realidade que procuram compreender.
Comunicação em saúde para além dos números
A experiência do projeto ArboControl, desenvolvida em Roraima com participação da Rede Amazoom, foi apresentada como uma possibilidade concreta de articulação entre comunicação, educação, saúde e cidadania.
A iniciativa procurou produzir estratégias de enfrentamento à dengue, à zika e à chikungunya. Em vez de limitar o trabalho à difusão de informações técnicas sobre mosquitos e doenças, os pesquisadores buscaram dialogar com as realidades locais.
Segundo Vilso, parte da comunicação em saúde costuma ser organizada a partir do ponto final do processo: a doença já instalada. Boletins epidemiológicos apresentam números de infectados, internações ou mortes, mas oferecem pouco espaço para discutir prevenção, território, condições de vida e diferentes concepções de saúde.
Nas cosmovisões de algumas populações tradicionais, o adoecimento do corpo não é um fenômeno isolado. Ele pode estar relacionado ao adoecimento das relações comunitárias, do território, da alimentação ou do ambiente.
Reconhecer essas interpretações não significa abandonar o conhecimento científico. Significa construir pontes entre diferentes formas de saber, tornando a informação mais compreensível e socialmente apropriável.
Em Roraima, o ArboControl promoveu encontros com pesquisadores e docentes para planejar ações educativas e comunicacionais adequadas às características do estado. O próprio relato da Rede Amazoom destaca que as peculiaridades regionais deveriam ser conhecidas antes da implementação das atividades.
O projeto formou redes de fontes e parceiros, criou um espaço digital dedicado à comunicação e à saúde, produziu conteúdos originais e adaptados, organizou um banco de memória e utilizou formatos que iam de reportagens e ciclos formativos a cards para Instagram e vídeos para TikTok.
O objetivo era romper com uma narrativa jornalística concentrada exclusivamente nos números e produzir conteúdos capazes de ser utilizados, reinterpretados e compartilhados pelas pessoas.
Vilso definiu essa orientação a partir de três características: conteúdos próprios, apropriados e apropriáveis.
Eles precisam ser produzidos a partir do território, adequados às suas condições e abertos à apropriação pelas comunidades. Sem legitimidade, possibilidade de diálogo e capacidade transformadora, a tecnologia apenas atualiza antigas formas de transmissão vertical do conhecimento.
Da rádio-poste ao TikTok
A experiência da Rede Wayuri reforçou que práticas tradicionais e ferramentas digitais não são necessariamente concorrentes.
Criada em 2017, a rede reúne comunicadores indígenas do Rio Negro. De acordo com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, o boletim de áudio Wayuri leva informações produzidas pelos próprios comunicadores a centenas de comunidades e aos 23 povos da região.
Os conteúdos circulam pelo WhatsApp, pela radiofonia, por Bluetooth, por aplicativos de transferência de arquivos e por outros meios disponíveis no território.
Durante a pandemia, essa capacidade de combinar diferentes tecnologias permitiu levar orientações sobre a Covid-19 a lugares que não eram atendidos regularmente pelos grandes meios de comunicação.
A rede demonstra que o digital pode fortalecer a autonomia quando é apropriado pela comunidade. Em lugar de esperar que empresas jornalísticas de fora definam quais acontecimentos merecem cobertura, os comunicadores indígenas selecionam suas pautas, produzem conteúdos em seus próprios contextos e enfrentam desinformações e estereótipos.
O arquivo digital pode chegar pelo WhatsApp, pelo Bluetooth, pelo barco ou pela radiofonia. O importante não é a ferramenta isolada, mas o circuito comunicacional criado para que a mensagem alcance a comunidade.
A rádio-poste não desaparece quando chega o Wi-Fi
Soriany Simas Neves acrescentou ao debate resultados de uma pesquisa realizada em Caburi, comunidade rural situada nas proximidades de Parintins.
A investigação procurava compreender como os moradores se apropriavam do Wi-Fi, implantado a partir de uma experiência de cidade digital. O que emergiu, entretanto, foi a permanência das práticas de oralidade.
A chegada da internet não eliminou a rádio-poste nem retirou a importância do comunicador popular responsável pelo sistema de alto-falantes. Ao contrário, as novas ferramentas passaram a ser moldadas a partir das práticas que já existiam.
Informações recebidas por meios digitais poderiam alimentar a comunicação oral. Mensagens do território poderiam circular pela internet. O agente folkcomunicacional continuava exercendo sua função de selecionar, interpretar e redistribuir os conteúdos de acordo com as referências da comunidade.
Esse processo demonstra que a tradição não é uma peça imóvel do passado. Ela pode orientar a incorporação de tecnologias, estabelecer critérios de uso e produzir novas combinações comunicacionais.
A chegada do Wi-Fi não precisa representar o desaparecimento da oralidade. Pode criar uma nova etapa para a rádio-poste, para o comunicador popular e para as redes locais de informação.
Recuperar conhecimentos que a universidade deixou para trás
Durante o debate, Helena Theodoro questionou a centralidade concedida pela universidade ao pensamento greco-romano e chamou a atenção para a necessidade de recuperar filosofias africanas, conhecimentos egípcios e saberes ancestrais apagados pelas narrativas ocidentais.
Vilso concordou que uma perspectiva decolonial precisa reconhecer outras matrizes de conhecimento. Na Amazônia, isso envolve também recuperar saberes indígenas e tradicionais invisibilizados ao longo de séculos de colonização.
A discussão não propôs simplesmente trocar uma referência por outra. O desafio é compreender que nenhum conhecimento é neutro, universal ou separado da história.
A educação para a cidadania digital não pode reproduzir a antiga prática de levar uma verdade pronta aos grupos considerados desinformados. Precisa reconhecer que essas comunidades possuem conhecimentos, sistemas de comunicação e interpretações próprias da realidade.
Nesse processo, o papel do professor, do pesquisador ou do jornalista se aproxima do facilitador proposto por Paulo Freire: alguém que oferece conhecimentos técnicos, mas também escuta, aprende e participa da construção compartilhada de uma ação.
Cidadania digital é mais do que conexão
A mesa concluiu que os problemas da cidadania digital não serão resolvidos apenas com infraestrutura tecnológica, embora o acesso estável e de qualidade seja indispensável.
Também são necessárias políticas públicas, fortalecimento da comunicação comunitária, formação crítica, regulação das plataformas, observação da mídia e participação das fontes e dos públicos na produção das mensagens.
Sem essas condições, o ambiente digital corre o risco de reproduzir as desigualdades já existentes fora dele.
A cidadania digital construída a partir da Amazônia pode assumir formas inesperadas. Ela pode estar em um celular utilizado para registrar uma ameaça ao território, em um boletim enviado pelo WhatsApp, em um pen drive transportado de barco ou em um arquivo reproduzido por megafones instalados em uma árvore.
Pode estar, simultaneamente, na rádio-poste e no TikTok.
O que transforma essas ferramentas em comunicação cidadã não é sua novidade tecnológica. É a capacidade de colocar os sujeitos no centro do processo, respeitar seus repertórios e produzir espaços nos quais suas vozes possam circular e ser reconhecidas.
Antes de perguntar qual plataforma deve ser utilizada, portanto, é necessário descobrir quem precisa falar, quem precisa ser ouvido e quais caminhos a informação deverá percorrer.
Porque, como sintetizou Vilso Santi, não existe cidadania — digital ou não — sem o direito de comunicar.




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