“Nosso corpo é um território”: mulheres quilombolas transformam memória em luta por direitos no Baixo Amazonas
Com a exibição de um documentário sobre as mestras de Santa Tereza do Matupiri, a Mesa 7 da IV Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação aproximou saberes ancestrais, liderança feminina e a mobilização pelo reconhecimento do quilombo urbano Santa Izabel, em Parintins.
Antes que as convidadas ocupassem seus lugares, três anciãs já haviam tomado conta da sala. Projetadas na tela, suas vozes falaram sobre dança, religião, plantas medicinais, identidade negra e histórias transmitidas entre gerações no quilombo de Santa Tereza do Matupiri, no município de Barreirinha.
“As vozes negras atravessam céus, tempos e corpos amazônidas”, anunciou a narração do curta-metragem exibido na abertura da Mesa 7 da IV Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação.
Nas imagens, as mestras Maria Amélia dos Santos Castro, Sebastiana — conhecida como Tia Sabá — e Dona Celina aparecem como guardiãs de um patrimônio que não está depositado apenas em documentos ou instituições. Ele permanece vivo nos cantos, nas danças, nas rezas, nas plantas, nas histórias familiares e nos conhecimentos que elas compartilham.
A exibição de “Cultura e Resistência Negra no Baixo Amazonas”, documentário dirigido por Marcos Moura e lançado em 2025, abriu a mesa de mesmo nome. O encontro foi mediado pela pedagoga Amanda Mendes e reuniu as lideranças quilombolas Leilane Belém de Souza e Mauricéia Garcia de Freitas, além do próprio diretor do filme.
Prevista na programação, Maria Amélia não pôde comparecer presencialmente. Sua presença, entretanto, atravessou todo o debate, tanto pelas imagens do documentário quanto pelas referências das lideranças mais jovens à sua trajetória no movimento quilombola.
Um patrimônio guardado nos corpos
Depois da exibição, Amanda Mendes chamou a atenção para uma ideia que orientaria toda a discussão: o patrimônio histórico do povo negro nem sempre pode ser encontrado dentro de um museu.
“Nós o encontramos nessas mulheres, nesses corpos, nessas vozes e nessas mãos”, afirmou.
No documentário, Dona Celina recorda uma época em que a palavra “quilombola” ainda não fazia parte do vocabulário cotidiano da comunidade. Ela sabia que era uma mulher negra, mas não havia aprendido com seus pais a nomear aquela identidade coletiva.
A fala evidencia como o apagamento pode atravessar gerações. As famílias continuavam vivendo seus modos de fazer, suas festas e suas relações comunitárias, mas nem sempre possuíam as palavras políticas e jurídicas necessárias para reivindicar o reconhecimento de sua história.
Tia Sabá representa outra dimensão desse patrimônio. Curandeira, médium e detentora de conhecimentos relacionados às ervas, às rezas e às entidades da floresta, ela compartilhou parte de seus saberes diante da câmera, mas também estabeleceu limites.
Marcos Moura contou que alguns conhecimentos não foram registrados porque, segundo a mestra, as entidades não permitiam sua divulgação. Respeitar essa decisão foi parte fundamental do processo de realização do filme.
O episódio demonstra que documentar uma cultura não significa ter autorização para transformar tudo em imagem pública. A salvaguarda também exige reconhecer segredos, restrições espirituais e conhecimentos cuja circulação é determinada pela própria comunidade.
Para Marcos, o filme só foi possível depois de uma relação construída ao longo de vários anos. Sua primeira visita a Santa Tereza do Matupiri ocorreu em 2011, durante uma atividade do Novembro Negro. Desde então, procurou cultivar uma relação de confiança com as lideranças.
O cuidado responde a um problema recorrente nos trabalhos realizados em comunidades tradicionais: pesquisadores e produtores que recolhem histórias, produzem artigos ou filmes e desaparecem sem apresentar os resultados às pessoas envolvidas.
“Nada de nós sem nós”, resumiu Marcos, ao defender que as lideranças devem participar das decisões e falar por si mesmas.
Das anciãs às novas lideranças
Se Maria Amélia, Tia Sabá e Dona Celina representam os conhecimentos acumulados pelas gerações mais velhas, Leilane e Mauricéia mostram como essa memória está sendo transformada em organização política.
As duas integram a coordenação do quilombo urbano Santa Izabel, localizado no bairro Teixeirão, em Parintins. A coordenação é formada por três mulheres: Leilane Belém de Souza, Mauricéia Garcia de Freitas e Clarice de Castro Freitas.
O grupo reúne famílias originárias dos quilombos do Rio Andirá, especialmente da comunidade de São Pedro. Mesmo vivendo em Parintins, elas mantêm vínculos familiares, culturais e políticos com o território de origem.
“Não estamos dentro do território, mas o nosso corpo é um território, a nossa vivência é um território”, afirmou Leilane.
A frase rompe com a ideia de que a identidade quilombola desaparece quando uma pessoa se desloca para a cidade. Para as lideranças, sair da comunidade em busca de estudo, trabalho ou atendimento não elimina o pertencimento.
A própria formação do quilombo urbano está relacionada a esses deslocamentos. A história familiar em Parintins remonta a 1929, quando o patriarca conhecido como Seu Clarizo chegou à cidade ainda criança. Aos 101 anos, ele se tornou uma das principais referências da memória comunitária.
Uma reportagem da Prefeitura de Parintins também registra Seu Clarizo como patriarca da comunidade e destaca o trabalho das lideranças na preservação de sua história.
Segundo Leilane, ele precisou esperar cem anos para formalizar sua autodeclaração quilombola e 101 para acompanhar a certificação da comunidade.
“É uma vida esperando para se reconhecer”, observou.
Uma história afro-indígena
A origem das comunidades quilombolas do Rio Andirá demonstra que as identidades negras e indígenas na Amazônia não existem de maneira isolada.
Leilane recordou a história de Benedito Rodrigues da Costa, negro de origem angolana que teria escapado da escravização e chegado à região. No Rio Andirá, ele se relacionou com Jerônima, indígena Sateré, formando um dos núcleos familiares que deram origem às comunidades locais.
Essa narrativa também aparece em pesquisas sobre a trajetória de Maria Amélia e a formação de Santa Tereza do Matupiri, como registra trabalho apresentado no Simpósio Nacional de História.
“O nosso quilombo começa com a junção de um angolano e uma indígena”, explicou Leilane.
Por isso, ela prefere definir Santa Izabel como um quilombo afro-indígena. A expressão não indica ausência de identidade, mas revela a complexidade histórica das alianças, famílias e processos de resistência construídos na região.
Durante o debate, Leilane também criticou tentativas de hierarquizar comunidades, como se uma delas pudesse ser considerada mais legítima do que as demais. Para ela, o reconhecimento não deve se transformar em competição.
“Eu não preciso dizer que é o único, que é o legítimo ou que é o que tem mais luta. A nossa certificação chega e o resultado mostra”, declarou.
Seis anos transformando memória em documento
A coordenação do quilombo urbano começou a se estruturar em 2021. Na época, as lideranças conheciam os vínculos familiares com o Rio Andirá, mas ainda precisavam reunir documentos, reconstruir genealogias e mobilizar as famílias residentes em Parintins.
O trabalho incluiu a produção de árvores genealógicas, fichas individuais, fotografias e autodeclarações. Leilane informou que aproximadamente 202 famílias foram cadastradas, incluindo as crianças.
O processo exigiu sucessivas viagens entre Parintins, Barreirinha e as comunidades do Rio Andirá. Como não há sempre uma embarcação direta, as lideranças precisam combinar lanchas, barcos e outros meios de transporte para participar das reuniões.
Também enfrentaram dificuldades financeiras, resistência dentro do próprio movimento e dúvidas sobre a legitimidade de pessoas que já não residiam permanentemente no território de origem.
A resposta das coordenadoras foi insistir que não buscavam um favor, mas um direito.
“Independentemente de estar morando no território ou não, nós somos de lá”, disse Leilane. “Eu não estou pedindo favor para ninguém. Vim atrás de um direito que é nosso.”
Durante a Jornada, as representantes anunciaram que o quilombo Santa Izabel havia obtido sua certificação como comunidade remanescente de quilombo. O documento seria entregue formalmente às famílias em julho de 2026.
A certificação emitida pela Fundação Cultural Palmares reconhece a autodefinição da comunidade, mas não equivale à titulação da terra. A regularização territorial depende de outro processo, conduzido pelo Incra em áreas federais, com estudos de identificação, delimitação, consulta e titulação. As diferenças entre essas etapas são explicadas pela Fundação Cultural Palmares e pelo Incra.
Essa distinção ajuda a compreender por que a certificação foi comemorada como uma conquista, mas não encerrou a mobilização.
“Hoje a gente mora emprestado dentro do quilombo”
Ao responder a uma pergunta sobre as dificuldades enfrentadas durante o processo, Leilane afirmou que a próxima etapa deverá ser ainda mais complexa: a luta pela regularização do território quilombola do Rio Andirá.
“Agora é que a gente vai bater de frente com o sistema. O território é quilombola. O território é nosso”, declarou.
Segundo a liderança, existem fazendas e interesses econômicos dentro das áreas reivindicadas. A disputa coloca as comunidades diante de grandes proprietários, agentes políticos e estruturas administrativas que frequentemente atrasam os processos de reconhecimento.
“Hoje a gente mora emprestado dentro do quilombo”, resumiu. “Se o território ainda não é reconhecido, aquelas famílias estão vivendo em uma área que juridicamente não é delas.”
Leilane também falou sobre o medo enfrentado por mulheres que defendem seus territórios. Durante um encontro da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a CONAQ, ela conheceu histórias de lideranças assassinadas por defenderem educação, saúde e regularização fundiária.
A experiência fez com que pensasse nos filhos, nos pais e na possibilidade de não voltar para casa depois de uma atividade política.
“Sabemos que estamos indo em uma direção incerta, mas continuamos lutando pelo nosso povo”, afirmou.
Os desafios começam dentro da própria rotina. Leilane precisa conciliar a militância com o trabalho, a maternidade e os cuidados com uma filha que possui TDAH. Ela destacou a criação, dentro da CONAQ, de um coletivo voltado às mães atípicas, iniciativa que procura garantir condições para que essas mulheres continuem participando das decisões.
Além das responsabilidades familiares, as três coordenadoras enfrentaram a desconfiança provocada pela idade. Por serem jovens, eram frequentemente tratadas como “meninas” incapazes de conduzir uma articulação política de grandes proporções.
A certificação se tornou também uma resposta a essa desconfiança.
A educação como caminho de volta
Mauricéia Garcia de Freitas relacionou a luta quilombola à sua formação como pedagoga. Ao ingressar na área de educação da Federação das Organizações Quilombolas do Município de Barreirinha, enfrentou resistência porque vivia em Parintins.
Para ela, porém, a saída da comunidade não representou abandono. Foi uma estratégia para buscar formação e retornar com novos instrumentos de atuação.
“Nós viemos para outro município em busca de educação, para poder voltar aos nossos quilombos e levar o que aprendemos”, explicou.
A relação de sua família com a educação atravessa diferentes gerações. Seu avô estudou até a antiga quinta série e se tornou professor no Rio Andirá. Quando criança, precisava terminar rapidamente os trabalhos domésticos e fugir para frequentar a escola, mesmo sabendo que poderia ser castigado ao retornar.
Mauricéia também interrompeu os estudos depois de engravidar ainda jovem. Anos mais tarde, decidiu voltar à universidade.
“Eu parei de estudar para fazer filho. Agora parei de fazer filho para voltar a estudar”, brincou, arrancando risos do público.
O curso de Pedagogia não era inicialmente sua primeira escolha, mas correspondia a um sonho de seu pai. Depois das primeiras experiências em sala, passou a compreender a profissão como continuidade da história familiar e instrumento de resistência.
Sua trajetória também influencia as filhas. Uma delas é branca e loira e precisa mostrar fotografias da mãe aos colegas, que duvidam do parentesco. A outra é negra, usa os cabelos cacheados e afirma publicamente sua identidade. Apesar das diferenças de aparência, ambas se reconhecem como quilombolas.
O exemplo permitiu a Mauricéia mostrar que o pertencimento não pode ser determinado apenas pelo fenótipo. Ele envolve história familiar, memória, vínculo comunitário e participação nas lutas coletivas.
A pedagoga pretende contribuir para a implantação de uma educação quilombola que alcance não apenas as escolas localizadas dentro das comunidades, mas também os estudantes que vivem em Parintins e Barreirinha.
Quando a cultura também organiza politicamente
Marcos Moura lembrou que, no final do século XIX, a região do Baixo Amazonas chegou a ser conhecida como “Quarteirão do Mocambo”. Nomes como Mocambo do Arari e Mocambo do Mamuru registram uma presença negra que nem sempre recebeu atenção da historiografia oficial.
Essa história também permanece nas manifestações culturais. O documentário registra cantos e danças como “Onça Te Pega”, além de referências ao gambá, ao lundu, ao samba, aos bois e a outras expressões mantidas pelas comunidades.
Essas práticas não funcionam somente como lembranças de um passado distante. Elas comunicam pertencimento, atualizam memórias e fortalecem a organização coletiva. É nesse movimento que a experiência se torna folkcomunicacional: as comunidades utilizam seus próprios agentes, linguagens e circuitos para narrar sua história.
A fala da anciã encontra a articulação política da jovem liderança. A dança se converte em afirmação territorial. A árvore genealógica transforma a memória familiar em documento. O filme leva a voz da comunidade a novos públicos sem substituir quem vive aquela história.
Ao final da mesa, Marcos anunciou o desejo de homenagear Seu Clarizo em uma futura edição da revista Etnias e aceitou o convite para colaborar em um documentário sobre a trajetória do patriarca e a formação do quilombo Santa Izabel.
A proposta aponta para uma continuidade: registrar as histórias enquanto seus protagonistas ainda podem narrá-las, comentar as imagens e decidir como desejam ser representados.
Reconhecimento não cria uma comunidade
A certificação recebida pelo quilombo Santa Izabel não criou a comunidade. Tampouco inaugurou sua memória, suas práticas ou suas relações de pertencimento.
O documento reconheceu institucionalmente uma história que começou muito antes dele.
A principal contribuição da Mesa 7 foi mostrar como essa história se movimenta entre gerações. Maria Amélia, Tia Sabá e Dona Celina mantiveram vivas as narrativas, os cantos, as curas e as práticas comunitárias. Leilane, Mauricéia e Clarice transformaram esse patrimônio em cadastros, projetos, articulação política e reivindicação de direitos.
As novas lideranças já pensam em quem continuará o trabalho. Falam nas filhas, nas sobrinhas e nas jovens que dizem desejar ser como as mães e as tias.
É nesse fluxo que a memória deixa de ser apenas recordação. Ela se torna instrumento de reconhecimento, educação, comunicação e defesa do território.
Como sintetizou Leilane, o quilombo não permanece apenas no lugar de onde uma família veio. Ele acompanha seus integrantes, organiza suas relações e orienta suas lutas.
O corpo também é território.
O documentário “Cultura e Resistência Negra no Baixo Amazonas” está disponível gratuitamente no YouTube. A gravação das Mesas 6 e 7 pode ser assistida no canal Portal da Ciência. A programação completa da Jornada está no site oficial do evento.




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