“Nomear é uma atitude política”: Jornada debate como o jornalismo pode enxergar as Amazônias
Em mesa da III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação, Vilso Santi e Francisco Aquinei Timóteo relacionaram a crise do jornalismo aos conflitos territoriais, às representações simplificadoras da região e à dificuldade de reconhecer a diversidade de sujeitos e saberes amazônicos.
A crise do jornalismo não começa quando uma redação fecha, quando uma empresa perde anunciantes ou quando o público deixa de comprar jornais. Ela também aparece quando uma notícia não consegue nomear a violência, quando um território é reduzido a um estereótipo e quando as histórias de povos indígenas, comunidades negras e moradores das periferias são contadas sem que essas pessoas sejam ouvidas.
Essa foi uma das principais reflexões da mesa “Jornalismo em tempos de crise”, realizada em 20 de junho de 2022, durante a III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação e o V Encontro de Comunicação de Parintins — Encomtins.
Participaram do debate o professor Vilso Junior Santi, da Universidade Federal de Roraima, e o professor Francisco Aquinei Timóteo Queiroz, da Universidade Federal do Acre. A atividade foi mediada, durante a transmissão, pelo professor Marcelo Rodrigo da Silva, do curso de Jornalismo do ICSEZ/UFAM. Os debatedores também constam na página oficial da mesa.
Realizados entre os dias 20 e 22 de junho de 2022, no campus da UFAM em Parintins, os dois eventos reuniram conferências, mesas-redondas, apresentações de pesquisas e atividades culturais. A proposta era refletir sobre as relações entre comunicação, cultura e crise do jornalismo, especialmente diante das emergências sanitárias, ambientais e humanitárias enfrentadas pelos povos amazônicos. A programação divulgada pela UFAM também marcou a retomada dos encontros presenciais após o período de atividades remotas.
Uma crise que não começou agora
Vilso Santi iniciou sua exposição com duas perguntas: o jornalismo na Amazônia está em crise? E a própria Amazônia está em crise?
A resposta exigia olhar para além da conjuntura imediata. Segundo o pesquisador, a crise amazônica não é um acontecimento isolado ou recente. Ela acompanha o processo histórico de ocupação colonial, de disputa territorial e de imposição de projetos econômicos sobre os povos que habitam a região.
Santi retomou o século XVIII, quando a Coroa portuguesa intensificou a ocupação do Norte e a exploração dos territórios amazônicos. A violência que acompanhou aquele processo, argumentou, permanece reconhecível nas invasões de terras indígenas, no garimpo ilegal, no desmatamento e nos ataques contra comunidades tradicionais.
O professor chamou a atenção para o fato de que a Amazônia ultrapassa as fronteiras brasileiras. Trata-se de uma região compartilhada por diferentes países, povos, línguas, culturas e projetos políticos. Falar em uma Amazônia única significa desconsiderar a diversidade que constitui o território pan-amazônico.
Mapas apresentados durante a exposição mostraram a proximidade entre áreas de conflito, desmatamento e expansão de atividades econômicas. Para o pesquisador, o chamado arco do desmatamento poderia ser entendido como uma imagem da “invasão capitalista” da Amazônia.
O discurso do desenvolvimento costuma apresentar a exploração dos recursos naturais como caminho inevitável para o crescimento econômico. Seus efeitos concretos, entretanto, incluem mortes, expulsões, contaminação dos rios, desestruturação das comunidades e desaparecimento de modos de vida.
No momento em que a mesa foi realizada, o país ainda acompanhava a repercussão dos assassinatos do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, ocorridos no Vale do Javari. Santi aproximou o caso das violências enfrentadas por povos Yanomami e por outras populações atingidas pelo garimpo em Roraima.
A morte dos dois profissionais não foi apresentada como episódio desconectado. Ela fazia parte de um cenário no qual conhecer, registrar e denunciar os conflitos amazônicos também podia representar um risco de vida.
A Amazônia vive uma “policrise”
Para Vilso Santi, não existe apenas uma crise ambiental, humanitária, econômica ou jornalística. Essas diferentes crises estão interligadas e precisam ser interpretadas como uma “policrise”.
O desmatamento interfere no clima. A crise climática afeta a produção de alimentos, os rios, a mobilidade e a permanência das comunidades. A exploração territorial gera conflitos e violações de direitos. O jornalismo, por sua vez, pode revelar essas relações ou contribuir para ocultá-las quando transforma cada acontecimento em um fragmento isolado.
A crise do jornalismo não está, portanto, separada da crise amazônica. Quando a imprensa não consegue contextualizar um conflito ou permanece dependente da versão fornecida pelos grupos economicamente mais poderosos, ela passa a fazer parte do problema.
O pesquisador recuperou o sentido da palavra crise como momento de decisão. Para decidir, porém, é necessário produzir um diagnóstico. E um diagnóstico ruim conduz a escolhas igualmente equivocadas.
“Conhecer melhor para decidir melhor”, sintetizou.
A tarefa do jornalismo, nesse contexto, seria observar de que modo as crises estão relacionadas, quem sofre seus efeitos, quais interesses estão em disputa e quais conhecimentos podem contribuir para transformar aquela realidade.
Cinco princípios para pensar o jornalismo
Santi apresentou uma espécie de carta de princípios para orientar pesquisas e práticas comunicacionais na Amazônia. Os eixos propostos foram historicização, contextualização, culturalidade, perspectiva etnográfica e práxis.
Historicizar significa compreender que os conflitos possuem antecedentes. Uma notícia sobre garimpo, por exemplo, não deveria começar somente quando uma operação policial é realizada. É necessário recuperar os processos de ocupação, as políticas econômicas, as disputas pela terra e as formas de resistência construídas pelas comunidades.
Contextualizar exige relacionar os fatos às formas de vida existentes no território. Números e documentos são importantes, mas não substituem o encontro com as pessoas afetadas.
O princípio da culturalidade recorda que comunicação e cultura não podem ser separadas. As práticas comunicacionais amazônicas são atravessadas por línguas, narrativas, rituais, festas, movimentos sociais, cosmologias e experiências históricas próprias.
A perspectiva etnográfica desloca o jornalista e o pesquisador em direção ao cotidiano. O objetivo não é falar abstratamente sobre “os indígenas”, “os ribeirinhos” ou “a população da floresta”, mas encontrar sujeitos concretos, compreender como vivem e reconhecer as maneiras pelas quais interpretam os acontecimentos.
“Se a gente não for ao encontro das pessoas, das suas formas de ver, viver e contar, aquilo que estamos nos propondo a fazer perde o sentido”, advertiu.
Por fim, o princípio da práxis estabelece que o conhecimento precisa manter alguma relação com a transformação da realidade. Não basta pesquisar uma comunidade, publicar um artigo e levar todos os resultados para universidades distantes.
Santi relatou que organizações indígenas de Roraima demonstravam resistência a autorizar pesquisas justamente porque estavam cansadas de receber investigadores que coletavam informações, publicavam seus trabalhos e não deixavam nenhuma contribuição no território.
O mesmo problema pode ocorrer no jornalismo. A comunidade fornece informações, imagens, relatos e histórias, mas desaparece assim que a reportagem é publicada.
“Sem ação não há transformação”, afirmou o pesquisador.
O jornalismo também precisa ser pensado no plural
Francisco Aquinei iniciou sua participação observando que Vilso havia falado em Amazônias, no plural. Para ele, o jornalismo também precisa ser compreendido dessa maneira.
As práticas realizadas no Acre, em Roraima, no Amazonas ou nos grandes centros do Sudeste não são idênticas. Cada território apresenta condições econômicas, sociais, históricas e culturais específicas.
Rio Branco não é Boa Vista. Parintins não é Manaus. Uma comunidade ribeirinha não pode ser explicada pelos mesmos critérios empregados para interpretar um bairro de uma metrópole.
Apesar disso, a formação profissional ainda costuma apresentar como universais modelos jornalísticos produzidos no Centro-Sul do país. Estudantes aprendem técnicas e conceitos sem necessariamente discutir como eles funcionam diante das realidades amazônicas.
Aquinei propôs entender o jornalismo como prática reveladora, problematizadora e produtora de inteligibilidade. Em outras palavras, uma atividade capaz de ajudar a sociedade a compreender relações que não estão imediatamente visíveis.
A grande reportagem teria um papel estratégico nesse processo. Ao contrário da notícia fragmentada, ela permite acompanhar personagens, recuperar antecedentes, observar contradições e aproximar acontecimentos aparentemente separados.
O professor mencionou o trabalho de Eliane Brum como exemplo de uma reportagem interessada nas experiências e nos sujeitos que frequentemente permanecem fora do noticiário. Em vez de tratar a fonte apenas como fornecedora de uma declaração, o repórter procura compreender o mundo a partir do qual aquela pessoa fala.
Quando a realidade vira um mosaico de fragmentos
Aquinei criticou aquilo que chamou de jornalismo mosaico: uma cobertura composta por fragmentos que não permitem compreender as relações sociais, culturais e históricas envolvidas em determinado acontecimento.
Uma declaração é publicada sem antecedentes. Uma morte transforma-se em número. Uma imagem é retirada de seu território e apresentada como curiosidade. O público recebe partes da realidade, mas não dispõe de elementos para reconhecer como elas estão relacionadas.
O jornalismo pode informar que centenas de milhares de pessoas morreram durante uma pandemia, por exemplo, sem mostrar quem eram aquelas pessoas, quais ausências deixaram e que decisões políticas interferiram no acesso a medicamentos, leitos hospitalares e vacinas.
Os números são necessários, mas não dão conta sozinhos da experiência da perda.
Para Aquinei, a crise contemporânea do jornalismo também é uma crise de identidade e de linguagem. A imprensa demonstra dificuldade para classificar os acontecimentos e, em algumas situações, prefere recorrer a um “contorcionismo verbal” em vez de enfrentar o significado das palavras.
Declarações violentas são convertidas em “falas polêmicas”. Atitudes antidemocráticas são tratadas como opiniões fortes. O racismo pode ser suavizado como mal-entendido, enquanto ataques a minorias são apresentados como controvérsias entre dois lados equivalentes.
“Nomear é situar, nomear é classificar e, principalmente, nomear é uma atitude política”, afirmou.
A postura política descrita pelo pesquisador não significa adesão partidária. Representa assumir a responsabilidade de reconhecer os acontecimentos pelo que eles são.
“Racismo é racismo, transfobia é transfobia, fascismo é fascismo”, exemplificou.
Quando o jornalismo evita essas palavras, a barbárie corre o risco de ser naturalizada.
A cobra que chegou à primeira página
Um dos exemplos mais cotidianos apresentados por Aquinei foi o das notícias sobre animais encontrados dentro de casas amazônicas.
A imagem de uma cobra em uma residência pode rapidamente chegar às páginas de veículos nacionais e alcançar milhões de visualizações. Em geral, a matéria oferece poucos elementos além da fotografia e da localização.
Pode parecer apenas uma pauta curiosa, mas a repetição contribui para representar a Amazônia como lugar distante, exótico e perigoso, onde os moradores estariam permanentemente cercados por animais.
“É aquela ideia de que, a qualquer momento, a gente vai encontrar uma cobra ou sair abraçado com a cobra”, ironizou.
Enquanto pautas desse tipo conquistam espaço por atenderem às expectativas de públicos externos, conflitos relacionados à moradia, ao saneamento, à educação, à cultura e à desigualdade podem permanecer sem cobertura.
O problema não está em noticiar o aparecimento do animal. Está em transformar a excepcionalidade em principal imagem de uma região complexa.
A mesma simplificação ocorre quando bairros periféricos são descritos como territórios completamente dominados por facções. A classificação apaga moradores, trabalhadores, estudantes, organizações comunitárias e outras formas de vida que coexistem naquele espaço.
Um jornalismo que reconheça seus saberes localizados
Ao discutir alternativas para a crise, Aquinei recorreu ao conceito de jornalismo de subjetividade desenvolvido por Fabiana Moraes.
A subjetividade não seria uma autorização para abandonar a apuração ou inventar acontecimentos. Ela significa reconhecer que o jornalista é um sujeito social, atravessado por experiências, valores, identidade, gênero, raça, classe e posição geográfica.
Nenhum repórter observa o mundo a partir de lugar nenhum. O problema surge quando uma perspectiva particular — frequentemente branca, masculina, urbana e de classe média — é apresentada como se fosse universal e inteiramente neutra.
A discussão dialoga com a ideia de saberes localizados, de Donna Haraway. As pessoas conhecem o mundo a partir de suas experiências e posições. Por isso, diversificar as fontes não é somente incluir diferentes personagens em uma reportagem. É permitir que outros conhecimentos interfiram na maneira como os acontecimentos são compreendidos.
Aquinei sugeriu que as redações abandonem suas fontes habituais, como o “economista de estimação” ou o médico sempre consultado, e procurem outros sujeitos capazes de explicar as realidades noticiadas.
Indígenas, pessoas negras, mulheres, moradores das periferias e representantes de comunidades tradicionais não devem aparecer apenas como vítimas ou ilustrações. Precisam ser reconhecidos como sujeitos produtores de interpretação e conhecimento.
O perigo de não compreender o que se noticia
Durante o debate, a professora Helena Theodoro chamou a atenção para a formação eurocentrada dos jornalistas e para o desconhecimento em relação às culturas indígenas e negras.
“O lugar de fala que o jornalista ocupa tem que ser o lugar do conhecimento do que ele está vendo”, defendeu.
Segundo Helena, práticas religiosas e culturais que não correspondem ao repertório dominante costumam ser representadas como inferiores, primitivas ou demoníacas. O jornalista pode dominar o vocabulário profissional, mas ainda assim não saber interpretar aquilo que está diante de seus olhos.
Vilso Santi acrescentou que ninguém é obrigado a conhecer antecipadamente todas as culturas e realidades. O problema mais grave seria a ausência de preocupação em aprender.
“A falta de preocupação em conhecer é o que me incomoda muito mais”, respondeu.
Buscar informações, reconhecer lacunas, ouvir os sujeitos e estudar o contexto deveriam ser procedimentos básicos da profissão.
Aquinei recordou a cobertura da perseguição a Lázaro Barbosa, em Goiás, em 2021. Declarações que associavam o fugitivo a um suposto pacto demoníaco foram reproduzidas pela imprensa e contribuíram para reforçar preconceitos contra terreiros e religiões afro-brasileiras.
Para o pesquisador, o jornalista não deveria apenas reproduzir a afirmação de uma autoridade policial. Caberia procurar especialistas e comunidades religiosas, verificar a informação e avaliar as consequências sociais daquela associação.
O jornalismo possui uma dimensão pedagógica. Quando reproduz preconceitos, ajuda a legitimá-los.
O estudante que não viu a rebelião
Para explicar a diferença entre olhar e efetivamente enxergar, Aquinei contou uma história vivida durante sua formação.
Um estudante foi enviado a um presídio para entrevistar o diretor sobre as condições dos detentos. Ao chegar ao local, encontrou uma rebelião em andamento, com fumaça e colchões sendo queimados.
O servidor informou que o diretor não poderia conceder a entrevista justamente por causa da rebelião. O aluno guardou seus equipamentos e voltou sem matéria.
Ele estava diante de um acontecimento jornalisticamente muito mais relevante do que a pauta inicialmente planejada, mas não conseguiu reconhecê-lo. Havia sido enviado para realizar uma entrevista e permaneceu preso ao roteiro, mesmo quando a realidade se impôs diante dele.
“O jornalista precisa olhar para ver”, resumiu Aquinei.
A história revela um desafio que ultrapassa a técnica. O repórter pode saber operar a câmera, utilizar o gravador e formular perguntas, mas ainda assim não compreender o território ou identificar o que está acontecendo diante dele.
Perguntas difíceis e fontes que quase nunca falam
A complexificação do jornalismo também exige fazer perguntas difíceis às fontes oficiais.
Aquinei mencionou coberturas de operações policiais nas quais apenas a versão dos agentes de segurança é apresentada. Os moradores da comunidade, as famílias das vítimas e as pessoas que testemunharam a ação permanecem sem voz.
Quando a polícia afirma que uma pessoa reagiu, o jornalismo precisa verificar essa versão. Quando um bairro inteiro é classificado como criminoso, é necessário procurar quem vive ali e mostrar a diversidade daquela população.
A aproximação não elimina o conflito nem transforma o jornalista em porta-voz de uma comunidade. Ela amplia a apuração e impede que uma única perspectiva seja aceita automaticamente como verdade.
Como exemplos de veículos que trabalham com investigações aprofundadas e perspectivas territoriais, o pesquisador citou a Amazônia Real, a Agência Pública e a revista Piauí.
Essas experiências demonstram que o bom jornalismo amazônico não depende de alguém vir de fora para explicar a região. Ele já é produzido por repórteres e organizações que conhecem os territórios, acompanham os conflitos e mantêm relações duradouras com suas fontes.
A crise como oportunidade de transformação
Ao final da mesa, os participantes convergiram na defesa de um jornalismo mais próximo dos sujeitos, atento aos afetos e disposto a questionar suas próprias rotinas.
Marcelo Rodrigo observou que as plataformas digitais fragmentaram a atenção do público e retiraram dos veículos tradicionais parte do controle sobre a audiência. As pessoas não apenas escolhem o que consumir, mas produzem conteúdos e contestam as narrativas jornalísticas.
Esse público mais autônomo também exige novas relações de confiança. A autoridade do jornalista já não pode depender exclusivamente do nome de uma emissora ou de um jornal. Precisa ser construída por meio da transparência, da qualidade da apuração e da capacidade de compreender diferentes experiências.
A mesa não apresentou uma fórmula simples para resolver a crise do jornalismo. Em vez disso, propôs um conjunto de deslocamentos: da Amazônia singular para as Amazônias plurais; do acontecimento isolado para o contexto; da fonte passiva para o sujeito de conhecimento; da suposta neutralidade para a responsabilidade; e da observação distante para o encontro.
Em uma região marcada por conflitos ambientais, econômicos e humanitários, o jornalismo não pode limitar-se a contemplar a crise.
Precisa aprender a reconhecê-la, nomeá-la e descobrir, ao lado das pessoas que vivem nos territórios, quais perguntas ainda não foram feitas.




Comentários