Netos de Luiz Beltrão compartilham memórias de afeto e cultura popular no Intercom
Iara Beltrão e Luiz Beltrão Neto participaram do GP de Folkcomunicação em Brasília e recordaram a convivência familiar, a relação com Zita e o interesse do avô pelas formas populares de comunicação

“Para a gente era o vovô, né?” Foi a partir desse lugar que Iara Beltrão se apresentou aos pesquisadores reunidos no GP de Folkcomunicação, em 3 de setembro, durante o 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Brasília. Ao lado do irmão, Luiz Beltrão Neto, ela compartilhou lembranças do cotidiano do criador da Folkcomunicação: as leituras no gabinete, os almoços de domingo, as brincadeiras com os netos e a paixão pela companheira, Zita de Andrade Lima.
A conversa aconteceu no ano em que se completam quatro décadas da morte de Luiz Beltrão, em 24 de outubro de 1986. Ao longo do encontro, os irmãos também falaram sobre a descoberta da dimensão acadêmica do avô e imaginaram como ele reagiria às transformações contemporâneas da comunicação.
“Mas acho que a gente talvez não tivesse a dimensão, pela proximidade familiar a gente não tinha a dimensão de quem era Luiz Beltrão, né?”, observou Luiz. A proposta de Iara para aquela tarde era justamente contar quem havia sido o avô “para além da teoria”.
Livros no gabinete e palavras no dicionário
Nas lembranças de Iara, Beltrão estava frequentemente cercado de livros. O espaço de trabalho era chamado de birô ou gabinete, com uma mesa grande, estantes e pequenas figuras de bandas de pífano que ele reunia nas viagens pelo interior de Pernambuco. A neta recordou a curiosidade de perguntar quanto tempo levava para terminar suas leituras e o hábito de encontrá-lo sempre com um livro nas mãos.
O som da máquina de escrever atravessava a noite na memória de Luiz. Os irmãos, porém, guardaram impressões diferentes daquele ambiente: para ele, o caminho até a mesa iluminada parecia escuro; para Iara, o gabinete era espaçoso, fresco e bonito. A conversa acolheu essas diferenças de lembrança, assim como as distintas experiências de proximidade com o avô.
A relação com as palavras também aparecia nas brincadeiras. Luiz contou que Beltrão propunha desafios a ele e à irmã Paula: “Ele dizia uma palavra e a gente tinha que achar no dicionário. Quem achasse primeiro ganhava lá três cruzeiros, cinco cruzeiros, né?”. Uma dessas palavras ficou guardada até hoje: incólume. Luiz encontrou o verbete primeiro e recebeu o prêmio, mas o avô acabou dando dinheiro à outra neta também. “Mas eu não vou questionar essas justiças de avô, né? Eu já sou pai, sei que essas justiças não são lá tão exatas assim".
Iara destacou a disponibilidade do avô para conversar sobre os assuntos que lhe despertavam curiosidade: “Porque meu avô era isso: para mim, ele era uma pessoa que sabia absolutamente tudo, de tudo. Era uma pessoa extremamente culta, tão inteligente”.
Zita e a casa aberta aos amigos
Zita ocupou um lugar central nas recordações dos dois irmãos. Luiz contou que a avó brincava com o amor de Beltrão por Olinda, tratando a cidade como uma concorrente. Iara lembrou os jogos de sedução que o casal mantinha mesmo depois de muitos anos juntos. Em uma viagem a Paris, segundo ela, Zita decidiu surpreender o marido pintando os cabelos de loiro e comprando um vestido vermelho, combinação que ele costumava elogiar.
Ao falar dos almoços de domingo, Iara fez questão de lembrar: “A minha avó também era intelectual”. Jornalista, professora universitária e profissional do rádio, Zita foi diretora executiva do Instituto de Ciências da Informação e desenvolveu trabalhos na literatura e no teatro. Na rotina familiar descrita pelos netos, os filhos também se encarregavam de levar pratos para os encontros.
A convivência tinha seus pequenos rituais. Nas tardes de terça-feira, Beltrão visitava a filha mais velha e levava uma rosca para o lanche. Aos domingos, a família se reunia em sua casa. No Natal e na Páscoa, havia espaço cativo para os amigos. "Vovô e vovó faziam questão de agregar”, recordou Luiz. “Para ele, família era coisa ampliada”.
As lembranças também trouxeram nuances ao temperamento de Beltrão. Os netos falaram de sua pouca paciência com crianças, mas recordaram cócegas, brincadeiras e manifestações de carinho. Iara contou que chegou a gravá-lo cantando músicas de duplo sentido em um pequeno gravador, registro que se perdeu. Luiz resumiu sua própria lembrança: “Por mais que ele fosse em parte meio sisudo, eu lembro dele mais sorrindo”.
A comunicação nas manifestações populares
O interesse pelas culturas populares aparecia nos objetos do gabinete, nas viagens e na atenção às festas. Iara lembrou a proximidade do avô com o maracatu e outras manifestações pernambucanas. Ao comentar como ele participava desses ambientes, destacou o olhar de observador: “Ele não seria um folião, ele seria mais um observador, tá ali no meio e tal. Aqui em Brasília, não tanto, né?”.
Luiz contou que sua aproximação com a obra do avô ganhou força com a leitura da tese e de volumes da Coleção Beltranianas. A partir dessas leituras, passou a reconhecer questões da Folkcomunicação em experiências do próprio cotidiano. Uma delas aconteceu durante uma roda de jongo na Casa de Cultura Martinha do Coco, no Paranoá, quando ouviu uma explicação sobre as mensagens que circulam nos cantos e nos pontos.
“E nisso eu vi muito o meu avô, né? Essa capacidade de perceber”, afirmou. O relato encontra uma questão central da Folkcomunicação: compreender como grupos populares produzem e compartilham informações, ideias e reivindicações por meio de suas próprias práticas culturais. A lembrança do neto trouxe essa discussão para uma experiência de encontro com uma manifestação viva.
O que Beltrão diria sobre o presente
Provocados pelos participantes do GP a imaginar o avô diante do mundo atual, os irmãos destacaram sua ironia, a curiosidade e a atenção às mudanças. “Ele acompanharia o tempo, sabe? Porque eu acho que ele tava à frente do tempo e ele acompanharia o tempo. Ele não era uma pessoa de se espantar com o mundo”, disse Iara.
A conversa chegou à inteligência artificial e à circulação de desinformação. Na avaliação de Luiz, uma possível preocupação do avô estaria nos efeitos dessas transformações sobre a capacidade de pensar e se expressar: “Eu acho que ele estaria preocupado com esse aspecto, a potência de burrificação das pessoas, da inabilidade de escrever, de pensar. Isso seria uma preocupação”.
Iara associou a reflexão ao cuidado de Beltrão com a precisão e a qualidade da comunicação. “E aí, quando você tá falando com a comunicação instantânea também, que não necessariamente se atém a fontes fidedignas para poder estar reproduzindo, né, disseminando uma série de informações que muitas vezes não têm qualquer amparo na realidade, isso para ele seria algo preocupante”
Um legado que continua em circulação
A preservação da memória familiar apareceu como uma tarefa ainda em andamento. Iara relatou a busca por exemplares que faltavam em sua Coleção Beltranianas. Luiz falou de cartas amorosas escritas pelo avô a Zita que a família tem dificuldade de localizar. Fotografias, livros, correspondências e gravações surgiram na conversa como registros a serem reunidos e preservados.
“Infelizmente, eu não tenho a obra completa do vovô, lá, dos outros livros todos, mas a gente faz questão, assim, de manter um pouco viva essa memória mesmo, porque era uma pessoa muito querida, uma pessoa que foi muito especial”, afirmou Iara.
No encerramento, a Rede Folkcom entregou aos netos um bordado em homenagem a Beltrão. A escolha do trabalho artesanal foi apresentada como uma aproximação com o legado do pesquisador. Para Luiz, encontrar pessoas dedicadas a estudar e desenvolver o pensamento do avô trouxe também o desejo de participar do grupo. Todos, evidentemente, serão sempre membros honorários da Rede.
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Confira a transcrição integral
Iara Beltrão: Boa tarde a todos. É interessante, assim, ouvir um pedaço do simpósio todo dedicado a estudar a teoria do meu avô, porque, para a maior parte das pessoas, é isso, né? Luiz Beltrão, grande teórico. Para a gente era o vovô. Então, é claro que, ao longo da vida, a gente teve contato por questão não só da obra dele, né? Da teoria toda, mas também com algumas particularidades, eu acho, que fizeram ser quem ele era, a pessoa que tinha capacidade de entender o mundo dessa forma.
Quando o Luiz me falou sobre esse convite para vir conversar com vocês, eu entendi como uma roda de conversa. A gente poder contar um pouco quem era o meu avô para além da teoria. Meu avô, que era profundamente apaixonado pela minha avó, por Olinda, pelas viagens e pela própria comunicação. Então, eu revisitei, assim, minhas memórias.
Eu sou a segunda neta mais velha. A minha prima mais velha, ela é mais velha do que eu 40 dias. Então, infelizmente, ela não está aqui hoje, mas a gente brinca porque a gente teve, assim, esse contato de ir muito para a casa deles, dos meus avós, e passar com eles finais de semana. Eu fazia muito isso, até mais do que a minha prima. Então, assim, das memórias mais antigas que eu tenho de criança é estar com eles atrás em um Corcel que ele usava para a gente ir para a chácara.
Meu avô, mesmo depois de vir para Brasília, ele tinha um contato com a terra. E isso é uma coisa muito interessante, porque o meu avô era uma pessoa profundamente urbana. No entanto, ele ainda assim gostava da ideia de ter a casa dele, de ter um lugar onde ele pudesse plantar uma horta, onde ele pudesse receber amigos.
E aí a gente tinha essa chácara perto de Luziânia, é uma cidade em Goiás, mais um pouquinho próximo de Brasília, uns 80 quilômetros daqui. E a gente ia para lá muito nos finais de semana, os filhos todos estavam reunidos por ali. Eventualmente, eles acabaram vendendo essa chácara. Uns anos depois, eles saíram do apartamento também e foram para uma casa num setor.
Vocês devem ter passado todos aqui quando vieram para cá, chama Park Way. Era um setor que tem chácaras em torno de 20 mil metros [quadrados], e aí ele teve a “Mansão Olinda”. Mas a casa dele, mesmo na Asa Sul, depois nessa lá no Park Way, ele tinha o lugar que era o bureau dele. Ele ou chamava de birô, ou ele chamava de gabinete. Ele não chamava de escritório. “Para o meu birô.”
E, chegando lá, tinha uma mesa bem grande, onde ele normalmente estava, sempre empilhada de livros, também bastante em volta, com muitas estantes. E eu lembro muito que ele tinha nas estantes aquelas bandinhas de pífaro pequenininhas, assim, normalmente um monte daqueles bonequinhos e bandinhas de pífaro que ele ia recolhendo nas viagens que ele fazia ao interior de Pernambuco.
Então, tinha um monte dessas pequenas estatuetas ali, e ele adorava. Aquilo era algo bastante característico dele. Era uma pessoa que gostava profundamente de ler, então ele sempre estava com um livro na mão, ou mais de um. E eu lembro de perguntar para ele quanto tempo que ele gastava lendo um livro daqueles. Ele falou assim: “Minha filha, não mais do que dois dias, porque a pessoa tinha uma história para contar. Então, eu tenho que entender o que que ela tem ali para me dizer”. E ele lia, então, compulsivamente, um livro atrás de um outro, e estava sempre atualizado sobre tudo.
Vocês devem conhecer essa história até mais do que eu, mas, quando ele veio para Brasília, ele veio a convite da Universidade de Brasília, né? Para fundar o departamento de comunicação, o curso de jornalismo. No entanto, ele foi considerado esquerdista demais pelo regime para poder ficar na Universidade de Brasília e depois foi considerado direitista demais pelos esquerdistas para poder voltar para a Universidade de Brasília. Mas acabou sendo convidado para o CEUB, né, universidade hoje dia também, onde ele também fundou ali a parte do curso de comunicação e onde ele se realizou muito, sendo o professor Beltrão.
Uma pessoa interessantíssima. Não tinha muita paciência com netos, não, mas eu acho que fui talvez uma das poucas com quem ele tinha uma relação, assim, mais próxima. Adorava dormir depois do almoço. Ele dizia que era hora do sonsono e da cancama, e ele brincava muito com isso.
A gente ainda tem um dos meus tios, ele é vivo, o tio Paulo Henrique, é o quarto filho dele. Mas o meu tio se submeteu recentemente a uma cirurgia e aí não pôde estar presente, [porque] ainda tá se recuperando dessa cirurgia.
Luiz Beltrão Neto: E ela vai contar mais alguns detalhes daqui a pouco, algumas histórias mais pitorescas, né? Mas, assim, se perguntarem assim: quem é Luiz Beltrão? É vovô. Eu acho que a gente foi um pouco, talvez, blindado... Eu não sei se a palavra é “blindado”, né? Mas acho que a gente talvez não tivesse a dimensão, pela proximidade familiar a gente não tinha a dimensão de quem era Luiz Beltrão, né? A gente não tinha [a dimensão de] tamanha envergadura. Mas a gente foi tendo, né? E vovó também, né? Vovó era uma mulher fantástica, né? Um capítulo à parte na vida do vovô é a dona Zita. A dona Zita é um capítulo à parte. E ela comentou bem: ele tinha duas grandes paixões, Olinda e vovó, vovó e Olinda. A vovó dizia que ela tinha ciúmes de Olinda. E achava que às vezes ele gostava mais de Olinda do que dela, né?. Uma vez ela estava lendo sobre o vovô e falou assim: “Minha concorrente”. - Quem? “Olinda...”
Interessante que vovô, de fato, não era uma pessoa muito afetuosa, mas as minhas primeiras memórias do vovô eram de afeto. Eu lembro dele fazendo cócegas em minha irmã mais nova, a Paula, na barriga. Levantava a blusa e, com a barba dele malfeita, fazia cócegas na barriga, né? E ele sempre trazia para a nossa casa, né? Ele gostava muito, né? Ele chegava lá em casa, aí beijava, sempre beijava a minha mãe - a primogênita dele, na cabeça. Era um gesto tão bonito, assim, dele, de carinho, né? Na cabeça. Ele sempre trazia um pão doce, né? A gente chama aqui de rosca. Não sei como é que vocês chamam, né? A gente chama de rosca, um pão doce grande.
Iara Beltrão: Com creme.
Luiz Beltrão Neto: É, com recheio de creme. Um recheio de creme, né? Era típico dele fazer isso. Então, tinha esse zelo, em especial com mamãe, né? Então, mamãe tinha uma relação muito interessante com ele. E uma coisa muito marcante, duas coisas que eu queria chamar a atenção aqui no vovô: primeiro era a questão da casa dele, em especial nas festas de Natal e Páscoa, sempre tinha um outro convidado fora da família.
Então, o vovô e vovó faziam questão de agregar. Lembra de Valdomiro né? E outros que iam... Zé Marques... Então, eles faziam questão de agregar pessoas que normalmente estavam às vezes sozinhas e tal. Então, tinha essa preocupação de: “Onde você vai passar o Natal?”. “Sozinho, não, vai lá para casa.” Então, acho que, não sei se é como um bom nordestino, né, que gosta de uma casa cheia, né? Então, ele tinha realmente esse lado, né, de cuidado com os amigos, né? Papos longos, papos bons. Ele chamava... ele chamava a si mesmo de Lula 1, meu tio Luiz Antônio, Lula 2, eu era Lula 3, né? Então, ele brincava com esse jogo.
E um segundo aspecto que eu queria destacar no vovô era a fé. O vovô era muito religioso, né? Eu lembro, a gente ia à missa às vezes juntos, né? Ele impaciente com vovó, que a vovó se arrumava toda, e vovô buzinando no Corcel dele, né, para ir para a missa, não se atrasar, né? Interessante, e tem pouco tempo eu soube da relação que ele teve com a Unicap.
Betania Maciel: A origem da primeira revista de comunicação, foi fundada por ele, o [ICINFORM — identificação documental], o instituto, né, que ele cria na Católica. Você vê como a gente não conhece a história da gente, não é? No sentido profissional dos nossos familiares, né? Eu acho isso lindo!
Luiz Beltrão Neto: E a Unicap criou, então, a cátedra em homenagem a isso, né?
Betania Maciel: Isso, é a cátedra. E a sua vó Zita, eu conheci na Universidade Metodista de São Paulo, no ano de 1998, ela foi convidada pelo professor Marques de Melo para ter uma fala. E foi tão emocionante que a Sílvia - a esposa de Zé Marques-, ela se emocionou tanto... Porque eles conviviam muito, né?
Luiz Beltrão Neto: Que bonito, que bonito. E aí criaram a cátedra, eu até fiz uma fala. E quem chamou foi, na época, o reitor Pedro Rubens, né? Padre que eu conheço por outras vias. O vovô, na tese dele, ele conta um pouco a história da comunicação no Brasil. E, um capítulo interessante: ele se detém na questão da comunicação pré-cabralina. Primeiro ele faz um pequeno resgate. E depois, no período colonial, ele comenta um pouco dos jesuítas, né? O modo da comunicação, da facilidade de troca de cartas que Santo Inácio tinha, com as pessoas.
As pessoas me perguntavam muito: “De onde é que veio a fé do seu avô?”. Então, a mamãe comentava que ele gostava muito de vida de santos. E nisso, me identifiquei muito com o vovô: eu sempre gostei muito de vida de santos. E ele teve uma sacada e colocou isso na tese, que eu achei muito interessante.
Ele comenta que uma das características que ele percebeu na Companhia de Jesus, na época, o modo como ela rapidamente ascendeu dentro do poder na Igreja e fora da Igreja, foi a capacidade de comunicação. Foi porque Inácio, Santo Inácio, que fundou a Companhia de Jesus, ele trocava muitas cartas. São mais de sete mil ou 12 mil, agora não me recordo bem o valor, né, a quantidade. Acho que era mais de 12 mil cartas - desde informes e balanços, a “Como você está?”, “Me conte as novidades da sua vida”. E uma das coisas que ele pedia para os seus discípulos, os seus companheiros, né, da Companhia de Jesus, era: “Não se contentem com perceber a realidade eclesial, percebam a realidade social”.
Então, o vovô sacou muito isso. Eu acho que tá um pouco nessa formação, nessa origem dele, dessa sensibilidade, da questão do excluído, do marginalizado, né? De perceber como que o marginalizado, ele é visto ou não visto. Ele é invisibilizado, né? Como que eles se comunicam. Então, é interessante que quem lê a tese dele com atenção vai ver nas entrelinhas ali, né, esse olhar dele. Ele não colocou aquilo ali à toa, né? É porque foi uma forma que ele sacou que Inácio já fazia, né, de comunicação.
E eu acho isso muito, muito bonito, né? E um pequeno detalhe, um pouco particular meu: há pouco tempo, eu fui assistir com a minha esposa, numa cidade aqui perto de Brasília, do centro, lá no Paranoá, não sei quem aqui é daqui, né? Eu fui na Casa de Cultura Martinha do Coco e tava tendo uma roda de jongo. Vocês conhecem jongo? É uma espécie de dança dos quilombos.
E quem estava expondo e explicando o jongo, ele contava que o jongo tem cantos, danças e movimentos. E ele contando que nesses cantos – que eles chamam de pontos - eles fazem trocas de mensagens. Trocas cifradas. Às vezes passam uma receita de um remédio, uma receita de um tipo de comida, de alimentação, culinária. Às vezes, esses avisos: “Ó, tem alguém chegando aqui", “tem algum invasor aqui, um espião”... Ou, então, onde que vai ser a próxima guerrilha, a próxima tocaia que vão fazer. E nisso eu vi muito o meu avô, né? Essa capacidade de perceber. Ele fala isso, né? Ele falava isso, né? Como que essas pessoas atenuam a sede e a necessidade de comunicação.
Andriolli Costa: Em que momento você teve essa vontade de realmente ler a obra do seu avô?
Luiz Beltrão Neto: Isso não tem muito tempo, não. Isso tem cinco anos para cá. Lançaram uma coleção, né, a Beltranianas. Eu li alguns livros. Eu já tinha lido algumas coisas dele antes, mas essa da tese dele da folkcomunicação, quando lançou, eu recebi o exemplar e eu tava já muito ligado também com os jesuítas. E aí eu vi, quando eu cheguei nessa parte, aí eu me encantei, né?
Então, essa parte da tese tem mais tempo, mas essa desses últimos detalhes tem menos tempo. Acho que de quando lançaram a coleção. Quando que foi? Quando que foi? Eu pergunto agora, que eu tô em dúvida quando que foi.
Andriolli Costa: 2012.
Luiz Beltrão Neto: Então foi, né? Quando eu recebi, não sei se foi na mesma época, né? E aí eu recebi, aí eu comecei a ler e me interessei. Então, quem era o vovô? Era essa pessoa séria. O escritório dele era bastante lúgubre, né? O birô...
Iara Beltrão: Você achava?
Achava, achava. É porque, não, você vê, assim, era interessante, até no aspecto da iluminação era interessante, porque a mesa dele era iluminada, né? Mas, para chegar lá, né, você passava por um... Era mais escuro, né? Então, se via, de fato, pilhas e pilhas de livros, a velha máquina de escrever, né? E, à noite, eu dormi lá poucas vezes, mas escutava: “Tec, tec, tec, tec, tec”. Escrevia, escrevia à noite.
Iara Beltrão: Escrevia. Ele não dormia muito à noite, ele dormia muito tarde. Então, normalmente, a gente assistia televisão, ele gostava às vezes de ver até jornal, novela, tudo. E aí eu sentava, ele tinha uma poltrona bem grande, daquelas com um puff na frente, e eu me sentava normalmente ali do lado dele, e a gente ficava conversando. Eu fui realmente, assim, acho que a neta mais chegada. Como o Luiz falou, o vovô era muito ligado na minha mãe.
Nossa mãe, ela era a filha mais velha e ele era muito próximo a ela. E toda semana ele ia lá em casa. Ele tinha um dia na semana, era terça-feira, no final da tarde, ele tinha a rosca da terça-feira ali, que ele levava para a gente comer com ele. E isso daí foi até ele adoecer, até ele ter o AVC. Toda semana ele passava lá, que acho que ele ia antes da faculdade ou depois da faculdade, ele passava lá para lanchar com a gente. Era um hábito dele, né?
Mas o escritório, discordo disso completamente. O escritório era grande. Era grande. Ele gostava das coisas mais frescas e tudo, então, assim, não ficava com muito sol, mas era muito mais por questão de manter o frescor. Mas era isso, era bem espaçoso, eu achava muito bonito mesmo.
Luiz Beltrão Neto: As carrancas, né?.
Iara Beltrão: Sim, tinha as carrancas também e tudo, né? E era isso. Ele gostava muito dessas questões das manifestações culturais todas, né? Principalmente maracatu.
Ele gostava muito, ele achava isso tudo muito interessante. Então, assim, ele era chegado com todas essas manifestações. Bumba meu boi, ele [tirava?] muita foto também do bumba meu boi.
Andriolli Costa: Você falou de carrancas, assim, e ex-votos, sabe? Aqueles pedaços de corpos na forma de madeira, como braço, pé... Vocês lembram se tinha?
Iara Beltrão: Tinha. Tinha e acabou ficando com a minha outra tia, com a tia Sílvia. Acabou, acho que, um deles indo lá para a minha tia, mas eu acho que tinha, sim.
Eu comentei das viagens e o Luiz comentou dessa questão da religiosidade. Quando meus avós saíram do apartamento para ir para a casa, na verdade, a casa era mais barata e ele, basicamente, torrou a diferença toda numa viagem que ele fez com a minha avó para a Terra Santa. E aí eles tinham foto da minha avó em cima de camelo. De camelo! Gente!
Júnia Martins: E onde estão essas fotos?
Iara Beltrão: Essas fotos provavelmente estão em Fortaleza. Fortaleza, porque quem ficou com essas fotos foi um outro tio, o Antônio, que...
Luiz Beltrão Neto: O Lula 2 faleceu.
Iara Beltrão: Isso. E essas fotos tinham... Eu quero trazer de volta, porque tinha uns álbuns também de família, que era isso, porque você via o pessoal, assim, 1800 e alguma coisa, nas primeiras fotografias. Aí também tinha gente com pirâmide atrás e tudo. Essas fotos ficaram todas com esse meu tio.
Luiz Beltrão Neto: E cartas também, né? Havia mais cartas. Eu acredito que tenha com tia Sandra cartas que o vovô escrevia. A minha esposa chegou a ver algumas. Minha avó mostrou para ela algumas cartas que eram, assim, declarações que você ficava, que corava, sabe? Lindas, assim, maravilhosas, né? E aí essas cartas a gente tá com dificuldade de reencontrar, né? “Você tá com carta?” “Não, não estou com nenhuma, não.” Mas eram cartas, assim, lindas. Aparentemente, [elas estão] em algum lugar que ninguém ainda está achando, mas eram cartas belíssimas, declarações de vovô para vovó.
Severino Lucena: Beltrão era sinônimo de gratidão, sinônimo de cultura, sinônimo de religiosidade e sinônimo de família. Porque ele preservava muito esses valores. E eu aprendi esse dom e essas coisas boas beltranianas através de um grande discípulo dele, que foi o professor Roberto Benjamin, que Betânia também fez parte dessa elite cultural que conviveu com o Benjamin, que trabalhou e entendeu a importância da comunicação e a importância da pedagogia do afeto. Porque Beltrão tinha a pedagogia do afeto. Talvez ele não externasse para a família, mas ele externava para os seus próximos. As cartas, quando são escritas, são escritas com a alma. Então, [Beltrão] para a gente é isso. É abrir picadas, é construir.
Luiz Beltrão Neto: Que bonito. Nesse âmbito da religiosidade, né, da religião, da religiosidade que o vovô tinha bastante, era sempre a sexta-feira da Páscoa, domingo de Páscoa, Natal, né? As três datas que ele fazia questão. E, com relação à família, era interessante, porque não era essa coisa que se diz hoje, né, “Deus, família, pátria”, né? “Deus, pátria”, não, né? Para ele, família era coisa ampliada, né? Então, não tinha essa questão, assim, era ampliada. Então, nisso você tem toda a razão, né?
Ele tava abrindo o que era mais caro dele, né? De mais caro, era o sagrado. E ele percebia, às vezes, as pessoas que iriam passar sozinhas, né? Então, a sensibilidade, né? Então, de fato, ele não era amoroso, mas é o jeito dele também. Então, a gente não pode também exigir, né, assim, a cultura dele, a formação dele, a origem e tal. Tem todo um histórico que a gente tem que entender, né?
Iara Beltrão: Eu acho que, assim, o vovô, essa questão de família para ele era realmente algo muito caro. Os filhos, todos os filhos, todos iam para a casa deles aos domingos. Então, assim, da minha vida inteira até o meu avô realmente adoecer, porque aí, de fato, houve uma quebra nisso, porque ele ficou acamado e tudo, mas, até ele adoecer, todos os domingos da gente eram na casa deles. Antes de eles terem a casa, eu lembro de todos os domingos eu ir com os meus pais no apartamento deles também e a gente lanchar na mesa da cozinha. Era louco por suco de laranja.
Então, a vida toda, na casa deles, eu me lembro que chegavam aquelas caixas, né, caixas de madeira com as laranjas, porque tinha que ter laranja para ele nas refeições, depois do almoço, depois de jantar. E o suco, que ele gostava também.
Guilherme Fernandes: E o que que vocês comiam? O que que ele gostava de comer?
Iara Beltrão: Eu acho que meu avô era boca boba, ele gostava de tudo, basicamente, né? Uma característica também dele que é interessante é que ele ficava muito tempo, de fato, dentro do escritório dele, do gabinete. E o meu pai, os meus tios, todos iam falar com ele antes de ele sair ali. Então, eles todos normalmente tinham longas conversas com o meu avô antes de o meu avô sair. Meu avô tava sempre ali estudando. Mas os almoços eram... A minha avó nunca foi uma pessoa muito de culinária, não. A minha avó também era intelectual. Ela não era uma pessoa dada a prendas domésticas. Então, às vezes, no final de semana, era alguma coisa que os filhos faziam. Ele gostava muito de peixe. Então, faziam alguma coisa com peixe, com camarão, com alguma coisa assim. E acho que ele gostava de tudo.
Luiz Beltrão Neto: Nos almoços de domingo, não era raro também que cada um trouxesse, né? Cada um trouxesse uma comida. A tia Sandra fazia às vezes uma bacalhoada, A mãe levava alguma coisa, né? Um frango... O vovô era bom de [bolo?]. Eu lembro que eu dormi lá uma vez à noite e eu acordei à noite, assim, com vontade de ir no banheiro e tal, não sei o quê. Não sabia muito bem os caminhos, às vezes, né? Aí, de repente, a luzinha acende. Eu: “Graças a Deus, a luzinha acendeu”, né? Fui ao banheiro, aí fui à cozinha. O vovô estava na cozinha, o vovô tava comendo escondido da vovó, né, um bolo. “Tô fazendo uma boquinha.”
Andriolli Costa: Nesta terça-feira o Intercom homenageou a família de Beltrão. Vocês lembram se já houve outras homenagens a Luiz Beltrão em Brasília?
Iara Beltrão: Eu lembro da minha avó comentando umas coisas na ANE, a Associação Nacional de Escritores, que foi inclusive quando ele teve o AVC, ele estava lá, né? Na associação, lendo alguma coisa, apresentando alguma coisa. Eu lembro dessas. Para falar a verdade, não lembro depois de outras. Lembro dela comentando alguma coisa que o José Marques teria organizado, alguma coisa que teria sido feita.
Em relação às Beltranianas, um tio nosso, na verdade, marido da tia, ele recebeu alguns exemplares, a gente recebeu, mas não estava completa a coleção. Quando foi, até o Luiz [pediu?] para ler algumas coisas, eu emprestei. Eu falei assim: “Eu não tenho os volumes tais e tais”. E eu fui atrás para pesquisar, consegui achar na Estante Virtual e aí comprei os que tavam faltando para poder ter completo, né?
Infelizmente, eu não tenho a obra completa do vovô, lá, dos outros livros todos, mas a gente faz questão, assim, de manter um pouco viva essa memória mesmo, porque era uma pessoa muito querida, uma pessoa que foi muito especial, né?
Luiz Beltrão Neto: Eu tenho uma historinha que eu gosto de contar do vovô. A gente tem uma outra irmã, Paula, que hoje mora fora do Brasil, ela mora na Áustria. E eu lembro que meu avô chegava lá, ele fazia comigo e com a Paula alguns desafios, né? E olha que interessante, né? Olha o jogo, a brincadeira dele comigo e com a Paula. Ele dizia uma palavra e a gente tinha que achar no dicionário. Quem achasse primeiro ganhava lá três cruzeiros, cinco cruzeiros, né? E palavras assim, né?
Eu lembro de uma, até hoje lembro, né, naquele meu repertório de criança. Para nós hoje é trivial, mas, para a criança, ele dizia: “Encontrem incólume”. Aí eu lembro dessa palavra, ele falou: “Incólume”, então, não sei o quê. Eu tinha que achar. Eu achei primeiro do que a Paula. Eu li lá o significado de incólume, ganhei do vovô o dinheirinho, né? É lógico que depois ele deu também para a Paula, né? Mas eu não vou questionar essas justiças de avô, né? Eu já sou pai, sei que essas justiças não são lá tão exatas assim. Mas foi bem, bem interessante.
Iara Beltrão: O Luiz tava querendo que eu contasse, na verdade, uma história, que eu comentei que meu avô era apaixonado pela minha avó. E a minha avó, ela tinha com o meu avô, a vida toda, até o meu avô falecer, um jogo de sedução muito interessante entre os dois, eles já mais velhos, né? E eles tinham esse jogo de sedução.
E, uma vez... Meu avô sempre dizia que ele achava lindo mulheres loiras de vestido vermelho. E ele tinha uma espécie de fetiche com mulheres loiras, de vermelho. E a minha avó não era loira. Mas aí eles estavam fazendo uma viagem e meu avô tinha alguma conferência para dar, alguma coisa para ele fazer. Eles estavam em Paris.
E a minha avó foi para um cabeleireiro, pediu para pintar o cabelo de [loiro]. Comprou um vestido vermelho e foi para onde eles tinham combinado lá se encontrar, e ficava passando perto de onde ele estava para ele notar, passando sem saber que era ela. E, assim, aí ela fez esse jogo com ele. A vida inteira a minha avó fez esse jogo com meu avô. E ele achava ela, assim, o máximo, a mulher mais linda da face da Terra.
Luiz Beltrão Neto: Eu tenho essas duas, né? Essa de criança, ele brincando de cócegas com a barba dele malfeita, né? Essa é uma delas. Ele me chamava de Lula 3. Ele dizia: “Lula 1”, para ele mesmo; “Lula 2”, apontando para o meu tio Luiz Antônio, filho dele, né? E o “Lula 3”, né? Os Luizes, né? Se ele conhecesse o Caio, meu filho Caio Luiz, né, chamaria o Caio de Lula 4, né? Não, não conheceu.
E a outra que eu tenho dele, forte também, a questão dos almoços, né? Sempre rezava, assim, um pai-nosso nessas ocasiões de Páscoa e Natal, né? E essa do brincar com a minha irmã, do jogo de palavras no dicionário. São as minhas memórias preferidas do meu avô.
Iara Beltrão: As minhas, eu acho que têm mais a ver com os Natais na casa dele, que era uma coisa, assim, muito marcante. Eram cinco filhos, né? Todos casados, todos com filhos também. Então, normalmente, sempre era aquele encontro grande de primos e de muita gente, todo mundo falando alto e brincando, aquela coisa bem barulhenta.
A questão da ceia do Natal começar mais tarde, porque tinha a Missa do Galo, na época em que se fazia a missa ainda mais tarde também, e ele fazia questão de ir para a missa. Então, essa daí era uma lembrança grande que eu tenho dele.
E tenho essa lembrança de estar com ele. Eu acho que talvez eu tenha sido a neta que mais fui para a casa deles, assim, quando era pequena. De estar com eles ali e de simplesmente estar conversando sobre qualquer coisa, porque qualquer coisa ele podia me falar. Porque meu avô era isso: para mim, ele era uma pessoa que sabia absolutamente tudo, de tudo. Era uma pessoa extremamente culta, tão inteligente. Então, tudo ele podia me explicar. Tudo ele podia...
Betania Maciel: Há muitos anos atrás, eu falei ao professor Marques que achava o professor Luiz Beltrão – que só conheci por fotografias - tão carrancudo, aquela cara dele fechada assim. Ele disse: que nada, que era bonachão! Fazia brincadeira, era de uma alegria...
Luiz Beltrão Neto: E vou acrescentar uma outra, que meu tio Paulo Henrique conta uma história com relação ao vovô, o pai dele, que o pai dele uma vez [pediu?] para ele ler um livro que estava escrevendo ainda. Eu não sei se era “A greve dos desempregados”, eu não sei qual desses era. O vovô estava ainda escrevendo e tal. “Vê o que que você acha, lê o que que você acha, meu filho.” Paulo Henrique leu, era mais novo, né? Paulo Henrique leu. Aí comentou algo assim: “Ah, papai, eu não entendi muito bem. Acho que é muito complexo. Se fosse você, faria isso, isso, isso...”. Aí o vovô olhou assim: “Filho, faz assim, vai ler primeiro Meu pé de laranja lima”. Aí foi citando alguns livros, assim, bem básicos, né? Tipo assim: “Cresça para você ter algum argumento para poder me apresentar”. Então, ele tinha essas ironias, assim, também, né?
Júnia Martins: Agora, no mês de outubro fazem 40 anos da partida dele. E ele nasceu em agosto, né? Se Beltrão estivesse vivo hoje em dia, o que é que ele falaria desse mundo de hoje? Se ele chegasse aqui neste momento, depois dessas quatro décadas de partida, o que é que vocês contariam para o seu avô?
Iara Beltrão: Nossa, eu acho que, assim, é engraçado que eu acho que meu avô acompanharia o tempo, sabe? Porque eu acho que ele estava à frente do tempo. Ele não era uma pessoa de se espantar com o mundo. O mundo, para ele... E eu acho que as loucuras do mundo de alguma maneira soavam naturais. Ele era uma pessoa profundamente irônica, mas profundamente perspicaz.
Luiz Beltrão Neto: Dizia que detestava a burrice e a injustiça, né? Duas coisas que vovô não, né? Eu acho que, por isso, o que a gente passou em especial nos últimos anos aí, né, e tal, o que ele teria para soltar, né, de bom, né? O que ele teria de pérolas ali, as análises.
Iara Beltrão: Ele dizia que a pessoa tinha que ir trabalhar logo para desasnar. Eu achava isso muito engraçado, “desasnar”.
Severino Lucena: Desasnar é bem nordestino, né?
Iara Beltrão: É, e era bem dele. “Não, tá bom de fulano começar a trabalhar, meu amigo. Precisa desasnar.” Sabe? E isso era uma coisa muito dele. Ele, é isso, ele detestava.
Luiz Beltrão Neto: Você imagina hoje em dia, assim, os últimos tempos, com terraplanismo e antivacina, o que que vovô não falaria, né? Eu acho que vovô faria outros artigos aí. Eu acho que eles não iriam entender, né? Que o grupo de lá não iria entender.
Guilherme Fernandes: Eu tenho duas curiosidades. No livro Teoria geral da comunicação, em que ele vai pensar os sistemas da comunicação, ele cria um terceiro sistema que ele chama de exobiocomunicação. Seria comunicação com os ETs. Na década de 70, isso foi muito falado, né? A ciência, homem na Lua, enfim... Então, a gente percebe um futurismo em Beltrão. Mas, ao mesmo tempo, ele tem uma preocupação com memória e com as festas tradicionais, as festas populares. Vocês comentaram da Páscoa, do Natal.
Mas e essas festas populares? Ele levava vocês?
Iara Beltrão: Ele ia a muitas, principalmente quando ainda estava em Recife. Ele frequentava muito. Eu lembro do pessoal que era dos Estados Unidos, que também estudava e que veio para cá por causa do maracatu.
Severino Lucena: Exatamente. A Katarina Real veio estudar, não é? O carnaval.
Luiz Beltrão neto: A Kit. A que eles chamavam de Kit, não era?
Iara Beltrão: E, assim, ele gostava muito. Ele era uma pessoa bastante ligada, mas principalmente ligada na festa enquanto fenômeno e não da festa pela festa. Ele era muito... Não que ele não gostasse de festa, ele era festeiro. Ele era muito bonachão. Mas é porque o meu avô também era aquele cara mais cheinho, sabe? Mais, assim, lento em algumas coisas, não era uma pessoa atlética.
Guilherme Fernandes: Não seria um folião, né?
Iara Beltrão: Ele não seria um folião, ele seria mais um observador, tá ali no meio e tal. Aqui em Brasília, não tanto, né? Mas, assim, de fato, lá em Pernambuco era mais frequente isso.
Claudiene Costa: Uma pergunta. Para nós, o rosto de Beltrão é este aqui [mostra o bordado]. Que ficou eternizado no prêmio Luiz Beltrão da Intercom. E para vocês, como é Beltrão?
Iara Beltrão: É esse mesmo. Só que ele já tava mais careca.
Luiz Beltrão Neto: É engraçado, o vovô era mais sisudo. Mas as minhas memórias que você perguntou, eu lembro dele mais rindo, sabe?
Iara Beltrão: Ele era uma pessoa mais cheinha. Quer dizer, claro, quando das minhas memórias, né, mas ele já tava com menos cabelo.
Luiz Beltrão Neto: Embora, eu acho, vovô era uma pessoa, vamos dizer assim, mais fechada. Mas é engraçado que ele conseguia se desdobrar, né?
Participante: Quando você fala em não ser afetuoso, você fala no sentido de toque, de contato físico, né? Porque, pela fala de vocês, ele parece muito generoso.
Iara Beltrão: Era, era. Ele não tinha tanta paciência com criança, entendeu?
Luiz Beltrão Neto: E como Iara bem comentou, era uma casa muito cheia nos fins de semana. Então, de fato, pelo amor de Deus, né? “Filho bom é filho dormindo”, né? Entendeu? “Criança boa é criança dormindo.”
Vinícius Coutinho: É que você era danado, Luiz! (Risos)
Luiz Beltrão Neto: Então, de fato, ele tinha isso também. E, assim, quem dos netos... Ela foi a que mais conseguiu transpor, né, isso, essa distância, né? Eu brincava mais com o meu primo, a gente ia jogar futebol e tal, né? Mas, de fato, o vovô parecia que colocava um pouco essa história, mas era permeável. Então, quem quisesse transitar, transitava. Então, por isso que essas imagens do vovô, por mais que ele fosse em parte meio assim, eu lembro dele mais sorrindo.
Iara Beltrão: Mas, assim, o Luiz acha que é isso, que é sisudo e tudo. Eu também discordo. A minha lembrança do meu avô não é de sisudo de jeito nenhum. É uma pessoa rindo. Eu tinha um gravadorzinho com microfone e já se perdeu isso, mas eu tinha ele cantando. E, gente, era cantando musiquinha besta, assim, e normalmente tudo de duplo sentido, né? E ele brincava e tudo. Então, assim, as minhas lembranças dele são lembranças, talvez nesse sentido, mais afetuosas...
Severino Lucena: Neta mulher, né, gente? Já viu, né?
Iara Beltrão: Pode ser. Pode ser. E com a minha mãe e com a minha tia ele sempre era muito paizão. Isso era muito comum. Ele era apaixonado pelas filhas.
Luiz Beltrão Neto: Celma e Sílvia. Pois é, que pena.
Pedro Procópio: Eu queria, primeiro, agradecer o carinho da família de Beltrão. Inclusive, na minha apresentação de hoje, teve parte dedicada a ele. A pergunta vai no sentido desse mundo atual, né? Da inteligência artificial, da comunicação mais instantânea e, às vezes, termina gerando a desinformação das pessoas. Como é que ele encararia isso?
Luiz Beltrão Neto: Você sabe que eu tava pensando nessa pergunta. Tava pensando sobre isso, como é que vovô iria lidar, né? Não com a IA em si, né, algo irreversível e tal, né?
Mas com a potência de burrificar. Eu acho que ele estaria preocupado com esse aspecto, a potência de burrificação das pessoas, da inabilidade de escrever, de pensar. Isso seria uma preocupação.
Iara Beltrão: Com certeza, seria uma preocupação. Porque ele, eu acho que ele tinha uma preocupação grande com essa questão da precisão, da qualidade, né? Da qualidade da comunicação, de falar e ser entendido, das fontes, pesquisar, de ser uma pessoa... Ele era preocupado com isso, com a fidedignidade.
E aí, quando você tá falando com a comunicação instantânea também, que não necessariamente se atém a fontes fidedignas para poder estar reproduzindo, né, disseminando uma série de informações que muitas vezes não têm qualquer amparo na realidade, isso para ele seria algo preocupante, né?
Luiz Beltrão Neto: Gente, olha, assim, talvez à guisa de encerramento, não sei, né? Mas, assim, primeiro, superobrigado pelo convite, né? A gente se sente super-honrado pelo convite em si, de tá e de ver a continuação, o legado. Por mais que a gente saiba quem era o vovô e tal, não deixa de ser surpreendente a materialização disso, né?
E ver em pessoas tão argutas, tão interessantes, ver isso continuando é motivo de muita alegria, de muita honra, né? E me dá vontade de pedir, né, para eu participar desse grupo também, sabe?
Guilherme Fernandes: Enquanto rede, a gente tem como uma das missões a preservação, do legado de Beltrão. Por isso, a Rede Folkcom, através do nosso presidente, Andriolli Costa, preparou uma homenagem para entregar para vocês. Muito obrigado pela presença.
Andriolli Costa: Ao invés de uma placa tradicional, nós escolhemos preparar um bordado porque achamos que tinha mais a ver com o próprio legado, né? Entregamos aqui, em nome de toda a diretoria e membros da Rede Folkcom, aos herdeiros do legado Beltraniano. Obrigado a todos!
Luiz Beltrão Neto: Que lindo!
Notas de checagem factual
1. Criação do curso de Comunicação da UnB
A história institucional da FAC informa que já havia um curso de Jornalismo antes de 1964 e atribui o projeto inicial a Pompeu de Sousa. Registra a implantação da Faculdade de Comunicação em 1966. Marques de Melo situa em 1965 o convite a Beltrão para dirigi-la. Assim, é mais preciso descrevê-lo como participante de sua implantação e direção, sem lhe atribuir isoladamente a criação do curso.
Fontes: Faculdade de Comunicação da UnB — História • José Marques de Melo — Diálogo com Beltrão (2018)
2. Afastamento político e atuação no CEUB
Marques de Melo documenta conflitos políticos, destituição da direção e obstáculos à emissão do diploma, além da atuação posterior no CEUB.
3. Instituto e primeira revista
O Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM) foi criado em Recife em 1963, ligado à Unicap. A revista Comunicações & Problemas começou em 1965 e é apontada como a primeira revista científica brasileira especializada em Comunicação.
Fonte: José Marques de Melo — Folkcomunicação, contribuição brasileira à Teoria da Comunicação (2003)
4. Quantidade de cartas de Inácio de Loyola
Ajuste documental: a fonte jesuíta consultada menciona mais de 7.000 cartas.
5. Martinha do Coco e jongo
A passagem recupera Casa de Cultura Martinha do Coco, no Paranoá, em concordância com a reportagem do DF1. Avisos de espiões, guerrilhas e tocaias permanecem como relato do que um expositor teria explicado.
6. Início da coleção Beltranianas
Cristina Schmidt registra o primeiro volume e seu lançamento em dezembro de 2012.
7. Ex-votos
O artigo de Beltrão “O ex-voto como veículo jornalístico” foi publicado no primeiro número de Comunicações & Problemas, em 1965, p. 9–15.
Fonte: José Marques de Melo — Folkcomunicação, contribuição brasileira à Teoria da Comunicação (2003)
8. — Filhos
A apresentação do depoimento de Silvia Teresa enumera cinco filhos: Celma, Luiz Antonio, Silvia Teresa, Paulo Henrique e Fernando. A enumeração é compatível com Paulo Henrique como quarto filho, sem substituir um registro de nascimento para comprovar a ordem.
9 – Dona Zita intelectual
A biografia da Associação Nacional de Escritores registra sua atuação no jornalismo, rádio, ensino universitário, direção executiva do ICINFORM, literatura e teatro. Portanto, o reconhecimento de sua trajetória intelectual encontra apoio documental.
Fontes: Associação Nacional de Escritores — Zita de Andrade Lima • Sonia Regina S. da Cunha / Silvia Teresa Beltrão — Depoimento de Silvia Teresa Beltrão (2018), p. 292–296
10 — Associação Nacional de Escritores
Vínculo e homenagem confirmados. A ANE inclui Beltrão entre seus associados e mantém uma Sala Luiz Beltrão. As páginas consultadas não documentam as circunstâncias exatas do AVC referido na conversa; esse episódio permanece como memória familiar.
Fontes: Associação Nacional de Escritores — Luiz Beltrão • Associação Nacional de Escritores — Sala Luiz Beltrão
11 — A greve dos desempregados
A bibliografia da ANE registra A greve dos desempregados como obra de Luiz Beltrão, de 1984.
12 - Nascimento e quarenta anos da morte
Luiz Beltrão nasceu em 8 de agosto de 1918 e morreu em 24 de outubro de 1986. Em 24 de outubro de 2026 completam-se quarenta anos de sua morte.
13 — Exobiocomunicação
Fernandes e Woitowicz descrevem essa hipótese de terceiro sistema, voltado a seres de outros planetas, e registram sua presença nas obras de 1973 e 1977.
Fontes: Guilherme Moreira Fernandes e Karina Janz Woitowicz — A teoria beltraniana em perspectiva: trajetória, fundamentos e contribuições atuais da folkcomunicação (2022),





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