Plataforma reúne dez anos de pesquisas sobre comunicação e culturas populares
Bases gratuitas da Rede Folkcom permitem consultar a produção acadêmica de 2013 a 2023; levantamento identifica mudanças nos temas estudados e mostra a distribuição regional das pesquisas

A Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom) disponibiliza para consulta pública e gratuita bases de dados sobre dez anos de pesquisas dedicadas às relações entre comunicação e culturas populares. Reunido na página da Pesquisa Coletiva, o material permite explorar como as pesquisas têm abordado a reinvenção das tradições nas redes digitais, as disputas por reconhecimento e direitos e as formas pelas quais grupos populares produzem informação e fazem circular seus conhecimentos. Ao identificar tendências, autores e questões que merecem aprofundamento, o acervo oferece referências para novas investigações sobre mídia, cultura popular e sociedade.
O levantamento se concentra na Folkcomunicação, teoria formulada pelo pesquisador pernambucano Luiz Beltrão na década de 1960 que busca compreender como grupos populares produzem e fazem circular informações, opiniões e conhecimentos por meio de suas práticas culturais. Festas, literatura de cordel, narrativas orais e manifestações religiosas estão entre os objetos dessas pesquisas, que também examinam suas relações com o jornalismo, a publicidade e as redes sociais.
As bases organizam informações sobre autores, instituições, temas, objetos de estudo, referências e metodologias. A consulta pode apoiar a preparação de aulas, a construção de bibliografias e a elaboração de novos projetos, além de ajudar a localizar pesquisadores que trabalham com assuntos semelhantes.
A Pesquisa Coletiva reúne mais de 40 pesquisadores de todo o Brasil e é coordenada pelos professores doutores Andriolli Costa (UERJ) e Guilherme Moreira Fernandes (UFRB). Os cinco grupos de trabalho que integram o estudo contam ainda com coordenação de Betania Maciel (Esuda), Claudiene Costa (UFC), Cristina Schmidt (Fabe), Élmano Ricarte (UE), Flávio Santana (UnB), João Eudes Portela (IFCE), Karina Woitowicz (UEPG), Osvaldo Trigueiro (UFPB) e Thífani Postali (Uniso) – além do próprio Andriolli Costa.
A teoria da Folkcomunicação parte de uma compreensão dialética do folclore, inspirada nas reflexões do baiano Edison Carneiro: as tradições são práticas vivas, que se transformam em resposta às condições sociais e às disputas de cada época. Uma manifestação popular pode preservar costumes, reproduzir hierarquias e, ao mesmo tempo, expressar críticas e reivindicações. Nessa perspectiva, a marginalização diz respeito às relações de desigualdade que limitam o acesso de determinados grupos à produção e à circulação de informações, às decisões e ao reconhecimento de seus saberes.
Como o acervo foi organizado
A metodologia foi dividida em etapas. Na primeira fase, a instância inicial foi de coleta e separação de todo o material que comporia o corpus da década. A equipe examinou 1.100 trabalhos a partir de todas as publicações nos GTs de Folkcomunicação nos eventos acadêmicos e na revista da área. Destes, restaram 788: 736 artigos, 41 dissertações de mestrado e 11 teses de doutorado. A inclusão considerou o uso efetivo da Folkcomunicação na construção das pesquisas. Esse critério permitiu delimitar a produção que mobiliza a teoria para estudar processos de comunicação.
Os artigos foram publicados na Revista Internacional de Folkcomunicação (RIF) e apresentados na Conferência Brasileira de Folkcomunicação e nos congressos da Intercom, da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (ALAIC) e da Associação Ibero-Americana de Comunicação (Ibercom). A reunião dessas fontes permitiu comparar os temas, os vínculos institucionais e as formas de colaboração ao longo do período.
Os pesquisadores precisaram, então, preencher uma tabela com informações referenciais de cada artigos contendo dados de autoria (gênero, formação, região), palavras-chave, filiação teórica, métodos e técnicas declarados, principais autores mobilizados na bibliografia. A etapa de validação dos dados contou com três instâncias: a primeira por um preenchimento de formulário de validação por parte dos pesquisadores, a segunda por meio da ferramenta de Inteligência Artificial Google Gemini – que rechecou, individualmente, cada artigo preenchido na tabela. A instância final de revisão foi novamente humana, a partir do olhar dos coordenadores gerais. O estudo caminha agora para a etapa qualitativa.
Cidadania e resistência ganham espaço
Uma das mudanças identificadas está nas palavras escolhidas pelos autores para apresentar suas pesquisas. Termos relacionados a esses temas aparecem nas palavras-chave de 8,8% dos artigos publicados entre 2013 e 2015 e de 14,3% daqueles publicados entre 2020 e 2023. No mesmo intervalo, a presença de termos ligados a desenvolvimento, políticas e turismo passou de 10,2% para 3,3%.
O relatório relaciona essa retração, a um conjunto de fatores que que atravessam o campo científico. Por um lado há um indício de mudança nas perguntas dirigidas às culturas populares. Uma mesma festa pode ser investigada por sua contribuição para o turismo e a geração de renda, mas também pelas disputas sobre quem participa das decisões, como seus integrantes são representados e quais interesses orientam sua organização. A etapa qualitativa examinará em que medida a mudança nas palavras-chave corresponde a novas maneiras de formular os problemas de pesquisa.
Estudos sobre o Jornal do Nuances, ligado ao ativismo LGBT gaúcho, e sobre o bordado político como meio de combate à desinformação exemplificam a presença dessas questões no acervo. Esses trabalhos aproximam a Folkcomunicação de debates sobre o direito à expressão, a circulação de informações e as estratégias de intervenção de grupos sociais na vida pública.
Por outro, há a questão do direcionamento dos estudos a partir da aglutinação das pesquisas junto a um orientador ou programa específicos que, com sua descontinuidade, transforma todo o cenário. No caso da teoria, isto se deveu muito ao encerramento do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local (POSMEX), da UFRPE. O programa constituía um importante espaço de formação de pesquisadores que aproximavam a Folkcomunicação de temas como turismo, artesanato, políticas públicas e manifestações festivas. Seu processo de descredenciamento começou após a avaliação da Capes concluída em 2017, e as últimas defesas ocorreram em 2019.
Da festa ao feed
Instagram e YouTube aparecem, respectivamente, nos títulos ou nas palavras-chave de seis e quatro artigos publicados entre 2020 e 2023. Os nomes dessas plataformas estavam ausentes desses campos nos dois períodos anteriores do levantamento. Já “cibercultura” percorre o caminho inverso: aparece em seis trabalhos de 2013 a 2015, em três de 2016 a 2019 e em nenhum de 2020 a 2023. A comparação sugere uma mudança na maneira de apresentar os objetos digitais, com maior atenção a plataformas e práticas específicas.
Entre os estudos reunidos estão pesquisas sobre a recriação do carnaval durante a pandemia e a realização de ensaios de escolas de samba por transmissões ao vivo. Nesses casos, as redes digitais participam da própria realização das manifestações culturais e da manutenção dos vínculos entre seus integrantes. Os números identificam a presença desses assuntos nos títulos e nas palavras-chave; a etapa qualitativa aprofundará a análise de como foram abordados.
Na interpretação dos dados quantitativos, festas, oralidade e práticas religiosas continuam a ocupar lugar nas pesquisas, articuladas às novas formas de circulação digital. “O feed retransmite a festa, convoca participantes, organiza públicos, arquiva performances e transforma as condições de visibilidade”, pondera Andriolli Costa. Fotografias, vídeos e comentários tornam-se parte da circulação dessas manifestações e podem interferir nas maneiras de organizá-las e apresentá-las.
Nordeste se destaca na produção
Pesquisadores vinculados a instituições nordestinas assinam 337 dos 736 artigos, o equivalente a 45,8% do conjunto. A região ocupa a primeira posição em todas as cinco fontes de artigos examinadas. Na pós-graduação, porém, o quadro apresenta uma diferença: os 22 trabalhos defendidos em instituições nordestinas incluídos no levantamento são dissertações de mestrado; nenhuma das 11 teses de doutorado foi defendida na região.
Essa diferença levanta questões sobre as condições de continuidade das pesquisas. Quando um pesquisador precisa deixar seu território para cursar o doutorado, consegue manter os vínculos com as comunidades que estuda? Encontra interlocutores e orientação para continuar trabalhando com a Folkcomunicação? A distância do campo e a inserção em programas com outras tradições teóricas podem criar dificuldades para sustentar o projeto ou pressioná-lo a mudar de objeto e de abordagem.
São hipóteses que os números, isoladamente, não permitem confirmar. A etapa qualitativa ajudará a explorá-las ao examinar a continuidade e as mudanças nos referenciais teóricos, nos objetos e nos problemas de pesquisa. Interessa compreender como as condições de formação e os espaços institucionais podem influenciar tanto os temas investigados quanto as maneiras de estudá-los.
O mapeamento também mostra que a colaboração ocorre principalmente dentro das próprias instituições. Embora 65,5% dos artigos tenham coautoria, apenas 16,3% envolvem autores de instituições diferentes e 5,8% conectam regiões distintas, considerando os dois primeiros autores de cada texto. Esses dados ajudam a reconhecer as redes existentes e a identificar possibilidades de cooperação entre universidades, capazes de apoiar a continuidade das pesquisas mesmo quando seus autores precisam se deslocar.

Etapa qualitativa
A Rede Folkcom convida pesquisadores que partilham de nossa relação com os sujeitos, objetos e olhares sobre os estudos em culturas populares a participarem da etapa qualitativa da Pesquisa Coletiva, dedicada a aprofundar as questões levantadas pelo mapeamento. O prazo para manifestar interesse é 30 de setembro de 2026.
Os novos integrantes participarão de um dos cinco grupos de trabalho, colaborando na leitura e discussão dos estudos e na produção de textos coletivos. A proposta é examinar como os autores empregam conceitos, escolhem seus objetos e constroem seus problemas de pesquisa, investigando as tendências e hipóteses apontadas pelo levantamento quantitativo. A participação oferece uma oportunidade de intercâmbio entre pesquisadores de diferentes instituições interessados nas relações entre comunicação e culturas populares.
Para integrar a equipe, é necessário ser filiado à Rede Folkcom. Os interessados devem entrar em contato pelo e-mail diretoriafolkcom@gmail.com. As orientações para filiação estão disponíveis na página Seja membro.
Sobre a Rede Folkcom
A Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom) é uma entidade científica sem fins lucrativos que reúne pesquisadores dedicados às relações entre comunicação, mídia e culturas populares. Sua atuação promove o estudo e a atualização do pensamento de Luiz Beltrão, criador da teoria da Folkcomunicação, o intercâmbio entre instituições e a formação de novos pesquisadores.
Sob a liderança de José Marques de Melo, a Rede foi articulada a partir da primeira Conferência Brasileira de Folkcomunicação, em agosto de 1998. Atualmente ela é presidida por Andriolli Costa (UERJ), tendo Allan Rodrigues (UFAM) na vice-presidência.
A investigação coletiva acompanha a trajetória dos pesquisadores que deram origem à Rede Folkcom. Sob o impulso de José Marques de Melo e da Cátedra UNESCO/UMESP, foram desenvolvidos estudos sobre as imagens midiáticas do Natal, em 1995 e 1996, e do Carnaval de 2000, além de um inventário das festas populares brasileiras, publicado em 2001. Essa prática de cooperação teve continuidade em iniciativas como “Sabores Populares na Mídia”, que reuniu pesquisadores da Rede para analisar a cobertura da gastronomia em veículos de sete estados, com resultados publicados em 2012.
Um antecedente diretamente relacionado ao mapeamento atual é a “Cartografia da Folkcomunicação, 1998–2008”, proposta por Marques de Melo em 2007 e desenvolvida sob a coordenação executiva de Maria Cristina Gobbi. O projeto distribuiu entre equipes o levantamento de diferentes tipos de produção científica do campo. A Pesquisa Coletiva atual dá continuidade a essa tradição de examinar o próprio conhecimento produzido pela área, reunindo instituições e gerações de pesquisadores para reconhecer suas contribuições, discutir seus limites e formular novas questões.





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