Mulheres que constroem a Folkcomunicação ganham destaque em coleção nacional
Os cinco volumes de “Mulheres da Comunicação” recuperam trajetórias de pesquisadoras ligadas ao campo e revelam também interlocutoras e autoras que ajudam a preservar essa memória

Da presidência da Rede Folkcom à produção de estudos sobre festas populares, ex-votos, pichações, audiovisual indígena e mídia regional, as mulheres ocupam diferentes lugares na história da Folkcomunicação brasileira. Essas trajetórias aparecem espalhadas pelos cinco volumes da coleção Mulheres da Comunicação, publicada em 2025 pela Friedrich-Ebert-Stiftung (FES Comunicación) como parte do projeto latino-americano Mujeres de la Comunicación.
Dirigida por Omar Rincón e coordenada nacionalmente por Nilda Jacks, Lírian Sifuentes e Guilherme Libardi, a coleção foi organizada em volumes dedicados às cinco regiões do país. A proposta, conforme registra a apresentação das obras, é celebrar “a trajetória acadêmica das mulheres que ajudaram a construir o campo da Comunicação”, dando visibilidade às contribuições deixadas no ensino, na pesquisa e na extensão.
Uma leitura transversal realizada pela Rede Folkcom permitiu reconhecer ao menos 13 mulheres biografadas com vínculos de diferentes intensidades com a Folkcomunicação — da atuação institucional continuada à publicação pontual de estudos no campo. O levantamento também evidencia duas interlocutoras fundamentais e três pesquisadoras ligadas à área que participaram da escrita das próprias bionotas.
Mulheres na construção do campo
Uma das trajetórias mais diretamente associadas à Folkcomunicação é a de Maria Érica de Oliveira Lima. O volume Nordeste a apresenta como professora e pesquisadora “com ênfase no Jornalismo, Cultura Popular, Folkcomunicação e Estudos da Mídia” (Região Nordeste, p. 188). Maria Érica foi diretora científica da Rede Folkcom entre 2008 e 2011, presidenta da entidade entre 2013 e 2017 e coordenadora de grupos dedicados ao tema na Intercom, na Ibercom e na Conferência Brasileira de Folkcomunicação. Também organizou obras de referência, como Território da Folkcomunicação e Cartografia da Folkcomunicação.
Samantha Castelo Branco participou da própria fundação da rede. Sua bionota informa que a pesquisadora “integrou o quadro de sócios-fundadores da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação” e atua na entidade desde 1998 (Região Nordeste, pp. 454-455). Entre seus trabalhos estão “Metodologia folkcomunicacional: teoria e prática” e “Regionalização midiática e folkcomunicação: reflexões e diálogos”.
Também no Nordeste, Suelly Maux é apresentada como autora e coautora de estudos sobre folkmarketing e Folkcomunicação, organizadora do livro Folkcomunicação e novas abrangências no desenvolvimento local e integrante do corpo editorial da Revista Internacional de Folkcomunicação (RIF). Irenilda Lima, por sua vez, aproximou-se da Folkcomunicação durante o doutorado, articulando-a à comunicação contextualizada, às culturas populares e à extensão rural (Região Nordeste, p. 387).
O percurso de Jacqueline Lima Dourado é centrado na Economia Política da Comunicação, mas sua relação institucional com o campo também merece registro: em 2011, ela recebeu da Rede Folkcom a Menção Honrosa por Maturidade Acadêmica (Região Nordeste, p. 427). A distinção mostra que as redes de diálogo e reconhecimento da Folkcomunicação ultrapassam fronteiras temáticas rígidas.
No Centro-Oeste, Débora Cristina Tavares desenvolveu o projeto “Cururu e Siriri como Fenômenos Folkcomunicacionais” e publicou estudos sobre gênero, festas e moda, incluindo “Miss Caipira Gay em Belém do Pará: estudos de gênero e folkcomunicação” e “O folk na moda contemporânea” (Região Centro-Oeste, p. 235).
Na região Sul, Beatriz Dornelles — falecida em 2024 — tinha a Folkcomunicação entre seus temas de pesquisa, foi diretora regional da Rede Folkcom e publicou uma análise da trajetória de Giuseppe Garibaldi pela perspectiva folkcomunicacional. Sua presença na coleção recupera uma dimensão importante da memória da Rede e de suas articulações com o jornalismo local, comunitário e do interior (Região Sul, pp. 216-218).
Já Maria Cristina Gobbi, biografada no volume Sudeste, exerceu as funções de diretora-secretária e integrante do Conselho Fiscal da Rede Folkcom entre 2012 e 2018. Sua trajetória conecta o campo aos estudos da cultura popular, da mídia regional e do pensamento comunicacional latino-americano (Região Sudeste, p. 402).
Pesquisas e participações que ampliam o mapa
Outras cinco biografadas apresentam aproximações específicas com a Folkcomunicação. Roseméri Laurindo é coautora do capítulo “Folkcomunicação de autopromoção e resistência pelos pichadores em Blumenau”. Ester Marques, pesquisadora da cultura popular maranhense e do bumba meu boi, contribuiu para o livro Noções básicas de folkcomunicação. Zulmira Nóbrega, que estudou as dimensões culturais do São João de Campina Grande, também atuou na organização de eventos vinculados à Folkcomunicação.
No Paraná, Ana Maria Melech publicou na RIF o estudo “A simbologia da devoção: o retrato da fé demonstrado pelos ex-votos e a relação com a Igreja midiatizada”. Mônica Kaseker também publicou no periódico, em coautoria, uma pesquisa sobre o audiovisual como instrumento de defesa indígena durante a pandemia de Covid-19. São trabalhos que demonstram como a área dialoga com objetos diversos, das práticas devocionais às formas contemporâneas de autorrepresentação dos povos indígenas.
O volume dedicado à região Norte não apresenta, nos verbetes examinados, uma vinculação explicitamente nomeada com a Folkcomunicação. Isso não significa a ausência de pesquisadoras do campo na região, historicamente fundamental para esses estudos, mas indica a necessidade de continuar o trabalho de identificação e registro dessas trajetórias.
Interlocutoras indispensáveis
Duas mulheres biografadas não são apresentadas nas obras propriamente como pesquisadoras de Folkcomunicação, mas constituem interlocutoras incontornáveis para o campo.
Maria Salett Tauk Santos construiu sua trajetória na comunicação rural, na comunicação para o desenvolvimento e nas culturas populares. Orientada no mestrado por Roberto Benjamin, criou a disciplina Comunicação e Culturas Populares e coordenou o Núcleo de Pesquisa Comunicação, Consumo, Tecnologia e Culturas Populares. Sua produção oferece instrumentos importantes para pensar desenvolvimento local, participação e práticas comunicacionais em contextos populares.
Cicilia Maria Krohling Peruzzo é uma das principais referências brasileiras em comunicação popular, comunitária e cidadã. Coordenou o antigo GT Comunicação e Culturas Populares da Intercom e desenvolveu pesquisas e ações de extensão junto a movimentos sociais, comunidades rurais e rádios comunitárias. O volume Sudeste sintetiza seu esforço de compreender as “novas feições de Comunicação forjadas pelos segmentos subalternos organizados da sociedade” (Região Sudeste, p. 37). Trata-se de uma formulação que dialoga diretamente com questões históricas da Folkcomunicação.
Mulheres que também escrevem essa memória
A presença da Folkcomunicação na coleção não se limita às personagens biografadas. Pesquisadoras ligadas ao campo também participaram da produção dos volumes como autoras das bionotas.
No volume Sul, Karina Janz Woitowicz escreveu os perfis de Sandra Fischer e Mônica Fort. Professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Karina possui uma trajetória marcada pelas interfaces entre jornalismo, gênero, cultura e direitos humanos, além de sua atuação histórica na Rede Folkcom.
No volume Nordeste, Claudiene dos Santos Costa assina as bionotas de Ivonete Maia e Inês Vitorino, enquanto Bruna Castelo Branco escreveu o perfil de Adelaide Gonçalves. Ambas integram a comunidade de pesquisadoras vinculada à Folkcomunicação. Sua participação lembra que preservar a memória de um campo envolve tanto reconhecer as mulheres retratadas quanto tornar visível quem pesquisa, entrevista e escreve essas histórias.
A coleção Mulheres da Comunicação oferece, assim, mais do que um conjunto de perfis individuais. Seus cinco volumes permitem perceber redes intelectuais, institucionais e afetivas que atravessam gerações. Ao recuperar essas trajetórias, a obra também convida a Folkcomunicação a olhar para a sua própria história: quem criou associações, coordenou grupos, organizou livros, editou revistas, formou pesquisadoras e ampliou os objetos e as perguntas do campo.
Os volumes estão disponíveis em acesso aberto: Centro-Oeste, Norte, Nordeste, Sudeste e Sul.




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