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De Deadpool a Ainda Estou Aqui, a folkmídia entra no desafio do Amo do Boi

há 1 hora
3 min de leitura

João Paulo Faria aproxima cinema, séries e brincadeira do boi ao incorporar referências audiovisuais às suas performances no Festival de Parintins.



“Olhos no telão, por favor.” O chamado de João Paulo Faria, amo do Garantido, prepara o público do Festival de Parintins para uma intervenção que aproxima a arena das linguagens do cinema e da televisão. Em seguida, ele anuncia: “Vamos quebrar a quarta parede”. O verso é dirigido tanto a quem acompanha a apresentação nas arquibancadas quanto a quem assiste pela TV.


A cena, analisada em vídeo da Rede Folkcom, oferece um exemplo de folkmídia: o processo pelo qual elementos da cultura popular e da cultura de massas são apropriados e reinterpretados na produção de novos discursos. Nesse caso, a iniciativa parte de um artista do boi-bumbá, que encontra em filmes e séries uma possibilidade expressiva para o desafio do amo.


No depoimento reproduzido pelo vídeo, JP cita Deadpool, Curtindo a Vida Adoidado, O Máscara e House of Cards como inspirações. A experiência, conta, foi “uma das ideias que eu mais gostei de ter executado esse ano”. O que aproxima essas referências da apresentação é o recurso de reconhecer explicitamente a presença de quem assiste e dirigir a fala a esse público.


A chamada quarta parede corresponde à separação imaginária entre a representação e o espectador. Na intervenção de JP, a câmera e o telão entram na construção da cena: o amo chama a atenção para a mediação audiovisual e inclui quem está diante da televisão como destinatário do verso. A transmissão participa, assim, da forma como a performance é concebida.


Na explicação apresentada por Andriolli Costa, no Youtube da Rede Folkcom, a partir das contribuições de Joseph Luyten, a folkmídia pode ser compreendida em dois sentidos. Um deles envolve a apropriação da cultura popular pelos meios de comunicação de massa, como em filmes e novelas que reelaboram personagens, narrativas e manifestações tradicionais. O outro ocorre quando os próprios integrantes da cultura popular se apropriam de elementos da cultura de massas e os incorporam aos seus discursos.


A proposta de JP permite observar esse segundo movimento. O artista seleciona referências de seu repertório audiovisual e lhes atribui uma função na brincadeira do boi. A relação com os filmes e a série aparece na organização da fala e no modo de envolver o espectador, ampliando as possibilidades de análise da folkmídia para além da presença de personagens ou símbolos reconhecíveis.


João Paulo Faria entre o Auto do Boi e as referências das telas

A experiência com a quarta parede integra uma trajetória de exploração da palavra, do canto e da interpretação. João Paulo Faria assumiu o papel de Pai Francisco em 2015 e recebeu o convite para ser amo do Garantido em 2020, conforme relatou em entrevista à Rios de Notícias.


Como Pai Francisco, participou da valorização cênica do Auto do Boi. Em 2015, sua atuação incluiu falas no Bumbódromo; no ano seguinte, cantou na apresentação de “Auto do Boi Garantido”. Esses momentos, registrados em reportagem de A Crítica sobre sua parceria com Mãe Catirina, ajudam a situar o trabalho do artista com os recursos dramáticos da própria tradição. São antecedentes de sua atuação como amo, com atenção às possibilidades narrativas dos personagens do boi.


Outro encontro com o cinema ocorreu na abertura do Festival de Parintins de 2025, em 27 de junho. JP participou da homenagem do Garantido a Eunice Paiva, com versos que faziam referência a Ainda Estou Aqui. A apresentação destacou a atuação da advogada em defesa dos povos indígenas e contou com a presença de seu neto, Chico Rubens Paiva, segundo reportagem da Folhapress publicada pelo Urbnews.


Esse episódio permite propor outra leitura folkmidiática de sua performance. Na homenagem a Eunice, a referência cinematográfica participa de uma elaboração sobre memória, direitos e resistência. No desafio inspirado em Deadpool e House of Cards, a apropriação incide sobre um procedimento narrativo. Os dois casos mostram caminhos distintos pelos quais o repertório audiovisual pode ganhar sentido na apresentação do boi.


O próprio JP situa a circulação de informações midiáticas na história de sua família com o Garantido. Na entrevista à Rios de Notícias, contou que seu tio-avô Badú levava à Baixa do São José jornais e revistas vindos de Manaus. Segundo o artista, notícias sobre acontecimentos do mundo, incluindo lançamentos de foguetes, passaram a alimentar o repertório das toadas. O relato oferece uma pista para compreender a continuidade dessas trocas entre a brincadeira e os meios de comunicação.


A ligação com esse repertório herdado também aparece na maneira como JP descreve seu trabalho: “Versando, mantemos viva a essência do ‘seo’ Lindolfo, fundador e primeiro Amo do nosso Boi”, afirmou em entrevista ao Portal Mazé Mourão, em 2020. Sua trajetória permite acompanhar como essa referência à tradição convive com escolhas criativas que incluem o cinema, as séries e a relação com quem assiste ao festival pelas telas.

 
 
 

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