Livro-reportagem transforma o paladar rondoniense em pauta da Folkcomunicação
- Andriolli Costa
- há 2 horas
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Organizada por Sônia Regina Cunha e produzida por estudantes da UNIR, obra reúne sete reportagens sobre cupuaçu, tacacá, tapioca, tucumã, tucupi, agricultura urbana e memórias do seringal

O cupuaçu que virou sustento para duas gerações de mulheres. O tacacá servido em uma kombi. A tapioca preparada de madrugada e entregue sobre uma folha de bananeira. O tucupi vendido há décadas no Mercado Central de Porto Velho. Essas histórias compõem Sabores, Saberes, Afetos: o paladar rondoniense com uma pitada folkcomunicacional, livro-reportagem organizado por Sônia Regina Soares da Cunha e produzido com estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
Publicado em 2025 pela Editora da UNIR, o livro nasceu na disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo I — Folkcomunicação. Em vez de voltar o olhar para restaurantes sofisticados ou receitas preparadas para circular nas redes sociais, a turma foi às ruas, aos mercados, às hortas e às cozinhas de Porto Velho em busca da alimentação que acompanha o cotidiano da cidade.
A publicação articula cultura alimentar, histórias de vida, memória, trabalho e transmissão de conhecimentos. Os ingredientes aparecem como ponto de entrada para conhecer pessoas que transformaram práticas aprendidas em família ou na comunidade em meios de subsistência, formas de pertencimento e patrimônios mantidos no dia a dia.
Sete reportagens, diferentes maneiras de alimentar
A primeira reportagem, Cupuaçu: o fruto que alimenta histórias, acompanha Elza Garcia e Vitória Perez Graça, mãe e filha ligadas à produção de doces regionais. A trajetória começou em um momento de desemprego, com brigadeiros vendidos nas ruas, e se desenvolveu até a criação de uma empresa dedicada a produtos feitos com cupuaçu. O texto aproxima empreendedorismo feminino, agricultura familiar e bioeconomia sem separar essas dimensões das dificuldades que deram origem ao negócio.
Em O verdadeiro sabor da Amazônia, os estudantes apresentam a história de Paizinha e de seu marido, responsáveis pelo Tacacá da Kombi. Antes de o estabelecimento se tornar conhecido em Porto Velho, Paizinha já preparava bombons de cupuaçu e castanha-do-Brasil, além de sequilhos cuja receita foi adaptada de uma antiga embalagem de amido de milho. A troca da margarina pela manteiga e a inclusão de novos ingredientes mostram como uma receita pode ser transmitida sem permanecer imóvel.
Tapioca: delícia que atravessa o tempo apresenta dona Jaqueline, boliviana que vive há décadas em Rondônia e mantém uma barraca diante do Mercado Central. A preparação começa ainda de madrugada, no fogão a lenha. A massa recebe coco fresco e é servida sobre uma folha de bananeira, combinando conhecimentos de diferentes origens culturais.
A barraca se tornou referência para trabalhadores, estudantes, autoridades e clientes que atravessam a cidade para comer. Ao comentar o futuro da atividade, dona Jaqueline adverte: “Se você não der valor e não seguir a tradição, daqui uns anos você não vai ver esse produto.”
O tucumã conduz outra narrativa sobre trabalho e sobrevivência. Em Tucumã: do começo ao fim é lucro certo, Maurício e Augusta contam como construíram suas vidas a partir da comercialização do fruto. A reportagem acompanha o aproveitamento de diferentes partes do produto e as maneiras pelas quais um ingrediente amazônico sustenta famílias e movimenta pequenos negócios.
Em Tucupi: sabor e memórias, os personagens são Nega Sônia e Chico do Tucupi, comerciantes do Mercado Central de Porto Velho. Os dois dominam modos de preparo aprendidos pela experiência e transmitidos oralmente. Chicória, açafrão, jambu, alfavaca e pimenta alteram o resultado, fazendo com que a receita dependa tanto dos ingredientes quanto do repertório de quem cozinha.
Da horta urbana ao seringal
A alimentação também permite ao livro discutir o abastecimento das cidades e os efeitos das mudanças ambientais. Horta Urbana Agrovida: regeneração da vida apresenta uma produção hidropônica mantida há aproximadamente três décadas em Porto Velho. A estrutura fornece hortaliças para supermercados, emprega cerca de 40 pessoas e ajuda a pensar alternativas para a oferta local de alimentos em uma região marcada por grandes distâncias e dificuldades de transporte.
A última reportagem muda a escala. Em O tempero da eterna juventude é o afeto, Olavo Bilac da Silva Nascimento narra a trajetória de seus pais, João e Sebastiana. A história atravessa o seringal, a extração da borracha, o cultivo da própria comida e os deslocamentos de uma família formada na floresta.
Nesse capítulo, o alimento não está associado a um produto comercial específico. Ele aparece na farinha, no café torrado no quintal, no óleo extraído do coco babaçu, nas verduras da horta e na caça eventualmente levada à panela. As receitas ajudam a recuperar uma experiência de vida em que floresta, trabalho, família e alimentação não existiam como campos separados.
O texto também desloca a posição do repórter. Olavo não observa uma história externa, mas registra a memória da própria família. A reportagem assume o afeto como parte da apuração e transforma lembranças domésticas em documento sobre os modos de viver na Amazônia.
Culinária também comunica
A perspectiva folkcomunicacional permite tratar a culinária como mais do que uma reunião de pratos. Cada receita carrega informações sobre quem plantou, preparou, adaptou, vendeu ou ensinou. A comunicação acontece na conversa entre familiares, na observação dos gestos, na repetição diária do preparo e nas mudanças feitas quando falta um ingrediente ou surge uma nova possibilidade.
Na introdução, Sônia Regina recupera estudos de José Marques de Melo sobre a difusão gastronômica no espaço folkcomunicacional. O pesquisador observava que o paladar se forma nos círculos familiares, étnicos e geoculturais, onde receitas e preferências são transmitidas entre gerações. Luiz Beltrão também incluía a culinária entre as artes populares produzidas no ambiente doméstico.
O livro desloca essas discussões para Rondônia. A comida permite identificar agentes populares que preservam e atualizam conhecimentos: quituteiras, feirantes, agricultores, vendedores ambulantes e pequenos empreendedores. São pessoas pouco presentes na cobertura gastronômica convencional, embora participem diretamente da formação do paladar e da identidade regional.
As reportagens também evitam apresentar a cultura alimentar rondoniense como um repertório fechado. As receitas revelam encontros entre povos originários, migrantes de diferentes regiões brasileiras, populações negras e famílias vindas de países vizinhos. A tapioca de dona Jaqueline, por exemplo, reúne uma mulher nascida na Bolívia, conhecimentos adquiridos na convivência com indígenas e ingredientes ligados a diferentes deslocamentos históricos. O rondoniense aparece, assim, menos como uma origem única do que como resultado de encontros, adaptações e formas locais de pertencimento.
Da sala de aula ao trabalho de campo
A obra foi construída por 18 estudantes: Ana Kellhy da Silva Rosa, Ana Laura Barros Cavalcante, Angelo Gabriel de Oliveira, Gabriel Moreira da Silva Cunha, Gian Vitor Rodrigues de Souza, Josefa Amelia Neves da Silva, Larysse Barbosa Rodrigues, Logan Leudo Peixoto da Silva dos Santos Batista, Maria Eduarda Castro dos Santos, Maytso Tebalde Rodrigues, Mirla Oliveira Mota, Naidanni Emanuelle de Lima Eli, Nelcleton de Assunção Lima, Olavo Bilac da Silva Nascimento, Patrick Prates Bastos, Quetlen Caetano Pereira, Sharon Wayne Mendes Costa e Taiana Mendonça Miranda de Queiroz.
A disciplina foi ministrada por Sônia Regina, Vanessa Mafra e Francisco Carlos Guerra de Mendonça Júnior. A turma recebeu ainda, na abertura das atividades, uma participação do então presidente da Rede Folkcom, Andriolli Costa.
Para produzir as reportagens, os estudantes realizaram entrevistas presenciais, fotografaram os ambientes e acompanharam aspectos do preparo e da comercialização dos alimentos. O trabalho adotou elementos do jornalismo literário e da entrevista experiencial, procurando narrar os personagens em relação com suas comunidades e seus espaços de atuação.
O texto de apresentação é assinado por Maria Érica de Oliveira Lima. Lawrenberg Advíncula contribui com Arqueologia de histórias, texto de abertura no qual situa a publicação no encontro entre Comunicação, ensino de Jornalismo e culinária popular.
A experiência também expôs aos estudantes imprevistos comuns à reportagem. Fontes desistiram de falar, entrevistas foram remarcadas e pautas precisaram ser modificadas durante o processo. Essas mudanças foram incorporadas à reflexão sobre o fazer jornalístico, mostrando que a apuração não se encerra no planejamento produzido em sala.
O resultado é uma obra de formação que não simula uma redação: os estudantes entrevistam pessoas reais, enfrentam problemas de campo e entregam um produto editorial disponível ao público. O livro pode ser baixado gratuitamente em formato digital.
Em suas páginas, os sabores ajudam a contar uma Rondônia formada no mercado, na calçada, no quintal, no seringal e diante do fogão. O alimento chega ao prato acompanhado por lembranças, técnicas, deslocamentos e relações de trabalho. É nesse percurso que a culinária deixa de funcionar apenas como tema e passa a ser compreendida como linguagem da vida cotidiana.





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