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Coletânea Folk Amazônia acompanha saberes populares entre a comunidade, a mídia e o mercado

Segundo volume da série reúne 26 autores em estudos sobre benzimento, artesanato, Facebook, toadas, folkmarketing, jornalismo, representação negra e urbanidade indígena



Uma benzedeira escolhe rezas e ervas de acordo com quem procura sua ajuda. Um artesão transforma garrafas PET e sementes de tucumã em animais. Líderes religiosos transferem parte de suas atividades para o Facebook durante a pandemia. Empresas alteram embalagens, fachadas e campanhas para assumir as cores de Garantido e Caprichoso.


Esses processos estão reunidos em Coletânea Folk Amazônia – Volume 2: Folkmídia e Mediações Populares, publicação que investiga como práticas culturais e conhecimentos comunitários circulam entre relações presenciais, plataformas digitais, meios de comunicação e estratégias mercadológicas.


Organizado por Allan Soljenítsin Barreto Rodrigues, Gleilson Medins de Menezes, Adelson da Costa Fernando, Gabriel Ferreira Fragata e Danilo Egle Santos Barbosa, o livro tem 154 páginas, 12 capítulos e textos de 26 autores. A obra foi publicada pela Seven Editora em acesso aberto.


Se o primeiro volume da série estava concentrado nas manifestações simbólicas e nos modos populares de comunicação, o segundo acompanha o que acontece quando essas experiências encontram outros sistemas de circulação. A passagem para a mídia não ocorre sem mudanças: os agentes conquistam visibilidade, as tradições alcançam novos públicos e as instituições se apropriam de símbolos produzidos pelas comunidades.


Garrafas, sementes e “bichinhos de arte”

Larissa Vitória de Souza Gonçalves, Ely Erica Nascimento Pessoa, Raymar dos Reis Martins e Adelson da Costa Fernando acompanham o trabalho do artesão Milton Pereira, de Parintins.


Formado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Amazonas e com experiência profissional na Fundação Nacional dos Povos Indígenas, Milton passou a utilizar garrafas PET e sementes de tucumã descartadas após o consumo. Com esses materiais, criou peças batizadas de “bichinhos de arte”.


O trabalho surgiu durante o período de isolamento social e ganhou circulação por intermédio de amigos, que levaram as peças às feiras de Parintins e ajudaram a divulgá-las. As vendas se intensificaram durante o Festival Folclórico, quando o fluxo de moradores e visitantes ampliou o contato com o artesanato.


O estudo identifica Milton como agente folk porque sua criação não se encerra na reutilização do material. As peças comunicam uma preocupação ambiental, carregam referências da cultura local e permitem que cada comprador atribua novos sentidos aos objetos. Aquilo que seria descartado retorna à circulação como arte, memória e possibilidade de renda.


A comunidade também se forma no Facebook

A relação entre tradição religiosa e plataforma digital aparece no estudo de Renan Jorge Souza da Mota e Adelson da Costa Fernando. Os autores acompanham a Comunidade Carismática Católica Fanuel, em Parintins, e as mudanças realizadas durante a pandemia de Covid-19.


Diante das restrições aos encontros presenciais, o Facebook passou a receber músicas, pregações, momentos de adoração e peças de divulgação produzidas pelo grupo. O líder carismático, antes reconhecido principalmente dentro da comunidade física, começa a circular em um espaço no qual as mensagens religiosas podem ultrapassar limites territoriais.


O capítulo aproxima a noção de agente folkmidiático da teoria dos campos de Pierre Bourdieu. A plataforma é tratada como ambiente de relações, disputas por reconhecimento e construção de autoridade. As publicações fortalecem vínculos religiosos, mas também projetam individualmente as lideranças e transformam a visibilidade em uma forma de capital.


A pesquisa ajuda a compreender que a entrada de um grupo popular nas redes não corresponde à simples transferência das mesmas atividades para outro suporte. O ambiente digital modifica a audiência, as formas de participação e as disputas internas pelo direito de falar em nome da comunidade.


Rezas e ervas comunicam a cura

Na comunidade Santa Terezinha do Aninga, em Parintins, Alessandra Pereira Anselmo, Enna Mara Oliveira Pinheiro e Adelson da Costa Fernando entrevistaram uma benzedeira identificada pelo nome fictício de Dona Flor.


Ela começou a benzer e “puxar” aos 13 anos. Aos poucos, o conhecimento inicialmente usado entre familiares passou a atender moradores que buscavam ajuda para quebranto, mau-olhado, rasgadura, dores e outros problemas. As práticas combinam orações católicas, ervas, chás, garrafadas e uma leitura específica das necessidades de cada pessoa.


Dona Flor não utiliza a mesma reza ou preparação em todos os atendimentos. O diagnóstico orienta as palavras, as plantas e os gestos empregados. O capítulo compreende esse processo como uma comunicação voltada à cura: a benzedeira traduz o problema para códigos compartilhados pela comunidade e organiza uma resposta reconhecida por aqueles que confiam em seu trabalho.


Essa autoridade não depende de cargo institucional. Ela se estabelece pela experiência, pela fé e pelos resultados atribuídos aos atendimentos. Os moradores podem procurar simultaneamente o serviço médico e a benzeção, sem considerar as duas práticas necessariamente incompatíveis.


Saberes que atravessaram o isolamento

Rodrigo da Silva Pinheiro, Brena de Moraes Pereira e Adelson da Costa Fernando ampliam essa discussão ao investigar os conhecimentos tradicionais de Barreirinha, no Baixo Amazonas. A pesquisa foi realizada em 2020, durante o isolamento social, por meio de relatos orais de moradores mais velhos e de seus descendentes.


Puxações, benzições, remédios preparados com plantas, crenças, histórias e festas formam uma rede de saberes transmitida entre gerações. Os entrevistados costumam explicar essas capacidades como um “dom”, aprendido na convivência familiar ou recebido como responsabilidade espiritual.


A pesquisa também acompanha a coexistência de diferentes pertencimentos religiosos. Católicos recorrem a banhos e benzições, enquanto evangélicos convivem com parentes ligados a outras práticas. Festas como a de Nossa Senhora do Bom Socorro, celebrada em agosto, reúnem promessas relacionadas à saúde, ao trabalho e às consequências das cheias sobre as plantações.


As celebrações de São Sebastião, na comunidade quilombola de Santa Tereza do Matupiri, e de São Benedito, na Freguesia do Andirá, também aparecem como espaços de afirmação cultural e reivindicação territorial. Os relatos registram conhecimentos que permaneceram fora da escola e da universidade, mas continuaram orientando a vida cotidiana do chamado “povo ariramba”.


As toadas chegam à sala de aula

A dimensão educativa do Festival de Parintins é examinada por Klysna Layana Moreira Almeida, Vivian Karine da Cruz Tourinho, Emilli Marolix Flores e Adelson da Costa Fernando.


As autoras analisam “Índio do Brasil” e “A conquista”, duas toadas do Boi Garantido que abordam a história e os problemas enfrentados pelos povos originários. As letras tratam de invasões, grilagem, garimpo, desmatamento, violência e apagamento cultural, ao mesmo tempo que apresentam objetos e práticas ligados a diferentes povos indígenas.


Ao mencionar a cerâmica marajoara, os remos Sateré-Mawé, a arte plumária Ka’apor, a pintura Kadiwéu, o arco Munduruku e outros elementos, as canções transformam o repertório do Festival em material para discutir história, território e identidade.


O estudo propõe que essas toadas sejam reconhecidas como produtos folkcomunicacionais com potencial pedagógico. Elas podem funcionar como ponto de partida para atividades escolares, desde que a apresentação festiva não substitua o aprofundamento sobre os povos representados.


A pesquisa também chama atenção para uma tensão. As músicas adaptaram ritmo e formato para alcançar turistas e públicos mais amplos, mas continuam exercendo uma função social ao levar questões indígenas para a arena, para as rádios e para as plataformas digitais.


O Festival transformado pela mídia

O encontro entre os bois-bumbás e a comunicação de massa orienta o capítulo de Lucely Cursino Monteiro, Rina Rodrigues Sales, Rosibel Xavier de Sousa e Kethleen Guerreiro Rebêlo.


As autoras acompanham mudanças realizadas ao longo da história do Festival: alterações nos horários e na duração das apresentações, introdução de equipamentos eletrônicos, expansão da cobertura e modificações na estrutura das toadas. O folguedo organizado inicialmente por moradores passa a responder também às necessidades da televisão, dos patrocinadores e do turismo.


A pesquisa interpreta esse movimento pela perspectiva da folkmídia. O Festival utiliza os recursos dos meios de comunicação para ampliar seu alcance, enquanto a mídia transforma a festa em conteúdo capaz de gerar audiência e retorno financeiro. As duas instâncias passam a alimentar uma à outra.


O estudo não apresenta a tecnologia como responsável por uma perda automática de autenticidade. As transformações também ajudaram a financiar o evento, profissionalizar sua produção e projetar Parintins. A questão levantada é como negociar essas mudanças sem apagar os sentidos reconhecidos por quem constrói a festa.


Quando as marcas escolhem um boi

Dayanne Cristine Pires Dagnaisser e Lúcia Marina Puga Ferreira observam essa negociação no 50º Festival Folclórico de Parintins, realizado em 2015. A pesquisa de campo registrou como empresas patrocinadoras adaptaram suas marcas à divisão da cidade entre azul e vermelho.


A Coca-Cola produziu rótulos com os nomes dos bois, instalou portais nas duas cores e distribuiu guarda-sóis identificados com Garantido ou Caprichoso. Dentro do Bumbódromo, bandeiras com a marca desciam sobre as duas galeras durante as apresentações.


A Brahma criou latas inspiradas nas faces dos bumbás e incentivou uma disputa nas redes sociais por meio das expressões “#brahmanocoracao”, para o Garantido, e “#estreladabrahma”, para o Caprichoso. A Vivo lançou cartões de recarga temáticos e a campanha “Felicidade Garantida, paixão Caprichada”. O Bradesco alterou a fachada da agência, produziu adereços e estampou sua marca nas roupas dos trabalhadores responsáveis pela movimentação das alegorias.


O capítulo identifica essas operações como estratégias de folkmarketing. As organizações incorporam símbolos e rivalidades locais para aproximar seus produtos do público. Em contrapartida, o patrocínio tornou-se indispensável para custear a escala assumida pelo espetáculo.


As autoras defendem que esse vínculo não deveria existir apenas durante a temporada bovina. Projetos sociais e ambientais desenvolvidos ao longo do ano permitiriam uma relação mais consistente entre as empresas, a cidade e a cultura utilizada em suas campanhas.


Quem chega à cidade continua indígena

A Amazônia urbana é examinada por Gleilson Medins de Menezes e Allan Rodrigues. A partir de estudos e reportagens publicados entre 2014 e 2018, os autores identificam problemas enfrentados por indígenas que vivem em Manaus.


A mudança para a capital pode estar associada à busca por educação, atendimento de saúde e trabalho, assim como à pressão econômica sobre os territórios de origem. Na cidade, porém, as famílias encontram dificuldades de moradia, preconceito, discriminação, conflitos geracionais e acesso insuficiente a políticas públicas específicas.


Os indígenas que vivem em bairros periféricos também precisam enfrentar a ideia de que a permanência na cidade retiraria sua identidade. Em resposta, formam associações, movimentos e comunidades multiétnicas que criam novas territorialidades e mantêm redes de apoio.


O capítulo reivindica habitação digna, educação bilíngue, atendimento de saúde humanizado, trabalho e respeito à diversidade. A urbanização não elimina os vínculos comunitários nem transforma automaticamente os indígenas em integrantes indiferenciados da população urbana.


Um jornalismo que procure o que ficou escondido

A formação e o trabalho dos jornalistas aparecem em dois capítulos. Gleilson Medins e Rafael de Figueiredo Lopes discutem a velocidade da produção de notícias e a dificuldade de investigar grupos e acontecimentos que permanecem fora da agenda dos grandes veículos.


Como resposta, os autores propõem a ideia de “folkjornalismo”: uma prática orientada pela escuta das camadas populares, pela valorização da alteridade e pela atenção às realidades locais. A proposta não constitui uma técnica fechada. Funciona como posição ética diante de um jornalismo industrial marcado pelo imediatismo, pelas metas de produtividade e pela reprodução das perspectivas dos grupos dominantes.


O folkjornalista teria a tarefa de procurar acontecimentos e sujeitos que não chegam espontaneamente às redações. Na Amazônia, isso significa reconhecer conhecimentos, conflitos e modos de vida que costumam aparecer apenas quando se transformam em crise, exotismo ou atração turística.


Eron Sampaio de Sá e Joyce Karoline Pinto Oliveira Pontes, por sua vez, questionam a baixa presença de profissionais negros no telejornalismo. O capítulo recupera trajetórias como as de Glória Maria, Heraldo Pereira, Maria Júlia Coutinho, Zileide Silva, Dulcineia Novaes e Valéria Almeida, observando como esses nomes ainda aparecem como exceções em um país de maioria negra.


A análise relaciona a pouca presença diante das câmeras às desigualdades encontradas desde a formação universitária até a contratação e a ascensão profissional. Também critica a permanência de atores e jornalistas negros em posições inferiores ou papéis estereotipados.


Beltrão encontra Habermas

O volume reserva espaço para duas reflexões teóricas. Alexsandro Melo Medeiros aproxima a Folkcomunicação da Teoria do Agir Comunicativo de Jürgen Habermas.

O diálogo passa pelos conceitos de intersubjetividade, mundo da vida, mundo sistêmico, esfera pública e ética do discurso. Enquanto Beltrão investiga como os grupos afastados dos meios dominantes produzem seus próprios circuitos de comunicação, Habermas permite discutir as condições necessárias para que os sujeitos construam entendimento por meio da linguagem.


A aproximação sugere que a comunicação popular pode atuar contra a colonização do mundo da vida pelo mercado e pelo Estado burocrático. Ao formular mensagens, ocupar espaços públicos e tornar visíveis seus interesses, os grupos marginalizados disputam a definição dos problemas coletivos.


Sofia Maria de Oliveira e Oliveira e Adson Manoel Bulhões da Silva discutem tradição e mudança na formação da cultura brasileira. Para os autores, modernização não significa necessariamente abandono das práticas tradicionais. As culturas populares incorporam elementos novos, reorganizam símbolos e respondem às transformações sociais sem permanecer imóveis.


Os dois capítulos ajudam a amarrar os estudos empíricos do livro. Benzimento, artesanato, toada e ritual religioso não aparecem como sobrevivências isoladas. São práticas que mudam de suporte, negociam sentidos e disputam espaço diante da indústria cultural, da mídia e das instituições.


Um campo construído a partir da Amazônia

O segundo volume dá continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação, Cultura e Amazônia (Trokano). Desde 2017, o grupo promove jornadas, conferências, orientações e pesquisas voltadas às relações entre comunicação e cultura popular na região. A primeira coletânea acompanhou toadas, cordéis, pescadores, comunidades quilombolas e o sistema de cotas da UFAM. Folkmídia e Mediações Populares avança sobre os pontos de contato entre essas experiências e as estruturas contemporâneas de circulação.


Os estudos mostram agentes populares que não permanecem restritos às relações presenciais. Eles entram nas redes sociais, disputam a televisão, dialogam com a escola, alimentam o turismo e oferecem símbolos para campanhas comerciais. Ao acompanhar essas passagens, o livro procura compreender tanto as possibilidades de visibilidade quanto as mudanças e os conflitos provocados por elas.

 
 
 

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