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Coletânea Folk Amazônia acompanha toadas, cordéis e saberes das águas para estudar a comunicação popular

Primeiro de três volumes previstos até 2027, livro reúne 23 autores em pesquisas sobre o Festival de Parintins, pescadores tradicionais, comunidades quilombolas, cotas universitárias e outras experiências amazônicas



Um pescador que localiza cardumes pela leitura das águas, um cordelista que comenta a política de Coari, compositores que levam as presenças negra e indígena para as toadas de boi-bumbá e estudantes que ingressam na universidade pelo sistema de cotas. São alguns dos sujeitos e processos reunidos em Coletânea Folk Amazônia – Volume 1: Manifestações simbólicas.


Organizado por Allan Rodrigues, Gleilson Medins de Menezes, Adelson Fernando e Gabriel Ferreira, o livro percorre formas de comunicação construídas na música, na literatura popular, no trabalho, nas festas e nas relações comunitárias. Publicada pela Seven Editora, a obra tem 136 páginas, 11 capítulos e textos de 23 pesquisadores.


A coletânea parte de uma escolha explícita: pensar a Folkcomunicação com base nas experiências de quem vive e pesquisa na Amazônia. Em vez de tratar a região apenas como objeto observado de fora, os capítulos acompanham práticas culturais, conflitos e modos de vida a partir de Manaus, Parintins, Coari, Barreirinha e comunidades rurais do Amazonas.


Parintins dentro e fora do Bumbódromo

O Festival Folclórico de Parintins atravessa diferentes capítulos, mas aparece por caminhos que ultrapassam a disputa entre Garantido e Caprichoso. Em “Toada Perrechés do Brasil: expressões folkcomunicacionais”, Bruna do Carmo Reis Lira analisa a circulação da música durante a Alvorada Vermelha, manifestação que começa na noite de 30 de abril e termina na manhã de 1º de maio.


A pesquisadora observa como a letra, as cores e o comportamento dos participantes reforçam o pertencimento ao Boi Garantido. Os compositores da toada e o levantador Israel Paulain são identificados como agentes folk que articulam referências culturais de diferentes partes do país dentro de uma celebração parintinense.


A presença negra nas apresentações dos bois é discutida por Jessica Dayse Matos Gomes e Renilda Aparecida Costa. As autoras analisam toadas produzidas em 2012, 2016 e 2017, além de entrevistas com os compositores Enéas Dias e Marcos Moura. Canções como “Auto do Boi Garantido” e “Quilombolas da Amazônia” são examinadas como espaços de reconhecimento da contribuição africana para a formação cultural da região.


O estudo chama atenção para a maneira caricata como Pai Francisco, Mãe Catirina e Gazumbá foram historicamente apresentados. As produções mais recentes, segundo as autoras, começaram a conceder maior densidade aos personagens negros e a confrontar o silenciamento da presença afro-amazônica.


A representação dos povos indígenas também recebe uma leitura específica. Adriano Pinto Marinho e Allan Rodrigues estudam as toadas “Wat’amã”, dedicada ao ritual da Tucandeira do povo Sateré-Mawé, e “Brasís Ameríndios”, de Simão Assayag. Enquanto a primeira apresenta elementos do ritual de passagem, a segunda aborda o genocídio e a redução das populações indígenas. O capítulo discute as músicas como meios capazes de levar essas questões a turistas, torcedores e públicos que não pertencem às comunidades representadas.


O Festival, porém, não resume a vida musical da cidade. Em “Parintins não é só boi-bumbá”, Christiane Rodrigues Pereira, Jucimara Silva Carvalho e Deilson Trindade do Carmo mostram que forró, bolero, samba, pagode e sertanejo continuam presentes nas festas e nas mídias locais durante todo o ano, inclusive no mês de junho. O capítulo evita transformar uma manifestação reconhecida internacionalmente em explicação única para a diversidade cultural parintinense.


Da banda militar ao cordel político

Um dos objetos menos esperados da coletânea é a Banda de Música do Comando Militar da Amazônia. Jefferson Rodrigo da Silva, Claudinei de Almeida Júnior e Jonas da Silva Gomes Júnior investigam o que chamam de “elasticidade” do conjunto.


Quando deixa o ambiente militar para tocar em praças, centros comerciais e outros espaços civis, a banda altera seu repertório para estabelecer uma relação com o público. Marchas e canções militares passam a dividir espaço com toadas de boi-bumbá, músicas populares e sucessos da indústria cultural — entre eles “Despacito”, de Luis Fonsi. Essa apropriação permite aos autores discutir como uma instituição formal incorpora elementos locais e populares para se comunicar com a sociedade manauara.


Em Coari, a mediação ocorre pela literatura de cordel. Antônio Genivaldo Lira Lacerda, Azenilton Melo da Silva e Hernán Gutiérrez Herrera analisam Os Prefeitos de Coari e Os Ratos que Destruíram Coari, do poeta Francisco Chagas Simeão da Silva.


Com ironia e referências reconhecíveis pelos moradores, Chagas comenta administrações municipais, disputas de poder e acontecimentos da política local. O cordel funciona como meio artesanal de informação e opinião, aproximando fatos públicos de leitores que compartilham os códigos e a memória da cidade.


As mensagens lidas nas águas

Dois estudos acompanham o trabalho dos pescadores de Parintins. Maria Valcirlene de Souza Bruce e Iraildes Caldas Torres entrevistaram três pescadores tradicionais da comunidade do Divino Espírito Santo, em uma área de várzea.


Os relatos descrevem a escolha dos instrumentos, o tempo passado no rio, as estratégias para capturar e conservar o pescado e os riscos enfrentados na atividade. Caniço, rede, espinhel, casco e cuia de chibé aparecem ligados a conhecimentos transmitidos entre gerações. A pesquisa também confronta a imagem romantizada do pescador presente em poemas e canções com a dureza do trabalho cotidiano.


Na comunidade do Maranhão, Odin Barbosa de Oliveira, Jéssica Caroline Correa da Silva e Alexandre dos Santos de Oliveira estudam o pescador cambiteiro. Dentro da pesca com redes, ele é responsável por encontrar o cardume e avisar aos demais pescadores o momento adequado para o lançamento.


Essa tarefa depende da observação de movimentos, espécies e sinais das águas. Ao transformar percepções ambientais em informações utilizadas pelo grupo, o cambiteiro é identificado como agente folkcomunicador. O capítulo foi construído com entrevistas, anotações de campo, registros etnográficos e história oral.


Cotas, quilombos e disputas por reconhecimento

A coletânea também leva a Folkcomunicação para o interior da universidade. Divan Santana Ramos e Maria Audirene de Souza Cordeiro analisam o ingresso de estudantes pelo sistema de cotas no Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia da Universidade Federal do Amazonas, em Parintins.


Entre 2013 e o segundo semestre de 2017, o levantamento identificou 433 cotistas nos sete cursos da unidade. Educação Física recebeu 76; Administração, 74; Serviço Social, 65; Zootecnia, 61; Pedagogia, 60; Comunicação Social, 53; e Artes Visuais, 44.


O estudo aponta, entretanto, uma limitação nos dados institucionais: os registros consultados não permitiam distinguir quantos estudantes eram negros, pardos ou indígenas. Para os autores, essa ausência dificulta avaliar se a distribuição das vagas corresponde à composição étnica do Amazonas. A entrada desses grupos no ensino superior também é interpretada como ocupação de um espaço historicamente marcado por silenciamentos.


Renilda Aparecida Costa e Jessica Dayse Matos Gomes voltam-se às comunidades quilombolas do Amazonas. A pesquisa combina levantamento bibliográfico e trabalho etnográfico nos territórios do Rio Andirá, em Barreirinha, onde cinco comunidades conquistaram reconhecimento como remanescentes de quilombos.


Festas, narrativas, símbolos e reivindicações territoriais aparecem como formas de afirmar uma presença negra por muito tempo reduzida ou apagada nos registros oficiais sobre a região. As manifestações comunitárias comunicam histórias de resistência e sustentam a luta pelo reconhecimento de direitos e pela manutenção das tradições.


Escutar antes de interpretar

Além dos estudos de caso, Allan Rodrigues, Gleilson Medins de Menezes e Rafael de Figueiredo Lopes discutem o uso da história oral nas pesquisas em Folkcomunicação. O capítulo trata entrevistas, memórias e narrativas de vida como instrumentos especialmente importantes para investigar grupos cujos conhecimentos não estão registrados em documentos escritos ou nos meios convencionais.


A proposta metodológica dialoga diretamente com os demais textos do volume. Pescadores, compositores, moradores de comunidades rurais e agentes culturais não aparecem somente como fontes que confirmam uma hipótese formulada previamente. Suas falas participam da construção do próprio conhecimento apresentado pela coletânea.


Uma pesquisa formada entre Manaus e Parintins

O livro é resultado da trajetória do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Cultura e Amazônia (Trokano). O percurso começou a ganhar uma frente especificamente folkcomunicacional em 2017, após José Marques de Melo propor a realização da Conferência Brasileira de Folkcomunicação em Parintins.


Em novembro daquele ano, o grupo promoveu a I Jornada de Folkcomunicação da Amazônia, com atividades em Parintins e Manaus. A mobilização preparou a cidade para receber, entre 25 e 27 de junho de 2018, a XIX Conferência Brasileira de Folkcomunicação, dedicada ao tema “Folkcomunicação, ancestralidade e desenvolvimento local”.


A conferência reuniu 102 trabalhos em cinco grupos temáticos e ajudou a estimular pesquisas de graduação, mestrado e doutorado. Parte dessa produção, acumulada em jornadas, orientações e trabalhos de campo, chega agora ao primeiro volume da coleção.

Com prefácio de Karina Janz Woitowicz, Manifestações simbólicas inaugura uma série de três livros prevista para ser concluída em 2027. O segundo volume, dedicado à folkmídia e às mediações populares, também foi publicado em 2026.

 
 
 

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