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Da tradição dos ursos à inteligência artificial, Folkcom 2025 premia nova geração de pesquisadores

1 de nov. de 2025
6 min de leitura

Conferência reconheceu 15 trabalhos de estudantes em categorias dedicadas à pesquisa acadêmica, fotografia, audiovisual e podcast


Um folguedo carnavalesco preservado há mais de 70 anos em Mossoró. A literatura de cordel diante das possibilidades e tensões da inteligência artificial. Benzimentos transmitidos entre gerações na Amazônia. Ritmos tradicionais do Tocantins, vivências do Tambor de Mina e o rap produzido sob uma ditadura africana.


Objetos, territórios e linguagens diferentes se encontraram entre os vencedores dos prêmios estudantis da Folkcom 2025. Ao todo, 15 trabalhos receberam o primeiro lugar, a menção honrosa ou a terceira colocação nas categorias de artigo de graduação, artigo de pós-graduação, fotografia, audiovisual e podcast.


O resultado foi anunciado em 31 de outubro de 2025, durante o encerramento da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. Com o tema “Raízes do presente, futuros ancestrais”, o evento reuniu pesquisadores, estudantes, comunicadores e agentes culturais para discutir como saberes populares e memórias coletivas participam da construção do presente e da imaginação de outros futuros.


A premiação mostrou que esse debate não ficou restrito aos artigos apresentados nos grupos de trabalho. Ele também ganhou forma por meio de imagens, documentários e narrativas sonoras produzidas por estudantes de diferentes regiões do país.


Ursos carnavalescos vencem categoria de graduação

O primeiro lugar entre os artigos de graduação ficou com “A tradição dos Ursos Carnavalescos em Mossoró-RN: instrumento de memória e resistência”, de Lucimara Nascimento, Júnia Martins e André Duarte, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).


Conhecida também como La Ursa, a brincadeira permanece há mais de sete décadas no carnaval de Mossoró. A pesquisa procura compreender como a tradição se manteve por meio da transmissão oral e das memórias compartilhadas entre diferentes gerações.


O trabalho mostra que a permanência dos Ursos Carnavalescos não depende da repetição inalterada de uma forma antiga. A manifestação sobrevive justamente porque é transmitida, adaptada e redesenhada pelos brincantes. As mudanças não anulam a tradição: participam de sua continuidade.


A menção honrosa foi concedida a Marina Ranzani, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pelo artigo “Entre o show e a notícia: Lady Gaga em Copacabana (2025) e a construção simbólica do acontecimento através dos sentidos e enquadramentos”. A pesquisa observa como o espetáculo musical foi convertido em acontecimento midiático e incorporado ao imaginário da cidade.


A terceira colocação ficou com Tiago de Lima Eneas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por “O ativismo de Carolina Maria de Jesus: um estudo folkcomunicacional de Quarto de despejo”. O artigo aproxima a escrita da autora da atuação dos agentes populares que interpretam e comunicam as experiências de grupos socialmente marginalizados.


Assim, o resultado da categoria reuniu três formas distintas de produção de memória: uma tradição carnavalesca transmitida pelos brincantes, um espetáculo contemporâneo construído pela mídia e uma obra literária que transforma a experiência da pobreza e do racismo em testemunho e intervenção pública.


Cordel e inteligência artificial vencem na pós-graduação

Entre os trabalhos de pós-graduação, o primeiro lugar foi conquistado por Rafael de Araújo Mélo, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da UFRN. Cordelista e pesquisador, ele apresentou o artigo “Cordel e inteligência artificial: novos modos de presença nos fenômenos estéticos contemporâneos da literatura popular”.


A pesquisa analisa o emprego da inteligência artificial na produção de elementos associados ao cordel, como poemas, xilogravuras e musicalidades. Em vez de tratar a tecnologia apenas como novidade instrumental, o estudo discute como ela interfere nas formas de presença, autoria e reconhecimento da arte popular.


O trabalho foi orientado por Juciano Lacerda e recebeu o prêmio dedicado à antropóloga Luitgarde Barros. A homenagem reconheceu a trajetória da pesquisadora e sua contribuição para os estudos sobre memória, religiosidade, movimentos populares e Folkcomunicação.


A menção honrosa ficou com Adailane Santos, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), pelo artigo “Entre músicas, flores e perfumes: a Lavagem da Purificação toma as ruas”. A pesquisa aborda a celebração realizada em Santo Amaro, observando como cortejo, música, religiosidade e ocupação das ruas comunicam identidades e pertencimentos.


Clebson Lustosa Lima, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), e Elinalva da Conceição Sousa, da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), conquistaram a terceira colocação com “Mãe Maria de Oxum: uma líder de opinião folk do Quilombo Canabrava, em Paquetá, no sertão do Piauí”. O estudo reconhece a liderança religiosa e comunitária como mediadora de conhecimentos, valores e memórias no território quilombola.


Fotografia transforma protesto e tradição em imagem

No Concurso de Fotografia Maria Izabel Rocha, o primeiro lugar foi concedido a Ana Paula Sallum, da Universidade de Sorocaba (Uniso), pela fotografia “Não respeita eu: a população”.


A menção honrosa ficou com “Anjo Favelado”, de Rafaela Bezerra, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Antônio Alison Vasconcelos, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), recebeu a terceira colocação por “Caretas do Assaré”.

O nome do concurso homenageou Maria Izabel Rocha, reconhecida como uma das fotógrafas pioneiras do Brasil e a única mulher de que se tem registro atuando profissionalmente com fotografia em Sergipe na primeira década do século XX.


Ao associar seu nome à produção estudantil, a Folkcom 2025 procurou aproximar a memória de uma pioneira das imagens produzidas por uma nova geração. As três fotografias premiadas voltam o olhar para sujeitos, gestos e expressões presentes nas ruas e nas culturas populares.


Benzimentos e conhecimentos ancestrais vencem no audiovisual

O primeiro lugar no Concurso de Audiovisual Verônica Dantas de Meneses foi conquistado por Victoria dos Santos Rodrigues, da Universidade Federal do Pará (UFPA), com “Entre rituais e benzimentos: a espiritualidade viva nos conhecimentos ancestrais”.


Produzido coletivamente por estudantes de Jornalismo da UFPA, o documentário percorre Belém, Ananindeua, Baião e Boa Vista do Acará. A obra registra conhecimentos relacionados a benzimentos, ervas, banhos de cheiro e defumações, permitindo que os próprios praticantes expliquem as relações entre cuidado, fé, ancestralidade e natureza.


A menção honrosa foi concedida a Elinalva Souza e Clebson Lustosa por “Roda de São Gonçalo do Véi Légua: uma manifestação folk no sertão do Piauí”. A produção documenta uma celebração do Quilombo Canabrava dos Amaros na qual a devoção a São Gonçalo se encontra com os vínculos religiosos relacionados a Légua Boji Buá.


“Cidade Ambulante”, de Alex Teixeira e Victor Belart, da UERJ, ficou com a terceira colocação. O documentário acompanha trabalhadores ambulantes durante o carnaval de rua do Rio de Janeiro e mostra as estratégias, dificuldades e redes de comunicação que permitem a essas pessoas participar da economia e da vida cultural da cidade.

As três produções já haviam sido reunidas em uma matéria especial sobre os finalistas do concurso audiovisual.


Podcasts atravessam ritmos, religiosidades e fronteiras

“Raízes Sonoras”, de Gabriela Santos e Luiz Menezes, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), venceu o Concurso de Podcasts Gisela Swetlana Ortriwano. O prêmio foi concedido ao terceiro episódio da produção, “Ritmos Tradicionais”, orientada pela professora Valquíria Guimarães.


A menção honrosa ficou com Maria Eduarda Vale Anchieta, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por “Batidas do Tambor: vivências e experiências dos ‘mineiros’”. Orientada por Izani Mustafá, a série apresenta relatos de praticantes do Tambor de Mina e aborda ancestralidade, vínculos comunitários, rituais e enfrentamento ao preconceito religioso.


O terceiro lugar foi concedido a Davi Pinheiro Rodrigues e à equipe do podcast “Barras Maning Arretadas”, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pelo episódio “Malabo”. Sob orientação de Carlos Guerra Júnior, a produção apresenta o rap da capital da Guiné Equatorial e as dificuldades enfrentadas por artistas que produzem críticas sociais em um contexto ditatorial.


O concurso homenageou Gisela Swetlana Ortriwano, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e primeira pesquisadora a defender no Brasil uma tese de doutorado dedicada ao rádio. A escolha de seu nome relaciona a história da pesquisa radiofônica às novas experiências de produção sonora desenvolvidas nas universidades.


Confira o resultado completo

Artigo de graduação — Prêmio Luiz Custódio da Silva

1º lugar: Lucimara Nascimento, Júnia Martins e André Duarte (UERN) — “A tradição dos Ursos Carnavalescos em Mossoró-RN: instrumento de memória e resistência”.

Menção honrosa: Marina Ranzani (UEPG) — “Entre o show e a notícia: Lady Gaga em Copacabana (2025) e a construção simbólica do acontecimento através dos sentidos e enquadramentos”.

3º lugar: Tiago de Lima Eneas (UFRN) — “O ativismo de Carolina Maria de Jesus: um estudo folkcomunicacional de Quarto de despejo”.


Artigo de pós-graduação — Prêmio Luitgarde Barros

1º lugar: Rafael de Araújo Mélo (UFRN) — “Cordel e inteligência artificial: novos modos de presença nos fenômenos estéticos contemporâneos da literatura popular”.

Menção honrosa: Adailane Santos (UFRB) — “Entre músicas, flores e perfumes: a Lavagem da Purificação toma as ruas”.

3º lugar: Clebson Lustosa Lima (UFPI) e Elinalva da Conceição Sousa (UESPI) — “Mãe Maria de Oxum: uma líder de opinião folk do Quilombo Canabrava, em Paquetá, no sertão do Piauí”.


Concurso de Fotografia Maria Izabel Rocha

1º lugar: Ana Paula Sallum (Uniso) — “Não respeita eu: a população”.

Menção honrosa: Rafaela Bezerra (UERJ) — “Anjo Favelado”.

3º lugar: Antônio Alison Vasconcelos (IFCE) — “Caretas do Assaré”.


Concurso de Audiovisual Verônica Dantas de Meneses

1º lugar: Victoria dos Santos Rodrigues (UFPA) — “Entre rituais e benzimentos: a espiritualidade viva nos conhecimentos ancestrais”.

Menção honrosa: Elinalva Souza e Clebson Lustosa — “Roda de São Gonçalo do Véi Légua: uma manifestação folk no sertão do Piauí”.

3º lugar: Alex Teixeira e Victor Belart (UERJ) — “Cidade Ambulante”.


Concurso de Podcasts Gisela Swetlana Ortriwano

1º lugar: Gabriela Santos e Luiz Menezes (UFT) — “Raízes Sonoras — Episódio 3: Ritmos Tradicionais”. Orientação: Valquíria Guimarães.

Menção honrosa: Maria Eduarda Vale Anchieta (UFMA) — “Batidas do Tambor: vivências e experiências dos ‘mineiros’”. Orientação: Izani Mustafá.

3º lugar: Davi Pinheiro Rodrigues e equipe (UNIR) — “Barras Maning Arretadas — Episódio 3: Malabo”. Orientação: Carlos Guerra Júnior.

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